• Aquele lugar com aquelas pessoas.

    February 3rd, 2016

    Duas senhoras estão no salão de beleza desatam a falar sobre uma terceira que, obviamente, não está presente.

    – Olha eu prometi que não ia falar nela, mas não dá.

    – É da Judite, né?

    – E quem mais?- O que ela andou aprontando agora?

    – Ih…A lista começa por  ontem, na padaria. Recebeu troco a mais. Adivinha.

    – Devolveu.

    – Pois é, tem sempre que ser a diferente.

    – Você sabe que ela não anda no acostamento, né?

    – Ouvi dizer.

    – Não. Prefere ficar no anda e para. “Lei é lei”, respondeu quando eu implorei pra ela pegar o acostamento.

    – Ovelha negra.

    – Aliás,no quesito carro, é só lambança.

    – Sério?

    – Outro dia minha filha veio me contar uma coisa que me caiu o queixo

    – Fala logo!

    – A filha da Judite não passou no exame de direção. Pela ter-cei-ra vez.

    – Nãããão!

    – A coitadinha reclamou de perseguição dos monitores,  e fez o que qualquer pessoa sensata faria.

    – Comprar a carteira. O que ja devia ter feito na primeira vez.

    – Mas não. “Aprenda a conviver com os fracassos,minha filha”.

    – Meu Deus, quanta rebeldia.

    – A pobre menina vai fazer o exame pela quarta vez, acredita?

    – Bom, o minha Carlinha não frequenta mais aquela casa, que eu não quero ela andando com esse tipo de gente.

    – E olha, eu ainda não engoli aquela discussão da semana passada.

    – A do fundo de garntia pra empregada?

    – Então, menina. Teve a petulância de defender que era justo.

    – E eu não lembro? Foi muita insolência.

    – Fico imaginando a decepção que é para os pais dela. Você ensina tudo para a filha, se mata tem que conviver com essa impertinência.

    – A Lucia me falou que anda evitando a Judite. Contou que outro dia bateu reclamou de uma mãe na escola da filha, só porque a coitada estava esperando a filha em fila dupla.

    – É tinhosa essa Judite.

    – Olha, eu fecho com a Lucia. Quem anda com mau exemplo acaba se estrepando.

    – Finge que não vê, mas olha la a Judite entrando.

    – Deus me livre, o que será que ela vai aprontar?

    – Eu não sei, mas vou fingir que estou lendo uma Caras. Não quero papo com essa criadora de caso.

    – Nem eu. Me alcança aquela revista ali .

    – A Quem ou a Contigo?

     

  • January 20th, 2016

    A moça do call center, Julia era o nome dela, não sabia com quem estava lidando. Quando seu Rafael ligou e contou o problema e pediu uma solução, ela, prontamente, respondeu

    • Um minutinho que eu vou consultar no sistema.
    • Desculpe, mas o que significa um minutinho.
    • Como, senhor?
    • Um minutinho seria o que, minha filha?
    • Ora, um minutinho é… um minutinho.
    • Minha querida, um minuto é uma unidade de tempo que contém exatos sessenta segundos. Nem mais, nem menos.
    • Sim, mas…
    • Ora – seguiu sem dar a mínima pra ela – um minutinho seria algo com menos de 60 segundos. Mas aí ja não pode estar nesta categoria de tempo. O que nos leva a concluir, obviamente, que um minutinho é uma impossibilidade.
    • Eu só quiz dizer que não ia demorar, senhor.
    • Então que dissessse exatamente isso. Ou as outras opções como: espere, ou aguarde, um instante, ja vou ver tudo rapidamente, tenha a gentileza de esperar um pouco, enfim, posso pensar em milhares de exemplos bem mais apropriados do que uma impossibilidade.
    • Mas meu senhor, é só força de expressão.
    • Você quer me dizer que um minuto pode ser algo maleável?
    • Oi?
    • Essas bobagens de que o tempo é percepção. Coisas do tipo, um minuto passa rápido para o time que está perdendo mas leva uma eternidade para passar para o time que está ganhando.
    • Senhor, vamos voltar a sua solicitação.
    • Minha solicitação é outra agora, minha filha. Fazer você entender que um minuto tem 60 segundos. Não estica, nem dimunui. É um naco exato do dia. Que aliás , possui 24 horas e não 24 horinhas.
    • Olha, meu senhor, é o seguinte: Einstein, atavés da sua Teoria da Relatividade, já provou que o relógio anda mais devagar para quem está em movimento. Quando mais rapida a velocidade, mais lento o tempo. Portanto, se o senhor pegar uma nave espacial e passar um ano viajando no espaço a velocidade da luz, por exemplo, quando voltar terão se passado quase 6 anos aqui na terra. Então, um minutinho pode ser, sim um minutinho.
    • Minha filha vamos voltar a minha solicitação – falou com voz acabrunhada e completamente derrotada.
    • Então, como eu dizia, um minutinho que vou consultar o sistema.
  • O Derradeiro Dry Martini

