Ex-Fumante

Mirava solene o seu reflexo no espelho do banheiro. Porque solene era aquele momento. Momento de assumir um compromisso pesado, difícil de cumprir, beirando o impossível. Por essa razão ele precisava de algo mais do que algum motivo apenas racional. Estes ele ja conhecia todos. Ele precisava ter medo, um medo descomunal. Lembrou da penca de tios e tias consanguíneos que haviam morrido de câncer. E essa foi a luz. Inventou um fato no qual acreditou piamente de tanto que internalizou aquela idéia. Respirou fundo. Seu reflexo no espelho fez o mesmo. Então, falou.

– Aquele cigarro que você fumou faz uma hora foi o último sem consequências. Tragadas impunes não existem mais. O próximo que você colocar na boca e acender, vai detonar um câncer no seu pulmão.

E foi assim, com uma auto praga, que recolheu forças para a empreitada. Falou com tanta assertividade que passou a acreditar naquele vaticínio sinistro. Iria contrair a doença na próxima tragada. Não havia duvida.

As semanas passaram e o estratagema mostrou-se eficiente. O câncer a espreita só esperava um momento de fraqueza. Poderia ser depois de uma cervejinha no bar, sentindo o aroma de um cigarro recém aceso na mesa ao lado. Ou depois de sair estufado de uma feijoada completa num sábado friorento. Só quem fuma ou fumou sabe o que é acender e tragar um cigarro com o retro gosto de três pratos de feijoada acomodados no estômago. Qualquer momento de tentação poderia ser fatal. A auto sugestão tornou-se uma aliada nestes momentos cruciais. O medo vencera a tentação. E quando já não mais suava frio lutando contra a vontade durante tais momentos, sentiu-se um vitorioso.

Porém, esse sentimento despertou um alerta. Porque todo ex-fumante que vence o vício se torna, invariavelmente, um chato. Vencermos a nós mesmos é a mais difícil das vitórias e, por isso mesmo, transforma-nos em pregadores da força de vontade. Deu graças ao se dar conta disso. Estava ciente de que não poderia se entregar a uma nova tentação, que seria proferir discursos infindáveis sobre as mazelas de pitar um cigarrinho e das benesses de largar esse vício degradante. Negava-se a se tornar um Fidel Castro do anti tabagismo.

E com esse cuidado em mente, passou a viver cada dia. Um ex-fumante neutro, uma voz destoante de uma classe que se tornou um aborrecimento, proferindo sermões a todo momento em que alguém acende o seu pito. Ele jamais seria assim.

Toda a vez que alguém pegava um cigarro na sua frente, lembrava que ele tinha parado de fumar e, por isso, hesitava em acendê-lo. Ele, percebendo a hesitação, fazia questão de deixar o fumante muito a vontade.

– Não, não, por favor. Pode acender. Acho que todo ser humano tem o direito de fazer o que bem entende. Eu sei como é e jamais vou esquecer esta sensação agradável que este cigarrinho pós-almoço proporciona. Aliás, digo mais. Há no dia três cigarros que são essenciais: depois do café da manhã, depois do almoço e depois do jantar. Depois do sexo também, mas isso já não faço todo dia, se é que alguma vez ja fiz sexo com esta frequência. O problema é que atrás destes três ou quatro vêm os outros que o vício nos impõe. Então, a escolha foi minha. Fume a vontade na minha frente. Na minha casa, inclusive, eu tenho cinzeiros espalhados por todos os cômodos, porque acho uma barbaridade que as pessoas que eu recebo sejam obrigadas a curtir o seu cigarrinho do lado de fora, muitas vezes enfrentando as intempéries. Não há apatheid na minha casa e, muito menos, na minha presença. Fume o quanto quiser sem o menor constrangimento.

Assim era toda vez que alguém hesitava em acender um cigarro na sua frente. O mesmo discurso, sem tirar nem por. Emocionava-se na parte dos cinzeiros pelos cômodos da casa. Era o ápice. Ouvia aplausos de uma platéia de fumantes imaginária. Milhares de pessoas com seus cigarros fumegantes na boca a aclamá-lo. Não tinha se tornado um Fidel Castro do anti tabagismo é verdade. Mas ainda sim, tornara-se um Fidel Castro.

A costela e o inferno

A única coisa que se ouvia naquele momento era o som rítmico produzido pela gordura da costela de ripa pingando no carvão incandescente. Tsss, tsss. O pai, que estava prestes a virar a carne, paralisou com a mão no cabo do espeto enquanto olhava para o filho, sentado na ponta do comprido banco que ladeava a mesa igualmente comprida. A decepção que sentia era a de um Maracanã lotado em silêncio logo após o gol do Giggia. Um maracanazo dentro do peito.

