• E se…

    May 24th, 2013

         Tenho um amigo que já saiu em diversas expedições de estudo mundo afora. Suas mãos e seus olhos entraram em contato com incontáveis artefatos de tempos imemoriais. Das inúmeras civilizações, cujos mistérios teve a sorte e o prazer de desenterrar, a que mais chamou a sua atenção foram os Maias. O impacto de presenciar ao vivo as  maravilhas eternizadas por este povo em diversas áreas da inteligência humana como a escrita, a matemática e a astronomia, foi tão intenso desde o primeiro contato, que ele voltou para a região incontáveis vezes. Numa delas, ele explorava tábuas com a escrita hieroglífica do que ele acreditava serem relatos da vida diária de uma das cidades, uma espécie de jornal da época. Em meio a tantos realtos, não sabe porque, um em particular chamou a sua atenção. Ele tentava desvencilhar-se dele, examinando outros escritos, mas não conseguia. Era dragado de volta por um chamado irresistível. Tomado por um impulso juvenis ele tomou uma decisão radical. Uma vez que não teria chance de traduzi-la em loco, deu um jeito de, bem, surrupiá-la.  Sabe-se lá como, ele saiu de um país e entrou em outro com aquilo na bagagem.  Talvez tenha sido ajudado por alguma deidade local, que em seu desejo divino de que a história contida naqueles “tablets” primordiais fosse conhecida, deu um jeito de nada ser detectado pelos artefatos de raios x ou pelos cães farejadores. Fato é que  meu amigo trouxe a tábua para casa e lá permaneceu a traduzir o que os hieróglifos  milenares contavam. Ao cuncluir sua tarefa, não pôde conter o riso. A gargalhada, até. Tinha em mãos uma informação que abalaria as versões correntes sobre o assunto do momento: o famoso Calendário Maia.

         Ali havia a história de um sujeito chamado Iktan, filho de uma mulher chamada Itzia e de um pai que, pelo que consta, morreu em sacrifício em cerimônia ocorrida em homenagem a uma tomada de posse de um novo rei, como era comum na época. Quando isso ocorreu, o menino Iktan tinha apenas dois anos de idade. A mãe, cuja profissão era limpar os restos que ficavam sobre a pedra sacrificial foi obrigada a limpar os restos do próprio marido. Mas a história triste não tirou da mãe de Iktan a vontade de ver o filho ter um futuro melhor que o dela e, por razões óbvias, do que o do pai. Conta ali que a mulher trabalhou com tal afinco pelo futuro do filho, conseguindo para ele acesso a estudos de matemática e astronomia, habilidades que ela percebeu em Iktan desde pequeno e que, domados e direcionados de maneira correta, poderiam levá-lo a esta vida melhor que ela tanto ansiava. Itzia limpou tantas vísceras, humanas e animais quantas fossem necessárias param garantir ao filho o melhor.  Quiseram os tais deuses que ela tivesse sucesso. O filho prosperou nos estudos e foi reconhecido como talento raro na arte de construir e calcular calendários, tão importantes para a economia da civilização. Desde então, já havia se tornado um homem “insacrificável” , fato que já garantia-lhe futuro completamente diverso do seu pai, pobre homem que morreu com o coração arrancado do peito ainda batendo. O talento de Iktan era tal, que rapidamente ascendeu ao que poderia se chamar de academia de ciências da época. Muitos vinham aprender com ele a arte de construir calendários e estudar os movimentos estelares. Iktan, em verdade, era um visionário e ousou construir um calendário que ia muito adiante dos outros, tarefa a que se jogou de corpo e alma nas suas horas vagas. Apresentou o trabalho ainda em desenvolvimento para Ikal, uma espécie de diretor da tal academia de ciência local, que, assim que pôs os olhos naquele trabalho, percebeu o potencial que aquilo tinha. Certamente ia dar ao seu autor um status de gênio diante da nobreza, sendo ungido por riquezas e a vida boa da época. Agora, aqui vai um detalhe muito interessante. Ikal não tinha lá um grande talento nas ciências exatas, não que não entendesse do riscado, mas perto de Iktan era um mero aprendiz. Mas Ikal tinha habilidades sem precedentes em uma outra ciência esta um tanto inexata: a política. Sua lábia era insuperável, daí ter atingido um lugar acima de qualquer outro na tal academia. Iktan, ao contrário, era um recluso, dedicado ao trabalho, para o qual tinha o talento genuíno. Nesse ponto das coisas, o óbvio parece ter acontecido. Na calada da noite, Ikal, aproveitando-se da ausência do Iktan, levou o rei e a sua entourage até a academia e comunicou-lhe o novo projeto de “sua” criação: o tal calendário. Explicou os preceitos básicos com muitos floreios e termos pomposos. Os reis e nobres ali presentes, não querendo ficar para trás, fingiram entender tudo e, dias depois, o grande criador do calendário, Ikal, foi alçado à categoria de nobre, deixando Iktan com seu ódio silencioso. De certa maneira, havia sido sacrificado tal qual o pai. Mas, como o coração ainda batia em seu peito e, sabedor de que sem ele o calendário não seguiria em frente, tomou uma decisão drástica. Levantou-se no meio da noite, pegou algumas provisões e material necessário para continuar seus estudos. Beijou a testa da mãe, que dormia em seu leito e sumiu, deixando para ela uma mensagem e o calendário inacabado. Obviamente, a mensagem chegou até quem sabia ler e daí até o rei. Este, tomado de fúria, mandou prender Ikal e tornou o ex-chefe de ciências o mais novo sacrificável do reino. Quanto a Iktan, ninguém sabe onde foi parar. E o calendário, bem, o calendário, milhares de anos depois, voltou a ser assunto o que deve ter feiro Iktan, rindo discretamente, como era de seu feitio.

  • O Pinto Desobediente (histórias de onanismo explícito)

    May 16th, 2013

    João Carlos terminou seu treino e foi diretamente para o vestiário. Triceps, biceps, peitorais, panturrilha, tudo, enfim, latejava, ansiando pelo merecido relaxamento. E como João Carlos tinha o tempo ao seu lado, já que naquele dia havia feito a seus exercícios num horário incomum, ou seja, após o seu expediente, resolveu encarar a sauna.

