Ela

É engraçado como todas pessoas a enaltecem antes de realmente conhecê-la. Símbolo máximo da nobreza humana, dizem todos, uma qualidade rara que deve ser exaltada a todo custo. E nos ensinam, quando crianças, que a sua companhia constante vai nos glorificar pela vida toda. Seremos retos, impolutos e dignos. Falam assim da Verdade, essa mulher tão especial, que nos purificará de qualquer pecado. Até a gente ser apresentado a ela…de verdade.

A Verdade não é aquilo que os adultos falavam da Verdade. Nunca foi. A Verdade é uma cama de pregos em que a gente deita, sendo que não temos a força de vontade do faquir. A Verdade, que nos pintaram tão linda, pode ter o rosto tão deformado e desproporcional que mal conseguimos encarar. Isso acontece muito, aliás, quando ela nos reflete em algum espelho que cruzamos pelo caminho.

A verdade não se altera, é irritante. Por mais que gritemos com ela, a resposta vêm monotônica e suave, com os olhos serenos, semi cerrados como as de um Buda em meditação, sempre dizendo o que tem que nos dizer. E não adianta taparmos os nossos ouvidos, porque a maldita tem o dom da telepatia. Isso significa, obviamente, que, se a trancarmos em uma cela qualquer, ainda sim vamos continuar ouvindo o que ela tem a nos dizer. A Verdade é uma torturadora inclemente. E tortura com aqueles olhos serenos de Buda em meditação.

A Verdade não é bem vinda nos círculos sociais. Ela não da tapinha nas costas e nem sorri, embora não seja carrancuda. Já falei da expressão do Buda em meditação? Certo, estou sendo repetitivo. A verdade é má companhia. Quando você é visto andando com ela, as pessoas comentam, cochicham coisas ruins sobre você nas suas costas. enfim, você não verá a Verdade circulando em eventos e festas. Ninguém a convida. E se aparece, é porque furou, invadiu com ajuda de alguém que jamais vai ser convidado para nenhuma festa ou evento outra vez.

A verdade não fotografa bem. Sempre sai com aquela cara feia que as vezes lhe é peculiar. Aquela que descrevi no segundo parágrafo. Deve ser por isso que a Verdade não tem Feicebuque. E se tivesse, não teria nenhuma curtida em seus posts, porque não teria um mísero amigo. Mas ela não se importaria se assim fosse. Porque, para irritação geral, a verdade é desprovida de ego.

A Verdade é tão peculiar, mas tão peculiar, que a primeira coisa que ouvimos sobre ela, quando somos crianças é, justamente, uma Mentira.

Furúnculo

Outro dia passava pelas redes sociais quando um post chamou a minha atenção. Um curso para escritores convidava aqueles que “adoram escrever” a experimentar algumas aulas. O primeiro sentimento ao ler aquele “adoram escrever” foi de incredulidade. Eu escrevo. Pautei minha vida profissional numa atividade em que escrever é essencial. Tenho minhas crônicas e posso garantir que eu não adoro escrever. Eu fujo de escrever. Invento desculpas para não sentar na frente de um computador com word vazio esperando algum preenchimento. Escrever dói. Porém, é um mal necessário. Por isso, garanto que jamais faria um curso ministrado por alguém que adore escrever. Essa pessoa é mentirosa.

Escrever, seja lá o que for, acho que até uma bula de remédio, é um exercício sofrido, trabalhoso e enfadonho. Todo o escritor com quem tive a oportunidade de trocar ideias já me deu seu testemunho nesse sentido. Escrever é como tirar um corpo estranho de dentro da gente. Algo que incha, que nos incomoda na medida em que permanece dentro de nós, crescendo e se acumulando. Livrar-se de um corpo estranho pressupõe sofrimento e dor lancinante. Escrever é espremer um furúnculo. E quanto mais demora, mais doloroso é.

