• Depois daquele beijo (selo pais em tpm)

    January 23rd, 2012

    Melissa não entendeu patavina quando viu a cena. Gilberto arrumava o quarto de Marina. Arrumava copiosamente. Arrumava sofregamente. Colocava ordem nas mínimas coisas. Nem Maria, que naquele domingo gozava o merecido descanso semanal, arrumava aquele quarto com o zelo empregado por Gilberto. Ele dava tanta atenção ao que estava fazendo que nem percebeu a esposa ali parada. A expressão no rosto dele era de uma compenetração tão acachapante que nada tirava o foco de sua missão auto infringida.“ Mas o que deu no Gilberto para arrumar o quarto da filha desse jeito em pleno domingo?” perguntava-se. Ele adorava arrumar o quarto dela no tempo em que ela não tinha coordenação motora necessária para tal empreitada. Ordenava os brinquedos, os bonecos de pelúcia como se fizesse um carinho na filha. Mas esse não era mais o caso. Gilberto vivia travando batalhas e mais batalhas de uma guerra que parecia eterna. Discussões intermináveis dentro dos seus cinco minutos de duração. “Marina, pelo amor de Deus, esse quarto parece uma cena do apocalipse!”, gritava ele diante de camisas jogadas ou penduradas em lugares insólitos como a luminária, de um tapete formado por livros e cadernos espalhados, de calças retorcidas e pés de tênis solitários, hora um pé direito, hora o esquerdo. Marina respondia com a suas duas palavras preferidas: “Não enche!”, que as vezes era acrescida de um artigo e um sujeito “o saco!”. Um objeto direto no queixo do pai, que sentia o golpe, mas mantinha a fleuma por fora e a irritação crescente por dentro. Gilberto recusava-se a arrumar o quarto que mais parecia a instalação de algum artista obscuro e fadado ao fracasso. Ordenava a Maria, a empregada para, no máximo, arrumar a cama e mais nada. Achando que a negligência da filha fizesse com que a bagunça atingisse a níveis tão insuportáveis até para a dona do recinto e esta, vencida, procederia a uma arrumação decente. O plano foi um total fracasso. A filha arrumou umas três ou quatro vezes o quarto, se muito. Nas outras duzentas e oitenta e cinco vezes a arrumação foi feita por Maria, sempre as escondidas em comum acordo com Marina. Quando Gilberto descobriu a conspiração entre as duas quase cometeu a insanidade de demitir a pobre Maria. Maria adora Marina. Viu-a nascer, viu-a virar mulher aos onze anos, dois anos antes deste exato momento em que Gilberto opera a arrumação insólita. Melissa estava encafifada. Gilberto simplesmente capitulou? Não. Gilberto não era homem de desistir. Havia algo mais. Algo que o estava impelindo a fazer aquilo. Depois de um tempo observando o marido percebeu algo mais do que vontade de ver o quarto organizado. Havia ternura no olhar dele. E os gestos? Os gestos não eram de quem arrumava o quarto pragmaticamente. Eram carícias. Isso mesmo, é como se ele estivesse acariciando aquele quarto inteiro e não pondo ordem, simplesmente. Como no tempo em que Marina era uma criança sem coordenação para arrumar o quarto. “O beijo”, pensou Melissa. O primeiro beijo da Marina, o acontecimento da festa na noite anterior. “De língua?”, Gilberto perguntou. Claro que era de língua. “Mas não conta pra ela que eu te contei, Gilberto”. Ele só virou para o lado e pegou no sono. Marina está certa de que essa arrumação tem uma relação direta com a ocorrência da noite anterior.

    – O que você está fazendo, Gilberto?
    – Voltando ao passado, Melissa. Voltando ao passado.

    Ele falou com um sorriso distante. Melissa deixou Gilberto com a sua máquina do tempo. Se era esse o jeito dele aceitar a filha crescendo, mal não fazia.

  • Confissão

    January 17th, 2012

    “Não é um processo complicado. Em verdade, é tão simples. E é isso que impressiona na mente de Deus, não é mesmo? A simplicidade. O prosaico. O óbvio. É por isso que poucos alcançam a mente Dele. Acham que Deus está no complexo. Acham o universo complexo? Cada coisa no universo é o resultado da lei da causa e efeito. Isso não é simples? Mas voltemos ao meu processo e às minhas motivações. Eu acordo pela manhã e um dia eu simplesmente digo a mim mesmo: hoje é um bom dia. Então me preparo. Tomo um banho lento. Sinto cada gota d’agua que golpeia o meu corpo. Sou capaz de contá-las. Uma por uma. Sou capaz de dar nomes a cada uma delas. Ah, a excitação! Cada célula do meu corpo está determinada. Vocês já sentiram isso? Cada célula de cada órgão vibrando por um objetivo? Ah, vocês não têm pista de como é sentir isso, têm? Não têm, vejo pelas suas expressões desatinadas. Continuemos. Coloco uma roupa, pego o meu iPod e faço uma selecção de musicas, como chamam?…playlist. Vou escolhendo ao acaso mas, curiosamente, a seleção sai com uma coerência impressionante. Saio de casa e ando em direcção ao parque. No caminho, só me detenho para comprar um copo de capuccino e um biscoito doce. Ando pela rua e agora sinto o vento no meu rosto, os odores e aromas são plena e facilmente destacáveis. Diesel. Gasolina. Channel. Bolo. Costelas de porco. Suor. Posso ficar a manhã inteira relatando tudo o que entrou pelas minha narinas e que o meu cérebro foi capaz de identificar. Quando chego ao parque escolho um banco. Um que me proporcione boa visão, de onde eu possa observar a multitude que é a espécie humana. Vocês, que vivem suas vidinhas nessa patética ordem de compromissos regidos por uma máquina atada aos seus pulsos não fazem ideia da riqueza da qual vocês fazem parte. O tempo importa para vocês, não é mesmo? Até que horas vai o seu turno? E o seu? Patético. Eu não tenho turnos. As coisas são as coisas e se sucedem. Ponto. Causa e efeito, viu? Assim como Deus fez. Eu sento no banco do parque, coloco os fones e passo ouvir a minha playlist enquanto observo as pessoas. Eis o máximo da excitação da qual eu antecipava. Eis o momento. O motivo que causou todas as reacções anteriores em mim descritas aqui. O ápice do meu dia. Eu, sentado, ouvindo um música, experimentando a minha invisibilidade, a minha total insignificância aos olhos dos que ali andam, correm, passeiam, tomam sol. Um deles não vai chegar em casa. Nunca mais. Não é divino? Um ser invisível que simplesmente aponta o seu dedo para alguém e esse alguém, momentos depois, cessa de existir. Meu dedo aponta para várias pessoas. Depois muda de direcção. Vocês tem ideia.? Um dedo condena e depois absolve. Meu dedo é como uma doença. E o apontado não faz a menor ideia de que foi condenado por alguns segundos para depois ser salvo pelo meu desinteresse. Ah, isso é ser Deus. Você vai morrer. Não, vou poupá-lo. ? Você é que vai morrer. Pensando bem, não. Você ja se masturbou? Longamente. Por uma, duas horas sempre segurando o gozo e prolongando o final? É a mesma coisa. Condeno e salvo, condeno, salvo. Centenas de seres humanos. Até que o meu dedo aponta alguém e esse alguém combina com a música que estou escutando. O ritmo do andar. As roupas. O jeito. É a música que eu estou ouvindo em forma de gente. Em forma de vítima. Meu dedo não consegue parar de apontar. Levanto. Passo a seguir seja essa pessoa quem for: homem, mulher, criança. No caminho, passo por muitos dos quais meu dedo desistiu. Eu sinto prazer ao passar perto deles. De sentir os seus cheiros. Da presença deles vivos, respirando, provando a minha divindade. O resto da história é apenas o desfecho obrigatório. Uma formalidade aborrecida. Matar não tem tanta graça, mas é uma necessidade. Eu só mato porque é o ato que torna real toda a excitação. Matar é o ponto final de uma sentença, de um conto. Se não estivesse lá, seria errado e tudo o que aconteceu antes não teria sentido.”

    Os dois investigadores se olharam. Não tinham muito mais o que fazer. Levaram o matador para a cela imaginando se alguma vez o dedo dele tinha apontado para um deles.