    Livrou-se do calção, do par de tênis, das meias e camiseta molhados e com um aroma detestável, deixando no corpo apenas a sua cueca branca. Dirigiu-se à sauna que ficava atrás de uma porta de vidro translúcido no fundo do vestiário. Abriu-a e foi recebido por um hálito úmido de eucalipto.  Entrou e passou a não enxergar nada que ficasse a um dedo ou dois de distância do nariz. Tateou o caminho com cuidado, como um míope que acaba de perder seus óculos de lentes grossas, até achar uma arquibancada na qual pudesse se acomodar e passar a eliminar as toxinas depositadas em seu corpo pelos poros afora com certo conforto. Aos poucos, seus olhos foram se acostumando àquela iluminação difusa e então pôde vislumbrar mais alguns vultos mudos usufruindo do vapor relaxante. O calor o envolvia e ele começou a fazer um esforço um pouco maior para respirar. O suor confundia-se com o vapor que condensava em contato com a sua pele fazendo seu corpo encharcar . Era capaz de sentir as impurezas que a vida diária lhe impunha sendo expulsas de dentro dele. Dali a pouco iria deixar um jorro de água gelada cair sobre o corpo e sentir aquela gostosa tontura e o conseqüente torpor provocados pelo choque térmico.

    Subitamente algo começou a incomodar João Carlos.  Algo que se situava bem no meio de suas pernas. O seu membro passou a crescer. Ele simplesmente ficou de pau duro. Assim, do nada. Uma reação involuntária sem aparente inspiração mental ou visual. João Carlos podia facilmente perceber que, se saísse de dentro da sauna com aquele volume sob a cueca, seria alvo olhares matreiros e assunto de conversas reservadas no vestiário. Seria conhecido como “o excitadinho da sauna”. Para sua sorte, a visão daquele membro intumescido, forçando passagem pelas paredes da cueca branca, se tornava impossível para as outras pessoas ali presentes, graças ao denso vapor.

    O tempo passava e os vultos foram saindo da sauna, um a um, até deixarem João Carlos suando com o seu pênis insistentemente ereto.  O calor ia se tornando mais sufocante a cada minuto e o seu pênis simplesmente se mostrava resoluto em permanecer naquele estado,  como um super herói de olhar orgulhoso. Para o alto e avante. Não havia outro remédio senão permanecer sentado, recebendo os eflúvios úmidos com aroma de eucalipto, enquanto  ouvia as vozes do lado de fora falando das alunas da academia: a malha agarradinha da fulana, a bunda durinha da cicrana. Assunto que não ajudava em nada a situação do pobre João Carlos, já se sentindo em uma panela de pressão. E para piorar, ele também podia ouvir o som das duchas caindo, refrescantes, sobre os felizardos que tinham pênis mais complacentes.

    A temperatura devia estar perto dos 55 graus, mas a sensação térmica já devia andar pelos  75 e o maldito pênis continuava firme, transformando a frente de sua cueca num acidente geográfico. Ele tinha que agüentar. Tinha de ficar ali, praticamente cozinhando até o pênis decidir por conta própria voltar a um tamanho aceitável. Tentou pensar em coisas que tivessem o poder de trazer o seu membro à razão. Coisas com efeito broxante. Teletubies. Turbulência de avião. Turbulência mais forte. Dor de ouvido. Hemorróidas. Nada.

    A respiração ia se tornando cada vez mais ofegante. Sentia-se como uma cenoura cozinhando no bafo. “Cenoura cozida no bafo não perde as propriedades proteicas”, dizia sua mãe.  Na verdade, ele estava ouvindo a voz da mãe, como se ela estivesse ao seu lado. A temperatura alta já o fazia delirar. E o pênis ali, firme como Gibraltar. Não sabia mais como sair daquela situação vexatória. As vozes no vestiário continuavam. O número de pessoas parecia ter aumentado. Estava perdendo os sentidos. Iria desmaiar. A vida passando-lhe pela frente. Era o sinal de que ela estava mesmo indo embora. O pai levando-o pela mão ao estádio quando criança. A festa do quarto aniversário, quando ele bateu com a cabeça na parede e abriu um talho de quatro pontos, um para cada ano de vida. A primeira prova de matemática que ele conseguiu uma nota maior do que cinco. As espinhas da adolescência. As meninas da adolescência. As punhetas da adolescência. Sim, as punhetas da adolescência! E não é que a solução aparecia ali no meio daquele delírio? Usou suas últimas forças para bater, ali, umazinha. A punheta salvadora. E pouco depois saiu cambaleante. Mas com o pênis, a dignidade e a vida em seus devidos lugares.

  • As Vozes

    May 5th, 2013

    Lauro perdera a conta de quantas vezes testemunhara cenas como aquela. O casal novo, andando pela casa vazia, naquele caso, um simpático sobrado. Divertia-se contidamente ao ver nos semblantes absortos de seus clientes, a decoração mental de cada espaço nu. As paredes sendo pintadas, mesinhas e sofás sendo distribuídos aqui e ali, num vislumbre da imaginação de como poderia ser a realidade em dias vindouros naquele lugar. Clarice e Hugo, esse eram seus nomes, mostravam interesse genuíno pelo sobrado, o que fazia seus olhos vívidos, de casal recém começando a vida juntos, tornarem-se ainda mais vívidos. Lauro, particularmente, gostava do postigo que ficava na porta de entrada, principalmente àquela hora do dia, porque um raio de sol entrava pela transparência como uma língua de luz que lambia vez por outra Clarice ou Hugo passando de lá pra cá e de cá pra lá.

    – Interesante o sobrado – diz Hugo, tentando conter a excitação.

    – O senhor sabe quem morou aqui antes? – Pergunta Clarice.- Era um artista plástico ou algo assim?  Tem um estúdio lá em cima.

    Lauro fora instigado a exercer um de seus talentos preferidos. O de contador de histórias. Se eram verdade ou não, pouco interessava. Mas elas, em geral, eram decisivas em muitos fechamentos de negócio.

    – Pois vejam que aqui morou um casal que regulava em idade com vocês. E eles têm uma história que é, de fato, incomum.

    E então, fez uma expressão grave e passou a contar.