    January 13th, 2016

    Gostava de beber. Não chegava a ser um alcoólatra. Um caso para o AA.  Longe disso. Mas dizer que bebia apenas socialmente seria uma mentira deslavada e desavergonhada. Gostava de vinho,  bebida que, de longe, era a que mais consumia na comparação o vasto espectro acoólico do seu bar particular. Mas, embora o vinho fosse o vinho ser a sua bebida, digamos, do dia a dia, era outra que ele co siderava especial. E por isso mesmo, não lançava mão dela frequentemente. O pináculo entre os espíritos era o Dry Martini.

    Não era afeito ao purismo. Tal qual James Bond, preferia a bebida “shaken, not sitrred”.  Mas exigia um gin de qualidade e um Nolly Prat, o vermute oficial dos melhores Dry Martinis . Os dois eram integrantes da sua coleção. Destacavam-se toda a vez que olhava para aquelas garrafas agrupadas no seu bar. Como se spotlights imaginários iluminassem as duas garrafas. Notou, ao sair para uma viagem no final de ano, com a mulher, que havia quantidade de gin suficiente para preparar apenas um Dry Martini. Pensou em comprar uma nova, mas acabou deixando para a volta. Recomendou à filha que cuidasse da casa e deixasse tudo em ordem depois da festa de ano novo que a menina daria para os amigos da faculdade.

    Voltou da viagem com a decisão de não beber por um mês a partir da primeira segunda feita após a sua chegada, o que seria dali a cinco dias. Não era afeito a este tipo de resolução de ano novo, nem havia sofrido alguma ameaça devido ao consumo de bebidas. Ou seja, não sofrera cagaço algum. Ele apenas decidiu que ia dar um tempo para aquele costume. Um tempo mesmo. Nada daquela enganação de “só beber nos finais de semana”.  Simplesmente ia deixar o costume de lado por trinta dias porque assim o queria.  Ou talvez, para provar que ele simplesmente podia.

    Um dia antes  da data marcada para a sua interrupção, resolveu despedir-se a caráter.  Ora, uma ocasião especial merecia uma bebida especial. O rei dos drinks.  Lembrou-se daquele bom gin, cuja garrafa tinha apenas a quantidade exata para um Dry Martini. Seria perfeito. Iria esvaziar a garrafa e nem precisaria comprar outra durante o mês de recesso. Sorveria com prazer, talvez, com um prazer jamais experimentado antes. Cada gole iria descer como uma celebração.  Ja sentia o aroma no momento da mistura.  O sabor deslizando em sua língua. Pôs a taça para gelar. Esperou o momento. Não existe nada como a expectativa do por vir prazeiroso. Não dizem que o melhor da viagem é a antecipação?  Pois é a mais pura verdade.

    Meia hora depois a espera havia acabado. Ele tira a taça do compartimento gelado e a vê embaçar. “Que maravilha de visão!”, pensa já com a boca estalando. Dirige-se, então, para o seu carrinho de bebidas. De longe já vislumbra o vermute. Porém, há algo que não está no lugar. Há alguma coisa de estranha na ordenação daquelas garrafas. Um fio gélido percorre a sua espinha. Mais gélido do que a temperatura da taça. Ele não vê o gin. Ele olha. Percorre garrafa por garrafa, mas o gin insiste em não estar lá. Que alma cruel teria roubado o seu último Dry Martini?  Teria sido uma ilusão? Um desejo tão ardente que sua mente pregou-lhe uma peça imaginando que ainda havia uma garrafa de gin com um resto remanescente? Não, não. A garrafa estava lá, solene, antes dele viajar para os festejos de final de ano com a esposa.

    Subitamente, sente no seu campo de visão um movimento estranho. Alguma coisa chama a sua atenção. Algo está agitado. O ar. As moléculas.  Uma agitação quântica. Ele vira a cabeça e nota a filha a lhe olhar de soslaio. Não um soslaio qualquer. O soslaio dos culpados. Um soslaio, soslaio. Puro. Cristalino. Inapelável.

    – Cadê o gin que estava aqui ?– Pergunta com a voz quase sumindo.

    – Era só um restinho pai.

    – O que você quer dizer com isso? Você bebeu?

    – Não, o Dorneles. Na festa de final de ano.

    Não se decepcionou exatamente porque a filha, ja maior de idade é bom que se frise,  tirou-lhe o prazer daquele derradeiro Dry. Lamentou o fato que algum colega de faculdade qualquer, sem o mínimo refino, ter virado a bebida sem ao menos entender toda a solenidade que ela merecia. Aliás, era capaz de ele ter misturado com Coca-Cola. Um sacrilégio dos mais hediondos.

