• Uma Crônica Interrompida

    June 6th, 2023

    Cai uma chuva resoluta. Uma chuva que sabe o que quer e não vai parar porque alguém assim o deseje. Uma chuva vertical, nem pende para a direita nem para a esquerda. Vejo aqui dois pinheiros lado a lado, com dois galhos parecendo braços abertos, como que comemorando a chegada e permanência de tão desejada precipitação depois de uma ausência sentida. Se você olhar com bastante atenção, vai notar que, mesmo sem brisa sequer, as árvores mostram um leve balançar, para lá e pra cá, numa dança repleta de felicidade pelas bençãos de vida que caem sobre suas folhas e seus galhos e se imiscuem na terra a seus pés para o deleite de duas raízes. Era tudo o que elas precisavam: uma chuva resoluta como essa. Que não quer parar tão cedo.

    Não só elas, as árvores e plantas em geral, estão em celebração. Há os pássaros. São vários, de cores e tamanhos distintos, que voam de galho em galho, de árvore em árvore, de muro em muro. Agora mesmo, um pousou sobre as murtas em frente a janela. Um dos pequenos. Não sou ornitólogo e por isso não me atrevo a adivinhar o seu nome. É de um verde esmaecido. Ele para e nitidamente aproveita o momento. Como que agradecer a água que vem do céu limpando suas penas e sua alminha. Talvez ouvindo as mensagens dos seus irmãos longínquos, trazidas pelas correntes deste rio aéreo amazônico que vêm lá do Norte numa comunicação líquida e telepática. A mensagem dos elementos da natureza, que trocam impressões de vida, fofocas do mundo que nós por aqui teimamos em não prestar a nossa devida atenção. Uma troca de energia, que transforma viçosas folhas e penas, avivando suas cores contra o fundo cinza do canvas celeste.  

    De repente, o dia a dia entra pelo meu celular, roubando-me a cena e o vagar dos minutos. Assuntos mundanos aparecem e requisitando a minha atenção e uma resolução tão firme quando a chuva que cai, ou caía já que o turbilhão me tirou a visão da janela. Urgências que não vão salvar vidas precisam ser atendidas, orçamentos precisam ser comparados, boletos requerem minha pontualidade. Necessito achar uma pessoa para me ajudar naquela urgência que não vai salvar vida alguma, eu acho a pessoa, mas ela não pode atender, provavelmente ocupado com uma outra emergência semelhante à minha.

    Um redemoinho que parece imparável de vida cotidiana que nos faz agir por reflexo, resolvendo problemas em fila, um atrás do outro como dominós que caem em sequência. Quando cai o último dominó, volto minha atenção para janela. A chuva já se foi. Talvez tenha se irritado porque deixou de ser minha musa. Da chaminé de uma casa, emerge uma fumaça branca de alguma lareira que aquece os ossos de quem lá habita. A imagem da fumaça que se espalha e toma conta do quadro inteiro tirando o contraste da imagem formada por enormes árvores que emergem atrás da casa. O bucólico tenta me cooptar novamente. Mas eu ainda estou agitado por conta do último parágrafo. Não vou conseguir entrar na frequência dos dois parágrafos. Volto para a cozinha a fim de tomar um café. Tão resoluto em não continuar com a escrever quando aquela chuva que antes caía.

  • Sonhos?

    May 8th, 2023

    Quando nossa consciência deixa a vigília para cair no sono, a porta fica aberta e livre para a entrada de todo o tipo de questão mergulhada naquela parte imersa do iceberg que é a nossa mente. E é assim que acontecem os sonhos, é o que diz a ciência. Mas eu tenho uma definição melhor do que essa para os sonhos. Eu tenho quase certeza que, quando estamos sonhando, nós, na verdade, vamos para outros mundos como assombrações. É isso que vocês estão lendo mesmo.  Pra mim, quando sonhamos, vagamos como fantasmas por outros mundos deste imensurável Universo. As vezes somos vistos pelos habitantes destes mundos (e sobre isso tenho cá minhas teorias também), as vezes, passamos sem ser percebidos.

    Uma fato ainda mais curioso é que, enquanto assombrações nestes mundos alhures, encontramos outros fantasmas, de várias espécies e formas tão fantasmagóricas quanto a nossa. Eles vêm de diferentes regiões do cosmo e, como nós, estão dormindo, ou seja lá qual definição eles deem ao fato de apagarem por algumas horas porque o corpo assim o pede. Esses fantasmas nos encontram todas as noites em lugar neutro e com eles a nossa versão fantasmagórica mantém alegres trocas de ideias. Isso, por exemplo, explicaria as coisas esquisitas que, por vezes, deparamos em nossos passeios noturnos. Outra noite mesmo  eu vagava por uma casa onde havia um fosso. De dentro dele brotavam inúmeras tartarugas com pele azul e cascos transparentes, qual lava de um vulcão.

