• O Fantasma de Luiza – Capítulo 8

    September 20th, 2013

    No elevador

    Voltando do almoço, Rui encontra Lucas, o office boy, no elevador. Amante do rock’n roll, principalmente das bandas dos anos 70, década em que ele nem pensava em nascer. Quando abria a boca para falar, o contraste entre sua linguagem e a sua figura de cabelos longos, camisas pretas com logo de bandas de rock e tatuagens, ficava evidente. Lucas fazia uso de termos antigos e alguns até arcaicos.O motivo era bem simples: um roqueiro criado pela avó, uma revisora de livros, com quem aprendeu a usar tais termos com muita propriedade. Naquele dia ele entrou no elevador e estava todo de preto com uma expressão triste.

    –       Meu Deus, Lucas. Morreu alguém?

    –       Hoje está fazendo 33 anos que John Bonham, o maior baterista de rock de todos os tempos, faleceu. Estou assim, enlutado, em homenagem a este músico supimpa.

    –       Entendo.

    –       Mas, mudando de assunto, seu Rui, não pude deixar de perceber que dona Karen estava conversando consigo na cozinha. Ela parecia assas interessada.

    –       Será que aquilo tudo é mulher pra mim?

    –       Aquele broto é uma quimera, seu Lucas. Já pensei em diversas ocasiões em ir ter com ela e abrir meu coração.

    –       Coração? Não seria o seu zíper?

    –       De fato, seu Rui. Mas cadê a coragem? Fico procurando estratagemas para conversar com aquela deusa. Outro dia consultava meus botões sobre o que Mick Jaegger diria a ela para leva-la para a alcova?

    –       Provavelmente nada, Lucas. Afinal ele é o Mick Jeagger.

    Neste momento, a porta do elevador abriu-se e Rui seguiu em frente, deixando Lucas embasbacado com sua observação. O garoto, olhava para ele se afastando e apenas balbuciou um elogio para ele mesmo.

    –       Quanto tirocínio!

    -x-

    À noite, Rui está confortavelmente instalado na sua poltrona preferida enquanto saboreia o seu infalível Dry Martini. Jogada no sofá de três lugares, Luiza, em roupas esvoaçantes, conversa com seu ex-marido.

    –       Toda vez que eu penso nisso fico embasbacado.

    –       Nisso o que, Rui.

    –       Eu conversando com um fantasma. E logo o seu fantasma. E ainda por cima, já achando isso normal. Será que você está aqui?

    –       Você não comeu aquela menina do bar? A primeira depois de mim?

    –       É, foi o que aconteceu.

    –       Então, acredito que sim, então isso indica que eu estou aqui.

    Rui bebe um gole da sua bebida predileta, engole, soltando uma baforada de ar embebida em álcool.

    –       Não sei como você gosta tanto disso.

    –       Você sabe como o Dry Martini foi criado?

    –       Guarde esta história cheia de charme e glamour para as próximas mulheres que você vai querer trazer ali para dentro – ela indica o quarto com um movimento de cabeça. – Queria saber o que você achou da aula prática na cozinha hoje.

    –       De longe, a mais esquisita que ja tive.

    –       O que eu quero saber é se você aprendeu todos os sinais aparentes de que uma mulher quer dar pra você.

    –       Seria meio difícil esquecer depois do jeito peculiar com que você explicou.

    –       E então?

    –       Fiquei tão animado que estou pensando em levar a Karen para um “ almocinho executivo” – faz aspas com os dedos indicador e anelar das duas mãos nessa parte – Que tal?

    –       Almoço sim, mas nada de levar ela pra cama.

    –       Como assim? Não é justamente pra isso que você está aqui?

    –       Rui, por enquanto vamos nos concentrar na conquista. Quero ver você totalmente seguro.

    Ela pensa um pouco antes de seguir falando, como que medindo o que vai dizer.

    –       Não leve a mal, mas suas habilidades na cama são, como eu diria, satisfatórias. Como de resto, muita doçura, muito carinho, o que não é de todo mal.

    –       Então, qual o problema?

    –       Rui, a sua falta de safadeza é algo que precisamos corrigir . Do jeito que está não vai haver grandes problemas quando se tratar de mulheres que você não vai mais encontrar. Mas quando se trata de uma colega, aí a coisa muda de figura.

    –       Mas qual o problema com isso?

    –       Rui….Ruizinho…você faz ideia de uma foda mal dada com uma colega de trabalho? No outro dia, o escritório inteiro vai saber o que ocorreu. Principalmente a mulherada. Isso também vale para uma bem dada. Uma boa fama, com uma mulher como Karen, pode acabar rendendo mais uma, duas ou sabe-se la quantas nov as fodas.

    –       Você está me dizendo que…

    –       Que a buceta da Karen é a fechadura de uma porta de prazeres. E o seu pau, língua, ou seja lá o que passar pela sua cabeça, são as chaves.

    –       É verdade! – Impressiona-se.

    –       Você tem que pensar com cabeça de safado na hora de comer alguém. Assim como um gordo pensa com cabeça de gordo quando faz um sanduíche. Mas o almoço com a Karen amanhã vale a pena. Para testarmos o nível de safadeza dela.

    –       Qual a ideia?

    –       Provocar ainda mais. Essa aí, merece.

     

    Após aquela conversa e mais alguns Dry Martinis, Rui teve uma noite agitada.  Um sonho muito estranho, daqueles que deixam uma impressão encravada na alma. Começava com ele fora do seu corpo, assistindo a a si mesmo em desempenho sexual com Luíza. Como um Imperador Romano, o Rui fora do corpo esticava o braço e fechava os dedos da mão exceto o polegar, que ele virava para baixo, em sinal de desaprovação ao seu desempenho sexual pífio. Luiza então se transformava em um leão e começava a devorá-lo. Acordou encharcado. E não conseguiu mais pegar mais pegar no sono. Permaneceu deitado, olhando as sobras no teto do quarto, provocadas pela luz indireta dos postes da rua que entrava pela janela. Pensou em Luiza. De alguma forma, desejou ter ela ali naquele momento.

     

    (continua)

  • O Fantasma de Luiza – Capítulo 7

    September 18th, 2013

    Rui olhava para Karen com uma expressão desconcertada. Pelo menos era isso que Karen estava pensando. Na verdade, Rui não sabia o que pensar da situação.  Ver a miss escritório, para a qual ele nunca deu lá muita bola, ao lado da razão pelo qual ele nunca deu muita bola. O espírito de Luiza fazia um acurado exame em Karen, como um mecânico cuidadoso que examina um motor parafuso por parafuso.

    –    Rui, eu sei que a gente mal se fala, por razões que eu nem entendo. Mas eu só queria dizer que estamos muito felizes por saber que você está se recuperando.
    –    Obrigado.

    O agradecimento veio tímido, quase um gemido amedrontado, que mais uma vez foi mal interpretado por Karen, que entendeu aquilo como o efeito que uma mulher como ela causava sobre qualquer homem. A verdade é que a reação de Rui tinha era fruto de uma causa totalmente diferente.  As caretas que Luiza fazia ao analisar Karen. O espírito estava se divertindo com a situação.

    –    Eu não consigo saber o quão profunda é a dor de perder alguém que a gente ama tanto, principalmente nas circusntâncias em que aconteceram. Eu sempre achei você um cara muito discreto, um ótimo profissional, diferente de todos, por isso mesmo…

    O que Karen disse daí por diante foi sumindo lentamente, ficando distante, até o momento em que Rui percebia os lábios de Karen se movendo mas nenhum som saindo deles. Ao lado dela, Luiza passou a opinar sobre a mulher em modo mute a sua frente.

    –    Rui, aqui está uma aula prática de sinais que mostram, uma mulher que quer dar pra você. Senão, vejamos. Ela desabotoou mais um botão da camisa.

    Luiza aponta para o colo dos seios de Karen como se fosse uma professora mostrando aos alunos uma equação na lousa.

