• Oportunidade 2

    November 27th, 2012

    O redator ligou para o diretor de arte ainda a caminho da agência de publicidade onde trabalhava. Estava excitado e nem percebeu a multa que lhe foi aplicada por estar falando ao celular e dirigindo ao mesmo tempo. E se tivesse percebido, tanto faria. Ele estava inebriado, de um jeito que só quem tem idéias que acha grandiosas pode ficar. Era um “insight genial”, segundo suas palavras. Genial era, aliás, a sua palavra predileta. Usava-a muito mais urante um dia do que sabonete para lavar as mãos. Do lado de lá do telefone, o diretor de arte tentava falar mas o ele não deixava. Sua boca era uma mangueira descontrolada a jorrar palavras. Ele tivera uma idéia para um anúncio que seria “o mais tocante e relevante da história da propaganda”. Mas tudo devia ser muito bem feito, o layout devia ajudar a potencializar a “dramaticidade da peça.” Mandou a idéia com texto ja esboçado, pelo e-mail do celular, para que o colega já pudesse ir pensando em como tasnformar a idéia em peça palpável e memorável. Este estava empolgadíssimo com o que acabara de ouvir. Iria se jogar com afinco ao projeto. Ia ser realmente genial. Uma obra da propaganfa impressa que poderia catapultar aquelas duas jovens de promessas a grandes nomes. Com direito a sobrenome.

     

    O anúncio era uma reflexão sobre os valores deturpados disceminados pelo país, usando a morte de uma grande dama da dramaturgia, que por suas ações, que iam além das novelas e do teatro, tinha um significado muito maior do que a própria carreirra. Tratava-se de uma dama. Uma diva. Uma heroína nacional. O anúncio era econômico nas palavras, mas com a imagem que se imaginava para complementar aquelas poucas palavras, tornaria-se a mensagem arrasadora e pungente. Só havia uma pequena questão. Uma pedra no sapato. Um  percalço a ser superado. A grande dama, motivo do anúncio póstumo, ainda não havia morrido.

     

    Não fazia a menor diferença no momento. O importante era acabar a peça. Quando o redator entrou na agência, o diretor de arte já tinha um esboço na tela do computador. “Não estou feliz com essa foto”, pondera o diretor de arte, com a concordância do redator. A peça está ali, mas falta a foto que vai transformar aquele bom anúncio em algo arrebatador. Os dois se jogaram numa louca pesquisa e, finalmente, o diretor de arte acabou lembrando de uma foto em que a atriz está em cena numa representação de A Megera Domada. Aquela foto, em preto e branco, era a o encaixe perfeito. A expressão no rosto, a nuância dos tons de cinza e a força do próprio  personagem eram as palavras não escritas que completavam o todo com uma força incomparável. Uma hora depois, o anúncio estava inteiro na tela do computdor. Era mesmo arrasador, implacável e ao mesmo tempo suave. Aquela era uma peça que iria para o Hall da Fama da publicidade. Eles estavam convencidos disso. Mas, mais uma vez, tinha aquele pequeno, mas decisivo porém. A grande dama estava viva e gozava de boa saúde. E sem a sua providencial morte, o anúncio permaneceria encarcerado em um arquivo de computador. Estaria privado de ser compartilhado com o mundo.

     

    Passavam-se os dias, as semanas, os meses. O redator e o diretor de arte passaram a sofrer imensamente com a situação. Abriam, vez por outra, na tela, o anúncio fatídico. Comtemplavam-no e, tristonhos, o guardavam novamente naquele mesmo arquivo no computador. A grande dama continuava viva e cada vez mais saudável. Atuava em uma peça de estrodoso sucesso. Aquele anúncio levaria anos para conhecer as páginas de uma revista. Disso não tinham dúvidas. A carreria dos dois não poderia esperar por tanto tempo. Era isso que pensava o redator, que, diferente do diretor de arte, estava obsecado com a idéia de fazer o anúncio ser visto.

     

    Um dia, completamente cego por essa obsessão, o redator volta para casa decidido. Ja em seu apartamento, passou a procurar um gorro de lã, que deixava apenas os olhos a mostra, que ele tinha certeza que ainda tinha. Acabou encontrando-o. Vestiu e colocou um óculos escuro. Estava irreconhecível. Abriu o seu armário e tateou a parte superior até encontrar uma caixa. O conteúdo da caixa era uma herança do seu pai: uma pistola prateada. Tirou a pistola da caixa de madeira. Acariciou-a, limpou-a e, em dado momento, pode ver seu reflexo meio difuso e disforme no cano canelado da arma.

    Colocou tudo no bolso do seu sobretudo e dirigiu-se ao teatro. Assistiu a peça interia e pode constatar o talento daquela mulher. Ele precisava estar la e presenciar aquela apresentação especial. Ao final da peça acompanhou a multidão e foi par a saída. Mas, ao invés de ir para casa, permaneceu nos arredores do teatro. Foi, mais precisamente, para a saída que ficava nos fundos do teatro, que era por onde os artistas deixavam a casa de espetáculos. Vestiu o gorro, colocou os óculos e encostou-se em uma parede, imiscuindo-se a sombra. Ao ver o movimento dos atores saindo pela porta, vislumbrou a atriz, que mostrava um sorriso de satisfação por uma apresentação de gala. Ela carregava buquês de rosas, Mais de um, presentes de admiradores de seu trabalho e de seu carisma. O redator, com a mão direta no bolso do sobretudo, acariciava a pistola, como se ela fosse o seu bichinho de estimação mais querido. Aquele sorriso era por demais parecido com o da foto de arquivo do anúncio que, em breve, estaria nas páginas da revista. Aquele pensamento o encheu de coragem. Andou decidido em direção ao grupo de atores, sacou a arma e atirou em direção a eles. Acertou os três. Deu um tiro na cabeça de cada um para confirmar. “Mais uma cena lamentável da violência urbana”, pensou ele, não com a sua própria voz, mas a voz de um dos apresentadores sensacionalistas dos burlescos jornais de casos de polícia. Saiu caminhando resoluto, excitado, com a adrenalina sendo injetada em seus vasos sanguíneos, disanciando-se dos três corpos no chão. Ao dobrar a esquina da rua vazia e sumir da cena do crime, ouviu gritos ao longe. Os corpos foram descobertos. Ele abriu um sorriso por debaixo do gorro. O pequeno problema deixara de exisitir. O anúncio ia se libertar, finalmente, do seu cárcere eletrônico.