    Outro fato que reforça a minha convicção de sermos fantasmas quando sonhamos são os encontros constantes que temos com pessoas que já partiram deste mundo. Pais, amigos, tios, toda a sorte de pessoa de nossa relação que deixaram de viver entre nós aparecem em sonhos para manter conosco um alegre reencontro. Até os nossos animais de estimação que já partiram costumam aparecer para ganhar mais um afago e passear com a gente despercebidos das pessoas que andam pra lá e pra cá com as mentes enterradas nas suas tarefas cotidianas.

    Outra noite me peguei volitando e atravessando paredes em um sonho, o que me parece em uma robusta evidência que corrobora a minha teoria. Querem mais provas? Quem já não se viu nu em meio a um lugar movimentado e, após passar aquela sensação de completo desconforto, acabamos percebendo que essas pessoas não estão notando a nossa presença? Exatamente como eu falei acima, as pessoas destes lugares, como as daqui, estão tão preocupadas com suas questões diárias que acabam por deixar a sua mediunidade perdida em algum canto.

    Ok, você pode me perguntar, se somos nós os fantasmas, qual a razão de termos pesadelos? Não seríamos nós, os fantasmas, que deveríamos assustar os outros? Ora, há uma resposta muito lógica para tal pergunta. Os pesadelos se dão quando somos descobertos pelos habitantes daquele mundo no qual somos vistos como assombrações (lembrem do parêntesis no final do primeiro parágrafo). Porque não tem nada mais assustador para um fantasma do que ser visto e notado pelos vivos, pode acreditar. Sim, os fantasmas se assuntam com os vivos tanto ou até mais do que os vivos com os fantasmas. Ao sermos descobertos somos tomados por uma espécie de energia negativa,  desconfortável da qual queremos nos livrar. Já repararam que os piores pesadelos são os que causam esta sensação angustiante que nos toma por inteiro? As vezes nem estamos sonhando com coisas ruins e mesmo assim acabamos possuídos por este sentimento. E tudo o que queremos é se escafeder de lá e voltar para o aconchego de nosso corpo sobre a cama.

    Portanto, se você sentir e até mesmo ver algo sobrenatural vagando pela sua casa não se apavore. É apenas alguém de um lugar muito, mas muito distante “sonhando” e aparecendo aqui neste mundo dos acordados, nada além disso. Finja que não está vendo nada, senão você transforma o sonho de alguém em um desagradável pesadelo. Porque ele é um fantasma, mas um que não vai fazer mal a você e nem a ninguém. Ele só está vagando em seu inocente  sonambulismo de alma por aí. Bons sonhos!

  • O Melhor Em Campo

    April 6th, 2023

    Na década de 1970, Rogério vivia os primeiros passos da sua adolescência, já que tinha de 14 para 15 anos. Sobre ele recaía a pecha de que vivia no mundo da lua por possuir uma imaginação fértil, não raro parecia realmente se desligar desse nosso mundo para peregrinar em outros muito mais interessantes. De certo modo, aquele era uma espécie de superpoder, que deixava a sua vida mais interessante e muitas vezes era pouco entendido pelos mais velhos.

    Entre suas paixões, jogar peladas com seus amigos era a que ocupava o primeiro lugar. Nessas peladas ele exercitava não só a sua relativa boa habilidade com a bola nos pés como, também, a sua imaginação acima da média. Em todas as peladas ele sempre estava jogando em um lotado Maracanã, o maior ícone dentre os estádios de futebol da época, também conhecido pelo epíteto de “o maior do mundo”.  Enxergava perfeitamente o estádio a sua volta, com as arquibancadas, cadeiras e gerais cheias de gente e de gritos, em vez da quadra de futebol sete ou de salão em que realmente estava. No seus jogos paralelos, atuava pelo seu time do coração, ou seja, jogava sempre fora de casa. Havia um certo prazer em jogar num Maracanã com 200 mil vozes hostis.  Para Rogério, provocar o silêncio da torcida adversária tinha mais sabor do que fazer explodir a sua própria.

    Numa manhã de sábado, Rogério se reuniu com os amigos para mais uma dessas peladas em um clube que ficava bem perto da sua casa. Como de praxe, bastou entrar na cancha e imediatamente foi transportado para mais um grande enfrentamento em seu mundo paralelo. Como tinha uma antipatia atávica pelo Flamengo, era contra o rubro negro que imaginava estar atuando na maioria das vezes, pois, como ja foi relatado aqui, calar a maior torcida do Brasil ampliaria o seu prazer em ser um estraga prazer das torcidas adversárias.  

    A partida começa e, no primeiro lance em que participa, recebe uma bola  que vem xucra, corcoveando pra lá e pra cá, em sua direção. Rogério a doma com seu pé esquerdo – que não era o bom – e a faz obedecer a todos os seus caprichos. Aquela primeira participação determinava uma injeção de auto confiança que se estenderia durante todo o jogo.  Aquele lance, no alvorecer da partida, era o prenúncio de uma atuação memorável.  Ao final daquele embate, iria ser premiado com todos os Motorádios* disponíveis, disso não havia dúvida alguma.