    –    Se você fosse perspicaz, iria notar isso, pois pelo que sei ela deixa dois botões livres e não três como vemos aqui. Não creio que isso seja um acidente. Essa mulher é muito consciente de tudo o que faz. Em segundo lugar, olha como ela mexe nos cabelos. Não pára. Não sei se você sabe, mas isso tem dois aspectos muito importantes para serem analisados. O primeiro é que mexer constantemente no cabelo é o equivalente a um pavão abrindo a cauda. O segundo é que o movimento do braço evidencia o volume dos seios, que, aliás – nesse momento Luiza aproxima os olhos do colo dos seios de Karen –  são naturais. E bem interessantes.

    Rui permanece lívido, olhado aquela cena insólita enquanto Karen, alheia ao fato de ser objeto de estudo, continua falando, sem que ele ouça palavra sequer. Luiza continua. Agora, aponta os lábios de Karen.

    –    Notou s língua passando nos lábios? Ela umedece os lábios vez por outra, o que é um claro sinal de sedução. Agora olhe o pé esquerdo. Notou? Ela fica brincando com o sapato, fazendo o calcanhar entrar e sair dele. Isso é outro sinal evidente do desejo que ela tem de que você a leve para um “almoço executivo”.

    Ao falar esta última frase, Luiza sinaliza aspas imaginárias usando os indicadores e anelares de cada mão.

    –    Conclusão, você pode comer ela aqui nessa mesa. Agora, se quiser. Fim da aula.

    Luiza desaparece, lentamente na mesma proporção que a voz de Karen aparece e vai aumentando de volume até voltar ao normal.

    –    …bem, era isso que eu queria te dizer. Fique a vontade para falarmos sobre isso o quanto quiser. Eu estou sempre a disposição.
    –    Ah…sim. Obrigado, Karen.

    Karen virou-se e saiu andando. Rui permanece na mesma posição, encostado no balcão, olhando para ela enquanto partia, ainda digerindo aquela aula prática ao mesmo tempo em que observava os movimentos ondulantes dos quadris da colega. Não tinha ouvido coisa alguma do que Karen havia dito. Mas o que importava não era o que ela havia falado, mas o que ele não teria percebido se não fosse a aula magistralmente ministrada por Luiza. Começava a ter menos resistência em relação ao fantasma de Luiza.

    (continua)

  • O Fantasma de Luiza – Capítulo 6

    September 15th, 2013

    Dona Juliana, sua mãe entra e, no segundo que passou para dentro do quarto, estacionou ao ver o filho nu,  barriga pra cima e a mulher ao lado dele, também nua, de barriga par baixo. Lençol cobrindo os dois? Não. Dona Juliana, surpreendida pela cena, solta um grito. Marina acorda de um salto e também grita. Rui olha para algo que chama a sua atenção num dos cantos do quarto. Luiza, transparente como sempre, retorcendo-se de tanto rir da cena.

    –       Mãe, pelo amor de Deus, a senhora não pode entrar assim na casa dos outros.

    Pondera Rui, já na sala e vestido, para a mãe que mostra total desconforto.

    –       Ruizinho, você não é “outros”.  Você é meu filho. Um filho que não tem modos.

    –       Como assim, não tem modos?

    –       Então eu entro até a sua casa e pego você com uma mulher na cama? Onde ja se viu.

    –       Mãe, vamos ser sinceros, poderia ser bem pior. Imagina se fosse um homem em vez desta mulher.

    –       Eu não admito que você caçoe da sua mãe desse jeito…

    Neste momento, uma descabelada Marina, enfiada em um vestido completamente amassado e com os sapatos na mão, passa na pelos dois.

    –       Marina, espera. Eu te levo.

    –       Não eu pego táxi.

    Ela saiu assim que terminou a frase, pretendendo nunca mais voltar.

    –       Pelo menos ela tem um pingo de vergonha, coisa que você, com suas piadotas, parece ter perdido.

    –       Mãe, eu tenho que seguir em frente. A senhora, inclusive, deveria estar contente. Isso é sinal que eu estou me recuperando, não acha?

    Dona Juliana ficou em silêncio, digerindo aquelas frases que eram de uma lógica esmagadora. Depois de alguns segundos, abraçou o filho. Que meio abafado pelo ombro da mãe ainda falou.

    –       Agora, ou a senhora me dá essa chave, ou eu troco a fechadura.

    No elevador

    Rui entrou no elevador para subir até o seu andar e la estava Ramalho, excitadíssimo.

    –       Ah, Rui, era com você mesmo que eu gostaria de falar.

    –       Quanta alegria, Ramalho. É bom ver gente feliz assim em plena segunda.

    –       Ta brincando? – Ele abre um sorriso de criança –  Hoje não é qualquer segunda. Estou indo para a reunião com o pessoal de relações externas, para abordarmos o plano de ação da semana. Depois vou para a reunião de operação interna. A tarde, vamos nos reunir a partir das quatorze e trinta para a reunião de follow up da reunião de sexta-feira, aquela sobre abordar os nosso clientes mais agressivamente. E como você participou dessa, quero você lá.

    –       Mas Ramiro, ninguém teve tempo de implementar abordagem nenhuma de sexta pra hoje. Teve um final de semana no meio, lembra?  E depois, se eu passar duas horas numa sala de reuniões, como é que eu vou implementar as novas abordagens?

    –       Todos nós temos que passar por isso. São os ossos do ofício. Eu também não vou ter tempo pra tudo. Mas veja o lado bom. Eu, você, Murilo, Leandro podemos ficar a noite trabalhando, pedir pizzas. Os bravos mandando ver. É excitante, você não acha?

    Ramiro pega o seu iPhone e vai direto para o aplicativo de notas.

    –       Você já pode ir me dizendo qual o sabor da pizza que vai querer. Anoto aqui e já vamos ganhando tempo.

    –       Alho poró. Sem bacon.

    Ramiro sai exultante do elevador. Ele para e vira-se para Rui, que o fitava com certa consternação.

    –       Alho poró tem hífen?

    Rui entrou no salão dominado por computadores e logo percebeu uma mudança no jeito que todos o encaravam.  Assim que deu os primeiros passos fora do elevador, notou a diferença no ar. Dona Ruth, secretária do Vice-Presidente, passou por ele, e o cumprimentou com um sorriso um tanto maroto. No caminho para a sua mesa, notou certos olhares furtivos, outros de esguelho e até um ou outro sorrisinho propositalmente mal disfarçado. Foi sentar na sua mesa e ligar o computador para logo receber uma mensagem de Murilo, via chat interno. “Provou outra comida além de tomate, hein, garanhão?”. Estava na cara. Todo o escritório já sabia que o fidelíssimo marido e agora viúvo cornudo tinha, finalmente, se livrado da tristeza e partido para a recuperação.

    “Cacete, Murilo. Vocês não espalharam pra todo mundo que a Luiza tinha sido a única mulher da minha vida, né?”, responde Rui.

    “Eu tenho a boca meio suja, mas pra fofoqueiro eu não sirvo. E garanto que os outros também não falaram sobre isso. Mas, que a gente comentou que você saiu ontem do bar muito bem acompanhado, isso comentou.”