Os dois processos, levam tempo, dão trabalho e doem muito. No caso do furúnculo. quando finalmente aquela membrana estoura e vemos aquele muco amarelado jorrando tal qual um Vesúvio particular nos vêm aquele sorriso no rosto. Este sorriso que muitas vezes é confundido com prazer. Mas não é. Nem de perto. Esse sorriso é alívio. O ato de escrever é o ato de espremer. Não admira que as palavras até se assemelhem. Você espreme e o pus vai saindo em forma de sílabas, palavras, frases, parágrafos, sentido. Quando coloco o ponto final, aquilo que tem antes dele é pus. Grosso, gosmento, mas que não mais faz parte de mim. Não está mais aqui dentro acumulando, forçando a pele, incomodando. Ele agora é do mundo. Em mim se torna apenas uma cicatriz que aos pouco seca até não sobrar nada da ferida.

Mas o problema é que quem escreve sofre de furunculose. Escrever é uma condição crônica. Não existe inspiração. Quando menos se espera, surge  mais um furúnculo e quanto mais você espera achando que ele vai ser absorvido pelo corpo ele só faz crescer, ficando mais dolorido, sensível e incômodo. Portanto, repito: não há prazer algum em escrever. Se alguém disser que adora escrever então não escreve, faz outra coisa. Escrever é uma necessidade profilática, assim como o é lancetar uma infecção. Só não é tão nojento.

Histórias de um sobrado – A raspinha.

Tudo começava com o som da batedeira. Era o aviso do que eu considerava o grande momento da semana. Sábado era dia de bolo. Mas o bolo não era o mais importante e sim aquilo que a minha mãe batizou de a raspinha. Quando o som da batedeira começava a ecoar pela casa, eu largava o que estivesse fazendo para ficar plantado na porta da cozinha, esperando a mistura da massa ganhar a consistência ideal. Era o momento em que a minha mãe despejava a massa na forma e, com um sorriso de quem agrada um filho, estendia as mãos que seguravam o pote da batedeira em minha direção e dizia “Ó, a raspinha.”

 

Lembro até hoje do aroma doce e da massa crua, amarelada pelo presença dos ovos, contra o fundo branco do pote. As hélices da batedeira vinham junto, besuntados que estavam de massa crua e doce. Eu as lambia primeiro, deixava-as brilhando. Depois, pegava uma colher e raspava toda a sobra que havia ficado no pote da batedeira. O inigualável sabor doce de consistência pastosa que eu adorava apertar contra o céu da boca até a massa escorrer pelas laterais da língua caindo como cascata sobre os molares. inferiores.

 

A raspinha era uma toda minha. Fui soberano daquele território, sábado sim e outro também. Mas, se até o Império Romano, apesar de toda sua opulência e poder, acabou caindo para os bárbaros, não seria o meu domínio sobre a raspinha que ia durar pela eternidade. Subitamente, passei a ter que dividi-la com o meu irmão, que ja alcançava a consciência necessária para perceber que aquele som da batedeira trazia a promessa de um momento de êxtase, embora naquela idade não conhecíamos tal palavra.

 

Não esqueço o primeiro “Ó, a raspinha” que minha mãe pronunciou sem ser exclusividade minha. Aquele pote no final doe seus braços estendidos não era mais só pra mim. Ao meu lado, estava o meu irmão menor, cujo sorriso era a imagem de um cachorro balançando o rabo para um suculento bife. O termo dividir irmãmente é um trauma. Quando vi meu irmão pegar uma das hélices e lamber com aquela sofreguidão, tirando metade do meu prazer semanal foi uma dor quase insuportável. Segurava a minha hélice com uma das mãos mas, em vez de lambê-la, apenas conseguia fitar com horror o meu irmão fazendo tomando aquilo que era meu por direito hereditário. Nunca mais eu teria duas hélices besuntadas de raspinha só pra mim. Muito menos a quantidade inteira do do pote. Novos e tenebrosos tempos haviam se abatido sobre o meu império.