    Em dado momento do jogo, em que desfilava um futebol de alta qualidade numa uma atuação quase perfeita – o quase fica por conta de um lance em que escolheu chutar a gol, quando dar um passe para um companheiro melhor colocado seria a solução –  percebeu seu pai observando, solitário, o jogo atrás de uma cerca de arame, ou melhor, numa das arquibancadas do Maracanã. A visão do seu velho ali, prestando atenção na peleja, injetou-lhe ainda mais ânimo.  Foi goleador, líder em assistências – na época isso era chamado passe para gol – abriu caminhos a dribles, fez lançamentos perfeitos de 30 metros onde a bola descrevia parábolas harmônicas a até se aninhar nos pés do companheiros. Um verdadeiro espetáculo que fez calar o seu Maracanã imaginário, para o seu deleite.

    Ao término do jogo, encontrou seu velho que ainda estava do lado de fora esperando para acompanhar o filho na jornada a pé de retorno para casa. O almoço já devia estar quase pronto. Rogério andava ao lado do seu pai, aberto aos elogios que estariam por vir a qualquer momento, ansioso por ouvi-los e, quem sabe, fingir modéstia com um “Não foi tudo isso, pai” . Mas, a medida em que os passos iam se sucedendo, passou a se incomodar com o silêncio do seu velho.  Os metros iam ficando pra trás e nada do pai começar a falar sobre aquela atuação esplêndida. Finalmente, o silêncio é quebrado com um  “Você podia ter passado aquela bola em vez de chutar”. O menino sentia como se tivesse levado uma entrada por trás de um zagueiro desleal. Ficou na esperança de vir um “mas”  seguido dos merecidos elogios à sua atuação épica. O mas não veio. Não veio mais nada. Seu pai falou apenas daquele “quase” do parágrafo anterior a este. E foi só. A Rogério restou voltar cabisbaixo e calado para casa. Tão calado quanto a torcida do Flamengo após o término de seu jogo imaginário.

    *Motorádio era uma marca de rádios que era dada ao melhor jogador em campo nas década de 70 no século passado por algumas estações de radio que transmitiam os jogos. Nas peladas da época, quando diziam que você merecia o Motorádio, é porque você tinha jogado uma barbaridade.

  • As Caraminholas da Madrugada

    March 29th, 2023

    É sempre do mesmo jeito. Eu desperto de repente e abro os olhos, mas parece que não abri, já que o mundo continua com as pálpebras fechadas. Tudo a minha volta é breu, esse ladrão de formas, de volumes, de cores.  Meio lá e cá está a minha alma errante, que acabou de emergir das imagens do inconsciente. Aos poucos, a alma encaixa no corpo e me percebo deitado numa hora que não não é hora, porque o breu também rouba o tempo, ou a impressão do tempo. A mente, desocupada dos sentidos, vira palco pra um desfile de caraminholas a tagarelar feito maritacas num final de tarde.

    São as vozes dos amigos do breu, que se elevam mais e mais, sem freios, desimpedidas e perturbadoras. A mente é terra por onde essas caraminholas se imiscuem como minhocas a produzir seu húmus que fertiliza as inseguranças, os medos, as culpas e os arrependimentos. O corpo treme de frio. O corpo sua de calor.  A coberta vai. A coberta vem. O breu é uma panela de pressão, desconfortável, que me apequena diante de tudo de ruim que atravessa a fronteira entre os cientes. Meu corpo roda no mesmo lugar como um frango de televisão.

    Não sei se passou uma hora, ou duas, ou mais. Como disse, o tempo fugiu da minha sensação, levado pelo breu, esse larápio que age todas as noites. Dou-me conta de que todas estes pensamentos são acompanhados por uma trilha sonora, que sempre se repete no mesmo trecho, qual arranhão no disco que devolve a agulha sempre para o mesmo ponto na ranhura no vinil. Vou levantar, mas o breu me empurra de volta. Ele se diverte com as caraminholas que me incomodam junto com os mosquitos a zunir.

    Mais que terra, minha mente também é tela, que necessita do breu para nela sejam projetados todos os meus terrores arquetípicos que dançam feito tribos pagãs num ritual de não sei o que.  Pra onde vamos? E quando eu me for? O que vai acontecer com elas? Por que fiz aquilo? Por que não fiz aquilo? Que pontada de dor é essa? Será que ela supera? Será que ela cresce? A culpa foi minha? Foi nossa? Eu devia? Eu não devia?  Ao longe, um galo canta. Um canto que traz de volta o alento. É prenúncio da luz. Que, com o som de uma cavalaria ligeira, invade por cada fresta, cada buraco de fechadura. Que vence o breu. Que expulsa as caraminholas de uma vez por todas.  O sono vêm. O corpo volta a ficar imóvel. A respiração se enche de ritmo.  Até o despertador tocar.