    “O nome dele era Armando e o dela Judite. Ela pintava peças de cerâmica, tinha grande talento. Ele trabalhava em uma loja de materiais de construção. Era gerente do setor de jardinagem. Estavam casados a 3 anos quando alugaram este sobrado. Adoravam este lugar, pelo que se sabe dos vizinhos. Eram realmente felizes aqui. Tão felizes se sentiam que tomaram uma decisão: iam comprar o sobrado. Não tinham o dinheiro suficiente, claro, mas se esforçariam sobremaneira para conseguir a entrada, pelo menos, já que poderiam financiar o resto. Com uma disciplina ferrenha, Judite passou a produzir mais, enquanto Armando passou a trabalhar em horário extra sempre que possível. Ele, devido a carga as vezes extenuante de trabalho, chegava em casa exausto e mal tinham tempo de trocar poucos palavras. Mas estavam felizes mesmo assim, pois tudo tinha um propósito mais do que justificável. Semanas se passaram até que algo estranho acontecer com Armando.  De uma hora para outra, estranhas vozes começaram a sussurrar em sua cabeça. De início eram em momentos raros. Pela manhã ao acordar ou pouco antes de dormir. Mas depois aqueles sussurros mentais passaram a ser praticamente constantes. Digo praticamente por um motivo peculiar: ele só os ouvia aqui dentro desta casa. Aquilo passou a ser um martírio para Armando, um sofrimento avassalador, já que o lugar que ele adorava tanto parecia amaldiçoá-lo. Judite, como esposa apaixonada que era, sofria com ele e, depois de meses passando por este sofrimento todo,  até aventavam a possibilidade de partir dali e morar em outro lugar. Num final de semana, numa noite de domingo, já em desespero louco por esta tortura que não abrandava dento de sua mente, Armando, pegou um picador de gelo  na cozinha e, incontinente, enfiou-o crânio adentro. A esposa ficou horrorizada e aos gritos chamou a vizinhança. Não sabia o que fazer vendo aquela cena. O marido andando, com um sorriso abobalhado pela casa, com um cabo de madeira saindo pelo lado esquerdo do crânio. Chamou-se a ambulância, que saiu acelerada com a vítima, berrando sua urgência pelas avenidas da cidade, em direção ao hospital. O caso era grave, dizia o doutor para uma soluçante Judite. Era preciso tirar com delicadeza o instrumento contundente sem afetar nenhum vaso, o que seria, praticamente um milagre. Foram momentos de apreenção como Judite nunca tinha passado. Amparado por pais e sogros que sofriam junto. As horas parecendo dias, enquanto esperavam o final do procedimento. Final que, para alívio geral, foi feliz, graças a perícia dos médicos a alguma ajuda divina, quem sabe? O fato é que o milagre se fez. Pois não é que o objeto, em sua rota de entrada, havia caprichosamente desviado de vasos e veias sem dilacerar nenhum deles? Aquela intrincada teia avermelhada saiu do acidente completamente intacta. Os doutores, com todo o cuidado, puxaram o objeto, que fez o mesmo caminho ao inverso. Armando saiu da sala de cirurgia são e salvo. Mas com medo de voltar para esta casa e ver recomeçar a sua tortura. Quando estava ainda convalescendo, uma das enfermeiras, olhando impressionada para ele, vaticinou “Olha, o senhor ganhou na loteria. Quando sair, vá à capela agradecer à Virgem Santíssima.” Aquelas palavras tiveram sobre Armando o poder de uma revelação. Foi a enfermeira sair para chamar Judite, que o viu na cama num estado de excitação fora do comum. “Quanto está pagando a Sena?”, perguntou à esposa. A Sena estava acumulada naquela semana, pagava a bagatela de 42 milhões de Reais ao felizardo que acertasse os números sorteados. E as apostas encerravam dali a duas horas. Ele encarou a mulher com expressão grave e pediu a ela papel e lápis. Judite alcançou a ele o que havia pedido. Armando anotou seis números com mãos apressadas: 05, 09, 23, 24, 51, 55. “Vai na casa lotérica mais próxima, não importa o tamanho da fila, e joga estes números na Sena”, ordenou. Ao notar a expressão de dúvida no rosto de Judite, que nunca havia visto o marido apostar em jogo algum, ele completou “As vozes, Judite. Repetiam sem parar estes números!”  Pois eis que Armando ganhou na Sena sozinho. Mudaram-se e hoje não moram mais no Brasil, mas compraram este sobrado, que foi o seu amuleto. Agora querem alugar, mas impuseram uma condição: os moradores devem ser um casal novo, exatamente como eles, quando vieram pra cá.”

    Lauro fechou negócio. Se Hugo ou Clarice estão ouvindo vozes, ainda não se sabe. Mas por via das dúvidas, livraram-se do picador de gelo, presente de casamento de um tio.

  • Assessoria de Imprensa

    April 18th, 2013

    Sentado à cabeceira de uma extensa mesa de mogno, Lucifer  trajava o seu costumeiro terno imaculadamente branco. O seu rosto, intensamente bonito, tem um sorriso estampado enquanto lixa as suas unhas com cuidado de artesão. Sua ação é interrompida por um secretário, que adentra a imensa sala.

    –        Mestre, o senhor Humberto está aí fora.

    –        Ah! – exclama Lucifer com todo sarcasmo possível de estar contido naquelas duas letras e no ponto de exclamação. –  Não vamos deixá-lo esperando. Mande-o entrar.

    O secretário, cheio de reverência, que vem daquela gratidão típica de um cachorro vira-lata por quem o alimenta, obedece a ordem dada com voz mansa.  Poucos segundos depois, um homem alto, de cabelos ondulados e curtos, tão bem vestido quanto aquele que o chamou, entra pela mesma porta por onde o secretário saiu.

    –        O senhor mandou me chamar? – pergunta Humberto com certo receio.

    Lucifer, sem tirar os olhos de sua atividade com a lixa, responde com o seu característico desdém.

    –        Vocês publicitários adoram preto –  observa. – Não entendo porque dizem que preto tem a ver comigo. Logo eu, que adoro o oposto.

    –        O senhor sabe como são as pessoas. Quando encasquetam com uma coisa, é difícil convencer do contrário.

    –        É por isso eu contratei você, não foi? Mudar a opinião de vocês, primatas, a meu respeito e também do local que dirijo.

    –        É o meu trabalho. E tenho feito diligentemente, acredito.

    –        Ah! Sobre isso acho que temos algo a discutir. Sente-se.

    Humberto puxou a cadeira na cabeceira oposta, quando foi admoestado.

    –        Não. A cabeceira não é lugar para vocês primatas. Aqui, mais perto.

    Lucifer aponta a cadeira mais próxima de onde ele está sentado. Humberto obedece.

    –        Vou ser direto, meu caro Humberto. Seus serviços não serão mais necessários.

    –        Como? – espanta-se. – Eu estou trabalhando duro. E os resultados estão aparecendo.

    –        Sim, estão – debocha. –  Pelas pesquisas que eu fiz, nota-se um crescimento de 20% de almas dispostas a desfrutar o meu espaço.

    –        Como eu disse, meu trabalho está surtindo efeito.

    Os olhos de Lúcifer tornam-se negros e aumentam de tamanho, ou dão a sensação de aumentar. Sua voz torna-se gutural.

    –                20% não é o que eu pretendo.

    –                Mas eu fiz o correto – defende-se o publicitário. – Toda marca tem seu target, ou seja, as pessoas que são suscetíveis à sua filosofia. É neste target que devemos focar a nossa estratégia de comunicação. Mas isso leva tempo. Temos inúmeras religiões que tiram a sua força do maniqueísmo entre o bem e o mau. Mudar a opinião incutida por milênios nas mentes e espíritos do ser humano não é algo que se consiga assim, de um dia para o outro. Estes 20% vão se tornar 40% em alguns anos, pode estar certo.

