• Eu não sou o Bruce

    December 9th, 2013

    Jarbas dublava o Bruce Willis. Estava feliz, porque era a voz de uma das maiores estrelas de Hollywood no país. E, quanto mais o Bruce Willis estrelasse filmes, mais ele trabalhava e, logo, mais ele faturava já que o bom Bruce vive em cartaz. Mas, com o passar do tempo, o que parecia ser um grande negócio, tornou-se uma maldição.  Jarbas não podia ficar sossegado em lugar algum. Um simples café na padaria começava a se tornar um incômodo.

     

    –       Por favor, um café?

    –       Nossa! Bruce Willis? –  Sorri o balconista.

    –       Não, meu nome é Jarbas.

    –       Mas você dubla o Bruce Willis, não dubla?

    –       É.

    –       Eu sabia –  e virando-se para trás grita – Sai um café para o Duro de Matar aqui.

     

    Jarbas estava perdendo a sua identidade. Ninguém o chamava de Jarbas, só de Bruce Willis. Se tivesse um churrasco em família os sobrinhos vinham em bando falar com ele.

     

    –       Tio Bruce fala Yippe iki yay, filho da mãe!

    –       Jarbas. Tio Jarbas.

    –       Nossa! – Impressiona-se outro garoto –  Seu tio é o Bruce Willis.

    –       Jarbas, meu nome é Jarbas, moleque.

    –       Ah, tio fala. Só uma vez.

    –       Yippe iki yay, filho da mãe!

     

     

    Mas as coisas ainda podiam piorar muito. Além de Bruce, havia aqueles que o chamavam pelos nomes dos personagens do Bruce. Era comum ouvir na fila do banco um “Fala, John McClane!” ou um “E aí, Mr. Church. To precisando da sua turma para um servicinho rápido com o namorado da minha filha.” Também era chamado de Hudson Hawk , Tom Hardy, Korben Dallas e até G.I Joe. Para cada um deles ele devolvia um “Jarbas, cassete. Meu nome é Jarbas.” Nunca adiantou. Era um homem com muitos nomes e com nome nenhum. Um homem que falava frases escritas por outros para que um outro falasse enquanto representava outros que não existem. Ele mesmo já estava em dúvida se existia. Condenado a falar trechos de filmes em cada caixa de supermercado, para cada motorista de táxi, vendedor de ticket em porta de estádio ou açougueiro. Era abrir a boca para pedir algo e lá vinha “Caramba, Bruce Willis. “Solta aí Yippe iki yay, filho da mãe!”  pra gente.

     

    O ápice de seu calvário aconteceu no dia em que foi visitar os pais no interior. Fazia tempo que não os via. Ao chegar na cidade, uma multidão o esperava em frente à casa dos pais, que seguravam um cartaz onde se lia, “Bem-vindo ao lar, filho Bruce.”  Não podia suportar aquilo. Os próprios pais, que levaram algum tempo escolhendo o seu nome, que o educaram para formar a sua personalidade, ensinaram-lhe valores agora estavam ali, assumindo eles mesmos que o filho que eles colocaram no mundo havia sumido miseravelmente. Esfumaçara-se. Entrava por algum vórtice que o levara para outra dimensão. Jarbas não existia mais. No seu lugar, apenas Bruce. Deu as costas para aquela gente, entrou no carro e arrancou para jamais voltar àquele lugar. Enquanto voltava, ouviu algo no rádio que poderia dar fim ao seu sofrimento. Bruce Willis, em pessoa, estaria no Brasil para promover o lançamento do seu último filme. Jarbas viu ali uma oportunidade única. Como dublador oficial do astro, conseguiu um lugar privilegiado na festa de lançamento do filme. Iria, inclusive, ser apresentado a Bruce.

     

    E, no grande dia, lá estava Jarbas. Toda vez que pedia uma bebida ao barman, ele ouvia, “Tudo o que você quiser, Bruce”, ou, “Mais um champanhe, Bruce?”  A cada segundo que passava, a cada “Ola Bruce” , que ouvia, a certeza de pôr o seu plano em ação só se fortalecia. E, quando o momento finalmente chegou, Jarbas foi conduzido até onde estava Bruce Willis. Ao ver o ídolo a sua frente, totalmente indefeso, lançou-se sobre ele como uma faca que tinha pego na mesa do buffet. Ia acabar ali com tudo. Ia ser Jarbas novamente. Mas, esses atores americanos contam com uma segurança impressionante. Dois brutamontes brotaram sabe-se lá de onde e dominaram o pobre Jarbas num estalar de dedos.

     

    Dando entrada no presídio, já condenado por tentativa de assassinato, Jarbas dá o seu nome para o guarda que faz a triagem, que o ouvir aquela voz…

     

    –       Caramba. John McClane. Solta aí um “Yippe iki yay, filho da mãe!”  pra gente, vai.

     

     

  • O Losango

    November 24th, 2013

    Suzy entra no avião puxando a sua mala Romero Brito cheia de cores vibrantes, como se estivesse levando o seu cãozinho de raça para um glorioso passeio no parque. Que orgulho ela tinha daquela mala. Adorava ser parada diversas vezes no aeroporto e ouvir das outras mulheres “Ai que Romero Brito linda essa sua!” Aliás, frase que também ouviu de um comissário risonho e afetado, enquanto passava se espremendo todo entre ela e uma das poltronas da aeronave.

    Suzy, enfim, achou o seu lugar, fila 18, poltrona C, no corredor. Acomodou  sua mala no bagageiro superior com um carinho orgulhoso. Sentou-se e imediatamente passou a prestar atenção nos passageiros que entravam. De repente, vislumbrou, lá no início do corredor, entrando e cumprimentando a tripulação, a pessoa que fez o seu orgulho de voar sofrer uma pane. “Meu Deus, não pode ser ela”, pensava enquanto examinava a figura se esgueirando pelo corredor. Uma moça de cabelos pretos, o corpo mais magro do que quando conviveram na mesma casa, mas aquelas eram as mesmas bochechas  vermelhas daqueles dias.  “É a Maria!”.  Sim, era a Maria. Sua ex empregada. A Maria que pediu demissão porque “Meu marido foi promovido, sabe dona Suzy, e eu vou entrar num curso de cabeleireira para um dia abrir o meu próprio salão.” O queixo da ex patroa, na poltrona 18C, ia cedendo à força da gravidade. Irritada, não parava de dialogar consigo mesma em pensamento. “Um tapa na minha cara essa mal agradecida me deu. Nunca atrasei salário que fosse. Era tão boa pra ela, assinava a carteira,  pagava até o INSS.” Enquanto isso, a ex empregada anda com dificuldade pelo corredor, procurando o seu assento. “Onde esse isso vai parar?”, questiona Suzy em sua voz mental. “A Maria num avião. Pior, no mesmo avião que eu. Onde está o mundo em que eu vivia ainda há pouco, onde a empregada ganhava imã de geladeira que a gente trazia da viagem? Agora elas vão em pessoa comprar os próprios imãs? É isso? Ai que saudades do tempo em que viajar de avião era para…bem para nós.”

    Maria se aproxima perigosamente e a ex patroa procura algo para esconder o rosto. Não quer ser reconhecida de jeito nenhum. Suzy pega um jornal e abre a esmo, só para esconder o rosto.  Mas o que vê a sua frente é uma reportagem sobre a distribuição de renda no Brasil. No gráfico, a antiga pirâmide deu lugar a um losango. Mais gente no meio, menos gente na base. E ela vendo isso acontecer diante dos seus olhos, no formato de uma Maria. “Ai que saudades da velha e boa pirâmide social. Aquilo sim é uma forma geométrica perfeita. Tudo e todos no seu devido lugar”. E, de repente.

    –        Da licença?

    Suzy olha para cima e vê Maria ali, em pé, com aquelas bochechas sadias e vermelhas.

    –        Licença? Minha poltrona é a 18A. – Maria aperta os olhos. –  Dona Suzy?

    O pior não é a Maria sentar na mesma fileira e a reconhecer. O pior de tudo, é a Maria estar carregando uma mala Romero Brito. E ainda ter que ouvir do comissário afetado que passava bem naquele exato momento.

    –         Ai, que tudo essa sua Romero Brito!

    E,  olhando para Suzy, arremata.

    –         Desculpe a sinceridade, mas esta é mais linda do que a sua.

  • Cabelos Negros

    November 14th, 2013

    Um dia se deu conta. Olhou-se no espelho e não conteve um certo sorriso de orgulho. “Meus cabelos não ficam brancos” , pensou. Era mesmo algo interessante. Já havia passado dos 50 anos há alguns anos e o único resquício de branco estava na extremidade da suas costeletas. Se as usasse curtas, como era o caso, nem ali haveria o sinal clássico do avanço da idade. Lembrou-se do pai. Este também demorou a ter cabelos brancos. Foram aparecer lá pelos 65 anos. Era, enfim, uma dádiva da genética.

    Mas parece que Carl Jung estava certo quanto ao conceito da sincronicidade. Porque naquele mesmo dia, no escritório, um colega com quem trocava um papo agradável em um momento de café lascou.

    –    Cara, você pinta o cabelo?
    –    Não, por que?
    –    Sério? Como é que pode? Pretinho desse jeito nessa nossa idade? Olha a minha cabeça e olha a sua.
    –    Genética, acho eu.

    Era o primeiro sinal de um longo martírio. Parecia que, após aquele momento no espelho, não só ele passou a se dar conta de que os seus cabelos pareciam muito mais jovens do que o seu dono.

    –    O seu Carlos, que tintura o sehhor usa? – Pergunta o porteiro do prédio – É muito natural.

