• Ex-Fumante

    August 25th, 2017

    Mirava solene o seu reflexo no espelho do banheiro. Porque solene era aquele momento. Momento de assumir um compromisso pesado, difícil de cumprir, beirando o impossível. Por essa razão ele precisava de algo mais do que algum motivo apenas racional. Estes ele ja conhecia todos. Ele precisava ter medo, um medo descomunal. Lembrou da penca de tios e tias consanguíneos que haviam morrido de câncer. E essa foi a luz. Inventou um fato no qual acreditou piamente de tanto que internalizou aquela idéia. Respirou fundo. Seu reflexo no espelho fez o mesmo. Então, falou.

    – Aquele cigarro que você fumou faz uma hora foi o último sem consequências. Tragadas impunes não existem mais. O próximo que você colocar na boca e acender, vai detonar um câncer no seu pulmão.

    E foi assim, com uma auto praga, que recolheu forças para a empreitada. Falou com tanta assertividade que passou a acreditar naquele vaticínio sinistro. Iria contrair a doença na próxima tragada. Não havia duvida.

    As semanas passaram e o estratagema mostrou-se eficiente. O câncer a espreita só esperava um momento de fraqueza. Poderia ser depois de uma cervejinha no bar, sentindo o aroma de um cigarro recém aceso na mesa ao lado. Ou depois de sair estufado de uma feijoada completa num sábado friorento. Só quem fuma ou fumou sabe o que é acender e tragar um cigarro com o retro gosto de três pratos de feijoada acomodados no estômago. Qualquer momento de tentação poderia ser fatal. A auto sugestão tornou-se uma aliada nestes momentos cruciais. O medo vencera a tentação. E quando já não mais suava frio lutando contra a vontade durante tais momentos, sentiu-se um vitorioso.

    Porém, esse sentimento despertou um alerta. Porque todo ex-fumante que vence o vício se torna, invariavelmente, um chato. Vencermos a nós mesmos é a mais difícil das vitórias e, por isso mesmo, transforma-nos em pregadores da força de vontade. Deu graças ao se dar conta disso. Estava ciente de que não poderia se entregar a uma nova tentação, que seria proferir discursos infindáveis sobre as mazelas de pitar um cigarrinho e das benesses de largar esse vício degradante. Negava-se a se tornar um Fidel Castro do anti tabagismo.

    E com esse cuidado em mente, passou a viver cada dia. Um ex-fumante neutro, uma voz destoante de uma classe que se tornou um aborrecimento, proferindo sermões a todo momento em que alguém acende o seu pito. Ele jamais seria assim.

    Toda a vez que alguém pegava um cigarro na sua frente, lembrava que ele tinha parado de fumar e, por isso, hesitava em acendê-lo. Ele, percebendo a hesitação, fazia questão de deixar o fumante muito a vontade.

    – Não, não, por favor. Pode acender. Acho que todo ser humano tem o direito de fazer o que bem entende. Eu sei como é e jamais vou esquecer esta sensação agradável que este cigarrinho pós-almoço proporciona. Aliás, digo mais. Há no dia três cigarros que são essenciais: depois do café da manhã, depois do almoço e depois do jantar. Depois do sexo também, mas isso já não faço todo dia, se é que alguma vez ja fiz sexo com esta frequência. O problema é que atrás destes três ou quatro vêm os outros que o vício nos impõe. Então, a escolha foi minha. Fume a vontade na minha frente. Na minha casa, inclusive, eu tenho cinzeiros espalhados por todos os cômodos, porque acho uma barbaridade que as pessoas que eu recebo sejam obrigadas a curtir o seu cigarrinho do lado de fora, muitas vezes enfrentando as intempéries. Não há apatheid na minha casa e, muito menos, na minha presença. Fume o quanto quiser sem o menor constrangimento.

    Assim era toda vez que alguém hesitava em acender um cigarro na sua frente. O mesmo discurso, sem tirar nem por. Emocionava-se na parte dos cinzeiros pelos cômodos da casa. Era o ápice. Ouvia aplausos de uma platéia de fumantes imaginária. Milhares de pessoas com seus cigarros fumegantes na boca a aclamá-lo. Não tinha se tornado um Fidel Castro do anti tabagismo é verdade. Mas ainda sim, tornara-se um Fidel Castro.