     

  • Fidelidade

    November 27th, 2012

    – Crepitar?
    – Essa é boa.Realmente muito boa.
    – E não é? Dúvido que na língua portuguesa tenha palavra mais fiel ao que ela própria define quanto essa.
    – Deve ter. Deve ter, vamos ver…
    – Crepitar é incrível, vai? É praticamente o que a madeira fala quando estala. A palavra é o som do que ela define.
    – Pomposo.
    – Quem? Eu?
    – Não, pomposo é uma palavra fiel.
    – Sob que critério?
    – Se você falar a palavra pomposo para alguém que não entende português, eu tenho certeza de que a pessoa vai chutar e acertar. A sonoridade dela é perfeita.
    – Esse critério do estrangeiro é bom, mas, cretpitar é melhor do que pomposo. É muito mais fiel. Não da para comparar.
    – É tem razão. Mas tem que ter outra.
    – Firula. Firula é concorrente séria.
    – Ah, é verdade. Firula é bem fiel ao que ela significa. Se bem que, se usarmos o critério do estrangeiro e dissermos a ele que” isso na sua perna é uma firula” em vez de uma ferida, é capaz do sujeito acreditar, você não acha?
    – Tem reazão, tem toda razão. Ah, mas tem uma boa: tique-taque.
    – Pera…pera.Vamos impor regras. Onomatopéia não vale. Tem que ser palavra que define uma coisa ou ação. Imitação do som é óbvio que ganha.
    – Certo, certo. Corretíssimo.
    – Então tá, onomatopéia não vale.
    – Combinado. Ah, olha essa: altivo.
    – Essa é boa. É ouvir a palavra e me vem à cabeça aquela pessoa de queixo erguido, olhar decidido, mesmo nos piores momentos.
    – É, mas se você colocar ao lado de crepitar, perde.
    – E perde feio.
    – Goleada acachapante?
    – Opa, acachapante é boa.
    – Acachapante vem como toneladas de argumentos caindo sobre a gente.
    – É boa…é boa.
    – Mas não como crepitar.
    – Tem razão, perde de um a zero, nada acahapante, mas perde.
    – E ingles? Tem ugly, eu acho fidelíssima.
    – Inglês não. É contra as regras.
    – E que tal diáfana.
    – Sabe que eu não sei o que ela significa? Mas ouvindo assim, me parece uma pessoa sensivel, amável. Uma pessoa diáfama.
    – Então essa está fora. Diáfama é uma coisa que, mesmo sólida, deixa passar a luz. Um véu de noiva, por exemplo, é uma coisa diáfama.
    – Então, crepitar continua soberano.
    – Bruxuleante.
    – O que?
    – A luz bruxuleante das velas.
    – Opa, temos uma candidata. E tem a ver com fogo também. Não é uma coincidência? E por falar em bruxuleqnte, que tal lúgubre?
    – Ah, lúgubre é outra séria candidata. Acho que se um estrangeiro ouve lúgubre, o castelo do Drácula é a primeira coisa que vem à cabeça dele.
    – Castelo do Drácula me lembra vento. Vento que balança as árvores e faz as folhas farfalharem.
    – Na mosca. Farfalhar é perfeito. Melhor do que crepitar. Muito mais fiél.
    – Será?
    – Hum. Pensando bem. Farfalhar. Crepitar. Crepitar. Farfalhar.
    – Acho que temos um empate.
    – Então, empatado está.

  • O Vestidinho Verde

    November 5th, 2012

    Ele lia a sua revista calmamente no sofá da sala, aproveitando o começo da noite de sábado. O único som que ouvia era um eventual estalo do gelo em seu copo de Jack Daniels sobre a mesinha que fica ao lado da poltrona. Um silêncio que acalentava, abraçava, acolhia. A matéria da revista falava algo sobre pessoas que começaram a desenvolver técnicas para a fabricação de diamantes. Muito interessante. Ele praticamente devorava o artigo. Pegava o copo e dava um gole aqui, outro ali sem tirar os olhos da revista. Naquele instante, precioso, divino, o mundo era a pura perfeição. Respirava com êxtase, a alegria entrando pelas narinas e preenchendo seus pulmões. Nada seria capaz de quebrar o encanto daquele momento. A simplicidade como fonte de prazer. A não ser, claro, o fato de a sua filha de dezesseis anos estar descendo a escada trajando um mini vestido verde. O “toc – toc” do salto da sandália da filha delatando a sua descida pela escada. Ele tirou os olhos da revista e virou-se na direção do som. Estancou o olhar. Todo o seu bem estar esvaneceu-se como que por encanto. Ele podia jurar que viu a sua menina subindo a escada dizendo que ia se aprontar para a festa a fantasia. Agora, vê uma mulher descendo a escada. Uma mulher irritantemente maravilhosa, perturbadoramente encantadora. Olhou fixamente para o rosto dela para certificar-se de que era mesmo a sua filha. Havia uma grande esperança de que fosse uma amiga dela, mais liberada para usar um vestidinho daqueles. Não, não era.

     

    -Alto lá –  ordena. – Que roupas são essas?

    -A minha fantasia, pai – a filha responde naturalmente – pra festa.