    Passava direto pelo folgado mostrando um sorriso forcado. Ao chegar em casa.

    –    Você nem imagina o que a Dora falou hoje.
    –    O que?
    –    Como é que o senhor pinta o cabelo e não deixa nenhum rastro de tintura na pia.
    –    Meu Deus! –  Irrita-se – Até a empregada? Isso é um complô?

    Houve a reunião com um cliente importante, que, por sinal, tinha ido as mil maravilhas. Carlos estava satisfeito, inflado de contentamento. Aquela sensação maravilhosa de missão cumprida. O cliente, um senhor com aquela distinção e respeitabilidade que só um ar sereno e uma cabeleira prateada são capazes de emprestar a alguém, chamou-lhe em um canto.

    –    Meu caro Carlos, que tintura você usa no cabelo para ser assim tão natural? É impressionante.
    –    Nenhuma.
    –    Ah, não me venha com essa.

    O senhor distinto e responsável, em seguida se vira para todos.

    –    Vejam só, o Carlos aqui quer me convencer que não pinta os cabelos.

    Risadas gerais, aquelas de quem precisa agradar a pessoa mais importante, serena, distinta e com poder para tirar o emprego de todos ali na sala, inclusive dos que não trabalhavam diretamente para ele como era o caso do Carlos. Ele se forçou a gargalhar o quanto pode, mas por dentro, queria socar aquele “velho filho da puta de cabelos brancos” .

    Não havia limites para o calvário pelo qual Carlos passava carregando sua cruz. A pergunta “pintou o cabelo?”, o perseguia por onde fosse. Em almoços da empresa, sua cabeleira preta transforma-se em tema para risadas. Ele sempre tentava responder com a frase feita.

    –    É genética.
    –    Genética? Não conheço essa marca de tintura.

    As secretárias da empresa elegeram uma representante para ir falar com ele. Celina, a sua própria secretária, que era quem tinha mais intimidade para fazer a pergunta.

    –    Seu Carlos, o senhor pode me contar o segredo?
    –    Que segredo, dona Celina?
    –    O senhor não pinta o cabelo…
    –    Finalmente! – interrompe ele aliviado – Alguém acredita.
    –    Sim, claro. Homem não tem assim, habilidade para pintar o cabelo sozinho. Quem faz isso para o senhor? Sua esposa? Ou uma cabelereira. Se for, o senhor dá o endereço pra gente?

    Aquilo tinha passado dos limites. Só restava uma única solução para que aquilo terminasse de uma vez por todas. Uma solução desesperada, é verdade, mas eficiente. Chamou a cabelereira da esposa em casa.

    – Deixa os meus cabelos grisalhos, dona Nilda. E não pergunte, por favor. Não pergunte.

  • A Maldição – Crônicas Publicitárias

    October 25th, 2013

    Ramiro estava exultante. Só Ramiro não. Ramiro Mendes estava exultante. Sim, porque, segundo seus colegas, era de bom tom que uma pessoa respeitável tivesse nome composto. Um segundo nome que, de maneira sonora, complementasse o primeiro, que fosse homogêneo. Todos os seus pares e, principalmente, os criadores publicitários mais famosos e reconhecidos tinham nomes duplos.  Mas voltemos a Ramiro Mendes. O garoto estava sentindo uma daquelas felicidades que parecem que não cabem no peito. Que vão sair por ele como um parasita de outro planeta. Ramiro Mendes, o redator de propaganda que saiu de Goiás e veio para São Paulo porque  “aqui sim as coisas acontecem”, tinha ganho o seu primeiro Leão no Festival de Publicidade de Cannes. E, veja, não era assim qualquer Leão. Mas um Leão de Ouro. Perto de alguns colegas que já tinham 10, 12 ou 23 Leões na carreira, talvez fosse pouco. Quase nada. Mas um é o começo da contagem, quem sabe?  Ficou tão feliz, tão radiante que pediu uma cópia da estatueta para si, já que a original ficaria na estante da agência, já coalhada de estatuetas em formatos e cores variadas. Custava metade do seu salário de redator júnior, mas essa é uma glória que deve ser guardada. Acomodada no melhor lugar do seu apartamento de um dormitório.

    No dia em que a estatueta chegou, Ramiro não se conteve. Abriu ansiosamente o envelope, rasgando o envólucro sem a menor cerimônia, até que a estatueta aparecesse em todo o seu esplendor. Brilhando intensamente. A placa  que fica na base da estatueta tinha o seu nome entalhado ao lado da palavra Copywriter.  Não via a hora de voltar para casa e colocá-la no seu lugar de destaque.

    À noite, Ramiro não conseguia despregar os olhos do seu Leão de Cannes, na prateleira da sala. Tentava assistir a televisão, mas, volta e meia, pegava-se admirando-a, altiva na prateleira. No meio da noite, levantava para ir a cozinha beber água, mas era apenas uma desculpa para passar pela prateleira e trocar alguns minutos de sono por aquele momento de observação e orgulho. Na verdade, era mais do que isso. De alguma maneira, sentia-se impelido por alguma força a ficar olhando para a sua estatueta. Aquele Leão de Cannes metálico e brilhante, com uma expressão sisuda. Subitamente, percebeu algo estranho. Um sutil movimento da estátua em sua direção. O Leão de Cannes agora o encarava. Os olhos da estatueta postos nos seus olhos. Olhos da estatueta que começaram a ficar avermelhados, como metal incandescente. Um vermelho ondulante, ficava intenso e fraco. Intenso e fraco. Uma ondulação hipnótica. Ramiro foi cooptado por aquele olhar. Passou a ouvir a voz do Leão. Uma voz suave, convincente, sibilante.

    “Você serve a nós. Você serve a nós. Precisamos de você. Precisamos florescer.”

    Na manhã seguinte, Ramiro acordou e viu que estava sobre o tapete da sala, em frente a prateleira. Ainda zonzo e com o corpo um tanto dolorido por ter pego no sono ali, naquele chão duro, Ramiro procurava entender porque não estava em sua cama. As lembraças despedaçadas pelo  sono agitado juntavam-se como peças de um quebra cabeça até formar uma imagem inteira em sua mente. Lembrou do seu encontro hipnótico com a estatueta. Mas tomou aquilo como um sonho. E entendeu o fato de não ter ido para a cama como algo normal.

    “Passei por aqui e, no caminho de volta, fiquei olhando para ela. Acabei pegando no sono. Foi isso.”

    Lavou-se, colocou a sua roupa e dirigiu-se para a porta de saída para tomar seu usual café na padaria da esquina. Mas antes de fechar a porta e deixar o apartamento para trás, não conseguiu resistir e, ainda na soleira da porta, olhou para o sua estatueta dourada. Achou estranho ela estar virada de frente para ele. Quando os seus olhos encontraram os da estatueta, sentiu um arrepio pelo corpo. Não de medo, mas de excitação. Saiu para o trabalho.

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    Foi a partir dessa manhã que Ramiro passou a sentir algo diferente. Uma leve necessidade de estudar livros e sites de festivais de propaganda nacionais e internacionais. Pegava as publicações mais famosas que estavam disponíveis na agência: um D&AD de vez em quando, um One Show, um Anuário do Clube de Criação de São Paulo. As vezes entrava no site do Festival Publicitário de Cannes e em outras publicações do gênero. Conseguia conciliar tudo com os seus afazeres diários.

    À noite, quando chegava em casa, ia correndo para a frente da sua estatueta. Era impelido a fazer aquilo e nem percebia. Era um ritual, que seguia a sua liturgia perversa. Os olhos do leão dourado novamente tornavam-se incandescentes e paralisavam Ramiro, que ficava a mercê do ídolo metálico, que lhe dava ordens com a sua voz sibilante.

    “Você serve a nós. Nós precisamos nos reproduzir.”

    A medida em que os dias – e as noites em frente a estatueta amaldiçoada passavam – aquela leve necessidade de estar em contato com publicações especializadas em festivais de publicidade transformou-se em compulsão e depois evoluiu para uma completa e acabada obsessão. Ramiro passou a usar seus momentos de lazer e almoço para devorar os livros de festivais. Estudava cada detalhe, cada tendência, como as campanhas premiadas evoluíram de décadas passadas para o que eram hoje e o que as fazia ser laureadas. Ele tentava desesperadamente “pegar o jeito” de fazer campanhas que ganhassem prêmios. Ansiava por isso. Era o seu objetivo de vida. Almoçava sanduíches na sua mesa enquanto estudava os livros de festivais e pesquisava as campanhas famosas e ultra premiadas na internet. Não via a luz do sol. Não escutava a chuva. Era um recluso em seu mundo de pesquisa, de anseios por mais estatuetas. Estava faminto. Tornara-se um servo.

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     Ramiro era, definitivamente, outra pessoa. Diferente de quando chegou a São Paulo, julgava tudo pelo parâmetro dos festivais de publicidade. Se via uma cena engraçada em um restaurante, ou uma frase dita por alguém na rua que achasse interessante, imediatamente mandava  um “Se fosse um filme ia ganhar um Leão.”.

    A vida real misturava-se com a rotina das premiações de publicidade  que inundavam a sua mente. Se tomasse um café, não dizia que estava bom ou ruim, mas concedia-lhe metais. Se fosse excelente dizia “Esse café é ouro”. Se já não fosse lá tão bom mas ainda sim merecesse nota , dizia que o café era prata ou  bronze. Mas, se fosse um café fora do comum, dizia que era um Grand Prix.  Esse conceito valia para tudo em sua vida. Tudo era julgado e conceituado por estes metais, que na visão dele, eram os mais importantes de toda a tabela periódica. Ele podia ter tido um sono bronze, tomado um suco de laranja prata, e ter dado umazinha ouro e assim por diante.