    “Isso eu percebi, pelos olhares e sorrisinhos”

    “Não reclama. Você é o assunto do dia. E depois, está todo mundo feliz por você. Inclusive a Karen, aquela gostosa. Ela me pareceu bem interessada na sua recuperação? “

    Como em todo o escritório, este também tinha a musa. Karen, formada em economia e uma corretora bem agressiva. Estava sempre vestida com uma saia que ia até pouco abaixo do joelho, mas que delineava bem suas pernas, que acabavam impreterivelmente num scarpin de salto alto clássico. Uma camisa que apresentava os dois botões superiores impreterivelmente abertos, revelando um colo de seios convidativos. Todos os homens daquela corretora sonham em colocar a cabeça entre aqueles montes. Um rosto anguloso, de traços fortes, tendo cabelos levemente encaracolados como moldura. Era a combinação explosiva de beleza, inteligência, personalidade e perspicácia. Andava sempre olhando para uma linha imaginária no horizonte, como quem diz “é lá que eu vou chegar”.  Em relação aos desejos provocados por ela, Rui parecia o único imune. Não que ele não a achasse atraente. Mas ele só tinha olhos para Luiza, a primeira e única. E era por ser justamente esta exceção que Rui intrigava Karen. Mais do que intrigava. A indiferença de Rui em relação a ela a atraía, embora ela relutasse em aceitar a ideia. Mas agora, Rui estava, digamos, livre daquela paixão e o fato de ele ter saído com uma estranha que encontrou em um bar, provocou a sua curiosidade em relação aquele colega indiferente.

    Quando eram quatro da tarde, Rui levantou-se da mesa e foi até a cozinha para pegar um copo de água. Ele pegou um copo de plástico encheu-o e, quando virou-se em direção a saída, viu Karen em toda a sua exuberância parada na porta olhando para ele. Seu coração disparou. Mas não por causa de Karen, mas por causa de quem estava atrás dela: Luiza.

    (Continua)

  • O Fantasma de Luiza – Capítulo 5

    September 10th, 2013

    Rui ficou olhando para a diáfana ex-esposa a sua frente com expressão indefinida. Tentando digerir aquela história de “vou entrar no seu corpo”. Ela, adivinhando aquele torvelinho de dúvidas que viajavam pela cabeça dele como uma chuva asteroides, adiantou-se.

     

    –       Não dói nada. E eu também não vou tomar conta de você inteiro.

    –       Mas que porra é essa de entrar no meu corpo?!

     

    Ele finalmente explode com atraso.

     

    –       Fazer parte de você, uma espécie de comunhão, simbiose.

    –       Simbiose o caralho. Eu vou é ser possuído, não vou? Como acontecem naquelas sessões espíritas. Vou revirar os olhos e me comportar como um autômato.

    –       Esse é um jeito errado de ver as coisas. No modo dois em um você não perde o controle. É tudo muito eficiente. Eu tomo conta daquela parte que falta em você, a personalidade forte, a auto confiança.

    –       Pode tirar seu cavalo da chuva…

    –       Rui, eu preciso da sua permissão. Se eu fizer isso a força não vai funcionar. Confia em mim.

    –       Ah, é uma boa frase vinda de você, não acha?

    –       Rui, eu voltei por você. Eu preciso ajudar você. Por favor, deixa eu entrar.

     

    Ela falou aquelas palavras com uma vontade genuína.

     

    –       Ta bom. Vamos ver no que isso vai dar.

     

    Assim que deu a sua permissão, Rui ouve um estalo, como a pressão nos ouvidos sendo liberada quando o avião nivela. Tudo a sua volta parecia mais colorido, mais vivo. Uma sensação de visão e audição bem mais aguçados. Ele não pode negar que a sensação é muito interessante. Sente uma forte excitação, como se tudo fosse possível para ele, mas sem perder o controle. O fantasma de Luiza não está mais a sua frente, mas ao mesmo tempo está. Tudo parece ser e ao mesmo tempo não ser. De repente sente uma tontura que quase o derruba. Ele precisa apoiar-se em uma parede para não cair. Uma loira peituda e um amigo que estão indo para o bar passam olhando para ele. Quando se afastam, Rui ainda consegue ouvir um “Xi, aquele ta borracho!”  com uma clareza indiscutível vindo da boca da loira peituda. Após alguns minutos ele se recompõe e tudo parece no seu lugar.

     

    –       O que a gente faz agora?

    –       Agora a gente volta para o bar. Já sei com quem você vai sair daqui hoje?

     

    Rui percebe que está falando com Luiza mas sem mexer a boca. A expressão “voz na minha cabeça” nunca fez tanto sentido.

     

    –       Como assim, já sabe com quem eu vou sair daqui hoje?

    –       Tem uma loira no balcão que passou o tempo todo olhando pra você. Mas, como você é um completo tapado para essas coisas…

    –       Escuta aqui, Luiza, já não chega tudo o que eu passei por sua causa e você ainda vem me ofender?

    –       Não estou te ofendendo, é um fato. Mas enfim, uma loira, que está acompanhada de uma amiga. Ela deu muita bandeira e você lá ouvindo aqueles três patetas. Nós vamos até o balcão, engatar um papo com elas.

    –       Vamos?

    –       Tecnicamente, você vai. E vai usar a sua cabeça que a confiança eu comando. Tudo vai dar certo. É hoje que você vai comer a segunda mulher da sua vida.

    –       Olha a língua, Luiza.

    –       Olha você a sua. Porque ela vai trabalhar hoje.

     

    Quando Rui/Luiza voltaram para o bar e passaram reto pela mesa dos amigos do Rui, causam uma impressão e tanto. Quer dizer, o Rui causa, porque eles, obviamente não conseguem ver a Luiza dentro do corpo dele. Não claramente. Mas eles percebem no olhar do Riu, no sorriso que ele deu para eles e na decisão com que ele se dirigiu para o balcão, que algo estranho estava se passando.

     

    –       Mas o que será que deu nele? – Pergunta Leandro.

    –       Não sei. Parece outra pessoa. –  Concorda Carlos Alberto.

    –       É, ta possuído – intervém Murilo. – Pelo tesão. Se eu só tivesse comido uma mulher a minha vida inteira ficaria esquisito como ele. 

     

    Murilo levanta o braço para o garçon e faz um três com os dedos, sinal para mais três chopps, encerrando, assim, a discussão.

     

    -x-

     

    Rui abriu os olhos lentamente. Olhou para o lado e Marina, a loira do bar ressonava ao seu lado. Olhou o relógio ao lado da cama, que marcava 9:45 da manhã em números vermelhos sob o fundo preto. Abriu um sorriso lembrando-se de tudo o que tinha ocorrido até aquele momento. De como estar possuído, em parte, por Luiza fora determinante. A confiança que sentiu. A sensação libertadora de não se importar com julgamento dela, no momento em que estava xavecando. Como tudo aconteceu?

     

    Quando voltou para o bar, a loira estava mesmo olhando para ele. Com um leve sorriso. Rui foi até lá e notou que ela bebia um um Whisky Sour.  Era o que ele precisava para começar um papo. Rui conhecia uma história sobre aquela bebida e, se bem contada, poderia render-lhe frutos naquele momento de conquista.

     

    –       Ola, meu nome é Rui .

     

    Disse aquelas palavras com uma naturalidade que lhe era completamente incomum e com um sorriso tão encantador que ele nem se reconheceu quando cruzou o olhar com o espelho que ficava no fundo do bar. A loira se adiantou.

     

    –       Oi – disse a loira.

    –       Tudo bem?  – Emendou a morena.

     

    Aquele era um inicio que poderia ter sido desanimador. Mas, por causa da presença de Luiza, ele nem pensou em desanimar. Encarou a loira com um sorriso e falou.

     

    –       Notei que você está bebendo Whisky Sour. É uma mistura muito interessante.

    –       Notou? E eu achei que você nem tinha percebido que estávamos aqui.

    –       Ah, percebi. Mas como não sou adivinho, não posso saber os seus nomes.

    –       Prazer, Marina – respondeu a loira.

    –       Carla.

     

    A morena não parecia muito contente com a presença de Rui/Luiza, mas Rui não levou aquilo em consideração. De alguma forma, Luiza o fazia entender que aquele mau humor da amiga era pelo fato de ela ter conseguido engrenar uma conversa com alguém interessante, coisa que ela, com aquele péssimo humor, estava longe de conseguir. Provavelmente voltaria pra casa e procurar a companhia do seu vibrador que a aguardava na mesa de cabeceira.

     

    –       Esta bebida tem uma história interessante, sabia?

    –       E que história é esta?