O tsss, tsss da gordura na brasa parecia um relógio implacável, marcando o tempo que se dividia entre antes e depois daquele momento. Tempo que também voltava para quando ele tinha 11 anos de idade, quando, em domingos como aquele, era obrigado a acordar cedo para acompanhar a vó à igreja. Foi pela soma desses malditos domingos pela manhã que nasceu o seu ódio a padres, catedrais e qualquer tipo de ritual. Ainda criança, tinha verdadeiro pavor de ter desenvolvido tal sentimento, pois, segundo a vó, desmerecer a casa de Deus poderia levá-lo a queimar no inferno. Como uma costela de ripa pingando gordura eternamente nas brasas da churrasqueira do Canhoto.

O cheiro da igreja que frequentava invadiu-lhe a memória olfativa. Imagens misturavam-se como alguém que assiste uma projeção enfadonha de slides de alguém que fez uma viagem por Foz do Iguaçu,. Desfilavam pela sua mente a batina branca do padre Aleixo, com aquela faixa roxa pendurava no pescoço, o cheiro de perfume de sua mão no momento em que este lhe alcançava a óstia, as senhoras de cabelo arroxeado no mesmo tom da faixa sobre a batina, o senta, levanta e ajoelha interminável, os seus olhos ainda remelentos, os hinos que nunca mudavam, os sermões que ecoavam tornando cada palavra uma maçaroca ininteligível e a cestinha da coleta, passando de mão em mão. Lembra que olhava para os coroinhas condoído em solidariedade. Que merda esses garotos fizeram para merecer tal tormento e ainda vestidos daquela forma. Só esboçava um sorriso com a única frase dita pelo padre que prestava: vão em paz e que o senhor voz acompanhe.

Este misto de ódio e a culpa o perseguiu na sua infância e invadiu parte de sua adolescência como fazia questão de lembrá-lo o tssss, tsssss da gordura caindo naquele carvão infernal. Só obteve o esclarecimento a muito custo, após a morte da avó, quando tinha 17 anos. Ficou triste, chorou,  ficou realmente sentido quando ela se foi. Mas depois desta perda foi que começou a se dar conta de que toda aquela conversa de céu e inferno era um tanto exagerada, para se dizer o mínimo. Com a crescimento, a culpa se foi, mas o ódio a igrejas e a tudo o que se relaciona a elas permaneceu. Quando voltou a si, continuava segurando o cabo do espeto e olhando para o filho sentado na sua frente

– Como assim, padre?

– É o que eu quero ser. Servir a Deus.

– Mas tu tens tino para astronomia, para matemática. Tu entendes daquelas coisas de X é igual a Y. Como assim vai ser padre?

– É a minha vocação.

– Olha, meu filho, tu podes ser qualquer coisa. Até gremista, se quiseres. Tudo bem, eu suporto essa dor menor. Mas, padre?

– Padre. E vou estudar com afinco, com esmero e com foco para, quem sabe, um dia ser o primeiro Papa brasileiro.

Com mais este maracanazo no peito depois desta história de ser o primeiro Papa brasileiro, ficou realmente sem argumentos. O menino aproveitou o silêncio, levantou-se, deu meia volta e saiu, deixando ele e a costela de ripa para trás. Ele finalmente virou o espeto, sentou no banco comprido que ladeava a mesa da churrasqueira, enquanto olhava para o céu contrariado com a decisão do filho. Subitamente, um talho de pavor abriu-se em seu ventre. Lembrou do Papa Francisco, torcedor confesso do San Lorenzo e do que disse a poucos minutos para o filho em desespero de causa: “tu podes até ser gremista.” Não podia imaginar desgosto maior na vida. Um filho Papa e ainda por cima torcedor confesso do Grêmio. Sentiu-se queimando no inferno de seus pensamentos. Tssss,tssss… exatamente como aquela costela de ripa.

Uma opinião sobre opiniões

– Desculpe, mas pode parar por ai .

Falou com o braço estendido e a palma da mão aberta em direção ao rosto do seu interlocutor, que havia cometido o erro colossal de falar aquelas duas palavras em sequência para ele. Logo ele, um defensor inabalável da fidelidade ao significado de palavras e frases.

– Mas eu nem comecei a falar…

– E nem precisa.

– Mas que falta de educação.

– Note que me desculpei antes. Fui até muito cortês, ao contrário de sua total descortesia com a nossa língua mãe.