    Em casa, a estatueta fazia o seu trabalho. Com seus olhos brilhantes e insinuantes, mantinha Ramiro como seu escravo, um operário a serviço da proliferação da espécie das estatuetas. O menino emagrecia, pois passava a maior parte do dia dentro da agência, pesquisando livros e tendo ideias para que pudessem ganhar mais estatuetas. Vivia pálido e tão inserido no assunto que já não conseguia mais se comunicar com mãe e pai. E mãe a gente sabe como é.  Sabe quando algo não vai bem com o filho mesmo a mais de 2 mil quilômetros de distância.

    Dona Carolina pegou um vôo e veio a São Paulo. Ao ver o estado filho, teve um chilique.  Aquele autômato, com olhos em um horizonte  inexistente e amigos que tinham aquele mesmo comportamento e falavam entre si num dialeto ininteligível colocou uma pulga de dimensões enormes trás de sua orelha.  Quando pôs os olhos na estatueta, Dona Carolina sentiu um calafrio.

    “Que coisa horrorosa é essa?”

    “Meu primeiro Leão, mãe. A prova que eu dei certo. A prova de que sou alguém. Em breve, terei muitos. Inúmeros.”

    O menino falava aquilo com uma adoração doentia. Em sua intuição de mãe, estava certa de que que aquele Leão dourado tinha algo a ver com o estado do filho. Impelida por tal intuição, aproveitou o dia seguinte em que o menino saiu para trabalhar, pegou a estatueta e jogou “aquela aberração” no lixo. Sabia que o filho iria brigar com ela, mas mãe é mãe. Ela tinha uma má impressão “daquilo”.

    Foi o que ocorreu. Dona Carolina teve que ficar mais tempo em São Paulo por conta do estado do filho, que, ao se separar da estatueta passou a sofrer uma espécie de crise de abstinência e também de identidade. Mas, passado um mês, sua palidez foi embora e seu interesse pelo mundo real voltou ao normal. O filho era aquele menino que conseguia dialogar com a mãe e com o resto do mundo com desenvoltura. Graças a Deus, ele estava de volta.

     -x-

     Enquanto isso, no apartamento de seu Ariovaldo,  zelador do prédio onde morava Ramiro, uma discussão acalorada acontecia. A filha dele, Karina, que iria prestar vestibular para Medicina, havia mudado repentinamente de ideia. Decidiu que ia fazer publicidade.  Seu Ariovaldo não conseguia aceitar aquilo e a discussão entre ele e a filha era áspera. Olhando tudo, de cima de uma prateleira, o Leão dourado, que Karina tinha achado no lixo sem entender como alguém poderia jogar fora uma coisa tão legal como aquela.

     

  • O Fantasma de Luiza – Último Capítulo

    October 22nd, 2013

    Rui estava parado dentro do closet, cabelos molhados e toalha amarrada na cintura como se fosse um grego. Olhava para a miríade camisas e calças penduradas nos cabides tentando definir-se por algum conjunto que o agradasse. Não conseguia. Tentava várias combinações em sua mente mas nenhuma fazia sentido naquele momento. Parada na porta, com uma túnica esvoaçante, Luiza, que um segundo antes não estava ali, resolve vir em auxílio do ex-marido.

    –       Aquela calça preta ali, uma camisa branca, o blazer preto que eu te dei de aniversário e aquele sapato ali – aponta para um sapato preto com o cano ligeiramente mais alto .

    –       Você gosta de me dar uns sustos, não é?

    –       Sou um fantasma, não sou? Faz parte do meu job description.

    –       Obrigado pela dica.

    –       Falando em job description, o meu trabalho está acabando – suspira. –  Acho que hoje é a última vez que nós nos vemos.

    Rui ficou parado com os cabides na mão por alguns segundos. Um pontada de tristeza fustigou seu ventre. Nunca passou pela cabeça dele que, depois de tudo o que passou por causa de Luiza, seria capaz de sentir a falta dela.

    –       Por incrível que pareça, eu vou sentir saudades.

    –       Então, Rui – ela morde o lábio inferior, expressão que Rui conhecia decor e salteado.

    –       Que pedido mirabolante você vai fazer antes de se despedir.

    –       Eu sei que é uma coisa delicada, mas se eu não perguntar, nunca vou me perdoar por deixar de passar uma oportunidade dessas.

    –       Manda.

    –       Eu gostaria de sentir a sensação de trepar com uma mulher, sendo homem.

    –       Como é que é?

    –       É isso que você ouviu. Queria, sentir como é ser um homem na hora da trepada, as sensações, entende?

    –       E não me diga que o jeito disso acontecer é…

    –       Sim, o modo dois em um.

    –       Você em mim enquanto eu estiver trepando?

    –       Sim, mas olha, Rui, você nem vai notar que eu vou estar ali.

    –       Como não Luiza? Eu vou saber que você vai estar por aqui –

    Ele passa a mão pelo corpo inteiro para indicar o que significa aqui.

    –       Confia em mim, Rui. Eu acho que estes nossos últimos dois meses foram suficientes pra eu provar que estava sendo sincera. Eu ajudei você, não ajudei?

    –       É, ajudou.

    –       E você é outro hoje, não é?

    –       É. Sou.

    –       Eu vou te contar um segredo. Eu senti ciúmes. Um monte de vezes. Não. Eu senti todas as vezes. Queria estar no lugar de todas as mulheres que você transou. Talvez esse tenha sido o meu castigo.

    –       Verdade?

    –       Verdade.

    –       Tá bom, Luiza. Eu deixo você estar comigo, se algo rolar hoje.

    –       Como assim, se?

    –       Vício de linguagem. Tá na cara que vai.

    -x-

     Mesmo antes de entrar no clube, Rui já sentiu o impacto que a festa. Um burburinho intenso na frente do clube. Apesar do enorme movimento, as filas de espera por alguém que levasse o carro até o estacionamento era sempre curta, devido a eficiência de um verdadeiro batalhão de manobristas agitadíssimos e concentrados no seu trabalho.

    Ao entrar no clube, Rui foi recebido por um bando de hostesses que pareciam ter saído das páginas da Vogue. Talvez fosse o caso. Impecavelmente vestidas, elas checavam os nomes sem desmontar o sorriso com dentes alvíssimos, emoldurados por lábios vermelhos. A hostess que ficava no púlpito de entrada chamou uma colega que acompanhou Rui para dentro e, ao passar uma cortina com o imponente brasão, marca registrada do clube, bordado em fios dourados sobre o verde musgo, foi imediatamente arrebatado pelo ambiente.

    Mulheres glamourosas, homens glamourosos até garçons e as garçonetes eram glamourosos,  circulando por entre os convidados oferecendo as maravilhas etílicas e algumas joias da gastronomia minimalista. Rui passou a circular pelo ambiente. De longe, viu Murilo, Carlos  Alberto e Leandro, muito bem vestidos. O bom gosto do terno de Murilo destoava completamente das palavras e frases que costumavam sair de sua boca. Os três sinalizavam com a mão, chamando Rui para junto deles. Mas, depois de alguns segundos, viu que a expressão dos três mudou ao mesmo tempo. Os olhos arregalaram, a testas franziram e os queixos foram caindo até ficarem pendurados. As mãos paradas no ar, como se alguém os  tivesse frisado num vídeo. Rui logo percebeu a razão daquele espanto. Ao virar-se levemente para sua direita, encontrou Karen, parada a sua frente, olhando nos olhos dele, com duas taças de champanhe na mão.

    –       Não há sensação melhor do que chegar em um lugar como este e ser recebido por uma Cristal gelada –  ela diz.

    –       Karen. –  Ele se cala por um instante para observá-la de cima a baixo. – Você está deslumbrante.

    Karen deu um sorriso intenso. E sincero. De quem não esperava um elogio daquela magnitude.

    –       Um homem precisa ter confiança para usar uma palavra como deslumbrante sem parecer uma tentativa barata.

    –       Bom, eu acho que é a palavra que realmente define o que eu estou vendo.

    –       Eu estou feliz de você ter finalmente vindo a uma de nossas badaladas festas.

    –       Eu estou feliz de estar aqui.

    A  resposta veio acompanhada de um olhar firme, decidido e direto nos olhos dela. E o que ele viu lembrou Lucio. Se fosse uma partida de futebol, estaríamos apenas nos dez minutos do primeiro tempo, mas a vitória era certa. Karen estava entregue.

    –       Vamos dançar? – Ele convida.

    –       Hum! Quer dizer que você dança também?

    –       Dou meus passinhos – diz oferecendo o braço para Karen.

    –       Eu quero que você me prometa uma coisa – diz ela enquanto acomoda o seu braço junto ao dele.

    –       Claro, Karen.

    Ela praticamente encosta sua boca no ouvido dele e, como que divide um segredo insondável, fala.

    –       A primeira coisa que você vai fazer com o dinheiro da aposta que vai ganhar é me levar pra jantar.

    Ele riu e, com o canto do olho, vislumbrou seus amigos ao longe, estupefatos com a cena que presenciavam, sem nem desconfiar que Karen já sabia do segredo da confraria.

    -x-

    A festa, como se diz, já tinha pegado. Animação total. Rui estava dando um tempo no banheiro do clube. Por incrível que pareça, não havia viva alma lá dentro. Só ele, que lavava as mãos antes de ir embora para a casa de Karen, que já havia pego o seu carro e dado a ele o seu endereço, e Luiza, que de viva não tinha nada.

    –       Então, o meu aluno encerra o curso com chave de ouro.