    –        Guarde essa balela sem nexo para você, que eu não sou um dos 7 bilhões de primatas vivendo num pedregulho a volta de uma estrela de quinta grandeza para cair nessa cantilena. A sua capacidade de falar bobagens e parecer incrivelmente inteligente foi um presente meu. Como eles chamam as pessoas como você mesmo? – Lucifer levanta as sobrancelhas procurando o termo. –  Ah, lembrei. Uma pessoa articulada. Os primatas adoram os articulados. Entregam-se a eles sem questioná-las. Preferem estes em detrimento aos poucos que tem talento genuíno. E foi essa capacidade que eu concedi e que deu a você a posição de destaque entre eles em troca não de 20%, nem 40% deles, mas 100%.

    –        Mas isso é impossível.

    –        Aí concordamos em parte – concilia. – É mesmo impossível para vocês que se vangloriam porque convencem os outros a comprarem sabão em pó. A publicidade não é o meio correto para conseguir o que eu desejo, embora pareça uma escolha óbvia a princípio. E neste caso, sou obrigado a admitir que falhei ao escolher você.

    –        O que vai acontecer comigo? Você vai tirar tudo o que eu consegui? – diante do olhar de fogo do seu interlocutor, Humberto retifica –  Que o senhor conseguiu.

    –        Apesar de falarem o diabo de mim – a expressão do rosto acentua a piada –  palavra é coisa que não me falta. Eu propus o contrato e,  como disse, errei em escolher um publicitário. Por isso, vou deixá-lo com tudo aquilo que você conseguiu amealhar graças ao nosso acordo. Mas, se eu fosse você, ouviria o meu conselho: a partir de agora, esqueça a publicidade. Aposente-se. Com o contrato revogado, a sua conversa não vão mais parecer tão sedutora quanto antes. O fracasso voltará a ser o seu destino se você insistir em continuar. Volte para aquele pedregulho que vocês chamam de planeta e vá aproveitar o resto da sua vidinha no bem bom.

    Humberto fica olhando para Lucifer sem ter o que falar. Sabe que apesar de tudo, ainda saiu no lucro. Mas uma pergunta assola a mente do publicitário. Lucifer responde como se tivesse ouvido em alto e bom som o pensamento de seu ex-funcionário.

    –        Ah, sim. Vocês, primatas, são muito curiosos, como pude esquecer. Quer saber quem vai fazer o trabalho agora? – Lucifer usa uma pausa dramática e retoma o seu lixar de unhas. –  Eu não sei como não tinha percebido o óbvio. O que eu precisava era de credibilidade. Credibilidade cega. Uma atividade percebida como acima do bem e do mal. E essa não é a percepção que vocês publicitários passam para o resto dos primatas. Eles os vêem como mercenários, pagos para fazê-los mudar de opinião. Mas não é assim que eles vêem os jornalistas. Ah, os jornalistas são percebidos como infalíveis, paladinos que lutam a favor da sociedade. Honestos e corajosos em busca da verdade. Eles nunca erram, embora cometam erros aos borbotões. As vezes, propositais. Mas quem vai acusá-los? Outro jornalista? Eles são a boca do mundo. A boca que fala o que bem entende. Você já percebeu que eles são os únicos que, se assim o desejarem, podem acabar com a reputação de advogados e banqueiros? Só por isso já merecem o meu profundo respeito. Eles não tentam mudar a opiniões. Eles as produzem como um competente oleiro molda um vaso do barro disforme. São praticamente santos. E o mau, meu amigo, só alcança sua máxima eficiência quando disfarçado de bem.

    Lucifer para por alguns instantes. Olha para o nada com uma expressão satisfeita, apreciando o sabor de sua frase de efeito.

    –        Contratei uma assessoria de imprensa completa. Você iria se impressionar como foi fácil. Jornalistas são tão egocêntricos quanto vocês. E isso, você sabe, facilita tudo. Já temos a primeira pauta: “Seria o Paraíso uma ditadura, que expulsa aqueles com opinião própria?”

    Neste momento o secretário entra no salão atendendo a um chamado que Humberto tem certeza que não ouviu.

    –        Pois não, Mestre.

    –        Por favor acompanhe o nosso convidado. Ele ja está de saída.

    E o secretário assim o fez, impressionado por ter ouvido um “por favor” de seu mestre.

  • Sorria, você está sendo filmado.

    March 16th, 2013

    Sergio estava morto. Havia batido as botas. Definitivamente. Inapelavelmente. Indubitavelmente. Poupo o leitor dos pormenores relativos a sua morte, porque não nos cabe aqui fazer um relato cheio de detalhes sangrentos e dolorosos como fraturas expostas e vasos rompidos. Que fique claro, apenas, que Sergio morreu atropelado por um Mini Cooper, o que empresta um certo glamour ao seu modus mortem. A imagem repentina e frisada daquele carro de corpo azul e capota xadrês em preto em branco foi o último frame de sua vida, pelo menos enquanto ainda se valia do oxigênio. Sim, porque ao que consta, Sergio está em algum lugar incerto e não sabido, sentindo-se bem e tem até um corpo, que, aliás, se parece muito com o dele de carne e osso. E está inteiro. agora, como ele veio parar naquela sala esverdeada, pacífica e perfumada, não fazia a menor ideia. Foi como se o impacto com o carro o tivesse jogado diretamente para onde está nesse momento. Ele olha a sala e nota que em uma das paredes há uma tela de tv plana de tamanho considerável. Em oposição a esta parede, ele nota um sofá convidativo. Duas mesas de apoio com luminárias sem fio que despejam uma luz no ambiente que parece um abraço terno e amável. Na tela há um logotipo que gira sem parar sobre seu próprio eixo. Nunca o viu na vida, mas se for a marca daquele equipamento ele quer qual é, pois nunca viu imagem tão incrível quando estava vivo. Sergio sentou-se no sofá, experimentou várias posições. Subitamente, passou a ouvir vozes que vinham do lado de fora da sala onde estava. Não compreendia o que falavam, mas pareciam ser dois homens muito animados. As vozes se aproximavam e tudo indicava que iriam entrar. Foi aí que percebeu algo um tanto insólito: a sala não tinha nenhuma porta. Sentiu uma pontada de angústia que lembrava sua claustrofobia lá no outro mundo. Foi quando duas figuras simplesmente aparecem atravessando a parede lateral. Eram os dois que estavam conversando do lado fora, disso não havia dúvida. Entraram aos risos. Não, às gargalhadas. Os dois olharam para Sergio com a gargalhada já se esvaindo aos poucos. Ao notar os olhos arregalados do pobre novato, que está sem palavras depois do que acaba de ver, a gargalhada retoma a sua força.