    –       Conta-se que Hemingway uma vez encontrou-se com Scott Fitzgerald. Esse, após muitas taças de vinho, ficou paranoico, achando que ia morrer, pedindo para o amigo cuidar da filha em sua ausência. Hemingway, um tanto irritado com aquele chilique, disse que tinha a solução e pediu um Whisky Sour para ambos. Parece que o remédio milagroso salvou a vida de um grande escritor.

    –       Será que é verdade?

    –       Com dois escritores envolvidos? Acho que deve ter um pouco de ficção. Mas o que é uma bebida sem um pouco de personalidade, não é?

     

    Rui percebeu que a medida em que contava a história, Marina ia cedendo cada vez mais. Em algum momento daquela explanação cheia de sorrisos, ele lembrou de Lucio. Rui percebeu claramente o momento em que Marina havia se entregado. O momento em que ele poderia levá-la dali para a sua cama a hora em que bem entendesse. Ele nunca contaria aquela história com tanto charme e desenvoltura, sem um mínimo gaguejar, se não fosse Luiza. Ela foi a sua auto confiança. Ele lembra, inclusive, de ter roçado propositalmente sua mão na de Marina, enquanto contava a história. Pode sentir cada poro eriçado naquela mão. Era uma sensação impossível para ele descrever. A não ser: Marina estava entregue.

     

     De repente, Rui ouve a maçaneta da porta do seu quarto sendo girada. Alguém está entrando. Seu coração dispara. Ao ver a figura ali parada,  Rui tem a única reação possível.

     

    –       Porra mãe!

     

    (Continua)

  • O Fantasma de Luiza – Capítulo 4

    September 7th, 2013

    Rui passa incontáveis segundos olhando para o nome no visor do seu celular. O nome de Luiza tendo como fundo a foto dela, usando óculos escuros e sorriso aberto em Búzios.

    –        Alô?

    –        Rui, por favor não desliga.

    A voz, o jeito de falar o nome dele, tudo parecia indicar Luiza falando do outro lado da linha. Uma imitação perfeita.

    –        Você não tem vergonha? Nem coração? Passar um trote desses? Como você pegou o telefone da Luiza.

    –        Vamos começar bem devagar. Se você for no nosso quarto, vai ver, embaixo da cama, o meu celular que foi parar la naquele dia que você teve um surto com as minhas coisas. Sabe como é, a Dalva nunca arreda as coisas pra limpar. Toda semana eu tinha que falar com ela sobre esse assunto. Mas enfim, o celular está lá. Pega e você vai ver que não é trote.

    Rui vai até o quarto e faz o que a voz do outro lado da linha sugeriu. Para o seu completo espanto, o celular está realmente lá, em meio a um monte de pó, desligado.

    –        Eu…eu… não estou entendendo.

    –        Eu sei. Agora, eu quero que você preste bem atenção. Da última vez você desmaiou. Agora eu quero que você se concentre. Volte pra sala. Eu vou estar lá, na poltrona verde.

    Paralisado, Rui olhava para a porta do quarto apavorado. Não queria sair de la e ao mesmo tempo queria. A experiência no banheiro do bar veio-lhe a mente. Então não era a bebida. Era mesmo a Luiza. Mas ele a viu sendo enterrada. Como pode? Sua cabeça latejava com aqueles inúmeros pensamentos se acumulando em pilhas. Respirou fundo. Decidiu que ia enfrentar aquilo. Ao chegar à sala, deparou-se com Luiza sentada na poltrona verde, exatamente como ela disse que seria. Seu coração disparou, suas pernas amoleceram, o estômago embrulhou, uma sensação muito parecida com aquelas duas mulheres na mesa do bar horas atrás, mas por um motivo completamente diferente. Ele caiu sentado no sofá, que ficava em frente à poltrona verde. Estava, inacreditavelmente, frente a frente com a esposa. Etérea, diáfana, trajando uma bata azulada e de pés descalços.

    –        Eu sei que isso tudo parece irreal. Mas não é.

    Ele, mudo. Olhando fixo.

    –        Eu sei que milhares de pensamentos estão passando pela sua cabeça. Mas eu vou ser direta. Sim, eu morri. Sim, eu estou de volta. Para ajudar.

    –        Puta que o pariu!  Puta que o pariu! Caralho!

    –        Eu tenho uma missão, Rui: você

    –       Mas que merda eu fiz pra ter que aturar o seu fantasma?

    –        Eu é que fiz merda, Rui, por isso estou aqui. Para te ajudar.

    –        Ajudar? E quem te disse que eu preciso de ajuda? Ainda mais de você?

    De repente, do nada, a sala fica escura e uma projeção aparece numa das paredes. O filme que passa é o que aconteceu na mesa do bar com as duas arquitetas. Rui vê a si mesmo na situação ridícula que recém passara. E com um agravante, a projeção mostrava também os sons de pensamentos de todos na mesa. Ele podia ouvir os pensamentos de Vanessa em relação a ele. “Nossa, que olhos indefesos. Ai, quero proteger esse cara a noite toda…”  Também ouviu a gargalhada mental delas após ele ter aberto a boca. Uma gargalhada debochada escondida por aqueles rostos impassíveis e fingidos. Quando elas foram embora da mesa,  a luz da sala voltou ao normal. Ele olhava para Luiza, sentindo-se um completo imbecil.

    –        Acho que isso mostra, claramente, que você precisa de ajuda.

    –        Não sei se eu estou entendendo bem. Que tipo de ajuda?

    –        Você só teve a mim como mulher. Namorou, casou e trepou só comigo. Eu fui a única mulher da sua vida. Ou seja, você não faz a menor ideia de como lidar com mulheres. E agora você precisa aprender. Essa é a minha missão. Digamos que é o jeito que eu arranjei de pagar meus pecados com você.

    Rui cai numa gargalhada descontrolada. Vai às lágrimas de tanto que ri. O espírito de Luiza fica apenas olhando, impassível esperando que ele termine.

    –        E se eu não quiser?

    –        Pelo que vimos agora há pouco, ajuda é o que você mais precisa.

    –        Mas é para isso eu já tenho o Lucio. Esse, sim, uma pessoa confiável.

    –        Eu sei. Mas ele está ajudando você como homem. Já parou pra pensar?

    –        Como assim?

    –        Quem você acha que pode ser de mais valia ajudando você e pegar mulheres senão uma outra mulher?

    Se tinha uma qualidade que Rui carregava no seu código genético, era o pensamento lógico. E para ele, aquilo fez todo o sentido.

    -x-

    Rui acordou cedo, antes do despertador. Era dia de voltar ao trabalho. Antes de sair, foi até a cozinha para tomar o café da manhã. Encontrou dona Dalva, absorta, cantarolando algo insondável com uma voz que parecia mais um cano de cobre rangendo.

    –       Dona Dalva – Rui fala seco.

    –       Oi, seu Rui.

    –       Eu notei que a senhora não está arredando os móveis e nem levantando as almofadas quando limpa a casa. Por favor, eu quero que a senhora preste mais atenção nisso.

    –       Tá bom, seu Rui – falou fazendo muxoxo.  – Hoje mesmo deixo tudo um brinco.

    Foi a patrão dar as costas para ela falar bem baixinho.

    –       Oxe! Essa conversa de novo. Até parece que a dona Luiza ainda anda por aqui! Cruz credo!

    Ela faz três vezes o sinal da cruz e retorna aos seus afazeres.

    -x-

    Rui passou um primeiro dia de trabalho sentindo os olhares condescendentes por todo o lado. Mas estava preparado para isso. Passou a maior parte do tempo em sua mesa, colocando os dez dias em ordem. Os seus colegas mais chegados eram Murilo, Carlos Alberto e Leandro com quem Rui sempre saía para almoçar.  Já era tradição,  porém, a sua recusa aos convites diários feito por eles para um chopp pós expediente. Queria estar o mais rápido possível com Luiza e uma hora ou duas de chopp com eles eram uma hora ou duas a menos com ela. Mas, obviamente, a situação havia mudado completamente.