    –       Quem diria.

    –       Eu sempre confiei em você.

    –       Admito.

    –       Bem, como eu já disse, é minha despedida.

    –       E como eu já disse, vou sentir a sua falta.

    –       Então – diz ela.

    –       Sim, Luiza. Pode entrar. Vamos nessa juntos.

    Luiza entra no corpo de Rui. Ele sente uma leve tontura, mas logo está refeito. E, como Luiza havia prometido, não sente nem traço da presença dela. Ele sai direto para a porta de saída. De longe, os amigos observam Rui a caminho da glória.

    –       Olha lá o filho da puta!

    –       Depois de tantos anos, hein, Murilo. Um ganhador – constata Carlos Alberto.

    –       Será que ele vai para o apartamento dela? – pergunta Leandro.

    –       Tanto faz – conclui Murilo. – O cara vai entrar na buceta mais cobiçada da corretora e ainda vai quebrar a banca na primeira festa que resolve aparecer. Caralho! – Ele olha para cima –  Chuuuupa, Luiza!

    –       Engraçado. É efeito da iluminação ou parece que tem uma aura vermelha em volta do Rui?

    –       Porra, Leandro! O que você bebeu? Eu também quero.

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     Rui da um salto para fora da cama e vai direto para o espelho do quarto de Karen. Ele não vê o seu reflexo no espelho. Em seguida começa a olhar para si, em partes. Está tudo ali, mas o espelho continua sem refletir. O que ele vê no espelho, o deixa ainda mais chocado. O reflexo dele mesmo, levantando da cadeira, nu, indo para a cama e começando uma nova seção de sexo tórrido com Karen. Rui não sabe como reagir. Ele grita para pararem, tenta chamar a atenção. Tentativa infrutífera. Ele senta no chão e assiste a ele mesmo em malabarismos sexuais que fazem Karen gritar de prazer.

    Depois de um tempo abraçados, Karen avisa que vai tomar uma ducha e sai de perto. Rui na cama, fica encarando o Rui sentado no chão. O primeiro ostenta um sorriso sarcástico.

    –       Você devia ter ouvido a mulher do bar – fala o Rui na cama, mas com a voz de Luiza.

    –       O que está acontecendo. Por que eu estou aqui e você aí?

    –       Por que eu, agora, sou você.

    –       Como? O que?

    –       Eu sei que é difícil, mas desde o início era isso que eu queria fazer. Tomar o seu corpo, voltar a viver.

    –       Não. Isso não é verdade. Isso é uma loucura.

    –       Meu Deus, fazer sexo como homem é glorioso. E eu agora tenho uma vida pela frente.

    –       Luiza, você não pode estar falando sério.

    –       Nunca falei tão sério em toda a minha ex vida.

    –       Mas por que eu? E por que toda essa história de me ajudar? Por que simplesmente não pegou o corpo de alguém e o tomou?

    –       Isso não é assim, como nos filmes. Preciso de consentimento para que isso possa acontecer totalmente. Eu já conhecia você. Isso é essencial. Você estava enfraquecido e precisando de ajuda. Eu supri você com o conhecimento que você precisava e no caminho fui ganhando sua confiança.  Agora estou viva de novo. Agora, eu  sou você.

    –       Você não pode estar fazendo isso comigo – Rui se desespera. – Você não tem caráter?

    –       Claro que não, Rui. O que eu tenho era uma vontade imensa de continuar vivendo e trepando. E, convenhamos, seus últimos meses neste corpo pelo menos valeram à pena. Você devia até me agradecer.

    –       Eu tinha perdoado você. Você se mostrou uma boa amiga. Eu confiei em você.

    –       O melhor disfarce para o mal é o bem, Rui.

    Luiza, que agora era Rui, cala-se após ter dito esta frase. Olha para cima, como quem ouve o que acabou de dizer. Levanta uma sobrancelha.

    –       Profundo isso, não é, Rui? Gostei.

    –       O que vai acontecer comigo?

    –       Não sei, vai depender da sua força de vontade de continuar vivo, acho eu. E da sua completa mudança de personalidade. Eu acho que se você continuar cheio de não me toques e doçura como sempre foi, vai ficar vagando invisível por aí. Ainda bem que eu ensinei um pouco de cinismo pra você né?  – Orgulha-se. – Resumindo, enquanto essa sua aura continuar assim esverdeada em vez de vermelha, é isso que você vai ser. Um espírito vagando por aí de consciência limpa. Agora da licença, Rui. Tenho uma coisa muito importante para fazer ali no banheiro.

    Rui viu Luiza em seu corpo se levantar e ir para o banheiro. Não demorou muito para começar a ouvir o som do chuveiro misturado a gemidos.

    -x-

     Papo no elevador

    O espírito de Rui está no elevador da corretora. Clarisse e Rúbia, duas corretoras, uma loira e outra morena, entram e, obviamente, nem o percebem.

    –       Meu Deus! – Suspira Clarisse – O que foi aquilo ontem?!

    –       Eu nunca tinha feito nada parecido na minha vida – responde Rúbia.

    –       Eu adorei!

    –       Adorou? Eu quero de novo! – Rúbia olha marota para a colega. –  Se você quiser também, claro.

    –       Safada.

    –       Só de pensar em você e o Rui nus, fazendo aquelas coisas todas em mim.

    –       Para!

    Clarisse fala com os olhos semi cerrados e os lábios úmidos.Todos os lábios.

    –       Eu não vou conseguir me concentrar hoje.

    –       A Karen pode ser linda, mas nós somos duas.

    O espírito de Rui permanece estático, desanimado, enquanto vê as duas deixando o elevador dando risadinhas cúmplices. A porta se fecha. A sua aura continua esverdeada.

  • O Fantasma de Luiza – Capítulo 12

    October 15th, 2013

    –       Ela é uma médium, Rui.  – Falou Luiza, enfim. – Isso poderia acontecer. Eu só não avisei porque, bem, vai que a gente não topasse com nenhuma.

    –       Que negócio é esse de aura vermelha?

    –       Não faço a menor ideia.

    Neste momento, a mão pesada de de Murilo pousa no ombro de Rui.

    –       Que é isso? Falando sozinho?

    –       Estava cantando.

    –       Escuta, que obscenidade você falou para aquela moça? Ela saiu correndo como se tivesse visto um fantasma.

    –       E viu – confirmou Rui. – Disse que tinha o espírito de uma mulher parado bem aqui – apontou para onde estava Luiza.

    Murilo ficou encarando Rui por algum tempo e depois, os dois caíram numa gargalhada desenfreada.

    –       Isso é coisa de mulher perturbada – Murilo fala entre risos. – Nada que uma chupada no lugar certo não resolva. Você devia tentar.

    E saiu gargalhando em direção ao banheiro, sob os olhar impressionado de Rui diante da filosofia refinada do amigo, e do olhar irado de Luiza.

    -x-

    No elevador

    No dia que seguiu o encontro esquisito com a tal médium,  Rui chegou cedo à corretora. Encontrou Julio César no elevador. Julio César vive em um estado de excitação constante, porque tem certeza absoluta que vai enriquecer quando uma de suas ideias vingar. Ele tem várias delas. Uma atrás da outra, todas mirabolantes.

    –       Rui…cara…agora não tem jeito.

    –       Que não tem jeito eu já sabia.

    –       Não, sério, para de tirar onda comigo –  reclama. – Quis dizer que não tem jeito, vou finalmente alcançar minha independência financeira. Meu plano B está prestes a se tornar plano A.

    –       Desenbucha.

    –       Você vai ver, homem de pouca fé, que essa não tem como dar errado. Uma idéia inovadora, sem dúvida.

    –       Ok.

    –       Tem coisa mais chata do que papo de elevador? Sabe como é, as pessoas entram e, na verdade, nem querem conversar. Se obrigam a falar da chuva, do trânsito por pura convenção social.

    –       Tirando você –  debocha Rui.

    –       Vai rindo. Mas enfim, que tal promovermos a volta do ascensorista?

    –       E o que isso tem a ver com o papo chato no elevador?

    –       Um ascensorista que é também comediante. Ele conta piadas durante o trajeto. Não tem quem não queira entrar num elevador como esse. Hein, Rui? As pessoas estão pagando para se aboletar num teatro e em bares para ver stand up. Então, eu vou inovar. – Ele sinaliza com as duas mãos no ar como se a frase seguinte estivesse nas capas dos jornais. –  Papo chato no elevador? Nunca mais. É genial, Rui. Não é? Uma necessidade de mercado.

    –       E como você vai se remunerar?

    –       Como?

    –       Perguntei, como você vai ganhar dinheiro com isso? Por que eu iria contratar os serviços de um comediante/ascensorista se as pessoas vão pegar o elevador com ou sem ele de qualquer maneira, já que elas não entram num elevador por opção e sim por necessidade? Fora que dependendo do andar que alguém desça, ou suba, pega só parte da piada.

    Julio César saiu do elevador cabisbaixo. Rui seguiu a viagem se sentido mal por ter sido ele a acabar com mais um sonho de grandeza do colega. Os milhões que Julio Cesar pretende ganhar teriam que esperar pela próxima ideia.

    -x-

     A festa

    Ao chegar em seu andar, Rui percebeu um clima completamente diferente. As pessoas falavam mais alto, estavam excitadas, os rostos tinham aquela expressão abobalhada que as crianças exibem a cada dia que o Natal se aproxima. Isso indicava uma de duas circunstâncias: o bônus de final de ano ou a festa de aniversário da corretora. Como o período em que o valor do bônus é comunicado estava ainda muito longe, tornava-se óbvio que a causa daquela comoção era a festa.