    -Minha filha, fantasia é cowboy, bataman, palhaço, anos 30, por exemplo, mas isso?

    -Então, pai, eu estou indo de anos 70.

     

    Suas pernas ficam bambas. Não bastasse sua filha naqueles trajes diminutos, ele se dá conta de que os seus amados anos 70, quando vicejaram Led Zeppelin, Pink Floyd e Raul Seixas, quando ele jogava futebol na escola e o corpo fazia o que o cérebro ordenava, tudo tinha virado passado. Um passado distante. Tão distante que nem tocava na existência de sua própria filha. Era motivo de fantasia em uma festa. Ele se irritou com aquela constatação acachapante, inconteste. Não estava ficando velho. Estava velho.

     

     

    -Anos 70 o escambau – esbravejou. – Não com esse vestido.

    -Mas pai, a mamãe me ajudou.

    -Sua mãe? Ela nunca usou um vestido reduzido como esse.

    -Mas esse vestido é dela – explica – aliás, ela disse que você adorava.

    Sim, o vestidinho verde que a Joana usava e ele adorava. Ficava louco. A Joana tinha pernas lindas. Na verdade ainda tem, mas no tempo em que namoravam, eram as melhores pernas da escola. O pai dela, seu Bernardo, reclamava muito quando ela vestia aquele mini vestido verde. Seu Bernardo – que na época tinha a idade que ele tem agora – discutia com a dona Clarissa e ele só ficava ouvindo. A Dona Clarissa sempre contemporizava, dominava a ira do seu Bernardo com paciência e conversa. Ele adorava, quer dizer, idolatrava a sogra. Dona Clarissa sempre esteve adiante do seu tempo, bem informada das coisas pertinentes ao mundo da filha e dos amigos da filha. Era perfeitamente capaz de manter uma conversa com qualquer um da turma. Eles até esqueciam que era a mãe da Joana e só eram alertados quando soltava um ou outro termo que pensava ser moderno. O seu preferido era o “prafrentex”. Mas ela era tão bacana que todo mundo perdoava. Mas agora, olhando a própria filha com aquele vestidinho verde, não tinha mais tanta certeza se a sogra era assim tão boa influência.

    -Ela disse? Bom, ela está enganada – gagueja, – Eu gostava era de outro vestidoverde.

     

     

    -Pai, eu sei quando você está mentindo.

    -Eeeeeeeeeeeu?

    -Você sempre levanta a sobrancelha direita quando mente.

    -Quem disse isso pra você?

    -Ué, foi a…

    -Não responde. Não responde. Já sei.

    -Então? É ou não é aquele vestidinho verde que você adorava?

    -Parece que é. – Diz contrariado. – Mas na sua mãe não tinha esses dois quilômetros de perna aparecendo.

    -Não exagera, Arnaldo – intromete-se Joana descendo a escada – O vestido ficou uma graça nela.

    -Mas ela é muito mais alta do que você. Logo ele está muito mais curto. Olha essas pernas, Joana.

    -Não são lindas?

    -Implicância não. – Irrita-se. – Filhinha, sua mãe tem uma bata indiana muito mais anos 70 do que esse vestido.

    -Puiu, Arnaldo. A bata indiana que o papai adorava e que me cobria do pescoço até as canelas puiu.

    -Eu vou com o vestido verde, pai. Ele tá o máximo.

    -O mínimo. Você quer dizer o mínimo.

    -Não seja incoerente Arnaldo. – Irrita-se Joana. – Se era bom pra você na época, é bom pra você agora.

    -A incoerência é uma qualidade, Joana. Incoerência significa mudança. Tudo nesse mundo muda. Eu mudei. Eu evoluí.

    -Isso não é evoluir, é virar a casaca.

    -Nada me convence a deixar a menina ir a festa com esse vestido.

    -Mãe! – Desespera-se a filha

    -Sem pudim de leite.

    -Golpe baixo não, Joana. Golpe baixo não.

    -Ou ela vai a festa assim ou nunca mais você vai comer meu pudim de leite.

    -Hoje vai ter?

    -To indo pra cozinha.

     

    A festa foi ótima. O vestidinho verde foi um sucesso. E o Arnaldo comeu todo o pudim naquela noite mesmo. Ele tinha que fazer alguma coisa enquanto esperava a menina chegar em casa.

     

     

  • Metade relato, metade baseado em fatos.

    November 5th, 2012

    O bairro do Castro, em San Francisco, dispensa maiores explicações. É só mencioná-lo para ouvirmos risinhos e piadinhas homofóbicas de sempre, incluindo as minhas, é bom que fique claro antes que me chamem de engajado, coisa que não sou para nada, a não ser em defesa do bom senso. Pois um passeio pelo bairro revela-nos um lugar realmente aprazível, com casas vitorianas em sua maioria reformadas, porém, respeitando a arquitetura e pintura originais, ladeiras de fazer a gente bufar e por muito pouco não deixar mesmo o coração em San Francisco, como dizia o Tony Benett, , árvores e pássaros gorjeando dando um ar ainda mais bucólico à região. Pensem o que quiser, mas eu moraria lá fácil, provavelmente passando o primeiro mês repetindo a frase “thank you, I`m flattered, but I´m straight”.
    Quanto mais nos aproximamos da Market Street, mais a coisa vai ficando diferente. As casas dão lugar à lojas e o ar bucólico da lugar ao movimento.. A primeira sensação é estranha. Não estava, definitivamente, acostumado a perambular por um mundo onde os homossexuais são a imensa maioria. A diferença é que ninguém estava me olhando feio. Ninguém falou alguma gracinha. Aliás, não estavam nem aí para mim e para as meninas. O tempo passa e você vai ficando mais a vontade com o mundo inverso. E daí, começa a perceber uma coisa curiosa. A maioria dos habitantes do bairro, pelo menos os que ali perambulavam em casais de homens de mulheres ou solitários, tinham idade um tanto avançada. Não sei se acontece só comigo, mas quando a palavra gay é mencionada perto de mim, a primeira coisa que me vem a mente são pessoas entre os 20 e 40 anos. Mas o que eu vi por lá foi um enorme contingente de gays com mais de 55 anos. Cabelos grisalhos aos borbotões. Em certos casos, cabelos e bigodes grisalhos, como os de Erik, um dos típicos habitantes do bairro que, ao ouvir a gente conversando na mesa da lanchonete Orphan Andy´s, aproximou-se de nós e passou a travar um diálogo que transmito agora, devidamente traduzido.
    – Desculpe, mas de onde são vocês¿
    – Brasil – respondeu minha filha.
    – Ah, eu estava ouvindo vocês falarem. Adoro a musicalidade do português. É a primeira vez em San Francisco¿
    – É. E você, mora aqui no bairro¿
    – Moro. Depois de anos em guerra comigo mesmo, encontrei a paz e vim morar aqui.
    – Guerra com você mesmo¿
    – Isso
    – Eu tenho uma curiosidade. Como foi pra você até o momento que você assumiu – perguntei. – Quero dizer,ser gay há décadas atrás era bem mais dificil, não¿
    O que veio daqui pra frente foi surpreendente. Aquele homem que mais tarde disse que tinha 63 anos de idade passou a contar a história da sua vida em pouquíssimas linhas.