    –       Um brinde ao retorno do Rui ao trabalho e a sua estreia no santo chopp de todo o dia! – propõe Murilo.

    Todos levantam os copos que tilintam ao se encontrarem no centro da mesa. Após algumas goladas a conversa vai direto ao que interessa.

    –       Rui – começa Leandro – e a mulherada? Já está partindo pra cima?

    –       Eu ainda estou me recuperando.

    –       Cara, tu não vai ficar aí de luto pro resto da vida, vai? O seu pau não merece – Murilo fala enquanto abraça forte o companheiro.

    –       É, Ruizão. Da uma olhada em volta. O bar tá cheio de gatinhas – avisa Carlos Alberto. – Como anda o seu xaveco?

    –       Caras, vocês são meus amigos.

    –       Claro –  falam os três juntos.

    –       Eu vou confessar uma coisa.

    –       Não vai dizer que decidiu virar baitola? – interrompe Murilo.

    –       Não, não. Nada disso. É que a Luiza, bom, ela foi a única mulher da minha vida.

    –       Como assim, única mulher?  – Pergunta Carlos Alberto.

    –       Única, ué.

    –       Tu tá me dizendo – interrompe de novo o Murilo –  que só comeu a Luiza?

    –       Porra Murilo, respeita a morta. – admoesta Leandro.

    –       Que respeita o que? E por acaso ela ela respeitou o Ruizão aqui?

    –       Bom, gente, digamos que, se xavecar fosse jogar futebol, eu seria aquele cara que todos evitam escolher para o seu time na pelada.

    –       Pera, tu tá me dizendo que você só chupou uma buceta na vida, Rui?  – Murilo se impressiona – Mas isso é que nem um cara só ter comido tomate a vida toda. Enquanto isso, a tua mulher banqueteando.

    –       Caramba, Murilo!

    Mal Carlos Alberto acaba de reprimir o amigo desbocado e o copo de Murilo vira misteriosamente sobre ele, encharcando-lhe a calça. Rui fica lívido. Ele sabe que aquilo não foi um acidente. Tinha certeza que o acidente tinha sido obra de Luiza. Ela estava parada ao lado da Rui havia percebido sua presença, passou a sorrir. Um sorriso maldoso. Os olhos dela encontraram os de Rui, que olhava para ela com cara de poucos amigos. Ele meneia a cabeça indicando a ele o estacionamento. Quer se encontrar com ele lá.

    –       Esta no seu job description do céu jogar chopp nos meus amigos que falam coisas que você não gosta?

    –       Ele é um grosso.

    –       É. Mas é meu amigo. E você está aqui para me ajudar com as mulheres e não pra dar banhos de chopp nos outros.

    –       Desculpe.

    –       E como você pretende começar a me ajudar?

    –       Com a técnica do dois em um.

    –       Explique.

    –       Lembra de O Exorcista?

    –       Óbvio, não dormi uma semana lembrando da cena dela descendo a escada toda desconjuntada. Olha – mostra o braço –  só de lembrar fico arrepiado.

    –       Pois é, vou entrar no seu corpo, igual àquele demônio do filme.

  • O Fantasma de Luiza – Capítulo 3

    September 5th, 2013

    Já havia passado uma semana do ocorrido no banheiro do clube. Rui foi encontrado desfalecido por frequentadores do local. Acordou e insistiu que tinha visto o fantasma da esposa parado no centro do banheiro e quando ela pediu para que ele não desmaiasse parecia que tinha pedido justamente o contrário. “Foi a bebida”, insistia Lúcio, que o levou para casa. O amigo insistiu tanto na tese da ilusão etílica, que Rui acabou se acostumando com a ideia de que a Luiza do banheiro era uma alucinação provocada pelo seu estado emocional ainda frágil somado à bebida.

    Passou a semana em casa, reorganizando o apartamento. Jogou-se com afinco na tarefa de tornar o “nosso apartamento” em “meu apartamento”. Doou alguns tapetes, livrou-se de quadros, saiu para comprar cortinas e tapetes novos. Era uma redecoração da própria vida. Em 5 dias a tarefa tinha sido praticamente cumprida.

    -x-

    Na sexta a noite Rui está novamente em um bar, acompanhado do amigo Lúcio. Rui está focado em cumprir a sua promessa de ser o “homem póstumo” dos desejos de Luiza, um caçador implacável, um imã do sexo oposto. O bar está repleto de mulheres solteiras. Hordas de mulheres e ex-mulheres de alguém, todas por volta dos 40 anos de idade, muito bem cuidadas e esculpidas em academias.

    –        Lúcio, esse lugar é sempre assim? – impressiona-se Rui.

    –        Eu resolvi trazer você aqui justamente por isso. Aqui a mulherada vem pela paquera e pela diversão resultante, se é que você me entende. Mulher resolvida, Rui. Sem frescura. Resumindo, estão aqui para a caça.

    –        Não entendi o ponto.

    –        Bom, pelo que sei, você é praticamente um alienígena que caiu por acidente no mundo da conquista. Achei que um lugar mais propenso e receptivo seria bom pra começar.

    –        Entendo. Playstation nível 1.

    –        Por aí. Mas vê lá o que você vai beber. Não gostaria de ver você topando com fantasmas por aí.

     

    Lúcio pediu o seu usual Dry Martini e Rui preferiu uma cerveja. Mulheres entravam no bar feito cardumes. Se olhares fossem dardos, o zunido ali seria insuportável. Lúcio levantou e se dirigiu a uma mesa ocupada por duas mulheres. Rui observava atentamente a desenvoltura do amigo enquanto conversava com elas. Era impressionante. De onde vinha tanta auto confiança? Bastaram poucos minutos para que as duas abrissem sorrisos que eram praticamente um convite. Rui estava embasbacado com o traquejo social do amigo. Mesmo que elas estivessem completamente abertas para a abordagem, ainda sim, esse seria para Rui um esforço hercúleo. Mas para Lúcio era fácil como respirar ou simplesmente andar.

    De repente, percebeu que a sua barriga embrulhava. Aquilo que o diário de Luiza contava fazia um certo sentido. Ele não sabia o que fazer. Não tinha ideia alguma do que falar. E a coisa ficou mais grave quando percebeu que Lúcio convencera as duas a sentar com eles. A medida em que se aproximavam da mesa, Rui passou a suar frio. As pernas amoleceram e, se estivesse de pé, provavelmente teria ido ao chão. Estavam a 10 metros “meu Deus, o que eu faço?”, 5 metros “elas são maravilhosas”,  2 metros “Pai nosso que estais no céu…”

    –        Rui, estas são Lorena e Vanessa.

    Rui parecia catatônico. Parecia não, estava. Com as pernas daquele jeito ele simplesmente não tinha forças para levantar como um cavalheiro e beijar as duas. Limitou-se a um sorriso seguido de um grande gole de cerveja, tão grande que esvaziou o copo de uma vez. Elas se olharam, acharam esquisito, mas sentaram.

    Lorena era loira natural, tinha entre 35 e 38 anos. Corpo que se tivesse 12% de massa gorda era muito, com braços e pernas torneados, rosto intenso e olhos castanhos claros. Vanessa tinha traços levemente orientais. Na verdade, mais para esquimó do que para oriental, apesar da pele clara. Era um tanto exótica, com o cabelo negro caía pelo ombro direito até o seio, com um elástico que prendendo a ponta. Olhos claros e umas sardas no rosto e uma boca convidativa. Tinha a mesma idade da outra, talvez um tiquinho mais nova. Rui achou aquela mulher incrível. No caso dele, assustadoramente incrível.

    –        Vanessa e Lorena são arquitetas. – Lúcio tenta introduzir um assunto.

    –        Mas não vamos falar de trabalho agora, né?  – Vanessa quase sussurra olhando de esguelha para Rui.