    As festas de aniversário da corretora costumavam acontecer no clube mais concorrido, mais in, mais trend, o que estivesse em maior evidência naquele ano. Não se poupavam recursos para reunir todo o “staff” da corretora, clientes celebridades, que em alguns casos eram também clientes. A festa era uma tradição, um evento concorrido que aparecia em matérias e fotos estampados em jornais e revistas do país. O whisky, farto, tinha idade para ser avô de Lucas, as cervejas importadas da Bélgica e Alemanha e o champagne vinha da região francesa que autorizava a usar esta definição para o espumante. Uma grande confraternização que estendia-se madrugada a dentro e, em muitos casos, continuava com um número restrito de pessoas em lugares mais privados. Essas prorrogações íntimas eram a alegria dos fuxiqueiros do dia seguinte e dos que conseguiam escapar dos fuxicos mantendo suas indiscrições nos lençóis de hotéis e motéis, que eram posteriormente lavadas em alguma lavanderia da cidade. Já se documentaram orgias que deixariam os romanos corados de vergonha, o fim de alguns casamentos e até o nascimento de um rebento, palavra que aliás tem tudo a ver, já que neste caso a caminsinha parece não ter suportado a fúria do vai e vem do envolvidos.

    Rui, até então, jamais havia comparecido a nenhuma destas festas, porque nunca teve a menor vontade de trocar a companhia de Luiza por um evento de proporções Bíblicas, se considerarmos Sodoma e Gomorra como base de comparação. Mas, naquele ano, tudo estava obviamente diferente. Uma festa com aquela fama e envergadura era tudo o que Rui desejava para colocar em prática a sua nova personalidade de predador frio e cruel. Quando se dirigiu à cozinha para se servir de café, Rui encontrou Murilo, Lucas e Carlos Alberto, numa animada conversa quase aos sussurros.

    –       Estão afônicos ou isso é um motim se formando?

    –       Ah! Justamente a pessoa que eu queria encontrar!–  Responde Murilo agora com o seu tom de trovão característico. – Este ano você vai à festa, não vai?

    –       Pode contar comigo.

    –       Ah, seu Rui, folgo em saber! – Lucas alegra-se. –  Para mim é motivo de júbilo contar com tão estimada presença entre a nossa malta em tamanha confraternização.

    –       Não entendo patavina do que esse moleque fala, caralho! – Decepciona-se Murilo. – Mas o que interessa aqui é a aposta.

    –       Que aposta? – Pergunta Rui, intrigado.

    –       Quem vai pegar a Karen –  responde Carlos Alberto.

    –       Desde que começou aqui na corretora, há 5 anos, ninguém sentiu nem de perto o cheiro daquela bucetinha – completa Murilo com a sua costumeira suavidade.

    –       Ninguém? Nem um cliente importante? – Duvida Rui.

    –       Não, seu Rui. A moçoila é arredia aos flertes.

    –       O que esse menino falou agora? – Murilo irrita-se novamente.

    –       Que ninguém ainda conseguiu comer a Karen – traduziu Rui. – E vocês acham mesmo que ela não fraquejou e conseguiu manter segredo?

    –       Não, Rui. Temos uma vasta rede de informantes aqui dentro, alguns com a função de seguir a moça quando sai da festa. Ela resiste a todas as cantadas, e vai pra casa invicta.

    –       Meu Deus, Carlos Alberto. Vocês não acham que estão exagerando?

    –       A aposta tomou um vulto importante, Rui.

    –        O dinheiro aplicado em casa bancária, acumulando rendimentos e correção. Já temos uma soma vultuosa, o suficiente para o ganhador encher a bucha – completa Lucas.

    –       Por que eu nunca soube disso?

    –       Só quem vai a festa e participa do “Quem vai pegar a Karen” pode saber. E você, o bundão, nunca foi a festa nenhuma. Parar ficar agarrado com a sua “santa Luiza”. Você vai mesmo, não vai?

    –       Vou, Murilo. E ainda vou apostar.

    –       Opa, agora senti firmeza – alegra-se Carlos Alberto. – E quem você acha que vai, finalmente, pegar a Karen?

    –       O mesmo felizardo que vai ganhar a aposta. Eu. Caso 500 reais em mim.

    (continua)

  • O Fantasma de Luiza – Capítulo 11

    October 8th, 2013

    Os dias que seguiram àquela manhã eram divididos em dois. A metade dedicada ao trabalho e a outra dedicada a sair pelos bares com Luiza à tiracolo como uma espécie de orientadora de campo. Foram aos mais diversos tipos de bares. Rui foi aprendendo e ponto em prática tudo o este aprendizado com orientação da sua professora do além. Foram de bares de quarentões a baladas de pós adolescentes. Rui nunca achou que fosse capaz de chegar àquele estágio de sucesso com as mulheres. No primeiro bar, Luiza queria que Rui atirasse a esmo. Não deu dica alguma. Rui tomou inúmeros foras, voltava para a mesa e a Luiza, impassível, dizia: “tenta aquela”. Foi uma noite de insucessos. No final, voltando para casa, Luiza disse que sabia que tudo ia acontecer como realmente aconteceu. Aquele bar não era lugar de pegação, mas Rui devia se acostumar com a negativa a ponto de simplesmente considerá-la um fato normal em um momento de conquista. Aquela lição dolorosa serviu para diminuir a importância da rejeição. No que ela obteve total sucesso. No final da noite Rui até ja estava achando engraçado as reações indignadas de algumas mulheres. Foi tão rejeitado que nem dava mais importância.

     

    –       Hoje você aprendeu que ninguém morre por causa de um não, Rui. De todas as lições que você anda aprendendo e ainda vai aprender, essa é a mais importante.

     

    Nesse momento o celular de Rui tocou. Era Vanessa. Seu coração disparou. Já estava quase apertando a tecla para atender quando viu a mão fantasmagórica de Luiza sobre a dele, num claro movimento para evitar que atendesse. Olhou para ela, que retornava o olhar com o senho franzido naquela testa azulada. A mensagem era clara. Nada de sentimentalismos. Rui precisava se tornar um conquistador frio, mais gelado que a pele de Luiza devia estar dentro do caixão. Luiza deu dicas que iam além do embate homem-mulher. Orientou Rui em outros aspectos que sempre podiam ajudar na hora da conquista como um corte de cabelo que tinha mais a ver com seu rosto e também as roupas para ele vestir, dependendo do lugar a ser frequentado. Numa das noites, Rui teve uma revelação. Era uma balada com muitos pós-adolescentes. Ali, os sinais pré cópula eram tão claros que chegavam a ser assustadores. Meninas se beijavam, suas roupas ressaltavam as partes do corpo mais tentadoras, o que, naquela idade,  poderia ser qualquer parte do corpo. Parecia uma orgia romana, só que com som tecno. Luiza tinha dado uma missão para Rui.  Ele teria que sair dali com duas garotas e ir para o apartamento com elas. A missão parecia instransponível. Era mover a muralha da China. Mas, depois do incentivo de Luiza e de dois Dry Martinis, aliás muito bem preparados, a muralha da China transformou-se em muro de Berlin, para depois se transformar em muro do condomínio para, finalmente, se transformar em cerquinha branca. Daquelas vazadas e muito fáceis de transpor.

     

    Não foi nada difícil, já que o ambiente ali era propício. Rui saiu de lá com duas amigos muito imbuídas. Uma delas, já no carro, estendeu-lhe uma pílula de cor azulada. Rui ficou encarando a menina, tentando entender se a mensagem que ela estava passando era: toma esse Viagra, tio. Ela notou aquela expressão de desconforto no semblante de Rui, olhou para a amiga e as duas caíram em uma gargalhada estridente.

     

    –       É Extase – falou e aproximou a boca no meu ouvido, completando em um sussurro de arrepiar o corpo inteiro – eu sei que você vai dar conta da gente.

     

    Luiza estava entre as duas, mas claro, só Rui percebia. Ela lambia os lábios com os olhos semi cerrados, mas deixando escapar um sorriso maroto. Os feromônios naquele carro estavam saindo pelas janelas.

     

     

    Em outra noite Rui saiu com Lucio e Luiza deu-lhe uma outra missão. Propor a Lucio uma aposta. Os dois iriam entrar no clube, dar uma geral e escolher uma vítima que os dois iam tentar levar para a cama.

     

    –       Rui, eu não quero levar o seu dinheiro assim, fácil.

    –       Estou generoso, Lucio. Vai topar ou vai fugir.

    –       Bom, o dinheiro é seu.

     

    Escanearam o ambiente como duas águias a procura de um coelho perdido.  Encontraram uma morena estonteante que ocupava uma mesa com mais duas amigas. A aposta era simples, até. Quem obtivesse sucesso, teria a conta paga pelo outro. Os dois partiram para o ataque cada um a seu jeito. Luiza ficou observando, como quem assiste uma decisão de campeonato pela televisão, mas, não deu dica sequer para Rui, embora ele tenha tentado trapacear uma ou outra vez olhando para ela com expressão de gatinho perdido. Ela teve que resistir aquela carinha, que sempre foi o forte dele para conseguir as coisas. Aguentou firme. Rui tinha que vencer Lucio sozinho. E foi o que acabou acontecendo. Rui pegou a morena, Lucio pagou a conta.

     

    Ma a noite mais curiosa acontece em um outro bar, no happy hour. Rui estava brindando com Murilo, Carlos Alberto e Leandro, quando percebeu uma mulher que não tirava os olhos dele. Mas, ao contrário do clima normal em um bar como este, os olhares não tinham nada a ver com sedução ou jogo de conquista. Apesar de linda, a tal mulher que não tirava os olhos parecia apreensiva. Fez sinal com a cabeça para encontrá-lo num canto do bar e se dirigiu para lá. Rui, que nas últimas duas semanas já tinha visto de tudo, decidiu que aquela seria mais uma experiência muito interessante da sua recente vida sexual ativa. Parou na frente dela, impostou a voz.