    – Era. E, antes de assumir, eu era um aqueles que tornava as coisas mais difíceis. Eu fiz carreira no exército americano. Fui oficial no Vietnam e, felizmente, voltei com a minha sanidade intacta. Na época, o jeito de lutar contra aquilo que eu realmente era foi me tornar um homofóbico ferrenho, aliás, a saída que a maioria das pessoas como eu usávam na época. Durante a guerra descobri dois homossexuais no pelotão que eu comandava. Eu os persegui incessantemente. Dava a eles as piores missões, dizia que eles faziam errado quando faziam certo. Num dia, em uma missão de reconhecimento, caímos em uma emboscada e eles deram a vida para salvar oito homens do pelotão. Passei o resto da guerra vendo os dois em cada missão, assombrações me vigiando, apontando o dedo pra mim, lembrando da minha opção sexual que eu tentava esquecer. Ao voltar para casa, o meu filho, que nascera enquanto eu estava na guerra, já tinha um ano e meio de idade. Não demorou muito e minha mulher engravidou de novo. Foi uma gravidez complicada e ela acabou morrendo no parto da nossa filha, Melinda. Criei os dois, sozinho. Meu filho, Edward, começou a demonstrar claramente suas tendências homossexuais desde pequeno. Eu sabia exatamente o que ele sentia, as dúvidas, os medos. Aquela era a primeira mensagem. A segunda não tardou. Melinda também passou a demonstrar claras tendências homossexuais. Meu filho e minha filha eram ambos gays. Querem saber o que eu penso¿ Que aqueles dois soldados voltaram como meus filhos. E para eles não passarem o que eu passei fiz o que devia ter feito há anos: assumi. Casei de novo e hoje vivemos todos aqui, neste belo bairro.
    Neste momento, o garçon que nos atendeu estava saindo. Era o final do seu turno. O nome dele é Joel. O marido de Erik. Saíram de mãos dadas e pareciam bem felizes.

  • Uma Saudade

    November 5th, 2012

    Andava pelas ruas da pequena cidade com uma alegria que estufava o seu peito. Para todo lado que olhasse deparava-se com a simplicidade encarando-o de volta, mostrando seu sorriso sadio e os seus olhos leves. A simplicidade. A verdadeira só era possível de ser encontrada em lugares como aquele. Respirou fundo e abriu um sorriso do nada. Um ar gélido entrou elas suas narinas e espalhou para dentro do seu corpo um revigorante aroma que tinha a intenção inicial de ser doce, mas que no final revelava um amargo suave dos pinheiros que estavam por todo o lugar como guardiões atentos. Duas crianças brincavam e os seus rostos eram duas bolas vermelhas emolduradas por cabelos de um amarelo ouro que em nada lembrava a artificialidade dos cabelos que estava acostumado a pousar os olhos no seu antigo lar. Lembrou-se do brilhante ternura de Lupicínio Rodrigues. “É por isso que eu gosto lá de fora. Porque sei que a falsidade não vigora”.

     

    Chamava a sua atenção o fato de que era capaz de ouvir os seus próprios passos, enquanto caminhava. Aliás, ouvia muito mais do que isso. Os sons que o seu corpo produzia eram perfeitamente audíveis vez por outra. Um roncar provocado pela digestão não lhe passava despercebido, antes ocultado por alguma buzina ou ronco de ônibus e de multidões frenéticas com que dividia espaços ínfimos.

     

    A brisa, também gélida, sussurrava em seu ouvido. Ainda não entendia bem o que dizia, mas, de alguma forma, gostava do que ela dizia. Sentia-se alentado. Nunca ouviu tantos boa tarde de tantos desconhecidos que o presenteavam com com sorriso aberto, um contraste imenso com aquelas que fizeram parte de sua vida anterior, as quais nem lhe dirigiam o olhar, apesar de ocuparem o mesmo andar que ele por mais de oito horas por dia.

     

     

    Sentia que velhos hábitos e pensamentos começavam a esvair-se lentamente de sua mente, tornando-se sendo levado para longe pelo ar saudável. As luzes dos postes de rua começavam a espocar numa salva de boas vindas à noite que chegava sorrateira. Elas se confundiam com as estrelas que começavam a aparecer no céu. As estrelas. Deteve-se por um instante para ficar olhando para o firmamento. As estrelas apareciam uma a uma, depois aos pares, como se uma mão invisível usasse uma caneta para fazer pontos brilhantes aleatoriamente no céu. Deu-se conta do espetáculo que era o anoitecer. Quando a noite se completou, recomeçou a sua caminhada.