 

Mas eu não iria deixar aquilo barato. Passei a usar subterfúgios para para perder o mínimo possível. No princípio, eram sutis, como pegar uma colher maior do que a do meu irmão para raspar o pote, o que não durou duas semana sem que ele notasse e passasse a pegar uma colher igual a minha. Perseguia a minha mãe sorrateiramente até a cozinha e quando ela armava todo o circo para fazer o bolo, fechava a porta da para que o barulho da batedeira fosse abafado e o meu irmão não pudesse ouvir, o que se mostrou um rotundo fracasso. Maldita batedeira barulhenta.

 

Como meios sutis não estavam dando certo, só havia uma saída. Tinha que declarar guerra e partir para meios mais violentos como pegar o pote da mão dele e sair correndo, cuspir nas duas hélices antes que ele começasse a lamber a dele e assim me apoderar das duas. A retaliação foi uma questão de tempo. A disputa tomou proporções inimagináveis, saindo da cozinha e se estendendo pela casa inteira, principalmente quando um de nós pegava o pote antes do outro e saía correndo para o quarto, trancando a porta por dentro e se deliciando sozinho coma guloseima.

 

Quando um armistício já não era mais possível, eis que o imponderável acontece. Mais um irmão entraria na disputa. Um terceiro irmão para disputar aquele território dourado. A nossa Caxemira, agora, tinha um novo interessado. E as alianças começaram a ser feitas. Eram os aliados contra mim. Não suportei a força de adversários unidos. E também ja estava ficando com interesses diversos, coisa característica de minha idade mais avançada. Entreguei os pontos, deixando os antes aliados como adversários. Me divertia assistindo os dois ocupados com a guerra enquanto comia mais bolo do que eles. Amadurecer primeiro tinha lá suas vantagens.

Histórias de um sobrado – O abacateiro.

Outro dia escrevendo sobre uma passagem nos idos de 1969 acabei mencionando um abacateiro que ficava nos fundos do sobrado que eu morava quando criança. Aquele abacateiro, aliás, foi a melhor explicação para eu entender o significado da palavra independência. E por que digo isso? Simples, enquanto meus vizinhos tinham que tirar cruzeiros novos para adquirir seus abacates em alguma fruteira ou supermercado, nós tínhamos a felicidade de apenas que colher o fruto verde que dava na frondosa árvore, isso quando ela nos poupava o esforço, jogando no chão os abacates para que apenas apanhássemos. Minha mãe até dava uma esnobada e, vez por outra, cedia o excesso de produção a parentes e vizinhos.

Aquele abacateiro fazia parte da família e, pelo menos uma vez por semana, minha mãe fazia o seu inconfundível creme de abacate. Consistia num creme verde e doce, provavelmente misturando nacos da fruta – tirados com a colher margeando a casca por dentro – com leite e açúcar no liquidificador. Era uma delicia, embora, pela sua coloração e consistência, poderia muito bem ser usado como vômito em filmes de terror. Mas isso nunca me afetou. Gostava de colocar o creme em um pratinho pirex fundo e me deleitar pressionando o creme contra o céu da boca, fazendo com que o fluído pastoso e doce escapasse pelos espaços possíveis, inundando outras regiões da boca. Algo como aquela sensação de pisar com o pé no lodo no fundo de um rio, só que boa e doce.

Mas o abacateiro me deu muito mais do que deliciosas sobremesas e vitaminas, que a minha mãe chamava de batida de abacate, o que poderia ser confundido por algum incauto com a tentativa de uma mãe cruel de tentar embebedar seu filho de nove anos, mas que era apenas um vício de linguagem. Não havia sequer uma gota de álcool na bebida, asseguro a vocês.