     

    –       Oi, tudo bem? Você queria falar comigo?

    –       Olha, eu sei o que você está pensando – falou nervosa. –  E eu até sairia com você fácil, fácil que você é um tesão e ainda tem charme saindo pelas orelhas.

    –       Foi o elogio mais sui generis que eu já recebi. Obrigado. Mas por que o verbo sair assim, na condicional?

    –       Por que eu sou médium. E estou vendo essa mulher que está atrás de você.

     

    Rui virou-se para onde os olhos da apavorada mulher apontavam e deu de cara com Luiza. Ele voltou para a mulher.

     

    –       Ah, não! – A mulher dá-se conta de tudo. – Você sabe, você está vendo ela. Não está?

    –       Claro que não, imagina. Mulher atrás de mim? Eu hein?

    –       Bom, eu não sairia com você daqui nem que me pagassem o prêmio da mega sena. Mas é bom que você se livre dela.

    –       Já falei, não tem mulher nenhuma aqui.

    –       Ah é? E porque você apontou bem pra ela quando falou “não tem mulher nenhuma aqui”, hein? – Desafia.

    –       Ué, porque você estava olhando para essa direção. E qual o problema dessa mulher que você está vendo

     

     Ela se aproxima de Rui sussurra, como quem conta um segredo

     

    –       E ela tem uma aura vermelha. Auras vermelhas não são um bom sinal.

     

    A mulher saiu em passos rápidos agarrada à bolsa sem olhar de volta, deixando Rui para trás como se ele estivesse com alguma doença altamente contagiosa.

     (continua)

  • O Fantasma de Luiza – Capítulo 10

    October 3rd, 2013

    Rui empurra o carrinho disfarçadamente, indo em direção a Vanessa. Ela está escolhendo vinho. Ele para ao lado dela e, a pretexto de iniciar uma conversa, resolve perguntar.

     

    –       Você sabe onde ficam os Argentinos?

     

    Ela olha para ele, que retribui o olhar. Eles ficam como dois cachorros, se olhando. Mais um pouco passariam a se cheirar. Ela achando aquele rosto familiar. Ele, fingindo a mesma coisa. Depois de alguns segundos ele aponta pra ela e, com uma expressão de quem foi buscar no fundo da mente algo importante, falou.

     

    –       Vanessa?

    –       Chewbacca?

     

    Mencionar o nome do personagem peludo de Guerra nas Estrelas foi uma ironia cruel. Mas, ao invés de acusar o golpe, Rui percebeu que aquele era o momento de ser homem que tem charme. O homem que ele queria ser. O melhor jeito era não se levar a sério. Decidiu agarrar a ironia e virar o jogo.

     

    –       Bom, pelo menos não me chamou de Jabba The Hutt.

     

    Ela sorriu. Ponto.

     

    –       Como vai você? Vendo muitos filmes com discos voadores?

    –       Tá, eu mereço – ele concorda fingindo resignação. –  Mas eu devo uma explicação. Pra mim mesmo. É que aquele dia eu estava irritado, porque o Lucio queria a todo custo me empurrar pessoas do sexo oposto. Eu tinha perdido a minha esposa faziam apenas 10 dias. Eu falei aquilo justamente para afastar vocês e pra deixa ele irritado.

     

    A mentira soou tão coerente que até Rui passou a acreditar piamente no que disse. Vanessa tinha caído na conversa, era óbvio pela expressão em seu roto. Ele voltou para o jogo.

     

    –       Puxa, não sabia.

    –       É, quando a gente está frágil emocionalmente, faz bobagens. Aquele não era um dia para estar naquele ambiente.  Mas, mudando de assunto, você mora por aqui?

    –       Na rua das Caldeiras.

    –       Quem diria, fica há dois quarteirões do meu prédio. Eu moro na Pirápolis.

    –       Nossa, era meu sonho ir morar lá. Aquelas paineiras nos dois lados da rua fazendo aquele túnel verde sempre me encantaram.

    –       Ué, e porque não vamos juntos pelo túnel verde? Não me diga que tem compromisso?

    –       Não, eu ia beber um vinho e ver televisão.

    –       Proponho uma troca para um bom papo e um Dry Martini. O meu é impecável. Eu mereço uma segunda chance, vai?

    –       Perfeito

     

    Luiza fazia sinal com os polegar para cima. Rui tinha sido aprovado com louvor no teste. Mas o que Luiza pensava não era mais importante do que ele mesmo pensava. A sensação de auto suficiência que sentiu naquele momento era algo que jamais pensou sentir. Era o campeão do mundo. Erguia um troféu em frente a um estádio repleto de aplausos e ovações. Estava se tornando aquilo que havia se proposto. Com uma ajuda substancial da última pessoa, quer dizer, alma, que poderia esperar.

     

    -x-

     

    Rui chegou em casa e tomou um banho rápido. Colocou as compras em seus lugares, deixando de fora apenas os ingredientes para preparar um croque monsieur para o jantar. Quando já estava com tudo preparado, a campainha tocou. Ele atendeu já com uma taça de Dry Martini suada na mão. Assim que abriu a porta, o perfume de Vanessa misturou-se com o da bebida. Era aquele aroma agradável de banho recém tomado, que se somava ao do “melhor drink da história da humanidade”. Prenúncio de uma noite e tanto. Os cabelos negros de Vanessa agora estavam como na noite em que Rui a conheceu, presos convergindo para um elástico na extremidade do cumprimento, caindo pelo ombro esquerdo. Os olhos levemente puxados em harmonia com as sardas do rosto faziam-na pareciam uma pintura. O sorriso era suave, praticamente um carinho. Trajava um vestido leve, com alças onde não se via indício que fosse de um soutiein. O bico dos seios apontavam para ele como que dizendo: é você que eu quero. Ele também queria.

     

    -x-

     

     

    Quando o despertador tocou, Rui estava acordado, havia um certo tempo. Os perfumes de Vanessa – o artificial e os naturais –  impregnavam os lençóis. Era uma sensação delirante levantar assim. Ele a viu sair, tentando não acordá-lo. Já era dia claro. Ele fingiu que dormia profundamente e, com a pálpebra milimetricamente aberta, pode ver o ritual que era ela se vestindo. Tão sensual quando o despir. Deixou-a ir para sua casa fazendo-a acreditar que obtivera sucesso em não acordá-lo. Antes de passar pela porta do quarto, olhou para ele. Rui fechou os olhos e fingia respirar profundamente. Ele não viu, mas podia ter certeza de que ela abrira um sorriso antes de girar o corpo e se dirigir para a casa dela. Aquilo tinha acontecido a mais ou menos uma hora atrás. Ele levantou e, saltitante, foi para o banho, que durou cinco minutos. Voltou do banheiro com a toalha presa a cintura. Um cheiro agradável de café recém passado abraçava o apartamento inteiro. Dona Dalva já tinha chegado. Seu olhar encontrou o celular jogado na poltrona que ficava no canto do quarto. Foi até lá, pegou o celular. Encarou-o por alguns segundos e começou a procurar o endereço e o nome der Vanessa na sua agenda. Sua busca foi interrompida pela voz de Luiza, vinda das suas costas.

     

    –       O que o senhor pensa que vai fazer?

    –       Caramba, Luiza ! Você quer que eu me junte a você? Meu coração quase sai pela boca.

    –       Desculpa, mas enfim, o que você pretende fazer com este celular?

    –       Vou ligar pra Vanessa.

    –       E por que?

    –       Pra saber como ela está, entende? Ouvir a voz dela, ela ouvir a minha, deixar mais um clima no ar.

    –       Nem pense nisso.

    –       Mas Luiza, você é mulher. Rolou um clima legal aqui ontem.

    –       Eu imagino que tenha rolado, mas ela já é passado. Temos outros objetivos.

    –       Temos?

    –       Você tem. Você prometeu que ia ser aquele “homem póstumo”, lembra?

    –       Eu sei, Luiza. Eu disse, mas foi um momento de raiva.

    –       Mas nem sempre a raiva é má conselheira, Rui. Antes de se engatar em outra mulher, você precisa ter as experiências que jamais teve. Essa Vanessa foi a segunda que você pegou. Há muito o que fazer ainda. Muitas mulheres sedentas por sexo sem compromisso. Deixa a Vanessa pra la. Vamos partir pra outra conquista. Você tá esquentando, Rui.

    –       Mas, Luiza, dar uma ligada não é tão grave assim. É pra demonstrar atenção.  Parece falta de princípios a gente deixar de contar pra ela que eu achei a noite de ontem muito bacana.

    –       Rui, quem gosta de princípios nunca chega aos fins. E é nisso que tempos que nos concentrar.

     

    Rui ficou encarando o fantasma da mulher, que o encarava de volta com uma expressão grave. Ele relaxou o corpo.

     

    –       Tá bom, Luiza. Você tem mesmo razão.

    –       Bom, dito isso, está na hora de partirmos para a caça.

    –       Do que estamos falando?

    –       Nas próximas duas semanas, vamos estudar a fundo aqueles sinais que mostrei quando a Karen estava falando com você na cozinha do sua firma.

    –       Nós vamos?

    –       Vamos para os bares e você vai treinar a sua observação. Vai por em prática o que aprendeu e, através da sua perspicácia, vai trazer mulheres para o seu pequeno matadouro aqui.

