O telefone toca. Seis horas da manhã. Luiz Carlos tateia a mesa de cabeceira tentando calar aquela coisa que entra sem pedir licença pelos seus ouvidos até matelar seu sonolento cérebro. Finalmente, consegue alcançar o aprelho e atende balbuciando algo muito parecido com um alô. Do outro lado da linha, excitadíssima, dona Carolina, sua mãe.
– Quem é que vai fazer exame de próstata hoje?
Aquilo não estava acontecendo. Não podia estar acontecendo. Nenhum ser humano normal liga para o próprio filho as seis horas da manhã e lembra que aquele está para ser um dos mais humilhantes dias da sua vida. Pior, numa segunda-feira. E ainda pior, como quem dá feliz aniversário.
– Alô? Filho, você está aí? – preocupa-se.
– Sim, mãe. – irrita-se.
– Então, ansioso?
– Mãe, não me leve a mal, mas não, não estou nem um pouco ansioso para alguém enfiar o dedo no meu cu.
– Olha a boca, menino.
– Eu tenho quarenta anos e um ex-casamento nas costas. Não sou mais menino.
– Pra mim é. Meu bebezuca.
Ele desliga na cara dela. A estas alturas ele já está completamente desperto. Um tanto arrependido de ter falado com a mãe naqueles termos e de ter desligado o telefone daquele jeito, embora ela já estivesse acostumada. Tanto que o telefone tocou de novo.
– Meu filho, nunca mais faça isso.
– Desculpe.
– A gente vai almoçar hoje, não vai?
– Promessa é dívida.
Acordado, com o sono arrancado dele a força, ele não tem outra alternativa a não ser sair da cama e, como é cedo, pensa em ir à academia. O dia está bonito lá fora e ele toma uma chuveirada para tirar o resto de cama do corpo. Aquele exame está grudado em sua mente como craca em casco de navio mal cuidado. Não é o tipo de coisa que ele se preocuparia em fazer. Se houvesse uma lista de prioridades em sua vida, esse talvez fosse o item número dois mil seiscentos e trinta e oito. Mas teve que capitular diante da insistência ferrenha e incansável de sua mãe. “Aos quarenta anos você vai fazer um exame preventivo de próstata”. Ele ouve essa frase e suas variantes desde que fez trinta. Em cada abraço pelos aniversários que se seguiam ela falava em seu ouvido: “Faltam nove anos para o seu exame”, uma irritante contagem regressiva.
Era perfeitamente compreensível a preocupação da mãe, uma vez que ela vinha de uma família em que casos de câncer eram muito comuns. Perdeu quatro dos sete irmãos por causa disso. A próstata do Luiz Carlos virou uma questão de honra para ela. Uma obsessão. Que foi se agravando com a proximidade da idade considerada chave para o exame ser feito. No dia em que fez quarenta anos ela lhe entregou o exame marcado embrulhado em papel-presente. Podia ter ganho uma gravata, até cuecas, aquela coisa que mãe dá achando que nunca é demais. Mas não a sua mãe. Não a dona Carolina. Ela deu um exame de próstata marcado com o doutor Valério “O urologista do seu irmão mais velho, um grande urologista.” O que ela queria dizer com “grande” ainda não estava claro. Mas quase não conseguiu disfarçar o riso ao saber que o irmão mais velho, de quem apanhou muito, tinha um urologista regular. Mas, subitamente, pensou que uma ligação para o irmão para colher informações sobre o tal doutor Valério seria muito conveniente. Convenhamos, Valério é um nome meio assustador. Parece tudo meio estranho. E se ele tivesse dedos grandes e grossos? Só de pensar tinha arrepios de pavor. Por outro lado, ligar para o irmão mais velho por esse motivo era humilhante. Ele iria se divertir às suas custas, rir da sua preocupação, inventar coisas, o sádico. Ele acabou a chuveirada, vestiu-se, pegou a sacola e foi para a academia.
Na esteira, ele correu como se quisesse fugir da lembrança daquele exame. Fugia desesperadamente dos dedos de bitola indefinida do doutor Valério. Mas a esteira era a perfeita metáfora da sua situação. Por mais que corresse não saía do lugar. Era impossível se afastar. Ao contrário, quanto mais o tempo passava, mais se aproximava. E, quando fossem sete e meia da noite ele estaria lá, deitado na maca, indefeso diante do monstro chamado doutor Valério. Ele não conseguia encontrar definição para esse nome. Valério. Dava-lhe calafrios.