  • Psicose

    January 11th, 2012

    Andava para lá e para cá em seu pequeno apartamento, ansiosa. Ele tinha ligado e marcado hora. Ligou no dia anterior, como de costume. E por ele, fazia qualquer coisa. Naquele dia não aceitou cliente nenhum. Era o dia em que ele vinha e, portanto, não lhe interessava ganhar dinheiro. Olhava o relógio com um Mickey no centro. Presente fútil (não para ela) que ele tinha trazido de uma viagem a Disney com a família. Os braços do personagem que faziam as vezes de ponteiros marcavam sete horas e cinquenta minutos. Faltavam dez minutos. Uma pontada que não era nem frio, nem coceira, nem mesmo pontada, um vazio que parecia cheio, tomou conta de sua barriga. Os saltos dos sapatos pareciam castanholas frenéticas num flamenco ansioso. Vez por outra perguntava-se como tinha baixado a guarda e deixado chegar àquele ponto. Como aquele homem havia invadido o seu escudo protetor até então impenetrável. Homens até mais bonitos, mais jovens e mais charmosos nunca o haviam transposto. Perguntava-se constantemente o que tinha ele feito para conseguir tal feito. Até o conhecer, tinha sido um exemplo perfeito de garota de programa. Linda, um corpo escultural, mais inteligente que a média e, no entanto, havia se colocado naquela situação a que nenhuma garota de programa devia estar metida. Estava perdidamente apaixonada por um cliente. Tudo bem, ele não era uma pessoa completamente insensível, que a tratava como uma máquina. Isso não. Tinha algum interesse em sua vida durante as duas horas do programa que ela deixava passar, as vezes até em dobro. Queria saber o que ela tinha feito no final de semana, Adorava quando ele falava de cinema e do seu diretor preferido, Alfred Hitchcock. Chegaram a assistir alguns filmes do mestre do suspense nus em cima da cama.

    A campainha do apartamento tocou. Ela saiu correndo, mas não para atender a porta e sim para o espelho do quarto. A derradeira verificada para ver se estava tudo certo. Se tudo que ele gostava estava naquela imagem do espelho. Aprendeu tudo aquilo que ele gostava. Algumas coisas ele deixou claro, outras, percebeu pela convivência. O coração disparado. Respirou fundo para não transparecer a ansiedade. Abriu a porta. Ele deu um sorriso e ela quase desmontou. Foi um esforço inútil. Durou apenas uns dois, talvez três segundos. Depois disso, jogou o corpo contra o dele e os seus lábios encontraram os dele. Eles se beijavam enquanto andavam pra dentro do apartamento. Ele, como um craque do futebol, fechou a porta usando o calcanhar direito. Após as bocas se separarem ele pediu um uísque. Ele mesmo tinha levado algumas garrafas em um encontro anterior. Ela adorava quando ele pedia um drink. Sentia-se, naquele ínfimo momento, a sua mulher. Se pedisse para ela passar alguma de suas camisas naquele momento ela o faria com um prazer incontestável. Vestida daquele jeito mesmo, incluindo a cinta-liga. Ela trouxe dois copos baixos, que aliás, ele também tinha deixado lá, com uísque e bastante gelo. Conversaram um pouco. Ela percebeu que sorria, que gargalhava. Adorava aquela conversa pré-programa. Ela levantou-se, já ardendo. Queria o corpo dele. Começou ela a tirar-lhe a roupa. Desabotoou a camisa enquanto beijava o peito dele. Adorava o resquício de perfume que ele provavelmente tinha colocado pela manhã mas que ainda estava registrado em pelos do seu peito misturado ao suor suave de um dia de trabalho no escritório. Viva um sonho. Seu escudo protetor completamente desativado. Ele então afastou a cabeça dela por um instante e levantou-se. Tirou a carteira do bolso e colocou um maço de notas sobre uma pequena mesa. Ela sentiu-se levemente desconcertada com aquilo. Como sempre sentia quando ele fazia aquele gesto. Em seguida ele tirou a aliança da mão. E aquele novo gesto foi totalmente inusitado. Na verdade ele nu ca trazia a aliança. Talvez a tivesse esquecido de tirar no carro. O fato é que aquele gesto a deixou horrorizada. Petrificada. Era um recado claro, só que desta vez dado cara a cara. Era um ato desinfetante. A aliança não podia encostar em seu corpo. Ele poderia infestar aquele pedaço de ouro. Sentiu-se como uma doença, um animal microscópico capaz de provocar febre, vômitos e incômodo em sua preciosa mulher e nos seus queridos filhos. Ele passou a mão em seu rosto, olhou nos seus olhos sem perceber o horror que eles traziam e foi para o banho. Ela continuou parada no meio da sala, sem chão e com um ódio crescente se apoderando do seu corpo. O som do chuveiro recém ligado a colocou de volta no mundo. Sentia-se insuportavelmente pequena. Foi até a cozinha e pegou a maior e mais afiada faca que estava a mão. Em seguida, dirigiu-se até o banheiro e repetiu uma das cenas mais famosas de Hitchcock, o diretor de cinema preferido dele.

  • O Ermitão do D&D.

    December 31st, 2011

    Marcelo já trafegava por alguns minutos tentando sair da garagem do Shopping D&D. As placas que indicavam a saída geralmente o levavam a outras placas que igualmente indicavam a saída. Direita, esquerda, esquerda outra vez, e novamente a esquerda e dava de cara com outra placa. Marcelo estava quase perdendo a paciência quando aconteceu o fato insólio. Subitamente, um vulto aparece em sua frente saindo de trás de uma coluna, como um gato atravessando a rua. Marcelo bem que tentou frear, pisando tão fundo que, se tivesse um pouco mais de força, provavelmente faria com que seu pé direito atravessasse o assoalho indo encontrar o piso da própria garagem. Não foi suficiente para que o carro parasse antes de atingir o vulto. O som seco do carro atingindo aquele corpo a sua frente, que foi jogado a alguns metros a frente caindo desfalicido no chão. Marcelo devia estar a pouco mais de vinte quilômetros por hora. O carro, enfim parou. O coração de Marcelo quase. Agora, ao contrário, batia acelerado. As pernas moles não permitiam que ele saísse do carro. Mas era preciso. Ele havia atropelado alguém que estava caído no chão e ainda não levantara. Olhou para os lados e não avistou alma alguma que pudesse ter testemunhado o fato.

    Marcelo finalmente encontrou calma e forças para descer do carro e ver quem estava ali, caído no chão. Andou e o que viu pareceu a ele muito estranho. Um homem vestindo um jeans muito surrado e rasgado, tão rasgado quanto a sua camisa e um coturno já muito gasto e sem cordões. Os cabelos desgrenhados e uma barba enorme, provavelmente aquele rosto não via uma lâmina há muitos anos. Marcelo ajoelha-se e o cheiro proveniente daquele homem não é dos mais agradáveis. Mas uma coisa é perceptível. O homem respira e agora geme e move-se muito lentamente. Provavelmente bateu com a cabeça no chão e perdeu os sentidos. Lentamente, o homem abre os olhos. Por baixo daquela barba espeça e desalinhada, há uma pele exageradamente branca, como se nunca fosse tocada pelo sol. Uma pele quase cadavélica. Os olhos se arregalam, como que não acreditando que alguém o estivesse notando. O homem salta sobre Marcelo e o abraça efusivamente gritando.

    – Gracas a Deus…Graças a Deus!
    – Calma, calma – Marcelo o afasta. – Está tudo bem?
    – Ah, meu bom homem, agora sim. Agora está! – Diz com lágrimas nos olhos.
    – Não está ferido? Não quebrou nada?
    – Bendito atropelamento! – Emociona-se o barabado.
    – Do que está falando, homem? Qual o seu nome?

    O homem, antes de responder às questões de Marcelo põe-se a chorar copiosamente. Marcelo não tem reação a não ser olhá-lo e tentar acalmá-lo para que ele falasse.

    – O senhor não sabe – retoma soluçando o barbado – o que tem sido minha vida. Estou nessa garagem desde o final da construção desse prédio.

    A história é das mais estapafúrdias. Mas olhando nos olhos daquele homem, Marcelo vê sinceridade. O estado daquela pobre figura ajuda a tornar o seu relato aceitável.

    – Essa garagem, meu bom homem. Essa garagem é um verdadeiro labirinto. Após o final da obra eu saía com o último grupo de trabalhadores e notei que tinha esquecido a minha garrafa térmica. Voltei para pegar a garrafa e, sozinho, nuca mais fui capaz de achar a saída. Tenho vivido aqui desde então, meu bom homem.
    – O senhor está me dizendo que vive dentro dessa garagem desde que o prédio foi construído?
    – Sim. Fiquei preso nesse emaranhado de placas e colunas. Tentando sair em vão. Tive momentos em que perdi a razão.
    – Mas quando os carros começaram a chegar, as pessoas. Por que nunca falou com elas, perguntou a saída.
    – Ninguém me dava a mínima atenção. Achavam que eu era um mendigo que ia pedir dinheiro e fechavam o vidro do carro em minha cara. Os guardas do estacionamento eram duros, um até me bateu. Passei a fugfir deles.