    –       Luiza, pelo amor de Deus, esse já foi o nosso quarto.

    –       Sem sentimentalismos, Rui. Está na hora de você se Don Juanizar. É pra isso que estou aqui.

     

     

    Rui apareceu na cozinha e a mesa estava posta. O café na térmica, um copo de suco de laranja com gelo e duas torradas de pão integral. Ele sentou-se a mesa e passou a beber o suco e digerir as torradas e também as palavras de Luiza. O que ela falou fazia todo o sentido. Não era hora de se amarrar em alguém. Se ele adiantasse o processo e se deixasse apaixonar por alguém sempre haveria uma voz em sua mente lembrando que ele podia ter aproveitado mais a solteirice com que as circunstâncias funestas o haviam presenteado. Foi interrompido por dona Dalva.

     

    –       Tudo bem com o senhor, seu Rui?

    –       Tudo, dona Dalva, por que?

    –       Porque eu posso jurar pela minha mãe morta que o senhor estava falando sozinho lá no quarto.

    –       Era o celular.

    –       O senhor conhece outra Luiza?

    –       Não, por que?

    –       Porque eu ouvi o senhor falar o nome Luiza, duas vezes.

    –       Juíza, dona Dalva. Eu estava falando com uma juíza, que está julgando um caso lá da corretora.

    –       Ah, certo! – alivia-se. – Acho que o meu ouvido ta cheio de cera de novo. Vou ter que voltar no posto de saúde fazer uma limpeza. Da última vez saiu cada naco, seu Rui, marrom como essa torrada aí. Dá licença, viu?

     

    Rui olhou para a segunda fatia de torrada na sua mão. Desistiu. E foi trabalhar.

     

    (Continua)

  • O Fantasma de Luiza – Capítulo 9

    September 27th, 2013

    No elevador

    Voltando do almoço, Rui encontra Lucas, o office boy, no elevador. Amante do rock’n roll, principalmente das bandas dos anos 70, década em que ele nem pensava em nascer. Quando abria a boca para falar, o contraste entre sua linguagem a sua figura de cabelos longos, camisas pretas com logo de bandas de rock e tatuagens, era sui generis. Lucas fazia uso de termos antigos e alguns até arcaicos.O motivo era bem simples: um roqueiro criado pela avó, uma revisora de livros, com quem aprendeu a usar tais termos com muita propriedade. Naquele dia ele entrou no elevador e estava todo de preto com uma expressão triste.

    –       Meu Deus, Lucas. Morreu alguém?

    –       Hoje está fazendo 33 anos que John Bonham, o maior baterista de rock de todos os tempos, faleceu. Estou assim, enlutado, em homenagem a este músico supimpa.

    –       Entendo.

    –       Mas, mudando de assunto, seu Rui, não pude deixar de perceber que dona Karen estava conversando consigo na cozinha. Ela parecia assas interessada.

    –       Será que aquilo tudo é mulher pra mim?

    –       Aquele broto é uma quimera, seu Lucas. Já pensei em diversas ocasiões em ir ter com ela e abrir meu coração.

    –       Coração? Não seria o seu zíper?

    –       De fato, seu Rui. Mas cadê a coragem? Fico procurando estratagemas para conversar com aquela deusa. Outro dia consultava meus botões sobre o que Mick Jagger diria a ela para leva-la para a alcova?

    –       Provavelmente nada, Lucas. Afinal ele é o Mick Jegger.

    Neste momento, a porta do elevador abriu-se e Rui seguiu em frente, deixando Lucas embasbacado com sua observação. O garoto, olhava para ele se afastando e apenas balbuciou um elogio para ele mesmo.

    –       Quanto tirocínio!

    -x-

    À noite, Rui está confortavelmente instalado na sua poltrona preferida enquanto saboreia o seu infalível Dry Martini. Jogada no sofá de três lugares, Luiza, em roupas esvoaçantes, conversa com seu ex-marido.

    –       Toda vez que eu penso nisso fico embasbacado.

    –       Nisso o que, Rui.

    –       Eu conversando com um fantasma. E logo o seu fantasma. E ainda por cima, já achando isso normal. Será que você está aqui?

    –       Você não comeu aquela menina do bar? A primeira depois de mim?

    –       É, foi o que aconteceu.

    –       Então, acredito que sim, então isso indica que eu estou aqui.

    Rui bebe um gole da sua bebida predileta, engole, soltando uma baforada de ar embebida em álcool.

    –       Não sei como você gosta tanto disso.

    –       Você sabe como o Dry Martini foi criado?

    –       Guarde esta história cheia de charme e glamour para as próximas mulheres que você vai querer trazer ali para dentro – ela indica o quarto com um movimento de cabeça. – Queria saber o que você achou da aula prática na cozinha hoje.

    –       De longe, a mais esquisita que já tive.

    –       O que eu quero saber é se você aprendeu todos os sinais aparentes de que uma mulher quer dar pra você.

    –       Seria meio difícil esquecer depois do jeito peculiar com que você explicou.

    –       E então?

    –       Fiquei tão animado que estou pensando em levar a Karen para um “ almocinho executivo” – faz aspas com os dedos indicador e anelar das duas mãos nessa parte – Que tal?

    –       Almoço sim, mas nada de levar ela pra cama.

    –       Como assim? Não é justamente pra isso que você está aqui?

    –       Rui, por enquanto vamos nos concentrar na conquista. Quero ver você totalmente seguro.

    Ela pensa um pouco antes de seguir falando, como que medindo o que vai dizer.

    –       Não leve a mal, mas suas habilidades na cama são, como eu diria, satisfatórias. Como de resto, muita doçura, muito carinho, o que não é de todo mal.

    –       Então, qual o problema?

    –       Rui, a sua falta de safadeza é algo que precisamos corrigir . Do jeito que está não vai haver grandes problemas quando se tratar de mulheres que você não vai mais encontrar. Mas quando se trata de uma colega, aí a coisa muda de figura.

    –       Mas qual o problema com isso?

    –       Rui….Ruizinho…você faz ideia de uma foda mal dada com uma colega de trabalho? No outro dia, o escritório inteiro vai saber o que ocorreu. Principalmente a mulherada. Isso também vale para uma bem dada. Uma boa fama, com uma mulher como Karen, pode acabar rendendo mais uma, duas ou sabe-se la quantas nov as fodas.

    –       Você está me dizendo que…

    –       Que a buceta da Karen é a fechadura de uma porta de prazeres. E o seu pau, língua, ou seja la o que passar pela sua cabeça, são as chaves.

    –       É verdade! – Impressiona-se.

    –       Você tem que pensar com cabeça de safado na hora de comer alguém. Assim como um gordo pensa com cabeça de gordo quando faz um sanduíche. Mas o almoço com a Karen amanhã vale a pena. Para testarmos o nível de safadeza dela.

    –       Qual a ideia?

    –       Provocar ainda mais. Essa aí, merece.

    Após aquela conversa e mais alguns Dry Martinis, Rui teve uma noite agitada.  Um sonho muito estranho, daqueles que deixam uma impressão encravada na alma. Começava com ele fora do seu corpo, assistindo a a si mesmo em desempenho sexual com Luíza. Como um Imperador Romano, o Rui fora do corpo esticava o braço e fechava os dedos da mão exceto o polegar, que ele virava para baixo, em sinal de desaprovação ao seu desempenho sexual pífio. Luiza então se transformava em um leão e começava a devorá-lo. Acordou encharcado. E não conseguiu mais pegar mais pegar no sono. Permaneceu deitado, olhando as sobras no teto do quarto, provocadas pela luz indireta dos postes da rua que entrava pela janela. Pensou em Luiza. De alguma forma, desejou ter ela ali naquele momento.

    No elevador

    No dia seguinte, rui entra no elevador, e encontra Godoy lá dentro. Este era um corretor experiente, mas tinha pouco estômago para o jeito que as coisas eram feitas nos dias atuais. Acabou sendo demitido, para que pudesse dar lugar a gente mais jovem, com perfil mais agressivo e com salário menos agressivo.

    –       E aí Godoy, como vão as coisas?

    –       Agora estão melhores, Rui. Mas eu é que pergunto, e você, como tem passado depois do…do…?

    –       Da morte da Luiza naquelas circunstâncias? Agora estou bem.

    –       Isso, meu amigo. Perdoar a Luiza é o melhor que você faz. Senão, ela vai ficar sempre aqui, presente. E isso não é bom.

    Rui sorri.

    –       Eu vim buscar algumas coisas que deixei na gaveta. Pensei em vir no sábado pra não encontrar ninguém. Mas de repente lembrei que sempre tem meia dúzia de abnegados que não têm uma vida fora daqui. Esses tipos para os quais eu acabei perdendo o emprego.

    –       Eu senti muito que você tenha ido embora. A gente nem falou direito sobre isso, não é?

    –       Eu sei, mas você tinha suas razões.

    –       Você faz falta por aqui. Foi o Osvaldo que demitiu você?

    –       Ahã…falou de como estava sentido, de como eu era importante, que a minha experiência era um “asset” para a empresa…

    –       Ele adora colocar termos do técnicos até em declaração de amor.

    –       Pois é. Enfim, ele disse que eu seria uma perda irreparável, mas que era preciso conter alguns custos e que a escolha por mim não passava por ele.

    –       Sério? Ele não podia fazer nada, coitado.

    –       Já reparou uma coisa, Rui? O momento em que o seu superior mais elogia você é quando ele está te demitindo?