Após uma hora de correria desenfreada e quatrocentos e oitenta e sete calorias a menos, dirigiu-se extenuado para o vestiário. Lá, os mesmos rostos de sempre, as mesmas conversas de sempre. Ele invejando a todos, que não param de reclamar de como a segunda é um dia chato. Mal sabem como a segunda-feira deles pode ser maravilhosa sem um dedo de bitola desconhecida apontando para o seu traseiro. Calafrios de novo. O nomezinho estranho veio-lhe a mente. Foi para o banho. O segundo em menos de três horas. Desta vez, dividindo o local com nadadores, corredores, levantadores de peso e tudo mais. Flácidos, musculosos, gordinhos insistentes e de repente deu-se conta de que o tal doutor Valério não devia ter uma vida fácil. Imagina ter que enfiar o dedo em cada um daqueles caras. O musculoso tatuado tomando banho na frente dele. Só de pensar num cara daqueles deitado em uma maca esperando para ser violado fez o Luiz Carlos ter um pensamento de piedade pelo tal doutor que ainda não conhecia.
A manhã no escritório trnascorreu como uma imagem em sonho. As pessoas passavam por ele em movimentos desencontrados e vagarosos. Vozes se misturando, tudo e todos envolvidos pelo torpor que tomou conta de seu corpo. Pontadas como estalactites de gelo a espetar-lhe o âmago do estômago seguidas de uma respiração profunda. Passou a manhã inteira calado, observando a mão dos colegas, a bitola dos seus dedos, tentando estabelecer um parâmetro, uma média. Seus devaneios foram interrompidos por Jessica, uma das coisas mais lindas que existiam dentro daquele escritório, parada a sua frente, encarando-o.
– Luiz Carlos – voz rouca – eu quero que você saiba que eu estou com você.
– Como? – Responde com o coração aos pulos – Está comigo?
– É, se você quiser conversar comigo ali no café…
– Olha, Jessica, quando a esmola é muita o santo desconfia. Vamos aos fatos: todo homem neste escritório sonha em em ser convidado por você para qualquer coisa, nem que seja esse café horroroso. E agora que isso acontece comigo, eu sinto que tem algo errado no ar.
– Bom, o telefone da sua mesa tocou antes de você chegar e eu estava passando. Era a sua mãe, muito simpática.
– E o que a simpatia da minha mãe pretendia?
– Bom, ela disse que você estava nervoso.
– Nervoso? – O coração parecendo um solo e bateria – Disse por que eu estaria nervoso?
– Não, não, imagina. Só estou aqui porque, sei lá, você é um cara legal.
Estava na cara que a Jessica mentia. Era mais do que óbvio que a mãe bateu com a língua nos dentes, falou do doutor Valério, dos problemas de câncer na família e de como ela estava orgulhosa de ele engolir o orgulho e se submeter ao exame. Enfim, a mulher mais cobiçada do escritório estava sabendo que, no final da tarde, ele seria violado pelo doutor Valério. Por sorte, ela era muito discreta. Por azar, ele era uma carta fora do baralho.
Conforme combinado, Luiz Carlos chegou ao restaurante pontualmente ao meio dia e meia. Queria matar a mãe. Essa já estava na mesa e com ela havia outra senhora, que ele não conhecia. Ao avistá-lo chegando, dona Carolina quase teve um ataque, levantou-se e aos pulinhos passou a abanar para ele, como se estivesse no meio do público num festival de rock tentando chamar a atenção de um amigo. O restaurante todo olhando. Ele corou. Apressou o passo para que aquela cena ridícula terminasse logo.
– Bebezuca da mamãe, dá uma baijoca aqui – já se precipitando sobre o pescoço de Luiz Carlos.
– Mãe, olha o exagero.
– Amor de mãe nunca é exagero. – Falou com indignação falsa – Essa aqui é uma amiga da mamãe, Lucrécia. Lucrécia, esse é o meu caçula, o Luiz Carlos.
– Nossa, é a sua cara – levantando-se e abraçando-o tão forte quanto um urso – coitadinho, deve estar nervoso.
– Nervoso? – Ele, desconfiado – Com o quê?
– Não se preocupe – continua a amiga – o dr. Valério é ótimo e olhando um jovem saudável como você, não vai achar nada que não seja uma próstata vendendo saúde.
– Mãe! – Desolado. – Você contou pra ela?
– Ai os homens! – Carolina suspira – É um exame, meu filho, todo mundo passa por isso mais cedo ou mais tarde.
– Mas o mundo não precisa ficar sabendo que eu vou passar por isso. Onde está a relação confidencial entre médico e paciente?
Para alívio do Luiz Carlos, a tal Lucrécia não ia almoçar com eles. Ela despediu-se e saiu em direção as suas compras. Foi a Lucrécia sair para o garçom chegar.
– Não querem pedir as bebidas?
– Uma Coca com gelo e limão – Luiz Carlos emenda de mau humor.
– Nada disso – interrompe a mãe. – Traga a carta de vinhos.
– Vinho? Mãe, eu tenho que trabalhar.
– Você tem que relaxar um pouco – e virando-se para o garçom – ele vai fazer exame de próstata, sabe? Tá nervoso.