  • A Patrulha

    January 8th, 2016

    Pedrinho cresceu. Homem feito, ja ganha o seu sustento e o da família e lembra com saudades dos tempos em que passava no sítio da avó, pés descalço, vivendo todas as aventuras possíveis de caber nos seus devaneios infantis. Pedrinho, hoje Pedro Leonel de Lima,   administrador de empresas, casado com Liana de Lima com quem tem duas filhas, Luana de 4 anos e Janine de 8, está em uma reunião de orçamento trimestral na empresa em que trabalha no interior de São Paulo, explicando as metas estabelecidas para o último trimestre do ano quando tem sua explanação bruscamente interrompida por duas figuras soturnas e um tanto brutas o falar, que irrompem a sala sem aviso.

    –        Estamos procurando o senhor Pedro de Lima

    Todos na mesa apontam para Pedro, em pé, com a projeção do Power Point a lhe colorir o rosto com gráficos de pizza. A mulher que acompanha o homem autoritário toma a frente e mostra uma identificação que Pedro mal consegue ler.

    –        Meu nome é Karen Regina e este é Luiz Gustavo. Somos da ONG Dona Palmira, uma santa que defendia os animais na nossa cidade natal e berço de nossa ONG. Estamos aqui para garantir que o senhor não vai sair do país até que a justiça seja feita.

    –        Desculpe – responde Pedro completamente aturdido – mas eu não estou entendendo patavina. Eu não estou pretendendo sair do país.

    –        Mas vai pretender depois de saber do que o senhor está sendo acusado. O IBAMA e a polícia ja foram notificados pela nossa ONG.

    –        Mas notificados do que?

    –        Pensa que os seus crimes quando era conhecido pela alcunha de Pedrinho foram esquecidos?

    –        Como?

    A tal Karen, da ONG, coloca-lhe um livro na frente do rosto de maneira agressiva. Coloca tão perto que Pedro precisa recuar para acertar o foco e poder ler o titulo.

    –        As Caçadas de Pedrinho? Meu Deus! Mas isso faz muito tempo, eu era uma criança.

    –        Isso, de forma alguma, atenua os seus crimes. Todas as suas atrocidades contra as pobres criaturas que viviam no sítio de sua avó, dona Benta, estão aqui fartamente documentadas.

    –        Suas armadilhas engenhosas e vis – o homem continuou de onde ela parou, como se fosse um jogral – que não davam chance aos pobres pássaros, alguns até ameaçados de extinção, tudo neste livro, é mal exemplo para as nossas crianças.

    –        Assassino! – Karen completa. – Assassino vil e desalmado!

    –        Mas isso foi há muito tempo. Aliás, eu diria que foi em outros tempos.

    –        Este crime de lesa natureza não prescreve, senhor Pedro.

    –        Mas eu era apenas uma criança. Não tinha esta consciência. Aliás, nem existia uma consciência ecológica na época. Isso é completamente fora de propósito.

    –        Não. Fora de propósito é aprisionar pássaros, deixar impiedosamente abandonados a míngua os filhotes de biquinho aberto esperando a minhoca que jamais chegará.

    –        Eu tenho a solução.

    A voz veio do fundo da mesa de reuniões. Todos viraram-se para Rogério Moreira, o advogado da empresa. Ele, calmamente e com voz calculada continuou.

    –        Sendo vocês uma ONG, acredito que precisam de fundos.

    Os dois ativistas se olharam e depois retornaram a olhar para o advogado, como quem diz: “continue”. Ele continuou.

    –        Bom, se a nossa empresa fizer uma contribuição acredito que a gente possa resolver essa questão, não é mesmo?

    Ele fala ao mesmo tempo que tira o talão de cheques do bolso e vai preenchendo uma das folhas com traços firmes e rápidos. Karen estica o pescoço e leva um susto ao ver a quanta. Luiz Gustavo segura o riso. E dá um último aviso enquanto recebe o polpudo cheque das mãos do advogado.

    –        Eu deixaria o talão de cheques sobre a mesa. Soube que um pessoal da integração racial vem atrás dele também. Estão um tanto incomodados com o jeito que a tia Anastácia era tratada.