    Marcelo se apiedou daquele homem. Recluso, longe do mundo, preso em um labirinto urbano, uma ilha incomuncável dentro da metrópole desalmada. Pôs o pobre homem no carro e se dirigiu ao hospital. Ele precisava de tratamento urgente. Era preciso achar a sua família. Teria ele filhos? Mãe? Pai? Esposa? Aquela história em breve estaria em todos os jornais. Em todas as rádios e televisões. A incrível história do peão de obra que viveu por mais de dez anos preso na garagem de um complexo de prédios e shopping center. A incrível história do ermitão do D&D.

    -x-

    Rádios, televisões, com suas câmeras e gravadores apinhavam-se na frente do hospital. Todos querendo uma imagem, uma palavra um pedaço do que eles mesmo rotularam como o Ermitão do D&D. O pobre peão de obra que ficou por dez anos tentando sair da garagem do prédio sem sucesso. Em poucos instantes, descobriram ser ele Juvêncio da Costa, que na época da construçnao tinha 25 anos e hoje estava dez anos mais velho. Era casado com Marina De Oliveira da Costa e com ela tem três filhos: Osvaldson, Amaralina e Paulo Henrique. O verbo ser no passado na linha acima tem uma razão. Com dez anos de desaparecimento, Juvêncio foi considerado como morto e ela pode então casar de novo. Obviamente isso agora é um problema a ser considerado.

    Dentro do hospital, um Juvêncio já de barba feita conta para policiais e médicos o seu calvário dentro da garagem do referido shopping center.

    – Os primeiros dias foram de desespero. Tentava seguir as placas mas elas não me levavam exatamente a lugar algum. Andava, andava e de repente aparecia uma parede bem na frente, tinha que voltar. Berrava em desespero.

    Nesse momento, a lembrança dos primeiros dias preso dentro da garagem labiríntica do shopping faz brotar lágrimas nos olhos de Juvêncio.

    – E como você fazia para se alimentar? – Pergunta um dos médicos.
    – Comia restos dos restaurantes que chegavam na garagem.

    A imprensa obviamente correu atrás da companhia de cosntrução e do arquiteto que projetou a garagem, mas a acessoria tanto de um quanto de outro recusaram-se a falar sobre o homem que ficou dez anos preso no estacionamento do D&D. Aliás, o shopping se resumiu a lançar apenas uma nota onde “sentia profundamente o ocorrido” e oferecia uma cama a escolha da vítima como forma de “compensar pelos anos mal dormidos”.

    O alvoroço se tornou ainda maior na frente do hospital quando a mulher, o marido atual e os três filhos chegaram. Foi preciso um cordão de isolamento para que eles pudessem entrar no hospital. As perguntas eram feitas ao mesmo tempo pelo enxame de repórteres. Cliques alucinados das cêmras fotográficas, luzes ofuscando os ohos daquelas cinco pessoas que há bem pouco sequer poderiam cogitar algum resquício da celebridade que agora experimentavam. Mas como disse um dos faxineiros do hospital que por ali passava no momento “pobre só fica famoso com tragédia”.

    Antes de entrar no hospital, e conseguindo entender uma das perguntas em meio a tantas formuladas atabalhoadamente, Marina pára, vira-se para todos e, com olhar de pessoa humilde, porém altiva, responde.

    – Ontem fui dormir com meu marido atual, o Juarez. Hoje, acordo com dois. O meu pobre Juvência comeu o pão que o diabo amassou preso naquela garagem, sem conseguir sair lá de dentro. Só Deus faz idéia do sofrimento que eu e as crianças passamos. Eu espero que a justiça seja feita e que essa gente que desenhou aquele lugar fique presa, pelo menos, pelos mesmos dez anos que o meu Juvêncio…
    – Seu?

    Os microfones captam a pergunta do atual marido ao lado dela. Aquele “Seu?” contrariado. Ela cai em prantos. Mais cliques alucinados brigando pelo choro trágico que irá para as capas dos jornais do dia seguinte. Eles dão as costas para os repórteres e entram no hospital.

    Lá em cima, um Juvêncio emocionado e ansioso espera a família subir.

    – Vou rever minha mulher. Meus filhos. É tanta coisa boa. Pra ficar melhor só se o companheiro Lula fosse presidente.

    Médicos e enfermeiras se resumiram a trocar olhares. Seria melhor que ele soubesse das novidades aos poucos.

  • Um Natal politicamente correto.

    December 14th, 2011

    Papai Noel acordou fora do horário. Antes do seu despertador tocar e por isso, mesmo sendo um bom velhinho, estava irritado por causa disso. Papai Noel é uma entidade muito apegada a sua rotina e esta tinha sido quebrada. O motivo era uma algazarra que se formava do lado de fora, em frente a sua casa. Pessoas gritando palavras de ordem como “Ena, ena, ena. Estamos aqui pra salvar a rena!” e outras coisas de gosto e rima duvidosos. O Papai Noel levantou e nem se preocupou em lavar o rosto. Foi até a janela do quarto, que dava para frente da casa e, de lá, pode ver um enorme aglomerado de gente acabando com a paz do seu lar. Uma multidão segurando cartazes do Greenpeace. Ele abriu a janela e gritou para que parassem com aquela barulheira infernal e o que recebeu em troca foi uma bola de neve na cara, aos gritos de “torturador de renas”. A cena foi captada por câmeras de video e fotográficas pertencentes aos jornalistas que também estavam lá aos borbotões, alguns transmitindo ao vivo.

    Com aquela bola de neve ainda ardendo em seu rosto e no seu orgulho, o Papai Noel fechou a janela deixando os gritos de protesto do lado de fora. Desceu até a sala e ligou a televisão ainda a tempo de ver a cena que ele recém fora protagonista: aquela bola de neve explodindo em seu rosto, repetida à exaustão, em câmera lenta, com direito a gráfico medindo a distância e velocidade com que ela havia atingido o seu rosto. “Aquilo sim era uma agressão séria e não aquela bolinha de papel na cabeça do José Serra”, pensou o bom velhinho, que a esta altura já não se sentia assim tão bom. Tentou se inteirar do que se passava em frente a sua casa pela televisão. Escolheu o canal e passou a tomar pé da própria situação pela âncora de um jornal matutino..

    “Neste momento, manifestantes do movimento Greenpeace se aglomeram na frente da casa do Papai Noel em protesto contra os maus tratos a que as renas do trenó tem sido submetidas durante séculos. O lider do movimento falou em entrevista ao nosso jornal…”

    Neste momento, sua atenção é interrompida pelo telefone, que toca.

    – Alô?
    – Com quem eu falo? – Diz a voz do outro lado.
    – Papai Noel.
    – Perfeito. Caro Papai Noel, meu nome é John Pierce, da firma de advogados Pierce & Partners. Eu creio que o senhor vai precisar de nossos serviços. Somos especializados em defender empresas petrolíferas, matadouros e também a indústria de armas com excelentes resultados…

    Papai Noel desliga o telefone na cara do advogado mantendo os olhos fixos na televisão. Ele vê agora, a imagem do líder dos protestos, um jovem com expressão raivosa, daqueles que acreditam em sua causa, encarando a câmera de forma desafiadora, cercado por manifestantes cheios de cartazes. Num deles, vemos um desenho em traços infantis mostrando o Papai Noel com dois chifres fustigando as renas com um tridente que carrega na mão. Ao fundo ele vê a própria casa, onde está confinado pelas circunstâncias.

    “ Não é mais possível que uma entidade que seja exemplo para crianças do mundo inteiro ainda se utilize de meios de transporte de tração animal em um mundo com tantas opções energéticas eficazes e não poluentes a disposição. Isso sem falar que estas renas tem sido as mesmas por muitos séculos.”

    Subitamente, a imagem da televisão muda para um gráfico onde que vemos a terra e a lua. Um trenó animado percorre a distância entre o planeta o o seu satélite várias vezes deixando linhas atrás do percurso, enquanto ouve-se a voz firme da âncora do jornal.

    “Segundo cálculos da Ong Greenpeace, as renas até hoje ja teriam percorrido a distância entre a terra e a lua por mais de 80 vezes, num total de mais de 240 milhões de quilómetros.”

    A imagem agora volta para os estúdios, onde a âncora chama as próximas matérias.

