O redator ligou para o diretor de arte ainda a caminho da agência de publicidade onde trabalhava. Estava excitado e nem percebeu a multa que lhe foi aplicada por estar falando ao celular e dirigindo ao mesmo tempo. E se tivesse percebido, tanto faria. Ele estava inebriado, de um jeito que só quem tem idéias que acha grandiosas pode ficar. Era um “insight genial”, segundo suas palavras. Genial era, aliás, a sua palavra predileta. Usava-a muito mais urante um dia do que sabonete para lavar as mãos. Do lado de lá do telefone, o diretor de arte tentava falar mas o ele não deixava. Sua boca era uma mangueira descontrolada a jorrar palavras. Ele tivera uma idéia para um anúncio que seria “o mais tocante e relevante da história da propaganda”. Mas tudo devia ser muito bem feito, o layout devia ajudar a potencializar a “dramaticidade da peça.” Mandou a idéia com texto ja esboçado, pelo e-mail do celular, para que o colega já pudesse ir pensando em como tasnformar a idéia em peça palpável e memorável. Este estava empolgadíssimo com o que acabara de ouvir. Iria se jogar com afinco ao projeto. Ia ser realmente genial. Uma obra da propaganfa impressa que poderia catapultar aquelas duas jovens de promessas a grandes nomes. Com direito a sobrenome.
O anúncio era uma reflexão sobre os valores deturpados disceminados pelo país, usando a morte de uma grande dama da dramaturgia, que por suas ações, que iam além das novelas e do teatro, tinha um significado muito maior do que a própria carreirra. Tratava-se de uma dama. Uma diva. Uma heroína nacional. O anúncio era econômico nas palavras, mas com a imagem que se imaginava para complementar aquelas poucas palavras, tornaria-se a mensagem arrasadora e pungente. Só havia uma pequena questão. Uma pedra no sapato. Um percalço a ser superado. A grande dama, motivo do anúncio póstumo, ainda não havia morrido.
Não fazia a menor diferença no momento. O importante era acabar a peça. Quando o redator entrou na agência, o diretor de arte já tinha um esboço na tela do computador. “Não estou feliz com essa foto”, pondera o diretor de arte, com a concordância do redator. A peça está ali, mas falta a foto que vai transformar aquele bom anúncio em algo arrebatador. Os dois se jogaram numa louca pesquisa e, finalmente, o diretor de arte acabou lembrando de uma foto em que a atriz está em cena numa representação de A Megera Domada. Aquela foto, em preto e branco, era a o encaixe perfeito. A expressão no rosto, a nuância dos tons de cinza e a força do próprio personagem eram as palavras não escritas que completavam o todo com uma força incomparável. Uma hora depois, o anúncio estava inteiro na tela do computdor. Era mesmo arrasador, implacável e ao mesmo tempo suave. Aquela era uma peça que iria para o Hall da Fama da publicidade. Eles estavam convencidos disso. Mas, mais uma vez, tinha aquele pequeno, mas decisivo porém. A grande dama estava viva e gozava de boa saúde. E sem a sua providencial morte, o anúncio permaneceria encarcerado em um arquivo de computador. Estaria privado de ser compartilhado com o mundo.
Passavam-se os dias, as semanas, os meses. O redator e o diretor de arte passaram a sofrer imensamente com a situação. Abriam, vez por outra, na tela, o anúncio fatídico. Comtemplavam-no e, tristonhos, o guardavam novamente naquele mesmo arquivo no computador. A grande dama continuava viva e cada vez mais saudável. Atuava em uma peça de estrodoso sucesso. Aquele anúncio levaria anos para conhecer as páginas de uma revista. Disso não tinham dúvidas. A carreria dos dois não poderia esperar por tanto tempo. Era isso que pensava o redator, que, diferente do diretor de arte, estava obsecado com a idéia de fazer o anúncio ser visto.
Um dia, completamente cego por essa obsessão, o redator volta para casa decidido. Ja em seu apartamento, passou a procurar um gorro de lã, que deixava apenas os olhos a mostra, que ele tinha certeza que ainda tinha. Acabou encontrando-o. Vestiu e colocou um óculos escuro. Estava irreconhecível. Abriu o seu armário e tateou a parte superior até encontrar uma caixa. O conteúdo da caixa era uma herança do seu pai: uma pistola prateada. Tirou a pistola da caixa de madeira. Acariciou-a, limpou-a e, em dado momento, pode ver seu reflexo meio difuso e disforme no cano canelado da arma.
Colocou tudo no bolso do seu sobretudo e dirigiu-se ao teatro. Assistiu a peça interia e pode constatar o talento daquela mulher. Ele precisava estar la e presenciar aquela apresentação especial. Ao final da peça acompanhou a multidão e foi par a saída. Mas, ao invés de ir para casa, permaneceu nos arredores do teatro. Foi, mais precisamente, para a saída que ficava nos fundos do teatro, que era por onde os artistas deixavam a casa de espetáculos. Vestiu o gorro, colocou os óculos e encostou-se em uma parede, imiscuindo-se a sombra. Ao ver o movimento dos atores saindo pela porta, vislumbrou a atriz, que mostrava um sorriso de satisfação por uma apresentação de gala. Ela carregava buquês de rosas, Mais de um, presentes de admiradores de seu trabalho e de seu carisma. O redator, com a mão direta no bolso do sobretudo, acariciava a pistola, como se ela fosse o seu bichinho de estimação mais querido. Aquele sorriso era por demais parecido com o da foto de arquivo do anúncio que, em breve, estaria nas páginas da revista. Aquele pensamento o encheu de coragem. Andou decidido em direção ao grupo de atores, sacou a arma e atirou em direção a eles. Acertou os três. Deu um tiro na cabeça de cada um para confirmar. “Mais uma cena lamentável da violência urbana”, pensou ele, não com a sua própria voz, mas a voz de um dos apresentadores sensacionalistas dos burlescos jornais de casos de polícia. Saiu caminhando resoluto, excitado, com a adrenalina sendo injetada em seus vasos sanguíneos, disanciando-se dos três corpos no chão. Ao dobrar a esquina da rua vazia e sumir da cena do crime, ouviu gritos ao longe. Os corpos foram descobertos. Ele abriu um sorriso por debaixo do gorro. O pequeno problema deixara de exisitir. O anúncio ia se libertar, finalmente, do seu cárcere eletrônico.