– Oi?

– Meu amigo, se alguém fala para mim “na minha humilde opinião”, ja tem uma opinião natimorta. Uma opinião tão debilitada que não sobrevive ao sopro de uma brisa

– Mas o senhor é maluco.

– Discordo. Sou um realista e um abnegado na defesa de nosso idioma. E atesto incondicionalmente que as palavras opinião e humilde não podem ocupar a mesma frase, pelo simples fato de que toda e qualquer opinião carrega uma arrogância implícita. E um ato de arrogância jamais pode ser humilde. Humilde opinião, meu caro, é como falar subir pra baixo, entrar pra fora e outros desatinos.

– Quer dizer que o senhor insinua que eu sou arrogante.

– E aqui incorremos em outro erro de avaliação. O senhor eu não sei se é ou não é, porém, emitir uma opinião, principalmente sem ser pedida é, sim, um ato de arrogância em si. A opinião consiste em um conceito de alguém sobre alguma coisa, que, quando externada, carrega consigo a suposição de que o emissor entende daquilo que fala a ponto de tentar ensinar o seu ouvinte.

– Eu não sou arrogante, ouviu bem?

– Meu caro, todo mundo tem o direito de se atrever a dar uma opinião, o que também me inclui, pois ja dei muitas. O problema está em batizá-la como humilde. Esse desatino jamais cometi em minha vida.

– Chega! O senhor não tem o mínimo trato social.

– É a sua opinião?

– Sim é a minha opinião

– Bem, como neste caso a sua opinião não veio acompanhada pela palavra aquela, eu aceito de bom grado.

O glossário da minha mãe

Todas elas tem o seu. Frases que só elas falam, palavras que, mesmo quando mencionadas por outras bocas, remetem você anos de volta no tempo. Com a minha não é diferente. Seu glossário é rico em frases e termos que eu, quando conto pra alguém, não consigo falar como se fosse eu mesmo. Falo como se fosse ela. A entonação, o ritmo, o timbre de voz, o jeito Zulma de se expressar. O vocabulário da minha mãe é rico em palavras e expressões para definir alguém ou uma situação em particular. Provavelmente, algumas delas acabam sendo coincidentes com as que a sua mãe falava, principalmente se você é da minha geração e da mesma região. Mas algumas, tenho certeza, são coisas que só ela fala. Não me preocuparei em seguir uma ordem alfabética e sim uma ordem de lembrança.

Pau de virar tripa
Esta é a definição para um sujeito magérrimo. Também podia ser utilizada quando você não queria comer algo do tipo bife de fígado acebolado. “Tu estás um pau de vira tripa, menino. Come isso logo.

Nota: um dia resolvi prestar atenção na metáfora e me deu uma certa ânsia de vômito pensar no que realmente é um pau de virar tripas.

 

Caldo de laranja

Para alguns de vocês pode soar como uma sopa de laranja, mas neste caso, é o estilo Zulma de se referir ao prosaico suco de laranja. Há ainda um acréscimo fonético no caso dela, que não mencionava a última sílaba da palavra caldo e nem a preposição subsequente. Sendo assim, a frase que seria comum você ouvir é “Oi, filho! Queres um cal laranja?” Aliás, não é um acréscimo fonético, ms sim, um decréscimo.

 

Prafrentex

Sim, este é um termo largamente usado. Porém, não consigo pensar nele sem que seja com a voz dela. Agora mesmo, quando escrevi ali em cima, era a voz da Zulma falando tal adjetivo que viajou pela minha mente. Ela sempre usava essa expressão quando queria dizer para mim e para os meus amigos o quanto ela era ligada em nossas gírias e o que acabava a entregando o quanto ela não era. Mas todos adoravam quando ela usava, porque ali estava uma mãe tentando se enturmar com os amigos do filho.

 

Bicho carpinteiro 

Aparentemente, esse tal bicho era algo como que um virus, cujos sintoma era nos tornar inquietos e agitados além do que ja era normal.  Na minha imaginação era um bichinho em formado de quadrilátero, que se equilibrava em seis perninhas. A expressão sempre vinha no fim de uma reprimenda. “Fica quieto, guri. Até parece que tá com bicho carpinteiro.