    “A onda de protestos contra o Papai Noel levanta novas questões. Os duendes trabalham com carteira assinada e direito a plano saúde? Veja também entrevista com a nutricionista Katleen Joyce, que lançou o livro “Papai Noel tem que ser gordo?” Uma analise profunda sobre os maus hábitos de alimentação e vida sedentária na terceira idade, que também pode pode se transformar em mau exemplo para as crianças já que é praticado por um ícone da infância. Tudo isso depois dos comerciais. “

    Papai Noel consultou o identificador de chamadas do seu telefone. Depois daquilo, a tal Pierce & Partners mostrou-se uma opção bem pertinente.

  • O mini Papa

    October 23rd, 2011

    Olhando para o garoto nada denuncia que ele pudesse ser um tanto diferente. Saudável, um pouco gordinho, mas nada anormal para alguém com 9 anos de idade, o que prenuncia futuras mudanças morfológicas que iriam desde a sua altura, chegando até o timbre da voz. Porém, bastava um pouco mais de convivência com a família do rapaz para notava-se um certo descompasso entre o Otavinho, filho mais novo do Otávio, e os seus contemporâneos.

    Eu sei o que estão pensando, mas não é de opção sexual que estamos tratando aqui. Otavinho não tinha qualquer resquício de tendência ao homossexualismo. O que chama atenção era o seu comprometimento com o próprio futuro. Otavinho ja tem muito bem definido o que quer ser no futuro: Papa. Ao contrário dos seus amigos que, em sua maioria queriam ser astronautas, por exemplo, Otavinho quer ter um contato mais espiritual com os céus. Até aí tudo bem, poderia ser uma preferência estranha, talvez potencializada pela presença da avó em casa, uma católica fervorosa. Mas há coisas que a gente percebe serem da própria natureza da pessoa.

    Otavinho é focado no assunto e o conhece a fundo. É fã do Papa João Paulo II. No seu quarto há posters do ex-sumo pontífice, que Otavinho cita como seu exemplo de vida tanto pessoal quanto profissional. Isso mesmo, enquanto alguns tem posters de bandas de rock, atroes, cantores sertanejos ou de toda sorte de esportistas, Otavinho decora o seu quarto com fotos do Papa João Paulo II. Ele também gostava muito do Papa Paulo VI, principalmente por ter exercido o seu pontificado num período muito conturbado da humanidade, com guerra fria, ameaças de fim de mundo e outras tantas mazelas. Mas nada se assemelhava ao carisma do velho e bom Karol Wojtyla.

    Otavinho chamou atenção pela primeira vez para esta estranha preferência aos sete anos de idade, numa festa a fantasia na escola, cujo tema era “O que eu vou ser quando crescer”. Diante da tentativa dos pais de demovê-lo daquela idéia completamente estapafúrdia, ele foi firme. Inisitiu com diligência que queria ir vestido de Papa. Os pais acabaram cedendo. E como se não bastasse, exigiu que o traje papal que ia utilizar seria o solene, já que festa na escola era um evento. O menino chegou com pompa e circunstância. Um mini pontífice trajando casula, estola e a mitra a ornar-lhe a cabeça. Passava por todos com o bráculo pastoral na mão esquerda saudando a com a mão direita colegas, professores e pais completamente aturdidos com a figura.

    Os padrinhos do Otavinho ficam sem saber o que fazer. Toda vez que vão presentear o menino são obrigados a ir em lojas de equipamentos litúrgicos. Quando recebem visita da familia do Otavinho no seu apartamento, o menino corre para a janela. É que o prédio tem uma fachada que lembra o Vaticano, o que o torna irresistível para o menino, que passa horas lá, virado pra fora, acenando para os fiéis imaginários seis andares abaixo. Vez por outra, Otavinho ministra algumas orações em latim lá de cima, abençoando os passantes que olham para aquele menino com trejeitos papais um tanto fora do comum.

    No casamento da irmã, ocorrido recentemente, Otavinho subiu no altar e começou a rezar uma missa, mas foi rapidamente retirado de la pelos pais. Mas passou a cerimônia inteira rezou evoz baixa junto com o padre, pois sabia tudo decor e salteado, palavra por palavra. No momento do sermão, ele discordou terminantemente da passagem da Biblia escolhida pelo padre, dizendo “esse aí não vai longe, nem a bispo chega”. Não fosse apenas uma criança, Otavinho seria capaz de casar a irmã.

    Outro dia encontrei o Otavio, o pai. Estava inconsolável. Eu perguntei o porquê daquela tristeza, embora ja desconfiasse da causa, e ele me respondeu que, na véspera do Natal o menino estava brincando de rezar a Missa do Galo sozinho no seu quarto, tal qual o Papa faria mais tarde. Havia até montado altar, tudo muito bem feito. Para dar mais veracidade a toda liturgia do culto natalino, Otavinho havia pego escondido uma garrafa de vinho na geladeira para beber o “sangue de Cristo”. O menino tomou um porre. Foi encontrado desacordado no quarto, mas foi salvo a tempo, após tomar glicose na veia. “Isso é castigo divino. Só pode ser!”, reptia o Otávio com voz chorosa.

  • O Exame

    September 13th, 2011

    O telefone toca. Seis horas da manhã. Luiz Carlos tateia a mesa de cabeceira tentando calar aquela coisa que entra sem pedir licença pelos seus ouvidos até matelar seu sonolento cérebro. Finalmente, consegue alcançar o aprelho e atende balbuciando algo muito parecido com um alô. Do outro lado da linha, excitadíssima, dona Carolina, sua mãe.

    – Quem é que vai fazer exame de próstata hoje?

    Aquilo não estava acontecendo. Não podia estar acontecendo. Nenhum ser humano normal liga para o próprio filho as seis horas da manhã e lembra que aquele está para ser um dos mais humilhantes dias da sua vida. Pior, numa segunda-feira. E ainda pior, como quem dá feliz aniversário.

    – Alô? Filho, você está aí? – preocupa-se.
    – Sim, mãe. – irrita-se.
    – Então, ansioso?
    – Mãe, não me leve a mal, mas não, não estou nem um pouco ansioso para alguém enfiar o dedo no meu cu.
    – Olha a boca, menino.
    – Eu tenho quarenta anos e um ex-casamento nas costas. Não sou mais menino.
    – Pra mim é. Meu bebezuca.

    Ele desliga na cara dela. A estas alturas ele já está completamente desperto. Um tanto arrependido de ter falado com a mãe naqueles termos e de ter desligado o telefone daquele jeito, embora ela já estivesse acostumada. Tanto que o telefone tocou de novo.

    – Meu filho, nunca mais faça isso.
    – Desculpe.
    – A gente vai almoçar hoje, não vai?
    – Promessa é dívida.

    Acordado, com o sono arrancado dele a força, ele não tem outra alternativa a não ser sair da cama e, como é cedo, pensa em ir à academia. O dia está bonito lá fora e ele toma uma chuveirada para tirar o resto de cama do corpo. Aquele exame está grudado em sua mente como craca em casco de navio mal cuidado. Não é o tipo de coisa que ele se preocuparia em fazer. Se houvesse uma lista de prioridades em sua vida, esse talvez fosse o item número dois mil seiscentos e trinta e oito. Mas teve que capitular diante da insistência ferrenha e incansável de sua mãe. “Aos quarenta anos você vai fazer um exame preventivo de próstata”. Ele ouve essa frase e suas variantes desde que fez trinta. Em cada abraço pelos aniversários que se seguiam ela falava em seu ouvido: “Faltam nove anos para o seu exame”, uma irritante contagem regressiva.

    Era perfeitamente compreensível a preocupação da mãe, uma vez que ela vinha de uma família em que casos de câncer eram muito comuns. Perdeu quatro dos sete irmãos por causa disso. A próstata do Luiz Carlos virou uma questão de honra para ela. Uma obsessão. Que foi se agravando com a proximidade da idade considerada chave para o exame ser feito. No dia em que fez quarenta anos ela lhe entregou o exame marcado embrulhado em papel-presente. Podia ter ganho uma gravata, até cuecas, aquela coisa que mãe dá achando que nunca é demais. Mas não a sua mãe. Não a dona Carolina. Ela deu um exame de próstata marcado com o doutor Valério “O urologista do seu irmão mais velho, um grande urologista.” O que ela queria dizer com “grande” ainda não estava claro. Mas quase não conseguiu disfarçar o riso ao saber que o irmão mais velho, de quem apanhou muito, tinha um urologista regular. Mas, subitamente, pensou que uma ligação para o irmão para colher informações sobre o tal doutor Valério seria muito conveniente. Convenhamos, Valério é um nome meio assustador. Parece tudo meio estranho. E se ele tivesse dedos grandes e grossos? Só de pensar tinha arrepios de pavor. Por outro lado, ligar para o irmão mais velho por esse motivo era humilhante. Ele iria se divertir às suas custas, rir da sua preocupação, inventar coisas, o sádico. Ele acabou a chuveirada, vestiu-se, pegou a sacola e foi para a academia.