  • A costela e o inferno

    August 17th, 2017

    A única coisa que se ouvia naquele momento era o som rítmico produzido pela gordura da costela de ripa pingando no carvão incandescente. Tsss, tsss. O pai, que estava prestes a virar a carne, paralisou com a mão no cabo do espeto enquanto olhava para o filho, sentado na ponta do comprido banco que ladeava a mesa igualmente comprida. A decepção que sentia era a de um Maracanã lotado em silêncio logo após o gol do Giggia. Um maracanazo dentro do peito.

    O tsss, tsss da gordura na brasa parecia um relógio implacável, marcando o tempo que se dividia entre antes e depois daquele momento. Tempo que também voltava para quando ele tinha 11 anos de idade, quando, em domingos como aquele, era obrigado a acordar cedo para acompanhar a vó à igreja. Foi pela soma desses malditos domingos pela manhã que nasceu o seu ódio a padres, catedrais e qualquer tipo de ritual. Ainda criança, tinha verdadeiro pavor de ter desenvolvido tal sentimento, pois, segundo a vó, desmerecer a casa de Deus poderia levá-lo a queimar no inferno. Como uma costela de ripa pingando gordura eternamente nas brasas da churrasqueira do Canhoto.

    O cheiro da igreja que frequentava invadiu-lhe a memória olfativa. Imagens misturavam-se como alguém que assiste uma projeção enfadonha de slides de alguém que fez uma viagem por Foz do Iguaçu,. Desfilavam pela sua mente a batina branca do padre Aleixo, com aquela faixa roxa pendurava no pescoço, o cheiro de perfume de sua mão no momento em que este lhe alcançava a óstia, as senhoras de cabelo arroxeado no mesmo tom da faixa sobre a batina, o senta, levanta e ajoelha interminável, os seus olhos ainda remelentos, os hinos que nunca mudavam, os sermões que ecoavam tornando cada palavra uma maçaroca ininteligível e a cestinha da coleta, passando de mão em mão. Lembra que olhava para os coroinhas condoído em solidariedade. Que merda esses garotos fizeram para merecer tal tormento e ainda vestidos daquela forma. Só esboçava um sorriso com a única frase dita pelo padre que prestava: vão em paz e que o senhor voz acompanhe.

    Este misto de ódio e a culpa o perseguiu na sua infância e invadiu parte de sua adolescência como fazia questão de lembrá-lo o tssss, tsssss da gordura caindo naquele carvão infernal. Só obteve o esclarecimento a muito custo, após a morte da avó, quando tinha 17 anos. Ficou triste, chorou,  ficou realmente sentido quando ela se foi. Mas depois desta perda foi que começou a se dar conta de que toda aquela conversa de céu e inferno era um tanto exagerada, para se dizer o mínimo. Com a crescimento, a culpa se foi, mas o ódio a igrejas e a tudo o que se relaciona a elas permaneceu. Quando voltou a si, continuava segurando o cabo do espeto e olhando para o filho sentado na sua frente

    – Como assim, padre?

    – É o que eu quero ser. Servir a Deus.

    – Mas tu tens tino para astronomia, para matemática. Tu entendes daquelas coisas de X é igual a Y. Como assim vai ser padre?

    – É a minha vocação.

    – Olha, meu filho, tu podes ser qualquer coisa. Até gremista, se quiseres. Tudo bem, eu suporto essa dor menor. Mas, padre?

    – Padre. E vou estudar com afinco, com esmero e com foco para, quem sabe, um dia ser o primeiro Papa brasileiro.

    Com mais este maracanazo no peito depois desta história de ser o primeiro Papa brasileiro, ficou realmente sem argumentos. O menino aproveitou o silêncio, levantou-se, deu meia volta e saiu, deixando ele e a costela de ripa para trás. Ele finalmente virou o espeto, sentou no banco comprido que ladeava a mesa da churrasqueira, enquanto olhava para o céu contrariado com a decisão do filho. Subitamente, um talho de pavor abriu-se em seu ventre. Lembrou do Papa Francisco, torcedor confesso do San Lorenzo e do que disse a poucos minutos para o filho em desespero de causa: “tu podes até ser gremista.” Não podia imaginar desgosto maior na vida. Um filho Papa e ainda por cima torcedor confesso do Grêmio. Sentiu-se queimando no inferno de seus pensamentos. Tssss,tssss… exatamente como aquela costela de ripa.

  • Uma opinião sobre opiniões

    August 11th, 2017

    – Desculpe, mas pode parar por ai .

    Falou com o braço estendido e a palma da mão aberta em direção ao rosto do seu interlocutor, que havia cometido o erro colossal de falar aquelas duas palavras em sequência para ele. Logo ele, um defensor inabalável da fidelidade ao significado de palavras e frases.

    – Mas eu nem comecei a falar…

    – E nem precisa.