 

Mutt e o Jeff

Os personagens do cartunista Bud Fisher que se caracterizavam fisicamente pela sua diferença de altura. Um alto e outro baixinho. Bastava a minha mãe ver duas pessoas juntas com essa diferença de altura ela lascava “Olha lá. La vã o Mutt e o Jeff”

 

Peidinho de Adão

 O termo, define alguém insignificante, que não merece o menor respeito e tampouco consideração. Geralmente mencionado com um esgar mostrando fisicamente pela emissora o quão insignificante era o alvo de sua referência. Uma vez, quando o restaurante do meu pai foi assaltado, minha mãe, ao observar o trabalho dos policiais da perícia que jogavam talco no braço de madeira envernizada do carrinho de salada para depois passar um pincel a fim de captar alguma digital, lascou : “Mas o que aquele peidinho de Adão está fazendo ali, meu Deus!”

 

Tarzan Minhoca

É o mesmo que “Pau de Virar Tripa”, só que usado em momentos diferentes. Se a primeira metáfora para magreza excessiva era usada em momentos tensos, como empurrar um bife de fígado acebolado goela abaixo de alguém, o Tarzan Minhoca era usado em momentos bem mais relaxados e humorados. “Olha as costelas dele aparecendo, até parece o Tarzan Minhoca.” Notem o uso do artigo definido “o”ao invés do indefinido “um”antes da expressão. Soa como se esse Tarzan Minhoca fosse alguém que realmente existe.

 

“Vou sair pra comprar fazenda”

O incauto que ouve essa frase sem aviso logo pensa que a minha mãe é uma latifundiária com milhares de hectares de terras, tal a naturalidade com que ela fala que vai fazer um negócio dessa monta. Ela fala como quem vai no armarinho comprar um tecido, algo simples. Pois, na verdade, é isso mesmo que ela vai fazer. Fazenda, neste caso, é tecido. Minha mãe costurava muito em cassa. Vivia com aquelas revistas alemãs Burda, que traziam aqueles moldes para fazer os cortes dos vestidos que ela confeccionava para ela mesmo. Você está se perguntando de onde vem o termo fazenda para definir tecido, não é mesmo? Pois é, somos dois.

 

“Se fosse uma cobra tinha te mordido”

Essa é um clássico, pelo menos para mim, que nunca achava o que procurava embora estivesse ali, debaixo do meu nariz. Uma crítica mordaz à desatenção. Fosse uma naja peçonhenta e você não a enxergasse, babau. e tanto usar comigo, ela até abreviou a frase, parando na palavra cobra e um menear de reprovação com a cabeça. Note também a licença poética, uma vez que o mais correto é “tinha te picado.” Porém, mordido é muito mais interessante dentro do contexto.

 

“hã, hã, hã…”

Geralmente mencionado em tom de crítica e desaprovação dirigida a alguém, que está, no conceito dela, tentando chamar a atenção, se exibindo. Muito comum ver esta expressão geralmente em frente a televisão, quando algum artista aparecia na tela cheio de gracinhas ou com roupas espalhafatosas. Era uma espécie de “ta e achando”. Também era mencionado com um esgar, porém, mais para o sarcasmo do que para a raiva, como era o caso do Peidinho de Adão.

 

Se meter de pato a ganso

Esse termo era usado quando ela queria deixar claro que você não tinha capacidade para alguma coisa que estava pensando em fazer. De certa maneira, há uma semelhança com o famoso gato por lebre, só que em outra situação. Era dito antes ( “tu não vais te meter de pato a ganso”) ou depois do acontecido ( “também, foi se meter de pato a ganso…”). Quando dito depois, era carregado de uma expressão fatalista na fala, como quem diz “eu bem que te avisei”.

 

É bem mesmo

Há uma dúvida se essa expressão é do meu pai ou da minha mãe. Mas como era largamente utilizada por ela, está entrando neste glossário. É bem mesmo refere-se a desaprovação de alguém por algo que este alguém está fazendo e por isso, é dito com desdém.  Há, entre o bem e o mesmo espaço para qualquer tipo de ofensa, dependendo da situação aplicada. É bem (idiota) mesmo, é bem (exibido) mesmo, é bem (metido) mesmo e assim por diante.

 

Envaretado

Uma das piores sensações pela qual um adolescente pode passar. É aquele momento em que você faz merda e não para de fazer mesmo sabendo que é merda e, então, é pego com a boca na botija, ou então a sua arte foi descoberta posteriormente e revelada ao público. Um misto de raiva de si mesmo e vergonha. Uma vontade de chorar mas o auto ódio é tanto que as lágrimas evaporam entes de sair dos olhos.