    Na esteira, ele correu como se quisesse fugir da lembrança daquele exame. Fugia desesperadamente dos dedos de bitola indefinida do doutor Valério. Mas a esteira era a perfeita metáfora da sua situação. Por mais que corresse não saía do lugar. Era impossível se afastar. Ao contrário, quanto mais o tempo passava, mais se aproximava. E, quando fossem sete e meia da noite ele estaria lá, deitado na maca, indefeso diante do monstro chamado doutor Valério. Ele não conseguia encontrar definição para esse nome. Valério. Dava-lhe calafrios.

    Após uma hora de correria desenfreada e quatrocentos e oitenta e sete calorias a menos, dirigiu-se extenuado para o vestiário. Lá, os mesmos rostos de sempre, as mesmas conversas de sempre. Ele invejando a todos, que não param de reclamar de como a segunda é um dia chato. Mal sabem como a segunda-feira deles pode ser maravilhosa sem um dedo de bitola desconhecida apontando para o seu traseiro. Calafrios de novo. O nomezinho estranho veio-lhe a mente. Foi para o banho. O segundo em menos de três horas. Desta vez, dividindo o local com nadadores, corredores, levantadores de peso e tudo mais. Flácidos, musculosos, gordinhos insistentes e de repente deu-se conta de que o tal doutor Valério não devia ter uma vida fácil. Imagina ter que enfiar o dedo em cada um daqueles caras. O musculoso tatuado tomando banho na frente dele. Só de pensar num cara daqueles deitado em uma maca esperando para ser violado fez o Luiz Carlos ter um pensamento de piedade pelo tal doutor que ainda não conhecia.

    A manhã no escritório trnascorreu como uma imagem em sonho. As pessoas passavam por ele em movimentos desencontrados e vagarosos. Vozes se misturando, tudo e todos envolvidos pelo torpor que tomou conta de seu corpo. Pontadas como estalactites de gelo a espetar-lhe o âmago do estômago seguidas de uma respiração profunda. Passou a manhã inteira calado, observando a mão dos colegas, a bitola dos seus dedos, tentando estabelecer um parâmetro, uma média. Seus devaneios foram interrompidos por Jessica, uma das coisas mais lindas que existiam dentro daquele escritório, parada a sua frente, encarando-o.

    – Luiz Carlos – voz rouca – eu quero que você saiba que eu estou com você.
    – Como? – Responde com o coração aos pulos – Está comigo?
    – É, se você quiser conversar comigo ali no café…
    – Olha, Jessica, quando a esmola é muita o santo desconfia. Vamos aos fatos: todo homem neste escritório sonha em em ser convidado por você para qualquer coisa, nem que seja esse café horroroso. E agora que isso acontece comigo, eu sinto que tem algo errado no ar.
    – Bom, o telefone da sua mesa tocou antes de você chegar e eu estava passando. Era a sua mãe, muito simpática.
    – E o que a simpatia da minha mãe pretendia?
    – Bom, ela disse que você estava nervoso.
    – Nervoso? – O coração parecendo um solo e bateria – Disse por que eu estaria nervoso?
    – Não, não, imagina. Só estou aqui porque, sei lá, você é um cara legal.

    Estava na cara que a Jessica mentia. Era mais do que óbvio que a mãe bateu com a língua nos dentes, falou do doutor Valério, dos problemas de câncer na família e de como ela estava orgulhosa de ele engolir o orgulho e se submeter ao exame. Enfim, a mulher mais cobiçada do escritório estava sabendo que, no final da tarde, ele seria violado pelo doutor Valério. Por sorte, ela era muito discreta. Por azar, ele era uma carta fora do baralho.

    Conforme combinado, Luiz Carlos chegou ao restaurante pontualmente ao meio dia e meia. Queria matar a mãe. Essa já estava na mesa e com ela havia outra senhora, que ele não conhecia. Ao avistá-lo chegando, dona Carolina quase teve um ataque, levantou-se e aos pulinhos passou a abanar para ele, como se estivesse no meio do público num festival de rock tentando chamar a atenção de um amigo. O restaurante todo olhando. Ele corou. Apressou o passo para que aquela cena ridícula terminasse logo.

    – Bebezuca da mamãe, dá uma baijoca aqui – já se precipitando sobre o pescoço de Luiz Carlos.
    – Mãe, olha o exagero.
    – Amor de mãe nunca é exagero. – Falou com indignação falsa – Essa aqui é uma amiga da mamãe, Lucrécia. Lucrécia, esse é o meu caçula, o Luiz Carlos.
    – Nossa, é a sua cara – levantando-se e abraçando-o tão forte quanto um urso – coitadinho, deve estar nervoso.
    – Nervoso? – Ele, desconfiado – Com o quê?
    – Não se preocupe – continua a amiga – o dr. Valério é ótimo e olhando um jovem saudável como você, não vai achar nada que não seja uma próstata vendendo saúde.
    – Mãe! – Desolado. – Você contou pra ela?
    – Ai os homens! – Carolina suspira – É um exame, meu filho, todo mundo passa por isso mais cedo ou mais tarde.
    – Mas o mundo não precisa ficar sabendo que eu vou passar por isso. Onde está a relação confidencial entre médico e paciente?

    Para alívio do Luiz Carlos, a tal Lucrécia não ia almoçar com eles. Ela despediu-se e saiu em direção as suas compras. Foi a Lucrécia sair para o garçom chegar.

    – Não querem pedir as bebidas?
    – Uma Coca com gelo e limão – Luiz Carlos emenda de mau humor.
    – Nada disso – interrompe a mãe. – Traga a carta de vinhos.
    – Vinho? Mãe, eu tenho que trabalhar.
    – Você tem que relaxar um pouco – e virando-se para o garçom – ele vai fazer exame de próstata, sabe? Tá nervoso.

    Seria a melhor coisa do mundo se o diabo, naquele momento, abrisse as portas do inferno justamente embaixo da cadeira dele. Por acidente. Nada poderia ser pior do que olhar para a cara desnorteada do garçom num esforço descomunal para não cair na gargalhada. Em breve, todos, do maitre ao cozinheiro, incluindo a linda garçonete atendendo a mesa ao lado, saberiam que o cara da mesa sete ia ser violado por um estuprador com diploma de medicina. Mas o diabo não apareceu. Ele fuzilou a mãe com um olhar. Mas ela continuou impassível. Olhou de volta e falou:

    – Eu vou com você ao exame.

    Será que as coisas poderiam ficar ainda piores naquele dia?

    -x-

    Luiz Carlos passou a tarde inteira enganando. As estalactites de gelo não paravam de espetar-lhe a barriga à medida que o tempo ia passando. Só de pensar em cruzar com a Jessica fazia o seu estômago embrulhar. Só se levantou do lugar para coisas de extrema necessidade, ou seja, ir ao banheiro. O reloginho do seu computador impassível e torturante avisava que o dedo do doutor Valério ia se aproximando. O esforço para se concentrar no trabalho era cada vez mais inútil. Seus braços não se mexiam, seus neurônios formigando, seu corpo inteiro era uma massa inútil sentada sobre uma cadeira de rodinhas. Pessoas paravam para conversar com ele, mas ele enxergava apenas formas difusas produzindo sons ininteligíveis. Até que o telefone tocou.

    – Luiz Carlos – fala, seco.
    – Meu filho, acho melhor você sair para não perder a hora.
    – A senhora deve ter sido um instrumento de tortura na outra encarnação.
    – Sou católica, não espírita. O trânsito está um horror.

    Luiz Carlos levantou-se, pegou suas coisas e dirigiu-se a passos pesados para a garagem. Sentia-se um condenado andando pelo corredor da morte. Sem direito a padre. Sem direito à última refeição. Durante o seu caminho olhava o semblante das pessoas em seus carros. Gente irritada com o trânsito caótico do final da tarde. Apenas ele estava satisfeito com a demora. E se chegasse bem atrasado? Poderia adiar seu horrível destino. Mais uma vez invejou os problemas alheios. O que é ficar no trânsito por mais alguns minutos comparado com o dedo do doutor Valério desbravando o seu corpo virgem, imaculado?