  • Cada Geração Com a Sua Janela

    March 23rd, 2023

    Quando eu era criança tudo tinha que ser dividido com meus meus dois irmãos mais novos. Nunca foi uma divisão pacífica, pois sempre havia uma disputa pelo melhor ou pelo maior. Sentar em uma das janelas do banco de trás do carro era um dos grandes embates a cada vez que saíamos em família, principalmente em alguma viagem. Eram duas janelas para três pirralhos, logo,  um iria ficar um sentado no meio, longe das janelas, ou as vezes dois, já que, em alguns casos, havia a nossa vó que, quando ia nestes passeios, tinha uma janela cativa, tornando a disputa ainda mais acirrada.

    Usávamos todo tipo de subterfúgio para conquistar um dos dois lugares mais cobiçados do no carro, de chegar muito antes de o que todo mundo e fincar pé – na verdade, fincar bunda- no acento perto da janela a simplesmente tentar arrancar o outro a força, ou no grito, do precioso lugar.  Seguiam-se as discussões homéricas, palavrões, choro e ranger de dentes dos perdedores que vinham sempre com o mesmo argumento “da última vez foi tu que sentou aí”. A discussão escalava e quando os primeiros tapas começavam a ser trocados entre os adversários, bastava um olhar azedo do nosso pai e tudo se aquietava.

    A janela para mim era como se fosse uma televisão, onde a minha imaginação atuava como roteirista daquilo que ia passar por aquela tela. Uma das brincadeiras que mais gostava de fazer era o olhar em movimento versus o olhar estático. No primeiro, eu girava o pescoço, acompanhando, por exemplo, um arbusto que ficava ao lado da estrada até ele sair de cena, para depois permanecer com o olhar fixo e ver os inúmeros arbustos passando como riscos indefinidos, parecendo pinturas impressionistas – ok, na época eu nem sabia o que era impressionismo mas este é um relato que fala de lembranças.

    Outra visão que levava a minha imaginação para passear eram as pessoas que passavam andando a pé ou de bicicleta pelas bordas das estradas. As vezes famílias inteiras em uma procissão cuja a origem e o destino eram incertos, já que eu não havia visto uma casa sequer por quilômetros rodados. De onde saiu aquela gente? Para onde iam? Achei então uma resposta lógica: eram fantasmas de pessoas que tinham morrido atropeladas e que penavam pra lá e pra cá sem destino assombrando os quilômetros onde tinham perdido a vida. Desde a primeira vez que isso me veio a mente passou a ser uma verdade incontestável. De la pra cá, passei a achar estas figuras que andam à beira das estradas um tanto lúgubres. Ainda hoje sinto arrepios ao vê-las perambulando sem destino.

    Lembro-me também das viagem que cruzavam a fronteira entre o dia e da noite. Eu ficava intrigado com a Lua, que nunca saia do lugar. A  minha imaginação mais uma vez me forneceu a explicação plausível, ou seja, a Lua, na verdade, era uma espaçonave disfarçada que nos seguia, não importando as curvas que fizéssemos e os quilômetros que andássemos nunca conseguiríamos nos livrar dela. Era óbvio que ali haviam seres muito inteligentes que se disfarçavam de Lua com alguma intenção ainda desconhecida por nós, humanos. Extraterrestres curiosos, talvez, em saber o porquê de um lugar ao lado da janela de um carro ser tão importante para os pequenos habitantes daquele pedaço de rocha orbitando o Sol. Ao contrário das pessoas andando pela estrada, essa ideia foi derrubada no dia em que eu entendi que esse efeito era o resultado da grande distância entre a Lua e a Terra. Ah! As desvantagens de nos tornarmos adultos.

    Hoje, sou eu que estou na direção do carro enquanto no banco de trás tem apenas uma pessoa. A minha filha que, fosse naqueles anos, seria considerada uma felizarda por ter duas janelas à disposição. Mas ela não olha para nenhuma delas. Ela tem uma janela em sua mão que a leva pra onde quiser. A janela dela é uma tela de smartphone. Janela e tela. Pode até ser uma rima. Semelhantes na sonoridade mas completamente diferentes no resto. Se é melhor agora do que antes? É uma discussão estéril, sem sentido. O tempo não fica estático como a Lua da nossa janela. Ele passa  como passavam aqueles arbustos ou aquelas pessoas na borda das estradas. É assim que é. E é assim que sempre vai ser.

  • Mais Uma Missa

    March 10th, 2023

    Mais um domingo que começa do mesmo jeito. O menino, ainda uma criança de 10 anos de idade, saído cedo de sua cama já está de pé, todo vestido e com cara de poucos amigos. Sua mãe o examina de cima a baixo e faz expressão de reprovação quando olha nos olhos dele. Em seguida, ela lambe os polegares e esfrega cada um deles nos olhos do menino, removendo as remelas insistentes que permaneciam por ali. Não sem ouvir os grunhidos de protesto do filho. Estava finalmente pronto para cumprir a sua missão: acompanhar a avó de 80 anos na missa das 10 horas. Por ser o mais velho, era o escolhido dos pais para ser o guarda costas da senhora, uma católica apostólica romana inveterada, que rezava o terço todas as noites a partir de 20 horas em cochichos intermináveis, talvez contando segredos de estado para os santos ou até para o próprio Senhor, vai saber.

