Cai uma chuva resoluta. Uma chuva que sabe o que quer e não vai parar porque alguém assim o deseje. Uma chuva vertical, nem pende para a direita nem para a esquerda. Vejo aqui dois pinheiros lado a lado, com dois galhos parecendo braços abertos, como que comemorando a chegada e permanência de tão desejada precipitação depois de uma ausência sentida. Se você olhar com bastante atenção, vai notar que, mesmo sem brisa sequer, as árvores mostram um leve balançar, para lá e pra cá, numa dança repleta de felicidade pelas bençãos de vida que caem sobre suas folhas e seus galhos e se imiscuem na terra a seus pés para o deleite de duas raízes. Era tudo o que elas precisavam: uma chuva resoluta como essa. Que não quer parar tão cedo.
Não só elas, as árvores e plantas em geral, estão em celebração. Há os pássaros. São vários, de cores e tamanhos distintos, que voam de galho em galho, de árvore em árvore, de muro em muro. Agora mesmo, um pousou sobre as murtas em frente a janela. Um dos pequenos. Não sou ornitólogo e por isso não me atrevo a adivinhar o seu nome. É de um verde esmaecido. Ele para e nitidamente aproveita o momento. Como que agradecer a água que vem do céu limpando suas penas e sua alminha. Talvez ouvindo as mensagens dos seus irmãos longínquos, trazidas pelas correntes deste rio aéreo amazônico que vêm lá do Norte numa comunicação líquida e telepática. A mensagem dos elementos da natureza, que trocam impressões de vida, fofocas do mundo que nós por aqui teimamos em não prestar a nossa devida atenção. Uma troca de energia, que transforma viçosas folhas e penas, avivando suas cores contra o fundo cinza do canvas celeste.
De repente, o dia a dia entra pelo meu celular, roubando-me a cena e o vagar dos minutos. Assuntos mundanos aparecem e requisitando a minha atenção e uma resolução tão firme quando a chuva que cai, ou caía já que o turbilhão me tirou a visão da janela. Urgências que não vão salvar vidas precisam ser atendidas, orçamentos precisam ser comparados, boletos requerem minha pontualidade. Necessito achar uma pessoa para me ajudar naquela urgência que não vai salvar vida alguma, eu acho a pessoa, mas ela não pode atender, provavelmente ocupado com uma outra emergência semelhante à minha.
Um redemoinho que parece imparável de vida cotidiana que nos faz agir por reflexo, resolvendo problemas em fila, um atrás do outro como dominós que caem em sequência. Quando cai o último dominó, volto minha atenção para janela. A chuva já se foi. Talvez tenha se irritado porque deixou de ser minha musa. Da chaminé de uma casa, emerge uma fumaça branca de alguma lareira que aquece os ossos de quem lá habita. A imagem da fumaça que se espalha e toma conta do quadro inteiro tirando o contraste da imagem formada por enormes árvores que emergem atrás da casa. O bucólico tenta me cooptar novamente. Mas eu ainda estou agitado por conta do último parágrafo. Não vou conseguir entrar na frequência dos dois parágrafos. Volto para a cozinha a fim de tomar um café. Tão resoluto em não continuar com a escrever quando aquela chuva que antes caía.