    Luiz Carlos chegou ao consultório dez minutos antes da hora marcada. A mãe lá, sentada com uma revista de fofocas. Ao vê-lo, levantou-se excitada e olhando para as recepcionistas dizia “ é ele, é ele”. Pelo sorriso desajeitado das duas moças, a mãe já devia ter dado todo o serviço. Não que elas nunca vissem alguém que ia fazer um exame igual. Isso pra elas era rotina. O que saía completamente da rotina era a mãe contando o óbvio para elas. Para elas e todas as pessoas na sala de espera. Sim, havia mais gente na sala de espera, todos olhando para ele como se fosse uma atração de circo. Ele preencheu a ficha e sentou-se ao lado da mãe. Não demorou muito. Seu nome foi chamado por uma das recepcionistas. Ele se levantou e ela o acompanhou até a sala do doutor Valério. E quando chegou lá e encarou o médico, o mundo devastado de Luiz Carlos acabara por explodir de vez. Ele já havia visto o doutor Valério. Não conhecia apenas o seu rosto, como tudo o que estava por baixo do seu jaleco. Sim, as coisas poderiam ficar muito piores. O doutor Valério era o gordinho que ele encontrava na academia todas as manhãs. Nu, no banho.

    – Vamos sentando – disse o médico com voz amável. – Nós Ja nos conhecemos? Seu rosto é familiar.
    – Mais do que o meu rosto: frequentamos a mesma academia.
    – Ah, é verdade. Vamos sentando.
    – Eu não vou sentar.
    – Que é isso, deixe de bobagens. Somos colegas de gasto calórico, não é mesmo?
    – Razão suficiente para eu não sentar. Razão suficiente para eu não dar as costas para você, a não ser dar as costas e sair daqui.
    – Que é isso, Luiz Carlos. Eu sou um profissional. E depois, tem a relação confidencial entre médico e paciente.
    – Sim, uma relação na qual você é o ativo e eu o passivo. E depois, tenho certeza de que, mesmo você repeitando a confidencialidade, o que eu não duvido, vai ter o momento em que nos encontraremos no vestiário. E eu não vou conseguir mais encarar aquele lugar. É como ser a vítima de um estupro e ter que conviver em silêncio com o estuprador.

    Virou-se e saiu em passos rápidos em direção à recepção. Iria embora, nada de exame. Mas aí, topou com a mãe. Ela não ia deixar ele sair invicto dali de jeito nenhum. Iria fazer um escândalo na frente daquelas pessoas. O inferno seria ainda pior. Deu meia volta. Iria procurar outra academia no dia seguinte.

  • A chupeta da discórida

    August 29th, 2011

    O restaurante estava lotado. Gente esperando senhas por uma mesa. “Mesa para quantos, senhor?”, repete a exaustão para todo mundo que chega a simpática recepcionista conhecida agora pela pomposa e importada definição de “hostess”, o que não é de se admirar num bairro como os jardins, onde encontramos lojas e restaurantes com o nomes grafado em idiomas dos mais diversos, inclusive o português.

    Roberto, Laura e o pequeno João Paulo haviam chegado ao local perto da uma hora da tarde. Era a primeira vez que almoçavam fora desde que João Paulo nascera. Assim que chegaram, Roberto é abordado pela hostess, seu salto alto, sua calça jeans justa, seus peitos empinados, tão artificiais quanto o seu sorrido.

    – Bom dia! Mesa para quantos?

    – Somos eu, minha esposa e o bebê.

    – Mas que coisinha mais linda.

    – Obrigado.

    – Tem uma pequena espera, mas muitas mesas já estão pedindo a conta. Bebem alguma coisa enquanto esperam?

    – Uma chopp pra mim.

    – Eu gostaria de uma Coca – Laura olha para a barriga ainda inchada por causa da cesárea e arremata – light.

    Ela estendeu uma pequena folha de papel com a marca do restaurante impressa e o número dezesseis escrito em caneta vermelha. Anotou os pedidos e armou novamente o seu sorriso e os deixou para trás. Aqueles clientes eram favas contadas e novas pessoas chegavam. Deviam ser abordadas assim que pusessem os pés nos limites do restaurante. Atenção imediata é a regra da casa. “Distribua um sorriso, a senha, diga que várias mesas estão para sair e adiante o pedido da bebida.” Pronto, a resistência a ficar esperando por uma mesa é em geral quebrada com esses simples procedimentos. Digamos que com um apreciável índice de sucesso que beira oitenta e nove por cento.

    Depois de esperar por vinte minutos, mas ainda assim calmo e paciente pelo efeito de dois chopps, Roberto ouve o número dezesseis ser anunciado por um maitre que em seguida os conduz à mesa de número trinta e dois, que já os espera impecavelmente arrumada com toalhas alvas, pratos, copos e talheres tinindo de tão limpos. Eles sentaram e colocaram o carrinho com o pequeno João a vista dos dois. O garoto dormia a sono solto, agarrado a uma enorme chupeta vermelha, que parecia ser maior que o seu rosto.

    – Bom dia, mais um chopp para o senhor e uma Coca Light para a senhora? – pergunta o garçom com voz amável.

    – Não – responde Roberto – duas cocas, por favor.

    – Limão e gelo?

    – Isso.

    O garçom vira as costas e sai em passos lépidos deixando para trás a entrada e o cardápio. Repararam que na mesa ao lado havia um casal na mesma situação. Também estavam acompanhados por um carrinho onde um bebê dormia a sono solto. O tal casal já estava desfrutando o prato principal. Roberto e Laura notaram algo estranho no casal. Eles tinham parado de comer e os encaravam com uma expressão clara de insatisfação. Estavam nitidamente incomodados. Assumindo que era pelo fato de estarem olhando para a garotinha dormindo no carrinho, eles simplesmente desviaram o olhar e se fixaram no cardápio.

    Enquanto mordiscavam as cenouras da entrada e escolhiam o que iriam pedir, sua atenção foi chamada pela presença de uma pessoa em pé, ao lado da mesa. Roberto baixou o cardápio e viu o homem da mesa ao lado, com cara de poucos amigos.

    – Tem gente que não sabe conviver em sociedade – dispara com fúria.

    – Perdão?

    – Não se faça de desentendido, meu amigo. O senhor e a sua esposa estão violando o sagrado direito de almoçarmos em paz e harmonia.

    – Como? – Pergunta Roberto aturdido. – Nós estamos em um restaurante, escolhendo o nosso prato, não vejo como isso possa estar prejudicando alguém.

    – A chupeta, meu senhor. Aquela enorme chupeta na boca do seu pobre filho.

    – O que tem a chupeta dele?

    – Ele está chupando essa chupeta ao lado da minha filha.

    – E?

    – O que eu estou tentando fazê-lo entender e parece que o senhor deliberadamente não quer, é que o seu filho está chupando uma chupeta perto da minha filha, o que a torna uma chupadora de chupeta passiva.

    Roberto e Laura ficam em silêncio. Olham-se procurando um nos olhos dos outro uma resposta par aquilo. E como aquele homem em pé aumentara o volume da voz para explicar a razão do descontentamento, acabou chamando atenção das mesas a volta.

    – Eu não sei o que falar.

    – O senhor não tem que falar nada, apenas tirar a chupeta do seu filho.

    – Mas e como é que a chupeta do meu filho vai poder prejudicar a sua filha?

    – As crianças, meu amigo, agem por imitação. Quando a minha filha acordar e notar o seu filho chupando com tanto prazer esse instrumento que só serve para facilitar a vida de pais irresponsáveis e preguiçosos como o senhor e a sua esposa, obviamente vai querer fazer o mesmo.

    – Irresponsável e preguiçoso não – levanta-se Roberto – quem está passando dos limites agora é o senhor.

    O que chamava a atenção das mesas a volta começa a tomar conta do restaurante inteiro. Enquanto isso, Laura encarava a mãe da mesa ao lado que devolvia o olhar na mesma moeda. Se alguém passasse ne meio das duas provavelmente sofreria queimaduras em parte do corpo tal a energia dispendida naquele cara a cara. O garçom chega com as Cocas de Roberto e Laura.

    – O que o senhor pensa que está fazendo? – pergunta o homem para o garçom.

    – Eles pediram Coca light. Estou servindo, ué?

    – O senhor vai recolher as Cocas, a entrada e vai colocá-los em uma outra mesa.

    – Os incomodados que se retirem – retruca Roberto.

    Como a discussão tomava proporções indesejáveis, o maitre aparece para tentar solucionar o caso.

    – Qual é o problema, senhores?

    – O problema? – Exalta-se ainda mais o pai da menina – O problema é que o seu restaurante tem área para fumantes, mas não tem uma área para viciados em chupeta.