    – Mas que falta de educação.

    – Note que me desculpei antes. Fui até muito cortês, ao contrário de sua total descortesia com a nossa língua mãe.

    – Oi?

    – Meu amigo, se alguém fala para mim “na minha humilde opinião”, ja tem uma opinião natimorta. Uma opinião tão debilitada que não sobrevive ao sopro de uma brisa

    – Mas o senhor é maluco.

    – Discordo. Sou um realista e um abnegado na defesa de nosso idioma. E atesto incondicionalmente que as palavras opinião e humilde não podem ocupar a mesma frase, pelo simples fato de que toda e qualquer opinião carrega uma arrogância implícita. E um ato de arrogância jamais pode ser humilde. Humilde opinião, meu caro, é como falar subir pra baixo, entrar pra fora e outros desatinos.

    – Quer dizer que o senhor insinua que eu sou arrogante.

    – E aqui incorremos em outro erro de avaliação. O senhor eu não sei se é ou não é, porém, emitir uma opinião, principalmente sem ser pedida é, sim, um ato de arrogância em si. A opinião consiste em um conceito de alguém sobre alguma coisa, que, quando externada, carrega consigo a suposição de que o emissor entende daquilo que fala a ponto de tentar ensinar o seu ouvinte.

    – Eu não sou arrogante, ouviu bem?

    – Meu caro, todo mundo tem o direito de se atrever a dar uma opinião, o que também me inclui, pois ja dei muitas. O problema está em batizá-la como humilde. Esse desatino jamais cometi em minha vida.

    – Chega! O senhor não tem o mínimo trato social.

    – É a sua opinião?

    – Sim é a minha opinião

    – Bem, como neste caso a sua opinião não veio acompanhada pela palavra aquela, eu aceito de bom grado.

  • O glossário da minha mãe

    March 6th, 2017

    Todas elas tem o seu. Frases que só elas falam, palavras que, mesmo quando mencionadas por outras bocas, remetem você anos de volta no tempo. Com a minha não é diferente. Seu glossário é rico em frases e termos que eu, quando conto pra alguém, não consigo falar como se fosse eu mesmo. Falo como se fosse ela. A entonação, o ritmo, o timbre de voz, o jeito Zulma de se expressar. O vocabulário da minha mãe é rico em palavras e expressões para definir alguém ou uma situação em particular. Provavelmente, algumas delas acabam sendo coincidentes com as que a sua mãe falava, principalmente se você é da minha geração e da mesma região. Mas algumas, tenho certeza, são coisas que só ela fala. Não me preocuparei em seguir uma ordem alfabética e sim uma ordem de lembrança.

    Pau de virar tripa
    Esta é a definição para um sujeito magérrimo. Também podia ser utilizada quando você não queria comer algo do tipo bife de fígado acebolado. “Tu estás um pau de vira tripa, menino. Come isso logo.

    Nota: um dia resolvi prestar atenção na metáfora e me deu uma certa ânsia de vômito pensar no que realmente é um pau de virar tripas.

     

    Caldo de laranja

    Para alguns de vocês pode soar como uma sopa de laranja, mas neste caso, é o estilo Zulma de se referir ao prosaico suco de laranja. Há ainda um acréscimo fonético no caso dela, que não mencionava a última sílaba da palavra caldo e nem a preposição subsequente. Sendo assim, a frase que seria comum você ouvir é “Oi, filho! Queres um cal laranja?” Aliás, não é um acréscimo fonético, ms sim, um decréscimo.

     

    Prafrentex

    Sim, este é um termo largamente usado. Porém, não consigo pensar nele sem que seja com a voz dela. Agora mesmo, quando escrevi ali em cima, era a voz da Zulma falando tal adjetivo que viajou pela minha mente. Ela sempre usava essa expressão quando queria dizer para mim e para os meus amigos o quanto ela era ligada em nossas gírias e o que acabava a entregando o quanto ela não era. Mas todos adoravam quando ela usava, porque ali estava uma mãe tentando se enturmar com os amigos do filho.

     

    Bicho carpinteiro 

    Aparentemente, esse tal bicho era algo como que um virus, cujos sintoma era nos tornar inquietos e agitados além do que ja era normal.  Na minha imaginação era um bichinho em formado de quadrilátero, que se equilibrava em seis perninhas. A expressão sempre vinha no fim de uma reprimenda. “Fica quieto, guri. Até parece que tá com bicho carpinteiro.