    –    Que lugar é esse? – Perguntou Sergio, com certa irritação. – Onde estou?
    –    Por enquanto vamos dizer onde você não está. Na Terra.
    –    Quer dizer, parte de você ainda está lá. Debaixo da terra, mas essa, com t minúsculo.

    Gargalhadas.

    –    Sergio, não é? – Pergunta um deles, ainda entre espasmos de riso.
    –    Esse costumava ser meu nome.
    –    Bom – disse o outro – vamos continuar com esse, por enquanto.
    –    Meu nome é Carlos e o dele é Inácio.
    –    E vocês são?
    –    Os caras que filmaram a sua vida.
    –    O que? – Espanta-se. – Como assim, filmaram minha vida?
    –    A gente acompanha a sua vida desde que nasceu, filmamos tudo, cada segundo – responde Inácio. – Eu sou o câmera e o Carlos aqui é o engenheiro de som.
    –    Vocês estão me dizendo que…
    –    Sim, estamos. Você nunca, jamais, em tempo algum, ficou sozinho seja lá onde você pensou que estivesse sozinho – reponde Inácio.
    –    Nem no banho –  completa Carlos.

    Os dois caem na gargalhada novamente. Inácio, adivinhando a próxima pergunta, adianta a resposta.

    –    É o procedimento da holding, Sergio. Antes de você vir tirar férias, a gente é obrigado a passar o filme da sua vida para você. Pra você ver onde da pra melhorar quando voltar das férias.
    –    Como assim eu nunca fiquei sozinho?

    Mais gargalhadas.

    –    Senta aí cara, que a seção vai começar.
    –    Quer pipoca?

    Mais gargalhadas. Um balde de pipocas aparece do nada nas mãos de Carlos. Os dois sentam no confortável sofá, um de cada lado de Sergio. Inácio, que apesar de não estar mais gargalhando, tinha um sorriso engessado num rosto que mostrava uma expressão de constante alegria, pega o controle remoto que estava numa das mesas de apoio. Em seguida, aponta para a tela e uma lista aparece, com direito a trilha sonora cheia de pompa e circunstância. Aliás, uma bela trilha.

    –    Que música é essa? – Pergunta Sérgio.
    –    A trilha sonora da sua vida – responde Carlos.
    –    Composta por Mozart, cara – completa Inácio cutucando Sérgio com o cotovelo. – Que deferência, hein? Tu ta com moral, o Sergio.
    –    E o que é essa lista aí na tela?
    –    O menu da sua vida por assuntos. Escolhe aí por onde você quer começar.

    Sergio olha indeciso para uma lista de itens de sua vida. Está em ordem alfabética e não cronológica. Há itens mais genéricos como infância e outros mais específicos, como hora do banho. Sérgio não sabe por onde começar. Fica em dúvida. De repente. Percebe que o item punheta ganha um brilho repentido e a tela começa a mudar.

    –    Estava demorando muito – fala Inácio com o controle ainda apontado para a tv – Vamos logo no melhor.

    Aparece uma lista infindável de datas. De repente, Inácio escolhe uma, mas não aleatoriamente.

    –    A minha preferida.
    –    Por que? – Pergunta Sérgio, contrariado.
    –    O primeiro dia que você ficou sozinho em casa depois que descobriu as revistas suecas do seu pai.

    Gargalhadas outra vez.

    –    Foram 14 punhetas num dia.
    –    Dos que a gente filmou, você foi o record.
    –    Michael Phelps da punheta.

    Gargalhadas. O vídeo começa com a câmera focando Carlos, na sa;a do apartamento em que Sergio morava com os pais. Ouve-se a voz de Inácio ao fundo.

    “ Teste de foco.”

    Carlos, as gargalhadas responde,

    “Deixa de bobagem que essa câmera é automática. Vira para a área de interesse.”

    A câmera faz um movimento brusco e acha um Sérgio adolescente, cabelos compridos em mullets e rosto exibindo mais espinhas do que os pelos de barba que tentava, inutilmente, fazer crescer. As revistas espalhadas pela cama e ele no meio, como um rei, deliciando-se com seu prazer solitário, que agora concluía que de solitário não tinha nada.  Enquanto isso, o Sergio atual mergulha no sofá, numa tentativa vã de sumir dentro dele. Ele enche a mão de pipoca e empurra tudo para dentro da boca. Aquela ia ser uma tortura interminável. Mas a trilha, pelo menos, era de Mozart.

  • Os Imbecis

    March 10th, 2013

    Os dois começaram uma discussão acalorada depois da terceira cerveja. Eram torcedores rivais.

    –    Nós temos muito mais vitórias em clássicos.
    –    Mas nós temos mais vitórias em clássicos oficiais.
    –    É, mas  nós ganhamos mais campeonatos regionais.
    –    Dois a mais e nós, mais nacionais.
    –    Mas vocês não têm um mundial.
    –    Claro que temos, tá maluco?
    –    Fifa?
    –    É mundial igual.
    –    Não tem selo Fifa, não é.
    –    Só que nós temos mais jogadores repatriados da Europa.
    –    É? Mas os que nós trouxemos de lá  já ganharam pelo menos uma Champions League, diferentes dos meia boca que vocês trouxeram.
    –    Tá, mas os craques em final de carreira que vocês trouxeram não usam uma camiseta patrocinada pela Nike.
    –    Grandes merdas! Nós vendemos mais camisetas do que vocês no ano passado.
    –    Porém, nenhuma banda de rock usou a camiseta de vocês em show algum, diferente da nossa.
    –    Ah, falando em show, o nosso estádio teve mais shows que o de vocês.
    –    Mas agora isso vai mudar, já que estamos com um estádio, quer dizer, uma Arena multiuso, novinha em folha.
    –    Mas o nosso vai ficar novo também, uma Arena multiuso para a Copa do Mundo. Vou repetir: os jogos da Copa em nossa cidade vão ser na nossa Arena e em mais nenhuma outra.
    –    Mas só a nossa Arena dá o privilégio de ver as duas maiores top models do Brasil desfilando no meio a torcida, já que elas declararam o seu amor pelo nosso time.
    –    Sim, mas a Miss Brasil torce pra gente.
    –    Miss Brasil? Ainda não rolou o concurso.
    –    Barbada, não tem pra ninguém, a mulher é um fenômeno.
    –    Mas a coitada, pra ver jogo naquele chiqueiro de vocês, vai ter que passar protetor solar fator 80, já que descobriram um buraco monstro na camada de ozônio bem em cima dele.
    –    Coisa de cientista que torce para o teu time. O que eu sei é que a rota dos satélites de comunicação do planeta passa bem em cima do nosso estádio. Por isso celular deve pegar melhor na nossa Arena do que aquela porcaria mal acabada de vocês.