    Seu pai os levava de carro até a frente da igreja. Ele descia e dava as mãos para a senhora que, apesar de idade avançada,  subia a escadaria da igreja com certa diligência, praticamente o puxando o garoto pela mão já que  ele ja não subia com a mesma diligência. Seu ânimo para enfrentar o senta , levanta e ajoelha interminável fustigavam a sua paciência infantil. Subia mais como um condenado do que como uma alma fulgurante pronta para fazer a comunhão com o Senhor Deus Todo Poderoso.

    O padre entra e se dirige até o altar. “Em nome do pai, do filho e do espírito Santo” e neste momento o menino já não está mais de corpo presente na missa.  Sua atenção é sequestrada pelas imagens dos vitrais onde a Via Crucis é descrita em pinturas cheias de expressões faciais em que o sofrimento e a angústia mostravam-se tão saturados quanto as suas cores.

    “Deus todo poderoso tenha compaixão de nós,  perdoe os nossos pecados e nos conduza à vida eterna”/ Eram frases recheadas de culpa, talvez de auto acusação numa clara intenção de barganhar uma bom terreno no pós vida, de preferência la em cima, num lugar que tivesse as nuvens como tapetes. Frases que eram repetidas em tom monotônico e em uníssono por pessoas com o cenhos fechados, alguns tão sofridos quanto o das pinturas nos vitrais. “Eu não sou digno que entreis em minha morada, mas dizei uma só palavra e serei salvo”.

    “Senhor escutai a  nossa prece”. A súplica a sua volta era interminável. Um propelente que fazia aumentar o seu desconforto emocional, afinal, pelo que ouvia, era um condenado desde que tinha vindo ao mundo. Já havia nascido com dívidas impagáveis contraídas por outros.  Quanto peso e quanta responsabilidade. Um um sentimento enozado a lhe arrebatar o peito e a lhe colocar na mesma frequência que aquela gente toda a sua volta. “Senhor eu não sou digno que entreis em minha morada, mas dizei uma só palavra e serei salvo.”

    “Naquele tempo, Jesus disse…”  A Liturgia da Palavra entrava em seus ouvidos era como um refresco gelado descendo pela garganta em um dia calorento de verão. Pelo menos havia ali algumas histórias interessantes, embora os contadores fossem meio inexpressivos. Algumas dignas de filmes. Gente cega que passou a enxergar, água que se transformava em vinho. Pena que o Homilia que se seguia aquelas histórias jogava novamente tudo por terra com aquele discurso enfadonho e eterno proferido pelo padre.

    “E Cristo disse aos seus apóstolos: tomai e comei todos, isso é o meu corpo que que é dado por vós”. A cestinha do dinheiro recém havia passado de mão em mão. A avó tirava uma nota da sua bolsinha preta e dava ao menino para que ele depositasse. “Mas Deus não é o Todo Poderoso? Porque diabos ele precisa de dinheiro?”, pensava o menino para logo sentir calafrios por ter falado diabos na casa do Senhor. “Pronto, agora que eu vou pro inferno de vez.”

    “Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus do Universo. O céu proclama vossa glória. Hosana nas alturas.”  Ainda impactado pelo momento em que o padre bebia o sangue de Cristo numa taça na frente de todos, chegava um único momento com certa alegria no meio daquele culto macabro. Quando ouvia a palavra Hosana, sentia seu coração aquecer um tantinho. Pra ele, Hosanas (ele sempre ouvia no plural) eram anjos que voavam pelo céu em círculos, como que dançando em uma celebração. Nunca procurou saber o que os tais Hosanas significavam. Tinha medo de se decepcionar. Seguiu assim até para ter um momento um pouco mais leve, nem que fosse em cima de um engano.

    “Vão em paz e que o senhor vos acompanhe!”. A frase mais aguardada pelo menino finalmente era mencionada em toda a sua glória. O grande momento da missa, até que enfim, havia chegado. Até a iluminação do mundo inteiro parecia ter mudado de humor. O sol invadia o ambiente pelos vitrais, banhando de cores a nave da igreja. Era capaz até de ver os seus Hosanas  voando em festa sobre a sua pequena cabeça. Levantava-se e já se dirigia célere para a saída, quando sentiu um tranco. Era a avó que segurava as suas mãos, estancando a seu trote feliz para o domingo que ainda tinha pela frente. Ela não saía antes de ouvir os avisos.  “No dia tal vamos celebrar a missa das mãos ensanguentadas de Jesus.”, diz uma senhora baixinha de cabelos cinza que combinavam muito bem com a roupa que vestia. Eles realmente faziam de tudo para puxar o humor do menino pra baixo.

  • A Poesia Que Me Falta.