    –        Certo, então que tal cinema? – Lúcio continua. – Não existe ninguém que não seja louco por cinema.

    –        Eu e a Lorena adoramos uma boa comédia, não é?

    –        Totalmente – concorda Lorena. – Eu acho que cinema é para a gente descontrair e não para ver mais problemas. Isso a gente já tem no dia a dia. Odeio filme denso.

    –        E você, Rui – Vanessa agora gruda os olhos nos nele –  que tipo de filme você gosta?

    Rui, que até agora se limitava a um sorriso levemente abobalhado, mudou de expressão. Era a sua deixa e ele não podia, digamos, “fazer merda”. Ele sabe que a palavra que sair de sua boca naquele momento vai defini-lo durante o resto da vida para aquelas duas mulheres e, principalmente, para Vanessa. Uma frase lateja em sua cabeça: seja verdadeiro…seja verdadeiro.

    –        Ficção Científica. Já assisti Guerra nas Estrelas 17 vezes.

    O silêncio que seguiu à resposta que veio acompanhada de um sorriso meio estúpido de Rui – alegre por ter conseguido falar à duras penas – foi torturante. Foram 15 longos e, a cada um deles que passava, o rosto de Lucio ia se tornando cada vez mais vermelho, irrigado de constrangimento. As duas deram uma desculpa qualquer e saíram da mesa cinco minutos depois de uma troca de palavras diplomática com Lúcio. Este olhava para o amigo, que olhava fixamente para mesa onde suas mãos partiam em pedaços uma sequência de palitos de dente, vítimas silenciosas do seu constrangimento. Lúcio não se conteve.

    –        Sua vingança contra Luiza começou e já está dez a zero para ela.

    –        Nem vem.

    –        Se vingança é um prato que se come frio, este você vai comer gelado. Se comer.

    –        Vou pra casa.

    -x-

    Pagou o táxi que o deixou na frente do prédio onde morava. Nem esperou pelo troco. Passou pelo seu Geraldo da portaria sem nem olhar na cara dele. Sentia como o os 7 bilhões de habitantes do planeta soubessem da idiotice que tinha feito naquele bar. Queria enfurnar-se em seu apartamento, tomar todo o bar e cair inconsciente. Morto, até. Quem sabe se morresse não ia encontrar Luiza e enchê-la de bofetadas? Colocou a chave na porta do apartamento. Ouvia o telefone tocando lá dentro. Entrou. Deixou ele tocando. Não ia atender. Não queria falar com ninguém. Passou reto pelo aparelho que se berrava monotonicamente. Nem bola para ele. Foi para o mini bar da sala e abriu uma garrafa de Jack Daniels. Não se incomodou em pegar um copo. A bebida dourada corria fácil da garrafa direto para a sua goela. Agora era o celular que tocava. Ele resolveu ver quem estava ligando. Não podia acreditar no que estava lendo no visor: Luiza.

    (Continua)

  • O Fantasma de Luiza – Capítulo 2

    September 3rd, 2013

    Lúcio estava em seu bar preferido, praticando o seu esporte favorito: a caça. Ele se define como uma pessoa totalmente fiel, porém, fiel a sua solteirice.  Gosta muito mais do jogo da conquista do que de ter conquistado. Aquele átimo de segundo quando percebe, olhando nos olhos de sua presa, que o último foco de resistência acabara de ceder. O momento em que os muros do castelo ruíam e ele está livre para invadir e tomar posse do seu espólio. A partir de então, o que viria a acontecer na cama, no banco do carro e até no banheiro dos bares e clubes era considerado consequência maravilhosa desse momento único e inigualável. “Aquele olhar cedente é o verdadeiro orgasmo”, vive repetindo. Num desses momentos em que a horda bárbara cercava o tal castelo, cujo nome era Nívea, Lúcio sente uma leve vibração em sua calça. O celular. Nega-se a atendê-lo nos dois  primeiros toques. Mas, por alguma razão, resolve pelo menos ver quem ligava. Não acredita no nome que aparece no visor do celular. Atende sem hesitar.  

     

    –        Rui?

    –        Tudo bem Lúcio?

    –        Eu estou ótimo, mas eu quero saber de você. Faz dez dias que ligo e não tenho notícias.

    –        Onde você está?

    –        Naquele bar que que te contei. Tanto as mulheres quanto os Dry Martinis são de ótima qualidade.

    –        Eu to indo te encontrar aí.

     

    Nem deu tempo do Lúcio concordar. Rui desligou assim que terminou a frase. Aquela ligação desconcentrou o conquistador que dispensou o papo e foi sentar no balcão, sozinho, para esperar do amigo.

     

    -x-

     

    –        Como assim o cara do motel não foi o único? – Perguntou Lucio estupefato.

    –        Depois do primeiro ano e meio de casamento ela começou a sair com outros caras.

    –        Mas como você soube que ela…

     

    Rui, sabendo a pergunta que viria, estendendo o diário para Lúcio.

     

    –        O que é isso?

    –        A filha da puta tinha um diário. Está tudo aqui.

    –        Rui…eu não sei…é meio pessoal isso…

    –        Pode abrir. Pode olhar. Eu já não me importo.

     

    Lúcio hesita ainda por um tempo. Mas não resiste ao olhar incisivo do amigo a lhe dizer “abre, porra!”. Ele folheia o diário e lê trechos aleatoriamente. Percebe que Luiza teve uma vida sexual bem ativa e Rui era apenas um de seus parceiros. Mas um trecho em especial chamou-lhe a atenção.

     

    “Eu não consigo me controlar. Quero falar para o Rui, mas no momento em que a primeira sílaba vai sair da minha boca a coragem se esvai. Eu o amo e sei que ele vai desmoronar. Ele é um doce, mas ter sido a sua única namorada e a única mulher com quem ele foi para a cama também é algo que a princípio soa terno, suave, como um príncipe encantado. E, na verdade, é o que ele é. É uma das coisas mais admiráveis que ele tem, mas também o seu maior defeito. Ele é apaixonado demais, amoroso demais. A falta de experiência com outras mulheres o deixou atrofiado naquilo que uma mulher também anseia. Ele nunca saiu daquela adolescência boba e eu quero um homem. Um homem que domine a situação, pra variar. Um homem de verdade na cama. Um homem que não me trate como a única mulher com quem ele transou na vida. Eu não quero ser uma princesinha.”

     

    –        Rui, apesar de tudo, ela te amava.

    –        E me corneava a torto e a direito – cuspiu a frase como se fosse um gole de Campari, bebida que ele detesta. – Ela devia ter dito isso pra mim. Mulheres não gostam de discutir a relação?

    –        É o que dizem.

    –        E eu casei justo com a que não gosta?

     

    Rui começa a soluçar. Lúcio, sem saber o que fazer, pede um Dry Martini para o amigo e outro pra ele. A bebida chega em poucos minutos. Sem saber o que dizer, Lúcio fala a primeira coisa que vem à cabeça.

     

    –        Bebe um pouco que vai te fazer bem.

     

    Rui vira o conteúdo todo e, em três segundos, a taça está vazia. Olha para o barman e balança a taça, mímica universal para “outro, por favor”.

     

    –        Vai com calma.

    –        Eu quero me vingar da morta.

    –        Como assim?

    –        Eu agora quero ser um homem de várias mulheres. Quero conquistá-las, levá-las para a cama. Quero ter todas as experiências do mundo. Vou ser o homem que ela queria. Um homem póstumo.

     

    Neste momento o segundo Dry Martini chega. A taça de Rui mal pousa na mesa e já retorna vazia.

     

    –        Tem certeza? – Pergunta Lúcio.

    –        A mais absoluta certeza.

    –        Mas o que eu posso fazer?

    –        Pode ser me ciceronear pela noite, afinal, nisso você é bom e eu, um desastre.

    –       Sei não. –  Lúcio pondera – ser professor de xaveco?