Assistir televisão era um programa sagrado para mim e, desde aquela época, adorava me perder em várias séries, principalmente de ficção científica, cujos episódios eu ia prontamente emular nos fundos da casa. E o abacateiro com isso? Ora, ele fazia parte das minhas aventuras, geralmente sendo um horrendo monstro que atacava o nosso desprotegido planeta. Entre os seus papéis, destacaram-se um monstro planta que habitava o fundo do mar, o lagarto esverdeado e viscoso vindo de Júpiter e uma aranha de noventa patas vindos de Andrômeda. Perdi a conta de quantas vezes destruí o abacateiro monstro.

Saía das lutas extenuado, pois o abacateiro sempre fora um duro adversário. Extenuado e faminto. Não era incomum eu abrir a geladeira para ver o que podia saciar minha fome e lá estava o creme de abacate. Eu enchia o meu pirex e apreciava o sangue do monstro derrotado várias vezes na semana. Era o meu direito como um grande caçador galáctico e salvador do planeta. Até um novo ser entrar na cozinha e me dar uma bronca porque aquele creme era pra ser comido a noite. Por mais intrépido que o caçador galáctico fosse, não era páreo para a sua própria mãe.

Histórias de um sobrado – A árvore de natal.

Vivi no sobrado da Márcilio Dias até pouco depois de julho de 1970. Os primeiros Natais da minha vida foram passados lá. E quando se fala em Natal, uma das imagens mais icônicas sobre a data que nos vem a cabeça é o pinheiro verde, com farta decoração composta de luzes, bolas coloridas e toda sorte de quinquilharia. Nesta época cada casa tinha o seu pinheiro, artificial ou de verdade, ocupando um lugar destacado na sala.  Em todas as casas de amigos, parentes, do mundo inteiro adotavam um pinheiro como a decoração principal, menos uma: o sobrado da Marcilio Dias.

Não que fôssemos uma espécie de família gaulesa, resistindo bravamente a invasão estrangeira. Tínhamos a nossa árvore de Natal, é claro. Porém, era uma árvore completamente diversa de qualquer outra conhecida. Era a árvore de Natal dos Silva, única no mundo com características tão próprias quanto um ornitorrinco. Pelo menos era assim que uma criança como eu pensava, contrariado, naqueles dias.

A criação era do meu pai. Nossa arvore natalina consistia em um pedaço de arvore seco, e morto, que ele recolhia do chão em algum parque da cidade. Este pedaço era a miniatura da árvore a qual pertencia, só que sem folhas, formado por galho principal mais grosso que se abria em vários galhos mais delgados. Além disso, nossa árvore era formada por um galão de tintas Renner vazio, o qual era enchido com areia ou terra, servindo de base para a nossa árvore natalina, onde o galho seria fincado. O galão seria revestido com papel celofane azul. A galhada ganharia um tom prateado, graças ao spray de tinta prata, com cheiro pronunciado que à época interpretava como querosene. A lata de spray tinha uma bola metálica dentro, que fazia um som bem característico cada vez que o meu pai agitava o recipiente para misturar o composto brilhante contido lá dentro. Aquele odor químico e o som ritmado da bola metálica dentro da lata de spray de tinta foi, por muitos anos, o aviso que o Natal já estava no ar. Literalmente.

Assim que a tinta secava, a decoração era completa com bolas penduradas nas pontas dos galhos mais finos, um pouco de algodão circundando a árvore, imitando neve, e as luzes coloridas. Eu olhava para a obra e, como criança que sempre quer fazer parte do grupo, sentia-me à parte do resto do mundo, onde frondosos pinheiros eram regra a decorar o Natal, enquanto eu tinha uma peça que mais parecia saída de um cenário mambembe de algum episódio de Jornada nas Estrelas original.