    February 28th, 2023

    Vim ao mundo com um defeito que se tornou crônico. Sou imune a todo e qualquer estilo de poesia. Por mais que eu tentasse, e eu tentei, não consigo gostar de poesia,  assim como me agradam tantos outros tipos de leitura. Minha consciência – as vezes com a voz dos meus pais, outras com a voz dos meus professores – me repreendia severamente: “Você precisa ler poesia”. “Você tem que ler poesia”. E a cada tentativa frustrada, lá vinham as vozes da minha Consciência para me admoestar. “Seu insensível”, elas repetiam. “Você ainda vai se arrepender”, completavam. E essa chata, desta vez, estava com a razão. A falta de poesia na minha vida causou la seus estragos.

    Por exemplo, graças a essa anomalia, eu virei um purista musical, se é que isso existe. O que eu quero dizer é que eu escuto a música pela música em si. Isso significa que, quando cantada,  a voz de quem canta é apenas mais um instrumento no conjunto inteiro. Dali não saem nem palavras, nem sentenças e, portanto, nem significados. Apenas o som produzido pelas cordas vocais – seria a voz um instrumento de cordas? Eu consigo destacar qualquer instrumento em minha mente. Uma linha do baixo, o timbre da percussão, tudo. Mas, ao fim da música eu fico sem a menor ideia do sobre o que se tratava a letra. Daí que, quando vejo amigos comentando a maravilha que é a letra dessa ou daquela canção, eu me sinto um excluído, quase um abobado. Mas vejam, não é de propósito, eu simplesmente sou, como já disse, imune à poesia.

    Outro efeito catastrófico dessa falta de poesia se manifesta em minha personalidade. Eu me tornei um invejoso. Cada vez que leio a prosa rica em belas figuras de linguagem nos textos de amigos como os da Martha Medeiros ou os do Cássio Zanatta,  sinto uma pontada aqui no peito, o que me enche de culpa – essa outra maldita que junto com a Consciência são duas mulheres a me importunar. São prosas fluídas, ternas, que nos abraçam e nos acariciam por mais cotidiano que seja o assunto em seus parágrafos.  É óbvio que eram ávidos leitores de poesia. Martha, aliás, escreveu, as suas. Já os meus parágrafos, a prosa me parece mais, sei lá, metalizada, factual, econômica ao extremo, um tanto bruta e apressada.

    Incrível como escritores de quem tem intimidade com a poesia conseguem descrever o trivial e torná-lo interessante, dar-lhes um significado que nos fala a alma e não só ao cérebro, transformando qualquer sentença em um sopro de arte. Se eu descrever um poste de iluminação que se acende, vou escrever algo como vejo o poste de iluminação que agora joga o seu facho de luz na rua. Mas seria muito mais epopeico dizer que vislumbro pela janela os postes de iluminação que despejam sua ducha de fótons até formar uma poça de luz no asfalto.  Ou, então, os postes de iluminação se acendem, diligentes,  pontuais em sua missão de arrancar pedaços de penumbra da noite que se anuncia. Sim, um pouco exagerado na abordagem poética, acho que floreado demais, mas por favor, perdoem a minha falta de jeito, afinal, esse é o tema desta pequena porém, verdadeira e dura reflexão. Sou imune a poesia, eu repito. E essa imunidade, ao contrário das outras, nunca me fez bem.

  • O Introvertido Competitivo

    February 14th, 2023

    Segundo Jung, Gabriel pode ser classificado como um cara com tipo psicológico introvertido/pensamento. Muito mais voltado para o seu interior e geralmente de muito pouca fala, um cara que percebe o mundo muito mais pelo seu filtro interior.  Segundo a sua mãe, ele vive com caraminholas na cabeça desde pequeno, época em que tentava esclarecer suas dúvidas com perguntas que a pobre senhora classificava no mínimo como estapafúrdias.

    Coisas como “Aquele arroto que a gente não consegue dar pode se transformar em peido?”  Embora enxergue o mundo sob um forte ponto de vista interno, Gabriel foi um adolescente que conseguia cultivar amizades, raras, mas amizades. Quando fumava um baseado, a sua personalidade dois tomava conta e ele se tornava competitivo, como prova este diálogo que tivemos certa feita no alpendre em frente à minha casa.

    • Você acha que o som existe de fato ou ele é algo relativo? – Gabriel me pergunta com apenas uma sobrancelha levantada.
    • Claro que existe. Se aquela árvore ali cair agora não tem como nós não ouvirmos.
    • Sim óbvio. Mas, se nem nós e nem ninguém estiver a um raio de um quilômetro daqui, ninguém vai ouvir certo?
    • Certo.
    • E ela assim mesmo vai cair, correto?
    • Correto.
    • Mas se ninguém estiver aqui para ouvir, então ela não fez som algum nesse momento, entende? O som, pra existir, precisa de ouvidos. É relativo.
    • Isso não tem nada a ver, porque o árvore caindo faz barulho, independente de estarmos aqui ou não estarmos perto pra ouvir.

    Então ele me olha e levanta ainda mais a sobrancelha, o que me leva a concluir que ele vai vir com aquela pergunta de sempre, para encerrar a questão.

    • Pode provar?

    A minha inesperada resposta vem de bate-pronto.