     

  • Devaneios ao Meio Dia

    December 23rd, 2015

    Levanta de sua mesa quando o relógio de computador marca oito minutos depois do meio dia. Coloca o seu crachá no bolso da camisa, como quase todas as mais de mil pessoas que trabalham no prédio comercial. Espera um bom tempo pelo elevador, que já chega com densidade populacional de pequeno país asiático. Ele tem que escolher rapidamente entre esperar uma imensidão de minutos pelo próximo ou encarar o aperto. Um ronco no seu estômago indica a segunda opção. Ele entra e a porta se fecha, tornando o ar pesado. Tenta encontra distração olhando para as notícias que aparecem na tela de uma televisão muda que fica no canto superior do veículo. A cada andar que o elevador para ele perde preciosos centímetros quadrados de área. Duas amigas entram lá pelo nono andar, fazendo todos se apertarem e roçarem ainda mais. As duas eram bem cheinhas e falavam sem parar. Ele espremido e ouvindo conversas sobre a sobrinha de uma delas que não para de comer doces. Uma certa claustrofobia, agravada pela conversa incessante das duas, tomava conta do seu corpo e da sua mente. Ele desvia a sua atenção do aparelho de televisão e passa a olhar, com desprezo, para as duas que não param de matraquear. Uma tem cabelos loiros falsos, nota-se pelas raízes já bem pretas. A outra tem língua presa. Começa a ser dominado por um ódio descomunal pelas duas. Entrega-se à imaginação. Nela, ele se vê em um galpão enorme, antigo e abandonado. As duas gordotas amarradas em cadeiras e devidamente amordaçadas. Os olhos arregalados. Ele, dança em volta das duas, como um índio completamente desvairado. Em uma mão, um galão contendo gasolina “comum e adulterada que eu não ia gastar dinheiro nessas duas”, pensou. Na outra, um isqueiro Zippo. Quando mais as duas matraqueiam dentro do elevador apertado, mais ele dança em volta delas, amarradas e indefesas dentro da sua imaginação. Sem parar de dançar, ele joga o conteúdo do galão sobre as duas. Elas choram, tentam se livrar, antecipando o seu destino horroroso. Ele joga longe o galão e acende o isqueiro. Passa o isqueiro na frente dos olhos das duas, pra lá e pra cá. A chama inclinando-se para um lado e para o outro. Elas tentam gritar. A mordaça aperta ainda mais. No momento em que vai jogar o isqueiro aceso e se deliciar vendo aquelas gorduras borbulhando devido ao calor das chamas, elas são salvas pela porta do elevador, que se abre, livrando do confinamento todos os seus ocupantes. O contingente sai pela porta aberta como uma espinha que se rompe e libera o seu conteúdo pastoso e amarelado na atmosfera. As duas já vão longe à tagarelar sem saber do risco que correram dentro da imaginação dele, que, em contato com mais espaço, acalma-se e as deixa no galpão imaginário, encharcadas de gasolina. Porém, vivas.

    -x-

    Ele chega ao restaurante. O self service de sempre, que cobra vinte e dois reais por pessoa e serve uma comida honesta acompanhada de sucos que, como a comida, estão liberadas dentro desta tarifa. Nota que todas as mesas estão ocpuadas. Ele precisa esperar. Passa a observar as pessoas com atenção, esforçando-se para achar uma mesa em que seu ocupantes estivessem no estágio mais avançado do almoço. Tinham apenas saladas nos pratos? Então estava no início e ia levar tempo até desocupar. Se ja estivessem com arroz, feijão, o croquete do dia (terça era dia de croquete natural), aí dependia da quantidade. Prato cheio, ainda ia demorar pra sair. Meio cheio, menos tempo. E assim por diante. Ele procurava por alguém que estivesse comendo a sobremesa. Ou ja estivesse no café. E acabou encontrando. Uma mesa perfeita, de dois lugares. Dois colegas, ele com crachá enfiado no bolso da camisa e ela com cabelo loiro falso, que dava pra notar pela raiz preta a mostra. Lembrou da loira falsa do elevador. Ele passa a observar os dois. Seu estômago é um vazio dolorido. Na mesa, o homem come uma torta de maçã acompanhada de uma bola de sorvete – sim, também incluso no preço. Sua colega, uma salada de frutas. O problema é que eles não estão apenas comendo. Estão apreciando as iguarias e conversando ao mesmo tempo. Tagarelam sobre algo que não consegue discernir. Ela pega pedaço de fruta por pedaço de fruta e leva horas mastigando cada um deles. As vezes mantém um pedaço espetado no garfo, gesticulando com ele tal qual um maestro aloprado com sua batuta, enquanto explica algo para ele, que, por sua vez, junta um pedaço ínfimo da torta com outro pedaço ínfimo de sorvete em uma colher e leva com vagar à boca. Entre uma mastigada e outra, muito papo. A fome a apertar-lhe o estômago feito um garrote. De repente, ele se vê no mesmo galpão abandonado. As gordotas tagarelas do elevador são substituídas pelo tal casal, só que, neste devaneio, eles estão pendurados de ponta cabeça por uma corrente pesa ao teto. Ele, dança a volta deles com uma adaga afiada na mão. Vez por outra, ele passa a lâmina de leve pelas barrigas dele e dela. Eles sentem o fio gelado da lâmina e tentam gritar, mas, estão amordaçados. A intensão é clara. Ele vai cortar a barriga dos dois até a salada de frutas, a torta de maçã e o sorvete saírem pelas fendas como pastas disformes em sem cor definida. Quem manda deixa-lo à míngua, esperando em pé, como a fome a açoitar-lhe o estômago? Ele levanta a lâmina para o primeiro corte. Uma fio de sol que entra por uma nesga do madeirame carcomido do velho galpão faz o fio da adaga cintilar, prenunciando a dor lancinante que está por provocar. Ele encara os dois, que têm os olhos desesperados, e começa a cantar “uni, duni, tê” com a ponta da faca dançando em direção de um e de outro. Mas, no momento em que vai baixar a lâmina, uma mesa é liberada. A garçonete o chama. Ele deixa os dois lá no galpão, pendurados de ponta cabeça, mas com as barrigas intactas. No momento tinha a uma barriga muito mais importante para tratar.