Seria a melhor coisa do mundo se o diabo, naquele momento, abrisse as portas do inferno justamente embaixo da cadeira dele. Por acidente. Nada poderia ser pior do que olhar para a cara desnorteada do garçom num esforço descomunal para não cair na gargalhada. Em breve, todos, do maitre ao cozinheiro, incluindo a linda garçonete atendendo a mesa ao lado, saberiam que o cara da mesa sete ia ser violado por um estuprador com diploma de medicina. Mas o diabo não apareceu. Ele fuzilou a mãe com um olhar. Mas ela continuou impassível. Olhou de volta e falou:
– Eu vou com você ao exame.
Será que as coisas poderiam ficar ainda piores naquele dia?
-x-
Luiz Carlos passou a tarde inteira enganando. As estalactites de gelo não paravam de espetar-lhe a barriga à medida que o tempo ia passando. Só de pensar em cruzar com a Jessica fazia o seu estômago embrulhar. Só se levantou do lugar para coisas de extrema necessidade, ou seja, ir ao banheiro. O reloginho do seu computador impassível e torturante avisava que o dedo do doutor Valério ia se aproximando. O esforço para se concentrar no trabalho era cada vez mais inútil. Seus braços não se mexiam, seus neurônios formigando, seu corpo inteiro era uma massa inútil sentada sobre uma cadeira de rodinhas. Pessoas paravam para conversar com ele, mas ele enxergava apenas formas difusas produzindo sons ininteligíveis. Até que o telefone tocou.
– Luiz Carlos – fala, seco.
– Meu filho, acho melhor você sair para não perder a hora.
– A senhora deve ter sido um instrumento de tortura na outra encarnação.
– Sou católica, não espírita. O trânsito está um horror.
Luiz Carlos levantou-se, pegou suas coisas e dirigiu-se a passos pesados para a garagem. Sentia-se um condenado andando pelo corredor da morte. Sem direito a padre. Sem direito à última refeição. Durante o seu caminho olhava o semblante das pessoas em seus carros. Gente irritada com o trânsito caótico do final da tarde. Apenas ele estava satisfeito com a demora. E se chegasse bem atrasado? Poderia adiar seu horrível destino. Mais uma vez invejou os problemas alheios. O que é ficar no trânsito por mais alguns minutos comparado com o dedo do doutor Valério desbravando o seu corpo virgem, imaculado?
Luiz Carlos chegou ao consultório dez minutos antes da hora marcada. A mãe lá, sentada com uma revista de fofocas. Ao vê-lo, levantou-se excitada e olhando para as recepcionistas dizia “ é ele, é ele”. Pelo sorriso desajeitado das duas moças, a mãe já devia ter dado todo o serviço. Não que elas nunca vissem alguém que ia fazer um exame igual. Isso pra elas era rotina. O que saía completamente da rotina era a mãe contando o óbvio para elas. Para elas e todas as pessoas na sala de espera. Sim, havia mais gente na sala de espera, todos olhando para ele como se fosse uma atração de circo. Ele preencheu a ficha e sentou-se ao lado da mãe. Não demorou muito. Seu nome foi chamado por uma das recepcionistas. Ele se levantou e ela o acompanhou até a sala do doutor Valério. E quando chegou lá e encarou o médico, o mundo devastado de Luiz Carlos acabara por explodir de vez. Ele já havia visto o doutor Valério. Não conhecia apenas o seu rosto, como tudo o que estava por baixo do seu jaleco. Sim, as coisas poderiam ficar muito piores. O doutor Valério era o gordinho que ele encontrava na academia todas as manhãs. Nu, no banho.
– Vamos sentando – disse o médico com voz amável. – Nós Ja nos conhecemos? Seu rosto é familiar.
– Mais do que o meu rosto: frequentamos a mesma academia.
– Ah, é verdade. Vamos sentando.
– Eu não vou sentar.
– Que é isso, deixe de bobagens. Somos colegas de gasto calórico, não é mesmo?
– Razão suficiente para eu não sentar. Razão suficiente para eu não dar as costas para você, a não ser dar as costas e sair daqui.
– Que é isso, Luiz Carlos. Eu sou um profissional. E depois, tem a relação confidencial entre médico e paciente.
– Sim, uma relação na qual você é o ativo e eu o passivo. E depois, tenho certeza de que, mesmo você repeitando a confidencialidade, o que eu não duvido, vai ter o momento em que nos encontraremos no vestiário. E eu não vou conseguir mais encarar aquele lugar. É como ser a vítima de um estupro e ter que conviver em silêncio com o estuprador.
Virou-se e saiu em passos rápidos em direção à recepção. Iria embora, nada de exame. Mas aí, topou com a mãe. Ela não ia deixar ele sair invicto dali de jeito nenhum. Iria fazer um escândalo na frente daquelas pessoas. O inferno seria ainda pior. Deu meia volta. Iria procurar outra academia no dia seguinte.