    • Digamos que ao chegar em casa vemos a árvore tombada. Por sorte, temos uma câmera de vigilância aqui na frente. Pra saber o que aconteceu iriamos ver na gravação como ela caiu. Ver e ouvir. Logo, ela fez barulho mesmo que não estivéssemos aqui.

    Queria retribuir com a minha sobrancelha única levantada para devolver-lhe aquela expressão de superioridade, porém, não nasci com esse dom. Mas me contentei com a sua expressão desenchavida por ter sido derrotado num embate em seu, digamos, campo psicológico. Mas o Gabriel nunca foi de admitir uma derrota. Ficou por um tempo em silêncio. Era capaz até de ouvir as tais caraminholas em sua cabeça maquinando a procura de um novo desafio. Ele ia vender carro aquele contratempo. Depois de alguns minutos, um leve sorriso se forma em sua face. Ele se vira pra mim e a sobrancelha levanta-se como uma lagarta preta  assanhada.

    • Ok, mas me diga uma coisa. Como você sabe que, por exemplo, o verde que eu enxergo, não é pra você o meu vermelho?
    • Como é?
    • Veja, as palavras são apenas uma descrição de fatos e objetos, correto?
    • Lá vem…
    • É, tipo, se eu pudesse ver com os seus olhos eu notaria que a cor que  você chama de verde é a mesma que eu chamo de vermelho, entende?
    • Entendi, mas…?
    • Imagine – interrompe ele ainda mais empolgado- o azul do céu que você enxerga corresponde ao meu laranja? Então o céu que você olha e chama de azul, é como um dia inteiro de entardecer pra mim. Que coisa mais linda!
    • Claro que não. Azul é azul e laranja é laranja.
    • Do ponto de vista das palavras, como ja disse, sim. Mas não do ponto de vista de como cada cérebro processa a luz que entra pelos nossos olhos.
    • Claro que não.

    A sobrancelha levanta ainda mais.

    • Pode provar?
    • …

    Gabriel se recosta na cadeira em que está, reacende o baseado que tinha se apagado a esta altura e me passa com um ar de superioridade.

  • O Ufólogo

    February 2nd, 2023

    Minha vizinha, a dona Maria de Lourdes, é uma senhora encantadora. Aposentada dos Correios, leva uma vida confortável financeiramente, até porque soma-se a sua aposentadoria a pensão do seu Olegário, que Deus o tenha, que trabalhou a vida inteira até se aposentar como gerente de uma agência da Caixa Econômica Federal.  Dona Maria de Lourdes não é uma daquelas aposentadas de pijama. Reúne-se com as amigas semanalmente para participar programas dos mais diversos. Todo ano faz alguma viagem com a sua turma pelo Brasil e pelo  mundo.  A última foi um cruzeiro até Acapulco. Dona Maria de Lourdes vive quase com 100% de despreocupação. O quase, atende pelo nome de Amaral, o filho único.

    Desde pequeno, Amaralzinho mostrava ter um QI muito acima da média. Com dois anos já se aventurava a ler e desde aquela época era apaixonado por tudo o que envolvesse astronomia. Até a adolescência, tanto a dona Maria de Lourdes quanto o seu Olegário viviam orgulhosos com as notas do menino na escola e nutriam grandes expectativas quanto ao futuro dele. “Quem sabe o primeiro prêmio Nobel do Brasil”, repetia sempre que podia a mãe orgulhosa. Mas, foi a partir dos 13 anos que a coisa começou a degringolar. De uma hora para outra, o interesse do Amaralzinho por astronomia tomou um caminho um tanto excêntrico para o parâmetro dos pais. O menino começou a se interessar pela ufologia.

    Amaralzinho passou a consumir tudo o que estivesse ao seu alcance sobre o assunto. Seu livro de cabeceira, Eram os Deuses Astronautas, já estava com o dobro da sua expessura original resultado de inúmeros releituras. Um dos seus itens de maior valor é um porta retrato em que vemos uma foto do Amaralzinho sorridente ao lado de Erik Von Daniken, autor do citado livro, tendo ao fundo a pirâmide de Queops, que o Amaral jura haver evidiencias abundantes de ter sido projeto e obra de alienígenas vindos de um planeta que orbita uma das três estrelas do cinturão de Orion, mais conhecidas como as Três Marias.

    A exemplo da mãe, Amaralzinho também viaja muito, mas suas viagens são temáticas. Fã do programa Alienígenas do Passado, ele ja visitou quase todos os sítios arqueológicos apresentados pelo programa com obras de habitantes vindos das estrelas. Por conta dessa idolatria ao programa, Amarazinho procura deixar seu cabelo parecido com o de Gerogio Tsoukalos, um dos ufologistas que conduz o documentário, uma espécie de popstar da ufologia. Além disso, é habitué em Varginha e Roswell para onde vai pelo menos uma vez por ano.  Apesar da viver apreensiva com as inclinações do filho, seu Olegário e dona Maria de Lourdes eram os patrocinadores destas aventuras do filho. Não conseguiam dizer não a ele.