     

  • Eduardo no País dos Maniqueístas

    December 17th, 2015

    Almoçava com seus colegas. Como sempre fazia. Ouvia as mesmas reclamações sobre o país. Como sempre ouvia. De tanto ficar quieto, chamou a atenção.

    –           Você não concorda, Eduardo?

    O Eduardo não concordava. Mas não queria falar. Sabia onde a sua resposta ia dar. Ele depara com os olhares curiosos de todos em sua direção. As mãos segurando os copos e os talheres tudo em suspensão, como se alguém tivesse apertado um botão de pause naquela cena. Não havia por onde fugir.

    –           Não. Acho que o sistema de compensações com programas sociais é uma maneira correta de mitigar as diferenças sociais.

    –           Porra Edu, desde quando você virou bolivariano? – irrita-se um deles.

    –           Mas pensa, os Estados Unidos, creio eu que não seja um país que as pessoas classifiquem como bolivariano, usou sistema de cotas raciais, por exemplo.

    –           Não pode ser. Eu não to ouvindo isso – exalta-se um segundo colega. – Tu votou nela?

    –           Votei.

    –           Quer dizer que tu é contra o impietchment dessa mulher?

    –            Pra mim é golpe.

    De novo todos suspendem o seus movimentos. Outro aperto no botão do pause. Só que agora, as expressões de curiosidade são substituídas por cenhos cerrados. Como dobermans que se deparam com algo que não gostam.

    –           Mas o que é que você está fazendo aqui então?

    –           Como assim? – Espanta-se Eduardo. – Eu estou almoçando com vocês.

    –           Mas tu não é esquerdinha? – Interpela um colega que até então estava quieto. – Por que não vai pra um quilo com o teu povão?

    –           Mas o que tem uma coisa a ver com a outra?

    Nesse momento, Eduardo percebe que nas mesas vizinhas, as pessoas já o encaram com aquela mesma expressão de doberman. O clima exaltado da mesa havia transcendido os seus limites. A conversa entre amigos havia se transformado em pública. Dava pra ver uma mulher que o encarava, expressão transtornada. Ela movia os lábios cerrados. Pela leitura deles, dava pra entender claramente o que ela dizia: “esquerdinha caviar de merda.

    –           Ué, tu não quer igualdade? – Ele se volta sua atenção para os colegas na mesa outra vez. – Vai se tratar num hospital do SUS. Vai comprar uma Pitu em vez de Black Lable. Vai andar de ônibus lotado.

    –           Mas a lógica da igualdade não é eu piorar, é a maioria melhorar.

    –           Vai pra Cuba, comunista!

    O grito do colega incendeia o restaurante. Ele é vaiado e achincalhado. E é obrigado a deixar o recinto ouvindo o coro inaugurado na sua própria mesa: “Vai pra Cuba! Vai pra Cuba!”

    Ele paga o valet e, ainda zonzo com os acontecimentos, nem vê quando o seu carro estaciona em frente ao restaurante. Um dos manobristas vai até ele e avisa que o carro está a disposição. Ele se sente anestesiado. Dirige-se para o seu carro em passos automáticos, a boca semi aberta, a respiração difícil, o olhar fixo em nada especial. O eco das ofensas que ouviu ainda recentes na mente. Entra no carro e, enquanto coloca o cinto, ainda tem tempo de ouvir a conversa entre os manobristas perto do carro.

    –           Baita arrogante. Não me olhou no rosto, nem boa tarde foi capaz de me dar.

    –           Mas você quer o que?  SUV branco, terno todo bonitinho. É, campeão. Mais um coxinha golpista,  igual a todos que vivem nesse restaurante.

    Ele fecha as janelas. E vai embora. Escorraçado pelos dois lados do maniqueísmo alheio.