     

    Entrou em sua nova casa. Ela também sorria. Abriu um vinho. Sentou-se no alpendre e, dando pequenos goles, entregava-se ao prazer de estar matando uma saudade que havia no seu peito há muito. Uma saudade esquisita, ja que nunca vivera naquele lugar. Em vez disso, aquele lugar é que vivia dentro dele por anos e anos, chamando-o a cada dia em que se entregava a inércia caudalosa e confusa do progresso pessoal. Levantou uma taça de vinho e brindou o velho Lupicínio.

     

  • Dispensas

    November 2nd, 2012

    Foi acordado as seis e quinze da manhã por um terremoto de 7.5 graus na escala Richter, ocorrido na China, e que ja tinha um número parcial de vítimas fatais que passava dos dez mil, segundo a voz alarmista que saía do seu rádio relógio na cabeceira da cama. Levantou-se a muito custo e, cambaleante, foi para o seu banho matinal.

    Já na cozinha, ligou a tv enquanto tomava seu café a tempo de assistir relatos com imagens impressionantes de uma nova chacina ocorrida “em mais uma madrugada violenta da cidade” segundo o âncora do jornal da manhã. Desta vez, dois homens em uma moto haviam disparado contra um grupo de quatro rapazes que ocupava a mesa de um bar na periferia da cidade. Morreram, todos. Dois menores. Desligou a tv, deu o último gole de café, pousou a xícara na pia da cozinha e se dirigiu para a porta de saída. Abriu-a e, como de costume, o jornal que assinava estava sobre o capacho. Na capa, em letras garrafais, uma pesquisa mostrava que menos de 11% dos deputados compareceram a 100% das sessões no Congresso Nacional. Durante o trajeto do elevador até a garagem, o texto relativo à manchete dava conta de que mesmo assim eles receberam como se estivessem comparecido a todas elas.

    No carro, foi ligar o rádio e já encontrar noticia que dava conta de que o clima o Oriente Médio havia ficado ainda mais tenso com a negativa do Irã em permitir que as eleições no país fossem acompanhadas por delegados da ONU. Os Israelenses, por conta disso, passaram a colocar sua aeronáutica em alerta e a fazer vôos sobre territórios vizinhos, provocando um protesto formal da Síria e da Arábia Saldita.

    Ao  chegar no prédio da empresa, pegou o elevador e a televisão, alojada no canto superior, no interior do veículo, trazia a noticia de que a crise financeira que assolava os americanos tinha consequências sérias na América Latina, inclusive no Brasil, que, segundo previsões do mercado, estava prestes a entrar em uma recessão.

    Entrou no escritório em profundo mau humor, tanto que não respondeu o bom dia de sua secretária. Sentou-se na sua mesa. Quando a secretária entrou, pronta para passar a sua agenda do dia, sofreu uma reprimenda monstruosa. A mulher saiu tão diminuída da sala, e aos prantos, que pensava seriamente em pedir demissão. Passou o dia inteiro a fazer grossuras semelhantes com os subordinados. Do nada. E então, ao olhar o seu rosto no espelho, deu-se conta do que estava acontecendo. Tomou uma decisão drástica. Despertaria toda a manhã por uma rádio só de música. No carro, colocaria o seu MP3 com seus audiobooks. Cortou a assinatura do jornal e, no café da manhnã, prezaria pelo silência, sem televisão ligada no jornal da manhã. A princípio, achou que viver alienado assim poderia lhe ser prejudicial. Mas manteve-se firme em suas decisão. Faria isso por três meses, como experiência.

    -x-

    Os três se passaram e as melhoras haviam sido sensíveis. Sentia-se leve e acordava com muito mais disposição pela manhã. Descobriu coisas novas como um sabiá que cantava em sua varanda sempre que tomava café e antes tinha o som do seu canto obliterado pelo som das más notícias que vinham da televisão.

    Ao abrir a porta da frente quando ia para o trabalho deparava-se apenas o seu capacho, onde lia sempre o bem vindo de ponta cabeça, ao invés de uma manchete macabra do jornal do dia. Passou a ler mais romances no lugar destes jornais e revistas semanais e notou que o assunto de suas conversas em momentos de lazer havia mudado de tom. Aliás, graças a esta leitura mais, digamos, erudita e rica, estava conversando com mais mulheres do que homens, o que influiu diretamente no seu desempenho sexual.

    No trabalho, a sua secretária, aquela que havia sido escorraçada de sua sala, imprecionava-se com os sorrisos que ele distribuía a todos. Ele até lembrou o aniversário da filha dela e trouxe um presente para a menina.

    Quanto ser prejudicado pelo fato de não estar a par de nada que acontecia no mundo, percebeu que tudo não passava de falácia. O que era mesmo importante chegava aos seus ouvidos e, o que ele achou sublime, sem opinião de nenhuma sumidade do jornalismo especializado em economia, esporte, lazer ou cultura.

    O mundo era outro. Ele era outro, muito melhor e mais saudável, o que provara oúultimo teste de colesterol a que se submetera. Passou a correr e nadar na academia. Perdera gordura e ganhara musculatura. Sua postura era de um vencedor. Parou de andar encurvado, como se tivesse tirado um peso das costas. E, quando o celular tocou no meio de um jantar com uma das colegas da academia não o atendeu. Desativou-o e pensou naquele aparelho como o próximo da sua lista de dispensas.