    Ficaram se olhando em silêncio depois daquela última comparação. Talvez um tanto surpresos por concluir, intimamente, que a imbecilidade deles havia chegado, literalmente, a estratosfera.

  • Primeiros Passos

    February 28th, 2013

       O sol de outono invade a sala como bastões de luz, denunciando microscópicos pontos de pó em movimento. A luz é mais aconchegante nesta época do ano, a que realmente merece ser chamada de dourada. O silêncio que toma conta da casa após o almoço é tão imenso, que é possível ouvir o zunido das moscas batendo no vidro da janela que dá para um jardim na sala inteira. São cinco delas tentando alcançar aquele incomensurável mundo natural do lado de fora, mas sendo impedidas por uma barreira invisível, o que está muito além da sua compreensão invertebrada.

        Sentado no chão, em frente à janela, está o pequeno Lucas. Um menino de 5 anos de idade, cabelos muito loiros, muito finos, cortados de um jeito que faz lembrar um capacete de ouro. Ele olha fixamente para aquelas moscas se debatendo contra a janela. Ele não consegue explicar em palavras o que sente naquele momento. Um frio na barriga, causa direta da excitação quase incontrolável com as possibilidades que se apresentam a sua frente. Para quem visse o menino ali sentado, era impossível perceber a corrente de emoções que, tal qual um rio caudaloso e revolto, atravessava o interior daquele corpo impassível.


        Já havia 10 dias que aquele mesmo ritual pós almoço se repetia. O garoto sentava-se em frente à janela e observava as moscas zunindo e batendo como loucas no vidro. A excitação que sentia vinha do fato não articulado em sua mente, ainda em formação, de que residia nele o poder de escolher qual delas ia sofrer as mais inomináveis torturas. O fato delas, tão preocupadas em alcançar o jardim lá fora, estarem alheias a presença de Lucas a espreita, como um deus ou demônio, deixavam as coisas ainda mais deliciosas.

         A escolha, esse momento de prazer irresistível, alongava-se por muitos minutos, as vezes alcançando mais de uma hora. Naquele dia, a escolha demorou ainda mais. Após a decisão tomada, Lucas levantou-se e, com destreza e rapidez incomuns, colheu a sua vítima usando apenas uma das mãos. Levou-a até o seu quarto, onde a fez sofrer as piores privações, começando por prendê-la num copo até que  ela ficasse sem oxigênio. Quando o inseto estava a um passo da asfixia, ele então deixava entrar um pouco de  ar, levantando um dos lados do copo, até a mosca se recuperar. E então ele repetia a operação.  Um vai e vem agonizante para o pobre inseto, mas excitante para Lucas. Dentre tantas outras privações, ele prendeu suas asas com alfinetes, arrancou-lhe uma das seis patas, jogou uma quantidade mínima de inseticida para apenas tonteá-la. O inseto durou cinco horas e 37 minutos em sofrimento constante até morrer. Lucas anotou o tempo em um caderno que mantinha escondido exatamente para este fim. Era o recorde. Parecia saciado e depois disso, como toda criança normal, foi jogar bola no jardim.

         No dia seguinte, Lucas voltava da escola sentindo-se estranho. Era como se pensar naquele momento após o almoço em frente a janela que dava para o jardim não fizesse mais sentido. Parecia pouco para ele. Foi quando passou por um terreno baldio muito perto de sua casa onde viu um grupo de cães vira lata perambulando sem destino, procurando o que comer. Aquele vai e vem frenético dos cães lembrava o das moscas na janela, só que eles eram obviamente maiores e apresentavam um novo desafio: ossos.  Ele abriu um sorriso. Toda a maldade do seu pequeno mundo cabia naquele sorriso. O pequeno Lucas estava pronto para o próximo passo.

  • Cindy Shoes (# pós felizes para sempre)

    February 19th, 2013

    Mesmo depois de o país onde Cinderela e o Principe Encantado haviam reinado por tantos anos tivesse deixado de ser uma monarquia para transformar-se numa república presidencial, eles ainda continuavam a ser os soberanos. Afinal, ao contrário do que acontecera com Branca de Neve, o fim da monarquia devia-se a um acordo que tinha o povo como partícipe das mudanças, com bases sólidas na democracia e uma crença inabalável no capitalismo que, apesar de suas falhas, era tido por todos como o sistema econômico mais justo pois incentivava a concorrência sadia e o empreendedorismo. Neste contexto, o casal, que havia reinado com justiça e com uma extrema preocupação com a imagem, gozava de um prestígio sem igual perante a imensa maioria da população. Eram os mais queridinhos entre os queridinhos do país.

    Não bastasse isso, Cinderela, principalmente ela, tinha o tal empreendedorismo supracitado como um talento natural. E foi este dom natural que levou o casal a uma nova era pós-reinado. Aproveitando-se de sua conhecida história de amor, onde um sapatinho de cristal teve participação definitiva no desenlace feliz, Cinderela, que agora prefere ser chamada de Cindy por questões de numerologia e porque também é “suuuuper fashion”, está lançando a sua coleção de sapatos da linha que leva o seu próprio nome em um grande evento internacional: a inauguração da primeira loja mundial da Cindy Shoes em Rodeo Drive, Los Angeles.

    O evento é um dos mais concorridos do ano, com presença intensa da mídia e de celebridades que vão de figuras estelares do cinema, esportistas famosos, socialites e alguns alpinistas, que não estão categorizados como esportistas neste caso porque alpinismo social, evidentemente, não se trata de um esporte propriamente dito.

    É possível ouvir uma babel de repórteres falando para as câmeras, o estalar desordenado dos clics dos fotógrafos como insetos esfomeados no meio de uma plantação de milho. “Podemos ver J.Lo com todo seu charme latino com várias sacolas Cindy Shoes a tiracolo. Cinco pares que em breve serão o sonho de consumo mundo a fora!”, diz uma repórter com cabelos loiros de verdade e seios fartos. Não tão verdadeiros quanto a cor dos cabelos.

    “Agora estamos vendo uma cena impressionante. O encontro das realezas.” Diz uma outra repórter enquanto a câmera foca mostra o que ela descreve. “A eterna princesa Cindy em uma conversa a-ni-ma-dís-si-ma com a Duquesa de Cambrige e mulher do príncipe Philip, Kate. Um choque de nobreza, de beleza e de glamour. Caros colegas, morram de inveja de mim!”, esnoba a repórter com um sorriso maldoso.