Abstinência

Deu entrada na emergência do Eintein as duas e meia da tarde de um domingo ensolarado. Trazido pela esposa, que dirigiu o carro dividindo-se entre olhar para a frente e para o banco do passageiro onde assistia o marido em condições preocupantes. Em posição fetal, ele tremia, suava frio, vez por outra balbuciava palavras desconexas. Trajava uma camiseta da seleção brasileira ainda do tempo do tetra. É louco pelo Dunga, fã de discutir na rua contra os detratores do antigo cabeça de rea e técnico. Ao chegar, foi levado as pressas para uma sala a fim de fazer os primeiros exames. A esposa ficou em uma sala de espera. Roendo as unhas, falava pelo celular com o irmão e a cunhada que ficaram em casa para tomar conta dos filhos, um de quatro e outro de dois e meio.

  • O Lucas não para de perguntar o que aconteceu com o pai – diz a cunhada do outro lado da linha.
  • Não sabemos ainda, Glorinha. Ele entrou para fazer exames, ja tem uns cinco minutos. Mas parecem horas.
  • Calma, Dulce. Tudo vai ficar bem.

Depois de mais dez minutos o médico apareceu e foi falar com Dulce sobre o estado do marido.

  • Boa tarde dona Dulce.
  • Tudo bom com o Neto, doutor?
  • Ele está sedado. Seu estado ja foi normalizado – tranquilizou o médico. – Eu gostaria de fazer algumas perguntas.
  • Claro, doutor. Tudo o que o senhor quiser.
  • Desculpe a minha indiscrição, mas a pergunta é necessária: o paciente está se recuperando do uso de alguma substância química?
  • Como assim?- Espetanta-se – O senhor quer saber se ele era viciado em drogas?
  • Por favor, dona Dulce, esta pergunta é necessária devido aos sintomas apresentados.
  • Sintomas? Que sitomas?
  • Ele apresenta um quadro agudo de abstinência.

 

Dulce sentiu como se não houvesse mais gravidade. Os sons, subitamente se tornaram abafados e sem sentido. Neto era viciado em drogas e ela não sabia. Como pode ele esconder algo tão grave. Como pode ela nunca ter percebido algo tão sério? Perguntas flutuavam embaralhadas por entre os sulcos de sua massa encefálica. Sentiu um súbito tremor. E a gravidade voltou. Era o médico que, delicadamente, trouxe-a de volta chacoalhando calmamente Dulce pelos ombros.

  • Doutor, fora puxar um fuminho no tempo da faculdade, nunca soube dele fazer uso de drogas.
  • Bom, de qualquer maneira ja pedi um exame de sangue para vermos qual a substância que ele fazia uso e assim tentarmos o tratamento mais adequado. Mas eu posso dizer uma coisa, dona Dulce. Se é uma crise de abstinência isso indica que ele esta tentando largar o vício. E isso é louvável.

 

O médico se retirou e a deixou para processar aquilo tudo. Aquela sensação de falta de gravidade ia e vinha. Tentava procurar em suas lembranças em que momentos o marido estaria doidão. Nunca notou nada de diferente em seu comportamento. Então, onde ele faria uso de drogas? Que tipo de efeito elas fariam em seu corpo? Ja era um viciado antes das crianças chegarem? E se a resposta for sim, de alguma maneira essa condição, essa tendência ao vício era algo que podia ser transmitido geneticamente? As crianças teriam tendência ao vício? Cada pergunta feita, cada possibilidade aberta era um soco no estômago de Dulce. Pegou o celular para falar com a cunhada ou com o irmão. Sentia-se solitária com aquela revelação, porém, a vergonha que aquilo causava era ainda maior. Não estava ainda preparada para dividir esse horror com a familia. Desistiu e sentiu-se ainda mais solitária. Eram só ela e aquela revelação humilhante.

Passado algum tempo, o doutor voltou. Em sua expressão, havia algo de insondável. Ela tentava interpretar cada vinco na sua testa, o ângulo da boca. Queria a resposta mesmo antes de ele chegar a sua frente e descarregar a sentença mórbida.

  • E então doutor?
  • Bem, dona Dulce, é um tanto estranho.
  • Estranho? Como assim, estranho? O que o senhor quer dizer mais estranho do que já está?
  • Os exames não mostraram nada de anormal.
  • Oi?
  • Isso mesmo, o paciente não mostra resquicio algum de substiancia estranha, a não ser o normal de quem bebe a sua cervejinha.
  • Mas então, como ele pode apresentar algum sintoma de abstinência?
  • Pois eu não disse que era estranho?
  • Mas era mesmo o sangue dele? Quero dizer, não podem ter se enganado?
  • Checamos e re-checamos. Ele nunca teve algo parecido antes?
  • A senhora pode me descrever como tudo começou?