  • A Professora

    December 11th, 2015

    Não recordava o porquê da mãe tê-lo mandado para o quarto. Fizera merda, era certo. Aos 11 anos de idade é comum fazer merdas a torto e a direito. Lembra também que estava emburrado, em pé, ao lado da janela olhando para as pessoas lá fora, todas contrastando com a sua condenação. No prédio da frente, uma janela se acendeu. Não sabe porque resolveu olhar para ela. A cortina deixava uma nesga aparente da peça, que com certeza era um quarto, já que era possível ver os contornos de uma cama. Subitamente uma figura humana se joga languidamente sobre a cama. Dava pra ver pela nesga. Uma mulher. Nua. O coração de menino palpitando.

    Era um corpo lindo. E no seu julgamento, aquela mulher poderia ter 18 ou 32 anos. Aos 11 anos os homens são muito imprecisos nesta espécie de julgamento. Ela, então, passou a fazer movimentos estranhos para ele. Passava a mão pelo próprio corpo, como se o corpo de outra pessoa fosse. As mão exploravam varias regiões, subindo, descendo, detendo-se, vez por outra, em um único ponto. O rosto dela, de novo no seu julgamento conturbado, parecia sentir dor que ao mesmo tempo não parecia dor. Não conseguia identificar aquela expressão. Notou o seu próprio corpo reagir àquela cena. Coisas que ele mesmo não conseguia controlar. Coisas boas misturadas a uma urgência sabe-se lá de que. O ritual da mulher, esfregando-se, girando pela cama, roçando suas pernas durou uma eternidade. E terminou em alguns espasmos. Ela se levantou e desapareceu, deixando a nesga vazia.

    No outro dia, na mesma hora, ele foi para o seu quarto. Desta vez, com um binóculo, na esperança que aquele ritual fosse diário. Na verdade, ele tinha certeza que era. Nunca se perguntou o porquê daquela certeza. Ele só sentia e pronto. E a certeza se confirmou. Ela apareceu novamente. O corpo nu emoldurado pela nesga do cortina. Ele lançou mão do binóculo e assistiu a toda a cena, agora com mais detalhes. Dava pra ver a umidade da língua sendo espalhada pelos lábios dela, por onde os dedos entravam e saiam, como apertavam as protuberâncias, como reagiam as suas extremidades, cada expressão do rosto. Descobriu todos os sinais, a leveza daquela pele, suas penugens eriçadas e a simétrica linha convergente que iniciava na cintura até chegar dedos dos pés. Novamente o seu corpo respondeu.

    Todos estes momentos deste passado ainda próximo passaram pela sua cabeça logo após a colega da escola, ainda arfando ao seu lado na cama, perguntou.

    -Jura mesmo que é a sua primeira vez?

    Ele sorriu, tímido, como quem diz sim.

  • Vocacão

    November 27th, 2015

     

    Não era falta de opção. Era escolha. Uma missão, E lá era o lugar onde ela seria cumpirda. Nunca perguntem a ele como ele soube. Ele não saberia como responder de um jeito que não fosse chamado de louco. Lembra que, depois que ficou claro para ele, toda vez que alguém da família morria, um tio, avô, avó, ele exultava por dentro. Não porque não gostasse dos falecidos, mas porque sabia que isso o levaria para o velório e o enterro, sempre pela mão dos pais entristecidos. O cemitério, ao contrário de todos os seus coleguinhas de escola poderiam pensar na época, era um lugar onde melhor se sentia no mundo. Pessoas gostam de praia, de parques, de estádios de futebol, de bares. Ele, de cemitério.

     

    Isso começou quando tinha 9 anos. Foi no velório da Tia Wilma. Morreu de câncer na traquéia, coitada. Mas também, era uma chaminé. Três maços por dia. Sem filtro. Estavam todos la, consternados em volta do caixão e ele viu a figura parada na porta da capela. Esfregou os olhos, como se os seus dedos fossem uma borracha que ia apagar aquela pessoa da porta. Não eram. A tia Wilma continuava la, diáfama, olhando pra ele. Um olhar triste. Não sentiu medo. Pelo contrário. Sentiu ternura. Dirigiu-se a ela, que, percebendo que ele a percebeu, apressou o passo saindo da capela. Ele a seguiu até que ela sentou em uma banco de madeira verde, embaixo de um limoeiro. Engraçado ter um limoeiro em um cemitério. “Quem será que leva os limões para casa? O coveiro?”, pensou curioso.

     

    A tia olhava pra ele, que retribuíua. Direto, sem pestanejos.

     

    • Você não ta com medo, Tiaguinho?
    • Não, tia.
    • Você sabe porque você me vê?
    • Sei, não. Mas eu acho legal que eu posso ver a senhora.

     

    A tia ofereceu um sorriso ao moleque. Passou a mão em seus cabelos . Ele sentiu como se fosse um sopro de brisa.