    Em outro canto, a estrela Sarah Jessica Parker concede entrevista a um repórter afro-americano (ai de mim que use outro termo em meio de gente tão correta) e afetadíssimo (ai de mim se use outro termo…bem, já entenderam)..

    –        Sarah, como sabemos, ninguém entende mais de sapatos neste planeta do que você. Aliás, eu diria que no sistema solar não há ser vivo que possa ser comparada a você neste quesito. Estamos vendo aqui pelo 10 sacolas da gran premier Cindy Shoes penduradas nos seus ombros, isso mostra o seu “thumbs up”  para a nova marca?
    –        A gente não podia esperar outra coisa de uma pessoa como Cindy. O sapato é parte da sua história de sucesso, de quem veio de baixo. Uma história que encantou o mundo…
    –        O mundo e o príncipe, não é mesmo?

    Completa o repórter que da uma gargalhada calculada da própria piada, jogando a cabeça para trás, porém, mantendo o microfone próximo a boca de Sarah, que também ri, mais por educação, e continua a sua explicação para sabe-se lá quantas milhões de pessoas que assistem o evento no mundo inteiro.

    •       –        Evidente, que príncipe poderia resistir a uma mulher tão encantadora e com a força, o charme e a beleza dela. Os modelos são todos desenhados por ela e são lindos. Ja vejo nove em cada dez estrelas pisando no tapete vermelho do Oscar com um deles nos pés.
    –        Nós ainda não tivemos oportunidade de ver a decoração, que ficou a cargo do próprio Masayasu Suzuki, gerente do prestigiado escritório da Garde aqui em Los Angeles.  Cindy proibiu os convidados de adiantar qualquer detalhe para não estragar o impacto que a decoração vai causar na imprensa.
    –        Isso mesmo! Estou terminantemente proibida de falar antes de vocês entrarem, mas uma coisa eu posso dizer. Os sapatos de cristal que ela usou naquele baile são destaque no conjunto do design interior. É impressionante.
    –        Ai, Sarah, sua víbora. Só você para nos revelar algo la de dentro e em vez de saciar nossa curiosidade, nos deixa ainda mais ansiosos.

    Ele repete aquela gargalhada controlada com os dentes muito brancos a amostra e jogando novamente a cabeça para trás.

    Enquanto isso, no outro lado da cidade, a fada madrinha assiste a tudo sentada em um sofá, perto da lareira, com expressão acabrunhada. Está triste assim por não levar crédito algum pela confecção do sapato de cristal e também pela sua própria participação na história de sucesso da sobrinha famosa. Foi completamente esquecida, posta de lado. Será?  Eis que o telefone da casa toca inesperadamente. Ela não recebe telefonemas em casa e tem o aparelho quase como um enfeite sala. Mas naquele dia ele tocou. Cismada, ela atendeu.

    –                Alô?

    –                Alô? Aqui Walter Brown, advogado e sócio da Gibson Dunn & Crutcher, LA? Falo com a Fada Madrinha?

    –                 Sim.

    –                 Eu suponho que a senhora esteja testemunhando o sucesso de sua, digamos, sobrinha e se perguntando, como nós mesmos estamos fazendo, porque a senhora, depois de tudo o que fez, foi totalmente esquecida.

    –                 Na verdade, estou, sim.

    –                      Infelizmente, essa é a natureza humana, minha senhora. E digo mais, eu posso até apostar que alguns daqueles modelos de calçados vendidos foram criados pela senhora.

    –                     Todos eles –  a voz dela sai acompanhada de um suspiro desanimado. – Eu fiz muitos esboços até chegar naquele par de cristal. Muitos mesmo. Centenas. Eu dei para ela os esboços como um presente de casamento.

    –                       Bem, parece que apareceram em couro, borracha e madeira nobre na loja de sua sobrinha. E isso, como a senhora sabe, é roubo de propriedade intelectual, passível de processo.

    –                Será? – Espanta-se. –  Não sei. Não acho que isso precise ser levado adiante. A menina sofreu tantas privações sob os cuidados daquela megera e das primas. Isso fica guardado na alma, sabe? Quem garante que ela não vai dar o merecido crédito quando essa excitação toda passar?

    –                   A senhora acredita nisso?

    –                       Não.

    –                       Olha, nós entendemos que a senhora esteja relutante, afinal, tem o espírito cordato como convém a toda Fada Madrinha. Tudo o que pedimos é uma visita a sua casa para expormos como seria o processo, a metodologia, os passos. Afinal, a senhora merece justiça.

    –                       Está bem – resigna-se. – Vocês gostam de chá? Faço um ótimo de abóbora.

     

  • Um leitor na rodoviáia.

    January 6th, 2013

    Entrou naquela rodoviária e sentiu um mundo que ao mesmo tempo lhe era estanho e também não era. É assim que nos sentimos quando encontramos algo que nos era corriqueiro há anos atrás, mas que, por força do progresso econômico, deixamos pra trás.  Mas naquele dia, ele decidiu deixar o “conforto adquirido” e entrar em contato com o passado. Acostumara-se a fazer daquela viagem apenas um traslado, um pulo que transformava 500 quilômetros em 40 minutos num avião, tempo ínfimo para os seus padrões de trânsito caótico do dia a dia. Comprou a passagem para dali a uma hora e quinze minutos. Sacola com algumas roupas e outra com o computador e livros para ler a viagem penduradas uma em cada ombro, para o fardo não pender nem para o direita nem para a esquerda.  O ambiente é frenético, de gente de deslocando pra lá e pra cá, como elétrons desnorteados num espaço quântico a procurar seus pares. Ele fica meio zonzo, tentando achar um lugar onde se sinta situado no mundo. Vislumbra uma fileira de cadeiras de metal, e uma especial parece lhe chamar. Esta isolada, entre duas outras também vazias. “É ali”, pensa, e vai resoluto atravessando aquela corrente desordenada de gente, torcendo para que ninguém ocupe aquele precioso espaço. Sucesso. Ele senta e tenta organizar os pertences. Celular no bolso da camisa. A bolsa das roupas embaixo da cadeira metálica. A bolsa com o computador e os livros no colo. Um filete de suor escorre pela testa. Ele passa as costa da mão direita e interrompe o seu curso descendente antes de chegou ao  olho direito. Sente-se atraído por dois olhos arregalados que parecem estar a sua esquerda. Vira-se e encontra um garoto, deitado em duas cadeiras a fitá-lo com curiosidade e, como é típico dos pequenos,  sem nenhuma vergonha. Ele dá um sorriso. Sem efeito. O garoto, uns 4 anos, continua a encará-lo com uma expressão vazia. Ele volta-se para frente e começa a olhar o entorno. Subitamente, tem sua atenção voltada para as placas luminosas sobre as bilheterias das diversas empresas de ônibus. Ali, além do nome das empresas, aparecem também os destinos. Ele começa a ler com curiosidade o nome das tantas localidades para onde as rodovias levam aquele mar de gente que se desloca ali dentro. Araguaina, Piritiba, Irecê, Icó, Iguatu, Eunápolis, Itamaraju, Caetité, Ponte Nova, Piraúba, Guarani, Manhumirim, Iuna, Medina, Rio Pomba, Anagé, Guanambi, Santo Estevão, Capela, Lajinha, Padre Paraíso, Parambu. Fosse ele um Cortázar, um Gabriel Garcia Marques ou um Jorge Luis Borges e ali estariam cenários perfeitos para uma história brilhante de realismo fantástico. Mas ele não era um autor genial. Era apenas um leitor ávido.