  • Depois daquele beijo (selo pais em tpm)

    October 2nd, 2012

    Melissa não entendeu patavina quando viu a cena. Gilberto arrumava o quarto de Marina. Arrumava copiosamente. Arrumava sofregamente. Colocava ordem nas mínimas coisas. Nem Maria, que naquele domingo gozava o merecido descanso semanal, arrumava aquele quarto com o zelo empregado por Gilberto. Ele dava tanta atenção ao que estava fazendo que nem percebeu a esposa ali parada. A expressão no rosto dele era de uma compenetração tão acachapante que nada tirava o foco de sua missão auto infringida.“ Mas o que deu no Gilberto para arrumar o quarto da filha desse jeito em pleno domingo?” perguntava-se. Ele adorava arrumar o quarto dela no tempo em que ela não tinha coordenação motora necessária para tal empreitada. Ordenava os brinquedos, os bonecos de pelúcia como se fizesse um carinho na filha. Mas esse não era mais o caso. Gilberto vivia travando batalhas e mais batalhas de uma guerra que parecia eterna. Discussões intermináveis dentro dos seus cinco minutos de duração. “Marina, pelo amor de Deus, esse quarto parece uma cena do apocalipse!”, gritava ele diante de camisas jogadas ou penduradas em lugares insólitos como a luminária, de um tapete formado por livros e cadernos espalhados, de calças retorcidas e pés de tênis solitários, hora um pé direito, hora o esquerdo. Marina respondia com a suas duas palavras preferidas: “Não enche!”, que as vezes era acrescida de um artigo e um sujeito “o saco!”. Um objeto direto no queixo do pai, que sentia o golpe, mas mantinha a fleuma por fora e a irritação crescente por dentro. Gilberto recusava-se a arrumar o quarto que mais parecia a instalação de algum artista obscuro e fadado ao fracasso. Ordenava a Maria, a empregada para, no máximo, arrumar a cama e mais nada. Achando que a negligência da filha fizesse com que a bagunça atingisse a níveis tão insuportáveis até para a dona do recinto e esta, vencida, procederia a uma arrumação decente. O plano foi um total fracasso. A filha arrumou umas três ou quatro vezes o quarto, se muito. Nas outras duzentas e oitenta e cinco vezes a arrumação foi feita por Maria, sempre as escondidas em comum acordo com Marina. Quando Gilberto descobriu a conspiração entre as duas quase cometeu a insanidade de demitir a pobre Maria. Maria adora Marina. Viu-a nascer, viu-a virar mulher aos onze anos, dois anos antes deste exato momento em que Gilberto opera a arrumação insólita. Melissa estava encafifada. Gilberto simplesmente capitulou? Não. Gilberto não era homem de desistir. Havia algo mais. Algo que o estava impelindo a fazer aquilo. Depois de um tempo observando o marido percebeu algo mais do que vontade de ver o quarto organizado. Havia ternura no olhar dele. E os gestos? Os gestos não eram de quem arrumava o quarto pragmaticamente. Eram carícias. Isso mesmo, é como se ele estivesse acariciando aquele quarto inteiro e não pondo ordem, simplesmente. Como no tempo em que Marina era uma criança sem coordenação para arrumar o quarto. “O beijo”, pensou Melissa. O primeiro beijo da Marina, o acontecimento da festa na noite anterior. “De língua?”, Gilberto perguntou. Claro que era de língua. “Mas não conta pra ela que eu te contei, Gilberto”. Ele só virou para o lado e pegou no sono. Marina está certa de que essa arrumação tem uma relação direta com a ocorrência da noite anterior.

    – O que você está fazendo, Gilberto?
    – Voltando ao passado, Melissa. Voltando ao passado.

    Ele falou com um sorriso distante. Melissa deixou Gilberto com a sua máquina do tempo. Se era esse o jeito dele aceitar a filha crescendo, mal não fazia.

  • Alice no país do detox. ( # pós felizes para sempre)

    October 2nd, 2012

    Alice entra na sala com decoração espartana do Dr. Petersen. Pára assim que passa o umbral da porta. Olha ao seu redor e também para o teto, escaneando o lugar como se fosse a primeira vez que entrasse ali. No centro do teto, um bojo leitoso, que protege uma lâmpada de 100 watts, é a única fonte de luz daquela sala. No centro do bojo há uma mancha preta, formada por vários insetos mortos. Alice consegue divisar algumas asas do que um dia foram bruxas e mariposas. No fundo da sala, o doutor Petersen observa a menina parada a sua frente. Nem parece aquela figura esquelética e desgrenhada que entrou na instituição um mês depois do seu episódio com drogas que ficou famoso no mundo inteiro na forma de um livro, que depois virou desenho animado e filme rendendo milhões de dólares para um monte de gente que ainda está solta, ja que, apesar do crime de drogar uma menor, contam um batalhão de advogados que os mantém longe de onde deviam estar. Ele observa que os cabelos loiros de Alice estão penteados e aparados e que ela já não treme tanto por causa da abstinência.

    –        Pode sentar, Alice. Não se acanhe.

    A menina olha para o psiquiatra. Apesar do seu vozeirão, ele emana paz e tranquilidade. Seus cabelos loiros brilham com a reflectindo a luz quem vem do bojo leitoso. Um homem alto, típico descendente de escandinavos, o doutor Petersen tem sido um porto seguro para Alice desde o dia em que entrou na instituição em frangalhos, destruída por uma quase overdose de heroína. Ela dá um, dois, três passos tímidos e senta na cadeira que fica na frente da mesa do médico.

    –        Como está se sentindo hoje, Alice?

    –        Bem…agora…depois eu não sei – ela responde, hesitante.

    –        A enfermeira Miriam disse que ontem você acordou no meio da noite aos berros.

    –        Flashback.

    –        Mais uma crise? Você quer me contar?

    –        A Rainha de Copas queria cortar minha cabeça. Corria atrás de mim com aquele exército de cartas. E, quando mais eu corria, menos eu saía do lugar.

    –        Suas visões tem sido menos frequentes, pelo menos.

    –        Mas ainda me perseguem. E tem aqueles momentos em que eu quase perco o controle. A vontade de viajar é muito grande. Sinto falta de uma picada…muita falta. É um martírio.