     

    • Doeu?
    • O que, meu filho.
    • Quando a senhora morreu. Doeu?
    • Não. Pelo contrário. Foi um alívio.
    • Engraçado. Não sabia mais como era a sua voz antes da doença. É bonita.
    • Eu cantava, sabe?
    • Minha mãe falou.
    • Sua mãe ficou muito braba comigo. Disse que eu desperdicei minha vida por causa do cigarro.
    • Ah, tia…
    • Eu sei, eu sei. Ela diz isso porque gosta muito de mim.
    • Ela te ama. Você é irmã dela, poxa.
    • Irmãos a gente não escolhe, sabe? Não significa muito. Não é obrigação amar irmão, pai, tia…
    • Mas eu gosto da senhora. E a mãe também.
    • Eu sei. E eu gosto muito de você também, meu filho. Tanto que estou aqui, ainda, falando com você.
    • Pois é, porque a senhora ainda não foi…bom seja la pra onde as pessoas vão quando morrem?

     

    A tia sorriu.

     

    • Tem muita gente que não vai, porque tem coisa não resolvida por aqui. Nesse lugar, tem muitos.
    • Sério?
    • É só olhar.

     

    O menino olha a sua volta e vê um monte de gente que já se foi. Chamou atenção uma menina, da sua idade, sentada em um túmulo. Era igual a foto da lápide. “Joana Lodeiro Paiva. Filha amada jamais te esqueceremos. 1956 – 1968.”

     

    • Nossa, tia.
    • Quando eles resolverem, daí eles vão pra esse tal lugar. Descansar.
    • Então a senhora tem uma coisa pra resolver aqui?
    • A minha é simples, muito simples.
    • O que é?
    • A meu anel de formatura. Eu adorava aquele anel. Perdi tem oito anos.
    • E como eu posso ajudar?
    • Agora eu sei onde ele está. Queria que você o pegasse e desse para a sua mãe.
    • Só isso?
    • Falei que o meu caso era simples. Vão ter outros um pouco mais complicados. Por isso, estuda psicologia quando for par a faculdade.
    • Psicologia?
    • Tem alguns que estão ainda aqui nesse mundo porque não aceitam a situação. Eles precisam de tratamento. E são poucos os que podem tratar deles. Você é um deles.

     

     

    A mãe apareceu de repente. Olhoupara o filho ali sentado, sozinho. Bom, pelo menos para ela. A tia olhou pra ele, ele pra ela. Sussurrou.

     

    • Isso fica só entre a gente. Ela não ia entender.

     

    Deu-lhe um beijo na face – um outro sopro de vento – e se foi. A mãe o pegou pela mão e o levou de volta para a capela, preocupada que estava, foi admoestando o filho, dizendo para não sair de vista. Tiago não prestava atenção. Virou-se para trás, e viu a menina sentada na prtópria lápide acenando pra ele. Com um sorriso.

  • Nunes, o vampiro.

    November 18th, 2015

    Era um vampiro. Não havia dúvida alguma. Tinha todas as características de um vampiro. Detestava alho. Se saísse a luz do dia, queimaria até virar um montinho fumegante de cinzas. De água benta, estaca de madeira e cruz, queria distância. Era pálido e gelado ao toque. E gostava de sangue. Aliás, era o seu único alimento. Virava morcego quando queria. Porém, apesar de todas estas características pertinentes a um homem transformado em sugador de sangue noturno, havia uma coisa que não se encaixava. Suas presas. É que o Nunes tinha presas invertidas. Em vez de nascerem de cima pra baixo, como todo vampiro, nasciam ao contrário. De baixo pra cima.

    Ninguém entendeu o porquê daquilo, mas quando era vivo, quer dizer, ser humano, desses que comem carne, salada e bebem leite, o Nunes era queixudo. A parte de baixo da boca era pronunciada ultrapassando a de cima. Não havia simetria alguma naquele perfil. Parecia uma cômoda com a gaveta levemente aberta. Talvez tenha sido um meio da sua natureza de vampiro se acomodar naquela arcada dentária defeituosa. O fato é que o pobre Nunes sofria por causa deste contratempo anatômico. Era praticamente impossível não rir quando as presas pulavam da gengiva de baixo. E, mesmo quando ele ficava de boca fechada, elas ficavam aparentes. Para fora, tal qual um javali. Daí os seus colegas noturnos, as gargalhadas, chamarem-no de o pequeno javali – morcego. Nem as vítimas conseguiam segurar a gargalhada ao ver aquelas presas invertidas sairem num pulo mesmo sabendo de seu destino cruel que as esperava. Era comum a policia encontrar misteriosos corpos drenados do seu sangue ostentando um sorriso de orelha a orelha.