  • A mulher de luto

    November 27th, 2012

    As pessoas que lotavam a pequena capela se dividiam em dois grupos: fixas e itinerantes. O primeiro estava lá há muito e só sairia após o sepultamento. O segundo era formado por gente que permanecia entre dez minutos e pouco mais de uma hora e era composto por amigos e alguns parentes mais distantes. O motivo da reunião era o Dr. João Carlos, ocupando um caixão marrom escuro no centro da capela, cercado por quatro lâmpadas que simulavam velas. Via-se duas fileiras de cadeiras de madeira encostadas nas paredes laterais. Os familiares e amigos mais chegados se revezavam na ocupação destas cadeiras. Só a viúva, dona Vicentina, tinha lugar cativo. Todos os presentes, fixos e itinerantes, passaram a sua frente como romeiros diante da estátua de um santo, apresentando gestos de reverência acompanhados de expressões comuns nesta hora triste como “meus pêsames” ou “meus sentimentos”.

    Dentro da capela ouvia-se um murmúrio constante, muito baixo, como se todos receassem acordar o morto. Mas, à medida que nos afastássemos em direção ao exterior da capela, o volume das conversas ia aumentando. Os assuntos eram os mais variados. De discussões acaloradas sobre o sistema tático da selecção funcionar melhor com dois ou apenas um volante até a situação da pobre personagem principal da novela das oito, que desenvolvera um câncer, o que fez com que a atriz que a representava raspasse a cabeça para dar maior dramaticidade ao papel. Em outro bolinho era possível ouvir as teorias econômicas que poderiam salvar o país do marasmo. Dentre as tais medidas, um tiro na cabeça do ocupante da pasta da economia foi aventada com anuência de boa parte dos participantes. Em outra pequena reunião era possível ouvir dicas dos melhores lugares a visitar em Londres “uma cidade encantadora a despeito da sua horrenda culinária”. O pobre Dr. João Carlos pouco ou em nada era lembrado. É que os velórios têm este incrível poder de reunir gente que não se vê há muito, o que acaba deixando as referência ao falecido para o segundo plano, até porque isso é missão do padre e seria cumprida com maestria e emoção no momento do derradeiro adeus.

    Só que uma pessoa acabaria por mudar o preceito acima descrito. Uma mulher cujo corpo era de uma beleza estonteante. Ela apareceu, subitamente, como que por encanto, tinha passos firmes, um andar de top model em passarela de Milão ou Paris. Dirigia-se para onde estava o caixão do falecido. Vestia um conjundo de saia e blazer que delineava as formas do corpo. Segurava uma rosa vermelha na mão direita. Uma enorme e chamativa rosa vermelha. Passou pelos grupinhos formados na frente da capela, altiva, cabelo preso embaixo do chapéu de abas estreitas, deixando um lindo pescoço à mostra. Homens e mulheres viravam a cabeça acompanhando a sua passagem. Embora ninguém abrisse a boca, era possível ouvir a pergunta pairando no ar como fumaça espessa de um charuto cubano: quem é esta mulher? Ela entrou na capela e deteve -se por alguns instantes ao lado do caixão onde o Dr. João Carlos descansava com uma expressão serena. Todos os olhares voltavam-se para ela. Pensava-se de tudo. “Podia ser neta dele”, “Velho deslavado sem vergonha”. “Onde é que o vovô arranjava tempo, meu Deus”. “Viagra, só pode ser o Viagra”. “Será que ela precisa de alguém para abrandar a tristeza?”.  Num gesto pungente, depositou a rosa sobre o peito do Dr. João Carlos para depois ficar imóvel, por mais algum tempo, encarando o falecido, dando à tristeza a mais clássica das beleza . Uma lágrima escorreu-lhe pela face e acabou caindo na testa do ocupante do caixão. Ela pegou um lenço de dentro de sua bolsa e enxugou aquela testa marmórea, gélida. Dona Vicentina olhava atônita para aquela cena. Ninguém ousou chegar perto daquela mulher. Ela então se recompôs, virou-se em direção à saída e, com o mesmo passo resoluto, dirigiu-se para fora, passando por entre os grupinhos, cujos integrantes agora reviravam a cabeça para o lado inverso num efeito dominó provocado pelo seu gracioso movimento.

    Foi ela sumir da vista de todos para o burburinho recomeçar, transformando-se rapidamente em uma verdadeira parafernália de vozes. Desta vez, o tema de todas as conversas era único: a mulher de luto. Finalmente, todos no velório falavam – mal ou bem – do morto. Dona Vicentina quase desmaiou, sendo acudida pela irmã que a abanava com o folheto do cemitério, pedindo freneticamente para alguém trazer um copo de água. Os dois filhos precipitaram-se ao mesmo tempo cada um com um copo de água nas mãos e por pouco não se chocaram. A outra irmã de dona Valentina parou ao lado do caixão e, no meio daquela confusão, tirou a rosa do peito do falecido, dizendo poucas e boas para ele em voz baixa. Jogou a prova da traição na lata do lixo. Até frequentadores dos velórios vizinhos vieram saber do morto que tivera a traição revelada na cerimônia de despedida.

    Quanto à mulher, entrou no seu carro, pegou o jornal e consultou a página de obituários. Marcou com um x o anúncio de velório e enterro do Dr. João Carlos. Ao lado deste, havia outro anúncio: Anastácio Almeida. Querido avô, dedicado pai, amado marido. Estava sendo velado naquele exato momento em outro cemitério. Foi então que percebeu um florista vendendo rosas lindas, vermelhas, ainda mais bonitas do que aquela com a qual tinha entrado no velório do Dr. João Carlos. Saiu do carro, foi até o florista e escolheu a mais vistosa. Duvidava encontrar uma rosa como aquela no cemitério onde estava sendo velado o tal Anastácio Almeida.

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