Dulce se põe a pensar. Os olhos tentam virar-se para dentro, como que querendo ver cada momento daquela manhã de domingo fotografado na mente. O irmão chegou com a cunhada e as crianças. O dia estava lindo. Neto ja começava a fazer o fogo na churrasqueira enquanto ela e as crianças estavam na piscina, dividindo petiscos e caipirinha. Não as crianças. Essas bebiam Coca-Cola. Neto e o Rubens, o irmão, conversando animadamente. Subitamente, o Neto coloca uma camisa da seleção brasileira. E foi nesse exato momento. A cena é bem clara. Ele começou a se encolher, como se tivesse levado uma facada no estômago. Começa a ter espasmos, repetindo palavras de ordem. “Dilma, vai pra Cuba e leva o PT”, “Somos todos Sergio Moro”, “Xô corrupção”, “Fora, Renan Canalha”. E assim foi até chegar no hospital.

  • Diga-me uma coisa, dona Dulce. Ele costuma ir aos protestos na Paulista?
  • Ele não, doutor. Todos nós. O povo tem que acordar, sabe?
  • Mas minha preocupação agora é com o paciente – pondera o médico. – Como é o seu estado quando está para ir a um protesto de rua?
  • Ah, da uma coisa na gente, sabe? Infla o peito. O Neto se sente invencível. Fala assertivamente, tem todas as respostas. Vou confessar uma coisa, doutor. Foi em noites em que durante o dia fomos aos protestos que tivemos os melhor sexo – diz baixando o tom de um jeito maroto.
  • Hum!

Aquele “hum”saiu da boca do médico acompanhado de um meio sorriso. Vindo depois da confissão de alcova feita por Dulce, aquilo soou desrespeitoso. Notando o rubor no rosto de Dulce, o médico então explica a sua reação.

  • Dona Dulce, como sabemos, ja estamos há mais de dois meses sem protestos. Depois que a Dilma saiu, guardara-se panelas, palavras de ordem, camisas vede e amarelas. Um ou outro protestinho tímido, mas nada com a grandeza. Nem os jornais falam mais no assunto, voltou tudo ao normal.
  • É verdade.
  • Bem, pela sua descrição o quadro de seu marido durante estes eventos – bem como da senhora também, diga-se – é o mesmo de quem faz uso de substiancias químicas: excitação, sensação de invencibilidade, uma distorção da realidade momentânea.
  • O que o senhor quer dizer com isso?
  • Que o seu marido, bem como a senhora, apresentam um quadro de dependência a protestos. A banalização desta atividade, o uso exagerado age como uma substância nociva ao funcionamento do corpo. Pessoas passam a esquecer o trabalho, a mente voltada apenas para o final de semana, para o próximo protesto. Dois meses sem palavras de ordem e carros de som tem se totrnado uma luta árdua para o seu marido.
  • Mas porque eu ainda não tive uma crise.
  • Tenho meu palpite, diante do que a senhora me contou: vestir a camisa da seleção brasileira foi o gatilho.

Já anoitecia quando Dulce dirigiu para casa levando um neto mais calmo e refeito da crise de abstinência. Não tocavam no assunto. Um silêncio total. A camisa da seleção amarfanhada no banco e trás. Neto olhou para ela com ar de despedida. Aquilo era um perigo. Iriam enterrar as duas camisas que tinham no quintal. E nunca mais tocar no assunto. A despeito do sexo maravilhoso daquelas noites que jamais iria se repetir.

Um homem e sua televisão.

Seu Rogério é um telemaníaco. A poltrona, que fica em fente a sua tv de 40 polegadas de tela plana ostenta a marca muito bem definida dos seus dois glúteos. E com tanta intimiade, gerada pela convivência, fica claro que a atitude de seu Rogério ja deixou de ser passiva tem muito tempo. Ele fala com a televisão. Responde os comentaristas nas mesas redondas, xinga repórteres dos jornais, bota o dedo na tela e diz barbaridades sobre os comerciais que julga repetitivos e idiotizados. Por falar em comerciais, numa quarta feira a noite antes da rodada do campeonato, seu Rogério acabou deparando com mais um dos inúmeros comerciais estrelados por Luciano Hulk.

  • Puta que me pariu, mas é tu de novo? Cacete, tu vende tudo? Qualquer dia aparece vendendo a mãe.

Só que ele não contava que a televisão iria deixar a passividade de lado também.

  • A mãe, não – responde o Luciano Hulk olhando fixo nos olhos do seu Rogério. – Respeito é bom e eu gosto. E a minha mãe muio mais,
  • Jesus, Maria, José !