    Alice começa a chorar compulsivamente. Não se sabe se de raiva, de desespero ou de vergonha. Melhor saber. O médico olha para ela pensando que a palavra martírio não deveria fazer parte do vocabulário de uma menina daquela idade com tanta propriedade.

    –        O que você está sentindo agora?

    –        Vergonha.

    –        De que?

    –        A gente não devia fazer de tudo para ficar famosa, não é doutor? Eu sinto vergonha do que eu me tornei.

    –        Mas você está aqui, Alice. Isso é um ato de heroísmo.

    –        Quanto tempo da minha vida eu vou perder ainda, doutor? Aqui dentro, até me livrar de tudo isso, essa vontade de explodir.

    O doutor queria ter a resposta. Mas quem vai saber. Cada um que entra ali tem o seu tempo. Ele apenas olha para aquela menina, que, de súbito, começa a tremer compulsivamente. Passa a falar com figuras imaginárias na sala. Afirma que o Chapeleiro Maluco está ali agora, com o gato que ri em seu colo. Ele acaricia o gato que aparece e desaparece, deixando apenas um sorriso de escárnio sempre presente. Ela pede, aos gritos,  em súplica para que tirem aquelas assombrações de lá. É uma forte crise de flashback. Os enfermeiros entram atabalhoadamente e tentam segurá-la. Com o pavor, sua força se desdobra. Finalmente, dois deles conseguem segurá-la e um terceiro ministra um sedativo na menina. Ela amolece e cai no sono letárgico quase que imediatamente. Doutor Petersen olha para eles enquanto a carregam para o seu quarto, desfalecida. Uma lágrima cai do seu olho direito. Por mais médico e apegado a ciência que fosse, ele não consegue simplesmente não se afetar. Alice ia passar por muitas privações até conseguir vencer o período de desintoxicação. O País das Maravilhas que a tornou conhecida também a deixou naquele estado. E não é esse o destino de muitas meninas que conseguem a fama ainda tão jovens?

  • Branca de Neve e o Processo (# pós felizes para sempre)

    September 24th, 2012

    Estão todos reunidos no tribunal de conciliação trabalhista. De um lado os sete anões. De outro, Branca de Neve que, apesar de estar passando por privações e depois de anos passados do final feliz da estória que a consagrou, ainda apresenta traços daquela pele alva e ainda firme, que, reunidos a um olhar maduro e digno compunham a figura de uma mulher ainda muito interessante. O juiz trabalhista concorda com tal descrição, tanto que mal consegue desviar seu olhar guloso dela. Branca de Neve conheceu a dureza de perder tudo quando o reino deixou de ser uma monarquia e se tornou uma republiqueta governada por um ditador de esquerda, El Guapo Gonzales, após uma revolução apoiada pelo dinheiro vindo das minas pertencentes aos sete anões, que, por conta desse apoio, deram-se muito bem com a troca de regime. Eles ficaram com o direito irrestrito sobre as minas e toda a área do bosque, tansformada em patrimônio ecológico, o que, na realidade, protegia mesmo era a sanha exploratória dos sete anões. Eles destruíam cursos d’agua, a procura de ouro, tudo sob as vistas grossas da fiscalização do ministério da ecologia, que ganhava a sua percentagem em troca desta cegueira um tanto convencional. Já El Guapo Gonzales adonou-se de todas a riqueza da família real, incluindo o castelo, terras e os negócios herdados pelo príncipe encantado – que virou rei anos antes de ser deposto – o que não era pouca coisa. Ao contrário de outros ditadores, El Guapo Gonzales poupou o ex-rei de um destino comum a outros ex-reis que, ou foram fuzilados, ou enforcados ou tiveram sua cabeça cortada. O ditador achava que jogar o príncipe e a sua alva esposa à própria sorte, obrigando-os a trabalhar era um “castigo muito mais cruel para um “reizinho vagabundo que só tinha habilidade para levar taças de vinho à boca, montar cavalos de raça e contar dinheiro de impostos escorchantes”, que, por sinal, continuaram escorchantes sob o novo regime. Branca de Neve e o rei deposto foram morar na casa que antes pertencia aos setes anões, que haviam se mudado para um palacete de dez mil metros quadrados de terreno, com piscina de água salgada, quadras de tênis, futebol, haras e uma quadra coberta de um esporte muito popular naquele país cujo nome é impronunciável e as regras são complicadas mas envolvem o chute no saco de javalis. Mas os anões não entregaram a casa de mão beijada. Cobram aluguel para os dois ocuparem a casa, pago em serviços de manutenção da mesma. Branca de Neve e o ex-rei, na verdade, são caseiros que não custam nada para os sete mini patrões. Este é o motivo pelo qual ela está diante de um juiz da tribunal trabalhista, que continua com os olhos esbugalhados no decote da pobre mulher. Encontrou um advogado de boa índole e ainda não corrompido que decidiu representá-la em uma ação contra os sete anões. Além de reclamar pagamento do salário de caseira, ela também pleiteia um adicional de insalubridade, pois a casa, que tem uma altura mais adaptada aos antigos moradores, acabou sendo a causa de dores nas costas da pobre Branca de Neve, já que, para se locomover pelos cômodos da casa, precisa andar levemente encurvada o tempo todo. O ex-rei não sofre deste mal, já que vive no bar da cidade se entorpecendo de vinho barato e quando precisa de algum para pagar o vício, ou rouba os incautos que passam desavisados, pelo bosque – ele é bom com a espada – ou tira do pouco que a pobre Branca de Neve consegue com bicos como costurar e lavar roupa pra fora, as vezes, a tapas. O fato é que ele sempre cai estatelado em algum pedaço ermo do bosque a caminho de casa vindo do bar a noite e por isso mal entra na residência. Daí, a sua coluna estar em ordem, embora o seu fígado provavelmente já não se comporte de maneira adequada. O clima é tenso. O advogado de Branca de Neve fez as considerações. Depois, foi a vez das considerações dos 3 advogados dos sete anões, cada um usando um anel de rubi imenso, pedra oriunda das minas dos pequenos empresários. O juiz. Mal agradecida foi a expressão mais branda usada para definir aquela que pleiteava os seus direitos. O Juiz ouviu a tudo pacientemente, de vez em quando olhando para Branca de Neve com olhares libidinosos. Após as explanações, o juiz, sem titubear, deu ganho de causa para Branca de Neve, para surpresa dos sete pequenos vivaldinos. “Como assim?”, pensavam. “Esse juiz não tem ideia de onde se meteu.”, “somos amigos do poder”. O que eles não sabem é que após o término do embate, o juiz encontrou-se com Branca de Neve numa gruta em lugar recôndido no bosque que só ela conhecia. E ali, fizeram amor tórrido. Talvez os sete anões sejam amigos do poder. Mas o poder mesmo emanava daqueles seios ainda firmes, com mamilos róseos a contrastar com a pele alva e daquele sexo com cheiro de erva doce que Branca de Neve oferecia ao magistrado. Que juiz de 65 anos, corrupto ou não, resistiria a tudo isso?