    O pobre não tinha um encaixe anatômico para pescoços, devido a este problema. O único lugar do corpo onde suas presas invertidas encaixavam perfeitamente era no calcanhar de Aquiles da vítima. O problema que o sangue do calcanhar de Aquiles era o de pior gosto. Ácido, rascante, amargo. Para os vampiros, o pescoço era o miolo da alcatra, a picanha. A carne de pescoço, neste caso, era o calcanhar.

    As presas causavam um outro problema para o Nunes. Como todo vampiro, ele era um sedutor nato, ou melhor, natimorto. Hipnotizava suas incautas vítimas sem esforço através do seu olhar penetrante e de sua voz sibilante. Homens e mulheres subjugados pelos seus poderes entregavam-se em segundos. Mas, quando suas presas inversas eram reveladas, o encanto se esvaía. Era o estalo de dedo para um hipnotizado. As vítimas voltavam a consciência na hora e caíam em uma gargalhada constrangedora. Não fosse o nosso amigo Nunes um vampiro, ficaria ruborizado.

    Aos poucos, Nunes foi se tornando um vampiro deprimido. E depressão de vampiro é muito mais poderosa do que a dos seres humanos. É praticamente insuportável. E, como todo ser humano, Nunes , no auge da depressão, foi para uma ponte para se matar. Mas, claro, não ia se jogar de lá. Isso não adiantaria. Ia apenas sentar no parapeito e esperar o sol nascer até virar o tal monte fumegante de cinzas. Quando chegou ao local, deparou-se um outro suicida. Não era vampiro como ele. Os dois se olharam.

    –           Também está na pior? – perguntou Nunes.

    –           Descobri que a minha mulher me traía – respondeu o suicida. – Enquanto eu dava duro no consultório, trabalhando até tarde, ela me traía com vários, até com o meu melhor amigo. Sou o primeiro dentista que é traído pela mulher e não o inverso, vejam só que ironia.

    A palavra dentista fez os olhos vermelhos do Nunes brilharem. Nunes explicou a sua situação para o dentista corno. Não só era dentista, como também um protético corno. Mas de primeira linha. Mostrou os caninos inversos para o doutor que disse, na hora, que aquilo tinha solução.

    –           Podemos inverter as presas e colocá-las no seu devido lugar. A esquerda de baixo vira a direita de cima e vice versa – explicou o médico. – Bastam algumas pequenas incisões. E pelo que sei, vocês se recuperam rápido. Em poucas horas você vai poder se alimentar de pescoços tenros.

    –           Mas o senhor me atende agora? Tem que ser a noite. Quanto vai custar?

    –           Nada. A única coisa que peço é que o seu primeiro pescoço seja o daquela traidora insensível.

    –           E de lambuja, pego o pescoço do seu melhor amigo também. Vou drenar aqueles dois traidores.

    E lá se foram os dois para o consultório. Jamais o Nunes voltaria a se alimentar do sangue de gosto horroroso e rascante daqueles calcanhares de Aquiles.

  • Azulejos da Piscina.

    January 27th, 2015

    Sentado na arquibancada do ginásio de natação ele observava a piscina olímpica. Notou algo que deu sentido a muitas questões em sua vida. A água, ainda revolta pelos recentes nadadores que ali treinaram, distorcia as linhas que demarcavam cada raia no fundo da piscina. Eram retas, ele sabia. Feitas com uma fileira de azulejos azuis escuros, para diferenciar dos azuis celeste que eram maioria. Cinco linhas retas de azulejo azuis escuros separados por intervalos de metro, metro e meio, mas que, pela lente formada pela água revolta, tomavam formas indefiníveis em constante  mudança ao sabor das ondulações desencontradas, formando linhas bizarras, que pareciam linhas desconexas de um enorme polígrafo indicando nervosismo do entrevistado consequência de sua tentativa de enganar seus questionadores. Uma comparação, aliás, que cai bem para a situação da piscina, uma vez que aquelas linhas, como se apresentavam sob o ponto de vista de quem via sobre a água não correspondiam à realidade. Aquilo, lembrou de quantas vezes ele encarou questões que, eram retas como aquela linha de azulejos mais escuros. Mas que, pelo seu filtro de preocupações, medos, julgamentos, se tornavam distorcidas, amendrontadoras até. Lembrou de um vídeo sobre meditação, em que um yogue, ou algo que o valha, anda pela beira de um lago em um lugar idílico e define a nossa mente como um lago e a meditação como um mergulho nesse lago. Na superfície, o lago é cheio de ondulações, mas a medida que mergulhamos a mente se torna menos agitada.  Sentado ali, vendo a piscina e as linhas de azulejos deformadas, as palavras do yogue fizeram o mais completo sentido. Um sentido prático. Que ele poderia levar para a vida daqui pra frente. Não estava nem feliz, nem triste. Sentia-se neutro. Realizado, mas neutro. Que era uma boa definição para sua paz interior.

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