    –       Eu não quero isso de você. Jamais colocaria você em posição tão ridícula. Quero apenas um guia de turismo. Você vai me levar para bares e baladas. O resto faço eu, dou um jeito. Aquela vaca, onde quer que ela esteja, vai sentir minha ira na própria pele em putrefação.

     

    Subitamente, a expressão de Rui muda. Ele está olhando por cima do ombro de Lúcio. Lívido. Seu rosto torna-se branco como se um vampiro o tivesse drenado ali mesmo. Lúcio vira o rosto na direção para onde o amigo olhava. Não viu nada demais.

     

    –        O que foi? Parece que viu um fantasma?

    –        E vi. A Luiza.

    –        O que?

    –        Eu vi a Luiza, estava sentada lá no fundo, olhando fixamente pra  mim.

    –        Eu acho que você bebeu estes Dry Martinis muito rápido.

    –        É. Tem razão – aceita. – Eu vou ao banheiro, tirar água do joelho.

    –        Passa uma água na cara. E no pescoço.

     

    Rui levantou-se da cadeira e, assim que tocou o chão, pareceu estar num navio em águas turbulentas. A sensação durou pouco e logo o bar voltou para terra firme. Ele se dirige ao banheiro. Para em frente as duas portas tentando entender qual o masculino e qual o feminino. Como é moda em bares e clubes moreninhos, é difícil identificar qual porta leva a um e qual leva a outro. “Onde foi parar a simplicidade? Bons tempos em que as portas tinham letras: H e M, ou M e F. Uma charada destas para alguém com a bexiga estourando pode ser um desastre”. Numa das portas via-se a foto de um parafuso e na outra a de uma porca. Parece uma lógica fácil, mas para quem está com dois drinks na cabeça, bebidos de um só gole, a lógica demora a se concretizar. Finalmente, Rui decide-se pela porta com a foto do parafuso. Entra. O banheiro está estranhamente vazio para a quantidade de gente frequentando o bar naquele momento. Ele dá dois passos e o que era estranho fica ainda mais estranho. Luiza está lá. A esposa morta parada na sua frente no meio do banheiro masculino. Não apenas isso. Ela também fala.

     

    – Oi, Rui…por favor, não desmaia.

     

    (continua)

  • O Fantasma de Luiza

    September 2nd, 2013

    Ainda não recuperado do trauma, Rui senta-se na quina da cama de casal. Olha ao redor, lentamente, e tudo que vê traz a lembrança de Luiza. Lárgrimas. Um bolo na garganta. Rascante. Uma tristeza misturada com raiva e vergonha. Não sabia como reunira forças para ir ao velório. E lá, como fora capaz de suportar os olhares. “Ela tinha que morrer assim? Avisando a mim e a todos ao mesmo tempo que eu era um corno?”

     

    Levantou-se. Foi até o closet. As roupas dela ainda estavam todas lá. Uma reminiscência do tempo em que Luiza caminhava sobre o planeta, viva, ativa. Três quartos daquele ambiente pertenciam a ela. Num acesso de fúria, arrancou tudo o que não era dele dos cabides, gavetas e nichos. Fez com as roupas o que ele queria fazer com Luiza. Após a catarse, caiu sentado no chão aos soluços.  “Morrer assim? Num motel, nua ao lado de um outro?”  Não sabe quantas vezes esta pergunta e a imagem dos dois abraçados na cama, os lençóis empapados com sangue dos dois e a assassina, aos soluços, corna como ele, algemada, passou-lhe pela cabeça. Exausto pelo choro, pegou nos sono naquele chão onde estava prostrado diante do brutal sofrimento, cercado pelas roupas da esposa falecida.

     

     

    -x-

     

     

    Estava dispensado de trabalhar. Ganhara pequenas e deslocadas férias para curar as feridas. Férias com com jeito de UTI. E se  precisasse de mais dias, entenderiam perfeiramente. Essas feridas traiçoeiras, chagas invisíveis são resistentes. E o pior, não se tratava apenas de uma viuvez recente, mas da viuvez acompanhada do conhecimento de uma traição. Acordou com dores generalizadas nas juntas. Levantou-se com dificuldade. Foi até o banheiro e ligou o chuveiro. Águra fria. Despiu-se e entrou no box. Os jatos de água gelada parecendo alfinetes a açoitar-lhe o corpo. Não se importou. Aceitava os golpes pensando em merecer aquela pequena tortura por ser tão idiota. Saiu do banheiro mais desperto e inteiro. A campainha toca. “Meu Deus, é a dona Dalva”. A empregada era uma contratação da esposa, essa ja uma justa causa para dispensá-la, porém, pensou melhor e, num rasgo de bom senso, desistiu. A pobre não tinha culpa de nada e agora seria ainda de muito mais valia do que antes. Atendeu a porta e a mulher entrou sem encará-lo, dando bom dia de cabeça baixa, ouvindo um murmúrio ininteligível como resposta. Dirigiu-se em linha reta e resoluta para a cozinha e foi preparar o café. Ele foi terminar de se arrumar no quarto. Queria sair, respirar ar puro, ver o sol, fugir, misturar-se à multidão, desaparecer de si mesmo.

     

    –       Dona Dalva, por favor, eu quero que a suma com tudo o que era da Luiza – ordena com voz pastosa.

    –       Mas seu Rui, como assim sumir?

    –       A senhora escolhe: jogue no lixo, queime, pegue pra senhora, distribua entre os seus familiares, sei lá. Apenas tire isso daqui hoje.

    –       Mas aquelas coisas tão boas…roupas de marca…

     

    Ele fuzilou a empregada com um olhar tão desconcertante, que ela foi baixando a voz e a cabeça até voltar, em silêncio, para os seus afazeres. Rui sorveu a xícara de café preto forte e duas fatias de torrada. Murmurou um até amanhã e saiu.

     

    -x-

     

     

    Rui decidiu andar pela cidade como um turista. Um bom jeito de não ser ele mesmo naquele momento. Deixou seu carro na garagem. Serviu-se dos metrôs, ônibus e das próprias pernas. Andou para pontos onde nunca estivera. Percebeu uma cidade completamente distinda daquela que passava pela sua rotina diária. Lembrou que talvez tivesse acontecido o mesmo com a própria esposa. Nunca a olhou de um jeito diferente para perceber o que estava acontcendo. O dia passou sem ele nem perceber. Um turista na própria cidade, sentindo cheiros novos, sabores diferentes, cores nunca antes vistas e até sotaques distintos. Voltou para casa um pouco mais revigorado.

     

     

    Ao chegar não havia lá nada mais que lembrasse Luiza. Verificou cada canto da casa e nada. Pareceu-lhe que tudo o que estava ali havia acompanhado a ex-mulher em sua derradeira viagem. Não havia sequer os fios de cebelo dela, muito comuns de serem vistos reconstando-se em em poltronas ou formando círculos loiros pelo chão do banheiro. “Obrigado, dona Dalva”.  Porém, ao se dirigir para a cama, viu sobre ela uma encadernação que lhe era completamente desconhecida. Um bilhete com o garrancho empertigado da empregada dizia, ou parecia dizer: “Seu Rui. Eu sei que o senhor pediu pra me livrar de tudo, mas encontrei isso escondido no armário. Achei que o senhor poderia querer olhar…não tive coragem de jogar fora.”

     

    Um diário. Um maldito diário com a grafia de Luiza em todas as páginas que fez correr num farfalhar nervoso provocado pelo seu dedo polegar. Depois, começou a se deter em uma ou outra página. Cada uma trazia uma data. Dia, mês e ano. Não eram exatamente relatos diários. Haviam saltos de dias, semanas as vezes. As anotações compreendiam o último ano e meio de casamento. Jogou longe, como se aquilo fosse vetor de alguma doença tropical. Aitrou-se na poltrona. Raiva. Mais raiva. Levantou-se. Pegou a garrafa de Jack Daniels e encheu um copo sem gelo. Entornou garganta abaixo. Entornou outro. E um terceiro. O diário lá, jogado no chão a lhe chamar pelo canto do olho. Ele fingindo-se de surdo, mas aquela urgência a cutucar-lhe os sentidos. Foi vencido, por fim. Rui levantou-se e juntou o diário do chão. Reunira aquela coragem etílica para enfrentar os medos atávicos, principalmente o medo da verdade. “Vou ler essa merda”. Abriu. Embarcou em um mundo totalmente desconhecido.