    – Mas isso é um tanto incomum.

    – Isso é coisa de louco – completa Roberto.

    O restaurante definitivamente pára para assistir aquela disputa. A hostess desistiu de distribuir senhas e foi até o meio do salão para poder assistir melhor a justa. Ninguém pegava num garfo, numa colher. A comida esfriava nos pratos. Laura e a outra mulher fuzilavam-se com os olhos.

    – Louco é o senhor que deixa o seu filho chupar esse troço. Vai ver que arcada dentária ele vai ter.

    – Em primeiro lugar a chupeta dele é ortodôntica, meu amigo. E se continuar insultando o meu filho você é que vai ficar com a arcada dentária prejudicada.

    – Senhores, pelo amor de Deus, sejamos razoáveis.

    – Com um viciado sentado na mesa ao lado? – Grita o pai da menina sem chupeta. – Disse uma vez e repito. Minha filha não vai ser uma usuária de chupeta passiva. Trate de resolver esse assunto. Porque nós não saímos dessa mesa.

    – Nós é que não vamos arredar pé da nossa mesa. – Grita ainda mais alto o Roberto – Ainda não inventaram uma lei anti-chupeta nesse país.

    Os dois vizinhos de mesa estão cara a cara. Uma distância ridícula de mais ou menos cinco centímetros separam as pontas de seus narizes. Partir para vias de fato parece uma consequência iminente e inevitável. O maitre estava prestes a arrancar os cabelos. Nesse momento em que qualquer acordo de paz está fora de questão, dois gritos ainda mais altos dos que os dos dois pais exaltados fizeram-se ouvir. O choro dos bebês. Um berro potente, invadindo as dependências do restaurante. Só podia ser uma coisa: fome. As mães prontamente desarmaram-se e, instintivamente, puseram-se a amamentar. O garçom e o maitre olhavam aquela cena terna emocionados. Roberto e o pai do garoto perceberam os dois olhando para as suas esposas. Eles, então se olharam.

    – Eles estão olhando para os seios de nossas esposas? – Pergunta Roberto.

    – É o que está parecendo. – responde o pai da menina.

    Finalmente, aqueles dois pais brigões estavam do mesmo lado.

  • O Desfutibolizado

    August 24th, 2011

    Ele era louco por futebol. Não podia passar na frente de alguma televisão, fosse no bar, na quitanda, na vitrine, aeroporto, era só ver aquele imenso verde na tela e sobre este verde pequenos pontos, alguns em uma matiz de cor predominante e outros em outra, correndo atrás de uma esfera branca que estancava o passo para dar uma olhadela. Era –lhe irresistível.

    Um dia, quase bateu o carro porque passava por uma estrada que beirava um campo de futebol de várzea, onde dois times duelavam num sábado cinzento, devidamente fardados, e ele resolveu acompanhar os lances da peleja em vez de olhar para frente, Felizmente, para aproveitar o máximo do jogo, havia diminuído dramaticamente a velocidade e foi isso que evitou o acidente. Isso e o grito de susto da esposa, que o fez voltar a olhar pra frente a tempo de ver a traseira de um caminhão de entrega de bebidas se aproximando.

    Como todo bom brasileiro, passou a gostar de futebol pela via do seu time do coração, que vinha a ser, também o mesmo time pelo qual o seu pai torcia. Seus primeiros passos na arquibancada foram dados de mãos dadas com o velho, quer dizer, na época, para quem tinha uns 4 anos, ele parecia velho.

    Nos ciclos vencedores sempre era mais fácil encarar as segundas na escola, onde chegava com o peito inflado de orgulho, como se ele mesmo tivesse entrado em campo no domingo e amealhado mais uma vitória acompanhada de uma “atuação convincente”, como diziam os comentaristas. Nas derrotas, as segundas-feiras eram-lhe um suplício, mas aguentava com coragem as gozações de colegas que torciam para o time rival, sabendo que a volta ia ser doce, caramelada. O que era certo, garantido, é que continuava indo ao estádio dar força para o time nestes momentos.

    Fato é que, os anos passaram e aquele garoto tornou-se um adulto que continuava vibrando com as alegrias, sofrendo com as tristezas proporcionadas pelo seu time, dono daquelas arquibancadas onde dera seus primeiros passos de torcedor. Até chegarmos aos dias de hoje.

    Seu time, coitado, segue há mais de dez anos sem títulos de vulto, o que, para uma grande associação, é mesmo um problema. E neste ano então? O coitado passou a amargar domingos cada vez mais tristes, onde o seu time, numa regularidade impressionante, só faz perder e, no máximo, comemorar um empate. Caminha célere para a segunda divisão. O mais grave é que ele, diferente das outras vezes em que sofreu, não parece ver solução e tampouco longínqua. Seu time já fez três a alegria de pagar indenizações gordas a dois treinadores e está com um terceiro na casamata,

    Para ele, parece óbvio que a causa dessa coleção de desastres, segundo suas convicções, não está exatamente lá dentro do campo. O que acontece ali é uma consequência de anos e anos de usurpação da associação pelos que a tem dirigido. Na direção, no conselho do clube, os nomes e sobrenomes são os mesmos desde os tempos em que ia ao estádio pelas mãos do pai. Nomes que também andavam pelos tribunais e pelos corredores e galerias do Congresso Nacional e Assembleia Legislativa Estadual. Ele deu-se conta de que seu clube do coração sempre fora trampolim de interesses e, depois de anos dessa prática, exauriu-se, sem produzir novos dirigentes, com novas ideias e, principalmente, ideais. O clube parece uma monarquia anacrônica, doente, com consequências que se espalharam como uma septicemia por toda a associação, hoje combalida.

    A torcida, sedenta por títulos e imediatista por natureza, discursa olhando para trás, pedindo nomes ainda mais antigos e retrógrados só porque ganharam títulos num passado remoto que não volta mais. Ele, bem, ele passou a sofrer um fenômeno interessante. A desesperança com seu time é tanta, que passou a mergulhar no que chamou de um processo de desfutebolização voluntária. Ele não tinha mais pra quem torcer, pois seu time não representava mais a sua maneira de ver a vida e, portanto, não queria ter mais interesse no esporte em si.

    Nos primeiros momentos foi difícil. Esforçava-se para não ver mais jogos na televisão, mas era-lhe difícil vencer um hábito, que ele percebeu ser praticamente um vício. O que nos leva a seguinte conclusão: a desfutibolização voluntária é, nada mais, nada menos, um processo de desintoxicação. E como tal, um processo penoso. Quando mudava de canal e passava por um partida sendo transmitida, compacto de um jogo da rodada ou uma mesa redonda, parava. Quando dava-se conta, que já xingava juiz, chamava comentarista de burro, voltava a acionar o controle remoto sentindo-se culpado, como quem fuma um cigarro depois de ter tomado a decisão de parar de fumar.

    A seguir, tomou uma decisão mais drástica. Ligou para a operadora de televisão a cabo e pediu cancelamento do pacote que transmitia os jogos do campeonato nacional. Levou horas para completar a operação, já que o atendente não queria entregar assim, de mão beijada, os mais de cinquenta reais mensais que o pacote custava.

    A medida em que foi se desfutibilizando, passou a ter mais tempo. Seus finais de semana tornaram-se ricos em novas atividades. Passou a cozinhar, tocar mais seu violão, retomou o prazer de dedicar muito mais tempo a leitura, passou a sair em excursões com a família para conhecer a própria cidade e arredores. Estava livre de ouvir as besteiras de comentaristas exibidos que desfilavam sua arrogância rasa em microfones e em frente as câmeras. Livrou-se também das mesas redondas. Estava completamente desfutibolizado. Nem sabia em que estado andava o eu ex-time.