    Depois da morte do seu Olegário, dona Maria de Lourdes ja não se importava de ter o filho, ja adulto, morando em casa com ela. Era até bom ter a companhia do Amaralzinho, que as vezes passava dias no quarto acessando todos os sites possíveis e imagináveis para colher mais informações sobre visualizações de objetos estranhos voando pelos céus do planeta e assistindo vários podcasts sobre o assunto nas plataformas de streaming de vídeo e audio da internet. E esse era o problema que afligia dona maria de Lourdes. O menino – embora  ja com 35 anos ela ainda o trata assim, de menino – nunca teve namorada.

    • Minha namorada é a ufologia, mamãe.
    • Mas Amaralzinho, será que não existem ufólogas interessantes, bonitas, inteligentes, com  as quais você possa fazer um pouco mais do que procurar discos voadores sob a luz das estrelas?
    • Não há tempo para romances nem para intecursos sexuais, mamãe. A ufologia requer dedicação total.

    Ela bem que tentou apresentar filhas de amigas para travar conhecimento com o Amaralzinho, mas o resultado era invariavelmente o mesmo. Elas saiam das conversas com ele com uma cara de espanto e a passos rapidos querendo estar longe daquele cara o mais rápido possível.

    Mas nossa história tem um final inusitado. Em um final de semana, Amarlzinho saiu  com um grupo de amantes da ufologia para fazer uma vigília na Serra da Beleza a fim de testemunhar naves extraterrestres fazendo evoluções nos céus, e de lá não voltou. O sumiço virou caso de polícia, que passou a investigar o caso com afinco. Os detetives encarregados interrogaram minuciosamente cada pessoa do grupo. Toda vez era a mesma história: na noite do sumiço, eles avistaram um objeto em forma de charuto que passou a uma distância de uns 300 metros de altura se dirigindo para  o norte até pousar atrás de uma elevação. O Amaralzinho foi o único com coragem para ir até o local do pouso. Queria ver tudo de perto tirar fotos, voltar com provas incontestáveis. E de lá jamais voltou. As testemunhas ainda falam que viram o objeto levantar vôo, sem fazer ruído sequer, e riscar o céu em direção ao infinito. A imprensa apelidou o Amaralzinho de o Travis Walton* Brasileiro.

    Dez dias depois, numa tarde de terça feira, dona Maria de Lourdes passava um café em casa, já temendo pelo pior, quando a campainha tocou. Ela abriu a porta e não acreditou no que viu. O Amaralzinho, parado ali, com um olhar extasiado, os cabelos desgrenhados e um sorriso mavioso. Parecia estar em transe. Dona Maria de Lourdes puxou o menino pra dentro e o abraçou e beijou o quanto pode. E depois, por óbvio, quis saber o que tinha acontecido e por onde ele tinha andado. O menino foi curto e grosso. “Fui abduzido, mamãe. Me levaram para o espaço naquela nave em forma de charuto onde fui usado pelas ocupantes como cobaia em um experimento de hibridização entre nossas espécies. Passei o tempo todo mantendo relações sexuais com várias tripulantes.”  De repentes, aquela expressão no rosto do Amaralzinho, aquele sorriso, os olhos,  o cabelo desgrenhado era o testemunho claro de que ele dizia a verdade. Pelo menos em relação ao sexo. Se foram a mulheres de outro planeta ou não, era irrelevante. O que importava naquele momento é que o Amaralzinho agora podia ser chamado por ela de Amaral. Finalmente.

    * Travis Walton foi um lenhador estadounidense que teria sido abduzido por alienígenas em 5/11/1975. Seu caso ficou famoso e teve uma adaptação para o cinema com o nome “Fire In The Sky”

  • Eu, Cabral.

    January 23rd, 2023

    Um dia, não sei quando, meu espírito descobridor se manifestou.

    Descobri que o quarto de empregada, o elevador de serviço e as histórias sobre comer as empregadinhas são uma versão moderna da casa grande e da senzala e, portanto, ainda não saímos do século XIX.

    Descobri que nossa história nos foi muito muito mal contada e, em consequência,  acabei por descobrir o grande número de escravistas, cruéis, bajuladores e criminosos que viraram estátuas,  nomes de ruas e de estradas.

    Descobri que a desigualdade não é consequência das conjunturas, mas dos desejos muito arraigados dentro da alma dos meus vizinhos de classe social, que chamam de vagabundo quem trabalha duro e ganha uma migalha mas idolatram os herdeiros que não produzem coisa alguma.

    Descobri que os bandidos no topo dos morros são expostos enquanto os bandidos dos topos dos prédios são protegidos por um punhado de famílias que têm em suas mãos o grosso daquilo que é chamado de informação.

    Descobri a falta de empatia enrustida sob o manto do cadinho de raças e também descobri que quem define os parâmetros sobre o que te leva para o inferno não acredita no inferno.

    Descobri que um roubo de 40 bilhões pode virar uma inconsistência contábil, dependendo de quem é o autor da obra.

    Um dia, não sei quando, eu descobri o Brasil.

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