    (continua)

  • Swing

    August 22nd, 2013

    Romeu acordou antes de abrir os olhos. Alguma coisa não parecia correta. A consistência do colchão estava diferente. Os sons, os aromas, tudo parecia outro lugar. Suas pálpebras abriram letargicamente e quando tudo entrou em foco concluiu que estava tudo errado . Levantou-se num pulo e soltou um grito surdo. Ou um gemido. Romeu não estava em seu quarto. Olhou para o lado e o rosto e o corpo que via não eram o da sua mulher. Porém, era de uma mulher que ele conhecia muito bem. Marisa, a sua vizinha. A mulher que ele desejava surdamente. Mudamente. Um fogo que tratava de apagar. Luxúria que tentava não nutrir, mas que não conseguia dominar. Mas como pode? Ele dormiu em sua cama, lembra-se muito bem. Teria sofrido um ataque de sonambulismo? Mas e se fosse o caso, uma pergunta ainda mais inquietante aparecia agora em sua mente. E Nelson, o marido de sua vizinha? Onde estaria, já que, pelo visto, ocupava o lugar deste naquela cama? Romeu olhou de novo. Pensou na esposa. Em como iria explicar o inexplicável. Observou a vizinha, novamente. Ressonava. Nem mesmo naquela situação esdrúxula o seu desejo deixou de se manifestar. Teriam eles…? Não. De jeito nenhum. Resolveu levantar. Foi até o banheiro da suíte imaginando onde estaria Nelson naquele instante. Dúvida que foi sanada assim que entrou. Nelson estava ali, no banheiro. Mais precisamente, no reflexo do espelho. Suas pernas fraquejaram. Ele sentou no vaso sanitário e trancou a porta. Ficava repetindo em pensamento. “Eu estou no corpo do Nelson. Eu estou no corpo do Nelson.”  Batidas na porta interrompem o seu mantra desesperado.

     

    –        Amor, tudo bem?

     

    É Marisa lá fora. Uma voz pastosa, mas ainda sim, com apelo. Pelo menos para ele. Ou seria para o Nelson? Ou para ele e o Nelson? Romeu sacode tentando, em vão, afastar a confusão mental e responde.

     

    –        S..sim, amor!

    –        Então deixa eu entrar aí? To louca por um banho –  silêncio de três segundos – a dois.

     

    Aquela frase, dita em tom lânguido e ardente pela vizinha que sempre desejou, suplantou qualquer sentimento de estranheza que a situação pudesse emprestar ao momento. Ele simplesmente levantou e, célere, foi abrir a porta. A sua frente, Marisa, com a luz da janela do quarto a recortar-lhe a silhueta e a valorizar aquelas protuberâncias rijas. Nua. Ele e a tomou nos braços. Como quem pilha. Como quem conquista. A tomou ferozmente. A levou para baixo do chuveiro. E fez tudo o que tinha imaginado, embora nunca tivesse admitido para si mesmo que tivesse imaginado tais libertinagens. Foi mais do que tinha sonhado. Percorreu os recantos do corpo dela que eram mais insondáveis, pelo menos para ele. Até se saciarem uma. Duas. Pra que contar?

     

    Deitados sobre a cama, arfando, molhados, apenas respiravam e ouviam um a respiração um do outro ao final de tantas investidas. A cabeça de cada um vagando. Romeu realizara o seu desejo. Estava em paz com suas urgências. A mente calma, sobrevoando frases soltas e imagens. Imaginação se misturando com realidade. Até que neste vôo ele enxerga algo que era óbvio. “Se eu estou aqui, no corpo do Nelson, onde está o Nelson?” A conclusão é óbvia. Nelson está agora com a sua esposa, no seu quarto assim como ele. É a lógica. Se é que esta situação possa ser tratada como lógica. Ficou imaginando a esposa fazendo as mesmas coisas que ele fez ainda agora, com Marisa. Se entregando a outro, que na verdade, não era outro aos olhos dela. Ficou em desespero. Em total impotência. Olhou para o lado e encontrou o rosto de Marisa com um sorriso abobalhado. Ela passa a mão em seu rosto. O perfume de sabonete e sexo misturados.

     

    –        Foi a melhor foda que tivemos.

     

    Imaginou a esposa dizendo a mesma coisa para ele, que não é ele, na mesma hora. Só queria dormir de novo e acordar no próprio corpo outra vez. De repente, nunca desejou tanto a esposa como naquele momento.

     

  • Gênio

    August 18th, 2013

    Preciso me penitenciar. Isto é uma necessidade extrema. Como pai, abandonei o meu rebento. Deixei-o num quarto escuro, à míngua. O mais completo abandono. E o que me faz sentir esta culpa incontrolável é que ele me recebe como se nada tivesse ocorrido.  Mesmo condenado à solidão completa, o Contando Umas me recebe como se nada houvesse ocorrido. Como se eu fosse um pai amoroso e presente. Ah, a culpa que me assola e dilacera o meu coração. O reconhecimento da minha pequenês moral junta-se ao motivo que me faz voltar ao meu filho. A minha total inapetência para escrever algo que seja tão estupidamente simples que possa ser alçado à definição de genial. Pois que genial, essa palavra tão vilipendiada nestes tempos de pouca exigência, anda lado a lado com o simplicidade. O genial é elegante, porque não tem arestas a serem reparadas. Nada sobra, nada falta. E consegue ser profundo sem ser rebuscado. Isso vale para tudo, diga-se. De uma teoria da física até uma declaração de amor.

     

    Neste minha situação de auto exilado do meu blog, convivi com tantos parágrafos impressos em páginas  brancas quantos fossem possível. O hábito da leitura pré sono, quando, passados alguns minutos as letras se aboletam estranhamente no campo visual e linhas inteiras dão voltas como se fossem um redemoinho e você já não entende mais nada porque já dormiu e só as suas pálpebras ainda não sabem, foi incorporado a minha rotina. E  num destes momento, deparo-me com um dos parágrafos que causou tal efeito em mim a ponto de me fazer despertar da leitura letárgica, sonolenta. Um choque de simplicidade, um momento daqueles em que você sente a força de um escritor em toda a sua magestade. Falo da descrição da vida desde que nascemos até morrermos dada por Emilia, a boneca de pano, a um atento Marquêrs de Sabugosa. Em Memórias de Emília. A simplicidade com que a personagem descreve algo que tendemos a complicar é tão espantosa, tão direta e ao mesmo tempo tão completa e cheia de significados que causou em mim a única reação possível para um ser humano que pretende contar histórias através da escrita. “Puta que o pariu! Como eu queria ter esta fluência simples, esta ternura com cara de ingenuidade e esta profundidade.”

     

    A mim não restou nada a não ser voltar para cá e fazer um esforço necessário para lograr tal intento. E, claro, homenagear a passagem, colocando aqui para você ler. De minha parte, cada vez que a leio, faço com reverência de um sacerdote em frente a imagem de seu criador. Monteiro Lobato, você é realmente um gênio.

     

    “A vida, senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem para de piscar, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso. É um dorme-e-acorda, dorme-e-acorda até que dorme e não acorda mais. A vida das gentes nesse mundo, Senhor Sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama. Pisca e anda. Pisca e brinca. Pisca e estuda. Pisca e ama. Pisca e cria filhos. Pisca e geme reumatismos. E, por fim, pisca pela última vez e morre.

     

    –        E depois que morre? –  Perguntou o Visconde.

    –        Depois que morre vira hipótese. É ou não é?”

     

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