    Mas não estava livre de ouvir os xingamentos de alguns amigos que, com o olhar furibundo, o acusavam de abandonar a causa, de ser infiel ao seu time. E sempre que ouvia tal acusação levantava-se cheio de brios e discursava:

    “Questionam a minha fidelidade, o amor ao meu time? Mas, e a fidelidade do meu time por mim? Eu penso grande e quero torcer para um clube grande, mas este clube, o qual acompanhei minha vida inteira hoje não é fiel aos seus antigos preceitos pelos quais o escolhi como meu amor bretão. A grandeza foi jogada no lixo das vaidades e hoje caminhamos a passos largos parra a pequenez. Se eu escolhesse o caminho fácil, iria torcer para outro time, quem sabe, um time de alhures como o Arsenal ou o Barcelona. Isso sim, seria a infidelidade, a pequenez da minha sangrada alma. Essa é para mim uma atitude tão inconcebível quanto pra vocês. Por isso, trilhei um caminho doloroso. Eu me desfuteboliozei, meus camaradas. Preferi a morte do futebol dentro de mim. Vocês fazem ideia do quanto isso foi sofrido? Pois foi. Por isso, não vou admitir dedos acusadores na minha cara. Eu fui muito mais digno do que você podem sequer imaginar. Agora me deem licença, porque vou pra casa assistir a decisão do campeonato canadense de curling, que está emocionante. Daqui a dez minutos começa”

  • Crônicas de San Francisco 4 – Encontro no John’s Grill

    August 1st, 2011

    SF2Lá estava ele, encravado na Ellis Street, mas, mesmo de dia, chamava atenção com seu toldo verde e seus neons que falavam de um jeito orgulhoso “Ei, rapaz, sou eu, John’s Grill. Isso mesmo, o lugar onde Sam Spade costuma aparecer para saborear suas costeletas com batatas e rodelas de tomate, enquanto pensa em como resolver os intrincados casos para os quais é contratado. Aqui, mesmo, meu rapaz. Aqui é a casa do Falcão Maltês.” Entramos por uma porta de madeira e vidro e fomos dar em um mini hall onde outra porta nos recepcionou cheia de estilo, esta sim, nos colocava para dentro do restaurante.

    A primeira visão que temos do lugar é um sorriso enorme, emoldurado por bochechas protuberantes, olhos apertados, justamente por causa do sorriso enorme. O cabelo preto e encaracolado empresta um acabamento rococó para aquele rosto. Do pescoço para baixo, um corpo proporcional àquela face bonachona, enfiado num vestido preto, que termina nos dois joelhos e se transformam em canelas muito breves porque logo entram pelos canos altos de um par de botas da mesma cor do vestido. A hostess nos leva para a mesa com passos leves e ágeis a despeito do seu peso avantajado. Enquanto a sigo, presto atenção no interior do restaurante. Em frente à porta pela qual entramos, atrás do púlpito onde estava a hostess, existe uma fileira com não mais do que três mesas. A fileira acaba em um bar, onde um barman mexicano nos recebe mostrando seus dentes muito brancos contrastando com o bigode avantajado, um todo negro sobre a sua boca. A parte mais extensa do bar não fica virada para a porta, mas para o salão com as demais mesas, duas fileiras delas, iluminadas pela luz que vem do janelão que dá pra a rua e que fica ao lado da porta de entrada. Essa é, àquela hora do dia,  a fonte de iluminação do lugar.

    Os olhos vão se acostumando à iluminação propositalmente deficiente e descobrem, aos poucos, detalhes como os quadros com fotos nas paredes, olhos que testemunharam tudo o que a cidade de San Francisco andou passando desde que o John’s Grill existe. E por falar nisso, há um cheiro bem pronunciado de passado, como se bolsões de ar dos anos 40 ainda perambulassem pelo ambiente, o que, não duvido, seja verdade.

    Como são quase quatro horas da tarde, a frequência se resume a três homens no bar e apenas uma das mesas do restaurante ocupadas por uma família de turistas, como nós. A hostess, cujo nome era Geena, nos colocou em uma mesa perto da janela. Foi sentarmos à mesa para uma garçonete séria, de cabelos longos, lisos e loiros, corpo esguio, praticamente o inverso de Geena, vir nos atender. Ela tinha um nome surpreendentemente latino: Carmem. Minha mulher e minha filha perguntaram a ela onde ficava o banheiro. Ela com a objetividade típica dos anglicanos, tanto na voz quanto nos gestos, respondeu a questão e lá se foram elas, juntas, demorar no toilete enquanto fiquei lendo o menu.

    De repente, senti uma coceira nos olhos e então passei a massagear as pálpebras fechadas com o polegar e o indicador para aliviá-la. Ao acabar a massagem e abrir os olhos vi uma figura sentada a minha frente, ainda meio fora de foco. E quando etrou em foco, achei que estava fora de mim

    – Humphrey Bogart?
    – Ah, mais um que me chama por este nome! – Humphrey respondeu com aquela fala rápida e arrastada – Deixe-me esclarecer uma coisa: meu nome é Sam Spade, detetive particular. E, neste caso, eu sou o Sam Spade que está no seu inconsciente, ou seja,  o baixinho aqui. Você sabe que na verdade fui concebido como um cara alto, de cabelos castanhos bem claros. Mas Hollywood reduziu o meu tamanho em alguns bons centímetros e, ainda por cima, colocaram-me estes cabelos negros.
    – Funcionou muito bem.

    Falei algo espantado por estar aceitando como normal o fato de conversar com um ator ícone que já morreu, mas que na verdade dizia ser um dos mais famosos detetives da literatura policial, criado por Dashiel Hammett e que costumava frequentar o restaurante em que eu estava, como já foi explicado no inicio.

    – Eu posso perguntar…
    – Por que eu estou aqui, bem a sua frente? – Interrompeu ele adivinhando o óbvio. – Você é um escritor que veio aqui pela atmosfera. Por tudo o que este lugar representa.
    – Bom, escritor seria um certo exagero.
    – Você escreve histórias. Você cria pessoas do mesmo jeito que eu fui criado. Você termina suas histórias. Você é um escritor.
    – De onde você tirou essa ideia?
    – O caderninho e o pequeno lápis que você tirou do bolso ao sentar me disseram isso, meu caro.
    – Perspicaz.
    – Qualidade essencial em um detetive.
    – É.
    – Bom e já que você veio aqui pelos motivos que já expus, achei justo que tivéssemos esta conversa.
    – Estamos mesmo tendo esta conversa?
    – Claro que estamos. E digo mais: ela é um dos pontos altos da sua viagem a San Francisco.

    Ele pegou um cigarro me encarando com um leve sorriso no rosto. Um sorriso de quem vai revelar algo que eu devo saber.

    – Responda uma coisa: de que você prefere ser chamado, de cínico ou de hipócrita?
    – Cínico.
    – E poderia me esclarecer por que?
    – Os cínicos são de uma sinceridade insuportável. Costumam dizer a verdade por ironia. Hipócritas, são os bons moços de fachada. Nada de interessantes sai de um hipócrita, pelo contrário, eles lutam com um afinco religioso para tornar o mundo tão medíocre quanto eles.
    – Você diria que cínicos dão bons escritores e hipócritas dão bons críticos?
    – Não existe algo como um bom crítico.
    – Não mesmo. Alguém que esconde a própria covardia para julgar aquele que tem coragem de pelo menos tentar é um imbecil completo. Aqueles que criam parâmetros medíocres para definir o que é bom e o que não é destroem a energia criativa. Existem muito mais pessoas como eles do que pessoas como você.
    – O que são pessoas como eu?
    – Cínicos, que tem a coragem de sublinhar as verdade com mentiras que, de modo geral, todos sabem que são mentiras e aí mesmo está a beleza do cinismo.
    – Não entendi.
    – Dashiel me criou diferente dos outros detetives. Durão, egoísta, nada bom moço. Porque um detetive de verdade perambula no mundo onde o pior do ser humano se revela. Dashiel disse o que pensa através de mim. Isso é cinismo no seu mais alto grau.
    – Então, todo escritor tem que ser cínico.
    – Cínico e corajoso para se expor do jeito mais solitário do mundo. A sua única companhia, neste momento, somos nós. E nós gostariamos de continuar existindo. Eu estou aqui para pedir a você que nunca desista. Continue a ser cínico,  exponha-se. Não tenha medo do que os hipócritas vão pensar das coisas que você faz.
    – Eles que se danem?
    – Quando você faz algo relevante quatro coisas acontecem: primeiro eles te ignoram. Depois, te ridicularizam.
    Depois, te combatem e por último, você vence.
    – Aprendeu isso com o pior do ser humano?
    – Não, lendo Gandhi.  Eu lido com a escória, mas tenho meus momentos.

    Ao ver o meu sorriso ele respondeu com outro. Um sorriso amistoso. Pegou o chapéu que estava sobre a mesa e, antes de colocá-lo na cabeça, olhou-me nos olhos e arrematou.

    – E aqui vai outro conselho: não peça as costeletas com batatas e tomates que eu pedia.
    – E porque não devo pedir?
    – O cozinheiro daqui já não é o mesmo da minha época. Este sempre passa do ponto ideal das costeletas e deixa as batatas um pouco cruas. Peça um spaguetti com almôndegas que você vai gostar mais.

    Sam colocou chapéu na cabeça e foi embora. Passou pelas meninas que vinham do banheiro. Elas, ao que pareceu, nem perceberam.

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