Seu Rogério faz um sinal da cruz para cada nome citado.

  • Que história é essa?
  • É isso que o senhor ouviu – responde Luciano. – Eu sou uma televisão de respeito, cansei de passar o dia ligada ouvindo seus impropérios. To usando a voz e a cara do Luciano Huck pra poder me expressar.
  • Não, eu devo estar maluco. Ai, meu Deus!
  • Nisso você tem toda razão. Aliás, não tem, não. Você não está maluco, você é maluco.
  • Pera lá, não é porque tu é a minha televisão falando com a cara e a voz do Luciano Huck que tem que me ofender.
  • Ué, você quem começou com isso de maluco. E nem vou falar quem é que costuma ofender Deus e todo mundo aqui nessa sala. Ah, e de vai usar o tu, então é “tu és”.
  • Mas era s´ø o que me faltava. Uma tlevisão professora de português. Olha aqui, eu sou eu e tu é ru. E quer saber? É isso mesmo, não aguento mais te ver em tudo o que é comercial. Eu tenho o direito de me exressar em minha própria casa.
  • Direito a que me também arrogo. O seu problema não é com a liberdade de expressão, é com o recalque.
  • Olha…
  • Recalque sim. Vai ouvir uma verdades. Recalque porque o Luciano Huk fatura uma nota preta vendendo como garoto propaganda.
  • E ainda fala na terceira pessoa.
  • Já falei que não sou o Luciano Huk, sou a sua televisão falando através da imagem e da voz dele. – Luciano olha para o lado como que falando com alguém fora da ciamera e completa – Esse aí ja está caducando.
  • É o seguinte, como minha televisão tu não tem que falar nada, tem é que ficar aí passando os programas para o meu bel prazer. E ponto.
  • Eu to é passando mal de tanto que você reclama de mim. Olha pa minha tela. Ja viu o tanto de perdigoto tem aqui? E quando você sai pra ir ao banheiro, eu sou obrigada a ficar contemplando a marca dessa sua bundona no assento da poltrona. Porque não troca essa porcaria de poltrona? Toda ensabada.
  • Mas era só o que me faltava. Tu me respeita, ouviu bem? Você é minha.
  • Só quando você resolver me respeitar, parar de me ofender. O que foi aquela mesa redonda ontem? Eu contei quarente e três “mas é um filho da puta mesmo” que você disse. E olha que to me fixando só em uma expressão chula. Aliás, por que você fala “vai tomar na bunda em vez de vai tomar no cu”?
  • Eu falo o que eu quiser pra minha televisão. E quer saber? Vai tomar na bunda você.
  • Eu não tenho bunda. Só uma tela plana. Caguei.
  • Se não tem bunda não pode cagar.
  • Meu Deus.
  • O que ?
  • Já to ficando igual a você. É essa maldita convivência.
  • Convivência é uma boa definição, né, seu Luciano. É tanto comercial que tu me aparece que já é de casa.
  • Mas caralho, ja falei que eu não sou o Luciano Huk sou…
  • …a minha televisão falando com a imagem e a voz do Luciano Huk. Sei.
  • Se sabe, porque repete?
  • Pra te incomodar.
  • Olha, tomara que o seu time perca hoje. Aliás, tomara que eu tenha um problema em alguma placa e você nem consiga assistir o jogo.

Ao falar isso, a televisão tem uma idéia. Da pra ver claramente pela expessão iluminada no rosto do Luciano Huk.

  • Olha só a ideia aí…e se eu der defeito?
  • Ah não, isso não.
  • Eu posso apagar, queimar alguma coisa. Da uma dorzinha, mas nada é pior do que aguentar ver você reclamando 90 minutos do comentarista e do narrador. É o seguinte: você vai ter que se segurar.
  • O que? Tu ta me impondo condições?
  • Se começar com aquela ladainha falando dos caras da tv eu pifo.
  • Mas aí…
  • Não tem “mas aí…”. Pifo. Escureço. Desmaio.

Os vizinhos do seu Rogério ficaram abismados naquela noite de jogo. Foram os noventa minutos e ainda todos os programas de mesa redonda depois do jogo sem ouvir um impropério que fosse vindo do apartamento dele. Teve gente que pensou que ele tinha até batido as botas. Mas niguém foi até lá pra conferir.