Porém, olhando para trás, percebo como fui injusto com meu velho. A árvore, pela foto que aparece na minha mente, era simplesmente genial. Uma obra de criação muito adiante de seu tempo. Em primeiro lugar porque carregava noções de reciclagem, já que usava galhos mortos em vez da agressão que eram os pinheiros vivos sendo divididos em pedaços com o único intuito de gerar lucro para o vendedor, que se aproveitava do período onde pessoas queriam  satisfazer o capricho de uma tradição. Em segundo, porque me mostrou que criar algo realmente novo é uma tarefa que nos torna solitários e criticados, condições às quais devemos abraçar se quisermos chegar a lugares onde ninguém esteve. Aquelas árvores foram, sem dúvida, o presente de Natal mais precioso que eu ganhei.

 

 

Maldita Genética

Carlos foi péssimo aluno em biologia. Detestava a matéria com todas as suas forças. Mitose e meiose eram termos que lhe davam ânsias de vômito. Adorava ervilhas até o dia em que teve de aprender sobre Mendel e suas famigeradas ervilhas. Passou a ter calafrios quando cruzava com as pequenas esferas verdes em seu prato. Recusava sem dó nem piedade. O suflê de ervilhas, o seu preferido, após o encontro com Mendel na sala de aula, tornou-se prato non grato, para estupefação de sua mãe.

Por falar em Mendel e as maravilhas da genética, este seu fraco desempenho escolar na área viria a causar uma situação insólita na vida adulta. O fato aconteceu em um restaurante, onde Carlos almoçava com amigos. Dotado de uma bexiga com capacidade reduzida, que ele definia como a menor bexiga do mundo, Carlos precisou se levantar antes mesmo de ser servido o prato principal, visto que dividia uma garrafa de vinho com os presentes. Nem bem terminou a primeira taça e já teve que atender o chamado da natureza.

Levantou-se e se dirigiu ao toalete. O seu drama pessoal começou quando se deparou com as portas dos dois toaletes. Em vez de estarem identificadas com o tradicional M e F ou o M e H, definindo o banheiro correto a que devia se dirigir, ele encontrou dois ícones da, vejam só, genética. Numa porta havia as letras XY, na outra as letras XX . Assim, jogados em sua cara. Sem dó nem piedade.

Deteve-se praguejando dentro da mente. Por que demônios o dono daquele restaurante tinha que recorrer logo a genética para indicar o sexo de cada toalete?  Não podia pelo menos escrever aquelas letras em rosa e azul?  Olhou para o lado e pensou em perguntar para algum garçom, porém, desconsiderou tal hipótese porque não queria, de maneira alguma, parecer um ignorante em biologia, o que realmente era. Esse prazer ele não ia dar a ninguém.

Largou a biologia e se agarrou a lógica estatística. Tinha 50% de chances de entrar no banheiro correto. Ao olhar para os ícones, tentou formular alguma teoria que o ajudasse a aumentar assuas chances de acerto na escolha. Mulheres são muito mais argumentativas do que os homens, foi o que lhe passou pela cabeça. Com elas o sim poder ser não, tudo tem um duplo sentido. Já com a gente é pão pão, queijo queijo. Diante de tão acachapante argumento, não havia como errar. O homem só poderia ser o XX. Taxativo. É X e pronto. Nenhum duplo sentido. Entrou porta adentro resoluto. E saiu aos berros de um punhado de moças que estavam lá dentro exercendo o seu direito de trocar ideias enquanto aliviavam as suas bexigas. Não sem antes ser alvo de disparos das câmeras fotográficas dos celulares que cada uma delas carregava.

Não eram um punhado de mulheres apenas. Mas de ativistas feministas que mantinham um grupo de conscientização contra o assédio sexual, todas famosas nas redes sociais, com milhares de seguidores, que se depararam com várias fotos de um assediador que ainda tentou enganá-las com a desculpa esfarrapada de que havia se confundido com os ícones da porta do banheiro, pois nunca fora bom em biologia.

Carlos saiu do restaurante direto para casa, não escapando de virulentos ataques virtuais, de uma demissão online, via inbox, de uma separação traumática e de um consequente um distúrbio nervoso. Demorou, mas acabou se recuperando. Não totalmente, é verdade. Só de ouvir falar em ervilhas ainda é tomado por uma imediata sudorese gelada, além de ser aturdido por uma tremedeira incontrolável, que dura cerca de um minuto. Maldito Mendel.