    A porta do elevador abriu e o som frenético do dia de trabalho invadiu o cubículo. Despediram-se com um aperto de mão apertado e se dirigiram para lados opostos. Rui foi até a cozinha, serviu café em uma caneca e dirigiu-se até o seu posto bebericando alguns goles da bebida quente. No caminho passou pelo posto de Karen que falava com um cliente ao telefone. Também viu Luiza, que estava abraçando Karen por trás e acariciando os seios dela com suas mãos translúcidas. Luiza lambia os lábios com os olhos semi cerrados. Ao ver que Rui quase se engasga com o café soltou uma gargalhada. Ele apressa o passo e chega até o seu posto. Luiza já estava lá, ainda rindo.

    –       Não tem graça.

    –       Rui, mulher gosta de bom humor. Você é muito coxinha.

    –       Fazer o quê?

    –       Estamos trabalhando nisso. Escuta, eu tive uma ideia.

    –       Que ideia?

    –       Almoço executivo.

    –       Como?

    –       Você vai convidar a Karen para almoçar hoje.

    –       Vou?

    –       Vai. Vai fazer uma espécie de bolinação mental. Vamos dar mais um passo na direção dela, fazer com que ela não só te deseje. Mas que ela clame desesperadamente por você. Vai manda um convite pra ela.

    Rui passa a teclar no chat interno. Escreve e apaga algumas vezes até conseguir escrever uma frase inteira. Antes de enviar o texto para Karen, Luiza pede para ler.

    –       Cassete, Rui mas que merda é essa?

    –       Um convite, oras.

    –       “Oi, Karen. Eu estava pensando que se você não tivesse nenhum compromisso hoje ao meio dia a gente poderia almoçar para conversarmos mais sobre aquilo que você me falou na cozinha outro dia. Mas se não puder, tudo bem, marcamos outro dia”

    Ela leu e voz alta fazendo uma voz de pessoa insegura.

    –       Para de debochar.

    –       Rui, isso não é um convite para uma mulher daquelas. Isso é um lamento. Ela não vai nem a um buffet infantil com você depois de ler isso. Talvez a uma igreja.

    –       Porra, Luiza! Eu te falei que eu estou longe de ser um Don Juan.

    –       Longe? Você está a anos luz. Milhares deles. Deixa que eu escrevo. Vê se aprende o que uma mulher quer ouvir…ler.

    Ela digitou rapidamente e mostrou pra ele.

    “ Vamos continuar aquele papo na cozinha num lugar melhor. Almoço hoje? O lugar melhor, eu escolho.”

    –       Sei não, Luiza. Isso ta soando meio arrogante…

    Antes de terminar a frase, ela enviou para Karen.

    –       Caramba Luiza, você enviou. E agora? Ela vai achar que eu sou metido. Imagina quantos desses ela recusa. Garanto que ela não vai nem responder…

    O computador emite um som eletrônico seco.

    “Estou em suas mãos. Encontro você no estacionamento, as 12:15. Bj”

    Os dois foram para um restaurante completamente fora da área comum. Rui, obviamente, não queria ser visto com a colega para não inspirar comentários frívolos no ambiente de trabalho. Karen parecia estar se divertindo com esse jeito discreto de Rui.

    –       Você se importa que eu seja direta, Rui?

    –       Não.

    –       Eu cheguei a pensar que você talvez fosse me levar para outro tipo de lugar.

    Luiza materializa-se ao lado dele, muito atenta.

    –       Ela esta te testando. Vamos ter umas aulas de cinismo.

    –       O que? – Rui já tinha aprendido a falar em pensamento com Luiza.

    –       Seja cínico, vai por mim. Inventa alguma desculpa. Sugestão? Me usa.

    –       Sabe de uma coisa, Karen – começou com confiança . –  Eu também pensei. Mas ainda estou lambendo algumas feridas. O trauma foi grande.

    –       Não é o que se fala lá no escritório.

    –       Ah, os boatos de que eu saí do bar com uma loira. O Murilo quer me ajudar a todo custo. Acha que um pouco de fama vai me fazer bem.

    –       Bom, ele tem razão. Para um grosso como ele, o pensamento foi muito lógico.

    –       É, mas não foi bem assim.

    –       E quando você acha que pode ser bem assim?

    Ele sentiu a perna dela roçar na sua por debaixo da mesa. E foi com essa pergunta no ar ainda sem resposta que o garçon apareceu.

    –       Querem entrada?

    O almoço seguira cheio de insinuações e metáforas cheias de safadeza mas, segundo as palavras de Luiza, o objetivo tinha sido cumprido. Karen tinha saído do encontro com uma vontade dobrada de levá-lo para a cama. O jogo de vai e vem que Luiza propunha ia provocar um desejo ainda maior em Karen. Era certo, ela era um fantasma que sabia o que estava fazendo. O almoço acabou e o desejo era notório na expressão de Karen.

    “Ela ta molhadinha, Rui. Mas hoje, ainda não.”

    -x-

    No final do expediente, Rui nega o convite para um happy hour com os amigos.

    –       Caramba, de novo, Rui?

    –       Até parece que a patroa voltou.

    –       Nada disso. Só estou com uns planos aí.

    –       Opa, o garanhão já se arrumou.

    Sabia que largar uma meia verdade com um tom misterioso no ar iria aquietar os seus colegas. Rui estava com vontade de ficar em casa naquela noite. No caminho, resolveu passar no supermercado. Tirou do bolso a lista que dona Dalva havia escrito. Pegou um carrinho para compras médias e passou a explorar aquele mundo de rótulos coloridos e corredores insondáveis. Parado em frente aos detergentes, Rui não conseguia se definir. Havia todas as opções, com cheiro de pinho, lavanda, flores do campo, para gordura mais pesada, o único com Rimbil Ativo. O excesso de opções era irritante. No final, pegou dois potes usando como critério para a sua escolha a cor vermelha do líquido, sua preferida. Quando virou para o lado, para procurar o ilustra móveis  (segundo a grafia de dona Dalva) percebeu uma figura familiar ao fundo do corredor. Apertou os olhos tentando lembrar-se de quem se trava. Luiza apareceu do nada e quase matou Rui do coração.

    –       É a arquiteta do bar. Aquela que você achou exótica.

    –       Vanessa! – Lembra-se num lampejo. – Será que ela mora por aqui?

    –       Rui – alegrasse Luiza. – Temos uma oportunidade.

    –       Ah, não. Imagina, ela pensa que eu sou um nerd completo. No máximo vai pedir pra eu dar uma olhada no computador dela que ficou lento.

    –       Não. Hoje você leva essa pra cama.

    –       De que jeito.

    –       Você conseguiu ser cínico hoje na hora do almoço. Vai la e seja outra vez. Mais uma vez, me usa. Pode me esculachar, acabar com a minha raça. Mas leva esta mulher pra cama.

    –       Será?

    –       Eu confio em você. Vou estar por perto se precisar.

    (continua)

  • R$ 99,99

    September 24th, 2013

    Já tinham perdido a conta de há quantos anos faziam aquilo. E, convenhamos, era gostoso perder a conta das coisas, desde que se perdesse a conta junto com quem se ama. Seu Ariovaldo e dona Nina, dona Nina e seu Ariovaldo, pontualmente entre as nove e as nove e quinze, dependendo do horário que a novela começasse, sentavam-se no sofá, davam-se as mãos e olhavam para a tela da televisão. A novela das oito, que há algum tempo – disso eles também perderam a conta – já não começava mais no horário que a define.

     

    Tudo parece um tanto automático. Assim que começam as cenas do capítulo anterior, seu Ariovaldo toma o controle remoto na mão direita , aponta para o aparelho de tv e aumenta o volume. Dona Nina já não tem mais os ouvidos aguçados de outrora. Desde…bem, eles perderam a conta também. 

     

    Ao fazer isso, seu Ariovaldo faz uma careta. Uma careta que mostrava incômodo.

     

    –       Ariovaldo, está tudo bem, meu velho?

    –       Claro, Nina. Por que pergunta?

    –       Você fez cara de dor.

    –       Ah, uma dorzinha aqui no braço. Mas eu preguei a prateleira da cozinha, lembra? Meus braços já não são os mesmos.

     

    Eles também já tinham perdido a conta do quanto os braços do seu Ariovaldo pregavam, serravam, colavam, pintavam e construíam coisas aos montes. Muito do que estava naquela casa era obra daquele homem.

     

     

    Agora, a novela entra no seu capítulo atual. A mocinha, coitada, pensa que o irmão lhe quer bem, mas este não cansa de infernizar a vida dela pelas suas inocentes costas.  Este é o momento em que a dona Nina perde a compostura e emenda palavrões que, de fato, já nem parecem palavrões.

     

    –       Este safardanas, sacripanta.

    –       Calma, Nina.

    –       Olha, tomara que a irmã descubra e mate este lambe cus. Ela pode matar este que Deus perdoa.

     

    Dona Nina usava constantemente esta frase, dita sempre com os dentes cerrados. Pois foi acabar a frase que entraram no ar os comerciais. E, como acontece em  todos os comerciais, o volume é sempre muito mais alto do que o da novela.  E, como se ainda não bastasse, o primeiro comercial que foi ao ar naquele momento era o das Casas Imbatíveis, em que o locutor berrava os preços e barulhos de carimbo e explosões espocavam a cada splash de preço e de condições imperdíveis de pagamento. Entrou tão sem aviso, que descobriu-se o porque da dor no braço do seu Ariovaldo. O coitado, com o susto, teve uma síncope ali mesmo. Morreu com a esposa a tentar desesperadamente salvá-lo com palavras. Antes de ir desta para melhor, teve tempo de ouvir as ultimas palavras que vinham do alto falando da t.

     

    – Geladeira Cônsul, por apenas 10 prestações de 99,90.

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