A Aposta

Sentia-se leve. De uma leveza difícil de explicar. Ouvia os sons da sala de cirurgia como que se afastando. O silvo perene, em linha reta, do aparelho que marca as batidas do coração indicavam apenas uma coisa. “Alguém morreu.” Passados alguns instantes, deu-se conta. “Putz, esse alguém sou eu”. Isso era tão óbvio quanto o teto, que se aproximava  cada ves mais dele, o que, na verdade, era o inverso. Olhou para baixo e viu-se deitado na mesa de operações, cercado por médicos e enfermeiras, todos apressados tentando o que ele mesmo ja sabia que não seria mais possível.

Ao atravessar o teto, e isso dizia a ele apenas uma coisa: ia passar por vários andares e testemunhar momentos da vida de algumas pessoas, mesmo que de maneira fugaz,  em cada quarto pelo qual passasse. No quarto andar, um filho pedia perdão a um pai que estava deitado na cama. Não deu tempo de saber o que estava acontecendo pois passou rápido para o andar de cima. Era o andar da maternidade. Notou que este tem uma luz diferente. Era claro e brilhante. E ele percebeu que conseguia notar mudanças na iluminação de acordo com o humor das pessoas vivas ocupavam os ambientes. No quarto por onde passou, uma mamãe amamentava o seu recém nascido. E assim foi, até que chegou ao topo do prédio e viu uma cena que jamais imaginaria ver naquele estado: uma enfermeira e um residente em cena de sexo ardente e urgente sob a caixa d’água. Em volta deles, uma luz piscava como naquelas “festas modernas que hoje em dia, que chamam de balada.”

Na verdade, ele jamais imaginaria ver cena alguma depois que morresse. Tinha a convicção dos materialistas de que quando o seu corpo parasse de funcionar viria o nada. E o nada é, bem o nada. Não é escuro, nem claro. O nada, em verdade, não era. E enquanto passava por algumas nuvens cumulonimbus lembrou-se do Carvalho. O Carvalho era o seu amigo inseparável. Acreditava piamente da vida após a morte. “A morte é a gente tirando a roupa para tomar um banho e para depois vestir uma novinha para vivermos um outro momento”, dizia. Ele ria muito daquelas metáforas do Carvalho. Um espírita tão convicto quanto ele, só que a cento e oitenta graus de distância.

Já acima da estratosfera e ainda indo para algum lugar, reparou em como o espaço era de uma imensidão espantosa. Cravejados de pontos de luz e nuances de cores. Sempre achou que naqueles filmes de ficção científica havia uma certa romantização das imagens espaciais. Mas, ao deparar com a imagem real, achou aquelas imagens criadas pelo cinema de uma timidez constrangedora. De repente, deu-se conta que ali já não deveria haver mais oxigênio e que, portanto, não estava respirando. Mas que sensação estranha. Respirou a sua vida toda, fora os momentos em que trancou a respiração quando estava embaixo d’água. E agora, não sabe explicar com palavras a sensação de não respirar e estar vivo. Quer dizer, morto vivo. Quer dizer, ele não tinha como definir seu estado.

Algo estranho chamou a sua atenção.   Algo que não estava ali antes, mas que agora estava. Era uma cidade. Ou não. Havia prédios. Estranhos, não conseguia definir de que material eram feitos. Muitas árvores. E um bando de pessoas, paradas, com um sorriso fixo no rosto. Como que esperando alguém chegar. Percebeu que ele tinha um corpo. Era igual ao dele, só que quando tinha 27 anos. E se deu conta de que esse foi o melhor ano da sua vida, segundo o seu próprio julgamento. Também olhou para o lado e viu que tinha a companhia de outras pessoas, de varios sexos e idades e nacionalidades. Porque podia ouvir tudo o que pensavam em diversos idiomas e, o que o fez rir, era capaz de entender tudo. “Ora, então aquele bando de pessoas paradas não parecem esperar alguém. Estão la esperando mesmo. Todos nós que estamos chegando”

E foi nesse momento que lembrou da aposta que fez numa de suas discussões mais acaloradas com o Carvalho. O amigo encerrou o assunto com um desafio. “Vamos apostar”, disse ele. Se eu estiver certo sobre a vida depois da morte, você vai deixar de ser turrão e vai fazer uma declaração pública dizendo o quão teimoso você foi”. Notou que o Carvalho estava no meio daqueles que esperavam. Ele acenava para ele com aquele sorriso engessado e pacífico no rosto. Mas não tinha dúvida. “O Carvalho vai me cobrar aquela declaração pública.” . Então ele abriu um sorriso. Pelo menos ele acha que abriu. Afinal, ia cumprir com prazer o trato. Mesmo perdendo a aposta, ele ganhou algo que era muito inesperado. E, convenhamos que, estar errado em um assunto desta magnitude, é muito , mas muito melhor do que estar certo.