  • Oportunidade

    February 12th, 2012

    O redator da agência de propaganda estava exultante quando abriu o jornal naquela manhã de quinta feira. Ao ler a manchete sobre o famoso cantor brega e romântico, conhecido pelos seus shows onde a platéia feminina arremessava calcinhas ao palco, estava na UTI de um hospital acomedido de grafe infecção generalizada. Ao ler a reportagem não tinha dúvidas que o fim do “cantor das calcinhas” estava decretado e era só uma questão de tempo. Nosso redator era só sorrisos. Não que ele odiasse o tal cantor a ponto de querer vê-lo morto, você que está lendo vai pensar. Nada disso. Para ele, o cantor não fedia e nem cheirava. Ele estava exultante porque a agência de publicidade para a qual trabalhava tinha uma conta de lingerie. “Que oportunidade!”, pensava ele, “para reforçarmos as qualidade de nossa marca de calcinhas e para emplacarmos anúncios que, quem sabe, vai nos render prêmios e mais prêmios. Ja me vejo nos palcos recebendo estatuetas pela minha criatividade meu senso de oportunidade”

    Chegou na agência com o sorriso de orelha em orelha. Sentou-se a frente de seu computador e passou a escrever títulos para fazer um anúncio de oportunidade para as calcinhas. Enquanto isso, seu companheiro de criação, um diretor de arte também comprometido com a causa da marca e também com muita vontade de subir ao mesmo palco d seu companheiro de trabalho, ja trabalhava nos layouts do anúncio esperando os túmulos para ali colocá-los. Vez por outra, acessavam a internet para acompanhar o caso do cantor em real time. “Calma, não morre ainda que a gente não chegou numa ideia boa.”, falava o diretor de arte feliz com o fato de o cantor ainda estar agonizando, porém vivo.

    Eles não só chegaram a ideia de um anúncio, como também tiveram outras idéia batizadas de geniais só esperando o cantor bater as botas. “ Um desfile da nova coleção de calcinhas em pleno velório do cantor…” sugeriu o redator, ideia amplamente apoiada pelo diretor de arte entre sorrisos e a repetição da palavra “brilhante” incessantemente. O diretor de arte também sugeriu que a marca mandasse a sua própria coroa de flores para o velório do cantor, ao que o redator emendou “e se a gente sugerir ao cliente um lançamento de uma coleção póstuma: modelos de calcinhas pretas e floreadas, sendo que as flores são cravos?” o diretor de arte vibrava, “genial, genial”.

    As ideias foram apresentadas para o diretor de marketing da marca de calcinhas que vibrava com a mesma intensidade dos criadores da agência. “É a minha chance de fazer história. O divisor de águas da mina carreira!”, pensava o profissional. Que oportunidade!” , alegrou-se, “vamos logo fazer tudo e já deixar pronto.” E assim foi feito. A fábrica funcionando a todo vapor para confeccionar a coleção póstuma. Um concurso interno na agência colocou todos para trabalharem na melhor frase para a coroa de flores “quem ganhar vai para o festival de Cannes com tudo pago!” gritava o diretor de criação. Em dez dias tudo estava pronto, impresso, só esperando o cantor passar desta para melhor. Foram dias de nervos. Todo junto acompanhando o caso.

    – Nada? – Pergunta o redator
    – Nada. – Responde o diretor de arte desconsolado.
    – Pô, esse cara vai ou não vai?
    – Pois é, não vejo a hora de ver a campanha na rua.

    Mais um dia se passava seguido de outro e de mais outro, e assim sucessivos dias se passavam com o cantor firme na UTI respirando por aparelhos, para o desespero da agência e daquele diretor de marketing. Dias e noites de vigília na agência na torcida pelo ceifador. Um estagiário foi mandado para o hospital para saber em primeiríssima mão o momento em que o cantor morreria para que todo o esquema publicitário fosse posto em prática. “Estagiário está aí pra isso mesmo.” , dizia o diretor de ciração. O telefone da agência toca. O director de criação precipita-se sobre o aparelho e põe no ouvido “Sim,pode passar”… “sou eu, Carlos Eduardo…como? Ah, sim Luiz Eduardo. Então? Boas novas. Morreu finalmente?” A pergunta é seguida pelo silêncio. O redator e o diretor de arte olham para o diretor de criação com a ânsia saindo por todos os orifícios. O diretor de criação desliga o telefone. “Uma tragédia!”, diz com voz embargada. “Ele se recuperou milagrosamente! Não morre mais por agora.” Os outros dois choram copiosamente. O redactor repete sem parar “Morreu nossa campanha. Morreu nossa campanha”.

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