Histórias de um sobrado – O dia em que orbitei a lua.

Era um entusiasta da corrida espacial, que se intensificou nos anos 60 e que teve o seu auge em 20 de Julho de 1969. Tinha oito anos de idade. Tentava me colocar no lugar daqueles astronautas dentro de cápsulas espaciais apertadas. Imaginava como seria estar envolto pelo céu estrelado, que agora não é mais céu, porque há estrelas para onde quer que o olhar se dirija, até no chão. Sentia um frio na barriga ao perceber que a fantasia das histórias em quadrinho e das séries de televisão estava se encontrando com a realidade. O homem ia para o espaço. O homem ia pousar e andar na lua.

Que época para se estar vivo, para ser uma criança. Uma testemunha em preto e branco da história, ja que não existia ainda a tv a cores. Passei aquele dia em um estado de excitação tremendo. Cada hora parecendo três vezes mais. Quantos como eu, ao redor do mundo, não brincaram de andar pela superfície da lua nos fundos da casa? O nosso abacateiro como testemunha daquele intrépido garoto andando em sua lua imaginária, tentando adiantar as ocorrências que iriam transformar a noção de cada ser humano sobre si mesmo.

Minha excitação ó fazia aumentar na medida em que o dia avançava até alcançar a noite, o que acabou acontecendo. A lua despontou no céu e por um tempo posicionei-me ao lado do abacateiro. Sentado na escada de três degraus que dava para a entrada do galpão de ferramentas do meu pai, a mesma escada que a tarde fizera as vezes de escada do módulo lunar imaginário. Eu olhava para aquela esfera leitosa no céu, quer dizer, não bem uma esfera, porque a sombra da Terra intrometia-se na geometria de seu satélite natural, como que metendo a cabeça na frente do sol para também ver de perto o homem pousar ali. O céu de inverno estava limpo e estrelado. Será que podia ver a capsula chegando na lua dali onde estava? Forcei os olhos com o desejo redobrado de testemunhar aquilo a olho nu. Em vão.

Minha mãe o chamou para jantar. Ainda faltava algum tempo para o grande acontecimento do dia. Mas, o estômago cheio somado a adrenalina do dia a esperar, causaram um efeito indesejado. Peguei no sono ainda no sofá. Muito antes do acontecimento. Um sono tão profundo que os pais não tiveram outra alternativa a não ser colocá-lo na cama, que ficava no quarto no andar de cima do sobrado. Aquele sono profundo me colocou no espaço. Dentro da cápsula, com os três astronautas que se aproximavam da lua. Que sensação inexplicável era aquela. Os três astronautas, indiferentes a minha presença ali dentro, trabalhavam de um jeito mecânico a cumprir cada tarefa. O momento se aproximava. Um dos astronautas, finalmente, deu-se conta de havia mais alguém ali com eles. Ele olhou para o menino, lançou-lhe um sorriso e, numa voz calma falou-lhe “É agora. Não dá para você ficar aqui. Acorda.”

Abri os olhos em sobressalto. Estava na cama. Como assim, na cama? A luz tremeluzente vindo do aparelho de tv Philco na sala lá embaixo refletia na parede do corredor. Meu coração disparou. Teria perdido o grande momento que ia ser transmitido direto via Embratel? Saí em disparada. Havia os 17 degraus da escada para vencer até chegar à sala onde estava a tv. Mas eu não desci. Sentei em um dos degraus porque dali era possível ver a televisão. O resto é o que todo mundo ja sabe. Nunca contei para ninguém que estive lá em cima com eles até ser acordado. Apenas fiquei ali sentado no degrau da escada testemunhando tudo. Um pouco mais perto da lua do que os seus pais la embaixo.