     

    Mutt e o Jeff

    Os personagens do cartunista Bud Fisher que se caracterizavam fisicamente pela sua diferença de altura. Um alto e outro baixinho. Bastava a minha mãe ver duas pessoas juntas com essa diferença de altura ela lascava “Olha lá. La vã o Mutt e o Jeff”

     

    Peidinho de Adão

     O termo, define alguém insignificante, que não merece o menor respeito e tampouco consideração. Geralmente mencionado com um esgar mostrando fisicamente pela emissora o quão insignificante era o alvo de sua referência. Uma vez, quando o restaurante do meu pai foi assaltado, minha mãe, ao observar o trabalho dos policiais da perícia que jogavam talco no braço de madeira envernizada do carrinho de salada para depois passar um pincel a fim de captar alguma digital, lascou : “Mas o que aquele peidinho de Adão está fazendo ali, meu Deus!”

     

    Tarzan Minhoca

    É o mesmo que “Pau de Virar Tripa”, só que usado em momentos diferentes. Se a primeira metáfora para magreza excessiva era usada em momentos tensos, como empurrar um bife de fígado acebolado goela abaixo de alguém, o Tarzan Minhoca era usado em momentos bem mais relaxados e humorados. “Olha as costelas dele aparecendo, até parece o Tarzan Minhoca.” Notem o uso do artigo definido “o”ao invés do indefinido “um”antes da expressão. Soa como se esse Tarzan Minhoca fosse alguém que realmente existe.

     

    “Vou sair pra comprar fazenda”

    O incauto que ouve essa frase sem aviso logo pensa que a minha mãe é uma latifundiária com milhares de hectares de terras, tal a naturalidade com que ela fala que vai fazer um negócio dessa monta. Ela fala como quem vai no armarinho comprar um tecido, algo simples. Pois, na verdade, é isso mesmo que ela vai fazer. Fazenda, neste caso, é tecido. Minha mãe costurava muito em cassa. Vivia com aquelas revistas alemãs Burda, que traziam aqueles moldes para fazer os cortes dos vestidos que ela confeccionava para ela mesmo. Você está se perguntando de onde vem o termo fazenda para definir tecido, não é mesmo? Pois é, somos dois.

     

    “Se fosse uma cobra tinha te mordido”

    Essa é um clássico, pelo menos para mim, que nunca achava o que procurava embora estivesse ali, debaixo do meu nariz. Uma crítica mordaz à desatenção. Fosse uma naja peçonhenta e você não a enxergasse, babau. e tanto usar comigo, ela até abreviou a frase, parando na palavra cobra e um menear de reprovação com a cabeça. Note também a licença poética, uma vez que o mais correto é “tinha te picado.” Porém, mordido é muito mais interessante dentro do contexto.

     

    “hã, hã, hã…”

    Geralmente mencionado em tom de crítica e desaprovação dirigida a alguém, que está, no conceito dela, tentando chamar a atenção, se exibindo. Muito comum ver esta expressão geralmente em frente a televisão, quando algum artista aparecia na tela cheio de gracinhas ou com roupas espalhafatosas. Era uma espécie de “ta e achando”. Também era mencionado com um esgar, porém, mais para o sarcasmo do que para a raiva, como era o caso do Peidinho de Adão.

     

    Se meter de pato a ganso

    Esse termo era usado quando ela queria deixar claro que você não tinha capacidade para alguma coisa que estava pensando em fazer. De certa maneira, há uma semelhança com o famoso gato por lebre, só que em outra situação. Era dito antes ( “tu não vais te meter de pato a ganso”) ou depois do acontecido ( “também, foi se meter de pato a ganso…”). Quando dito depois, era carregado de uma expressão fatalista na fala, como quem diz “eu bem que te avisei”.

     

    É bem mesmo

    Há uma dúvida se essa expressão é do meu pai ou da minha mãe. Mas como era largamente utilizada por ela, está entrando neste glossário. É bem mesmo refere-se a desaprovação de alguém por algo que este alguém está fazendo e por isso, é dito com desdém.  Há, entre o bem e o mesmo espaço para qualquer tipo de ofensa, dependendo da situação aplicada. É bem (idiota) mesmo, é bem (exibido) mesmo, é bem (metido) mesmo e assim por diante.

     

    Envaretado

    Uma das piores sensações pela qual um adolescente pode passar. É aquele momento em que você faz merda e não para de fazer mesmo sabendo que é merda e, então, é pego com a boca na botija, ou então a sua arte foi descoberta posteriormente e revelada ao público. Um misto de raiva de si mesmo e vergonha. Uma vontade de chorar mas o auto ódio é tanto que as lágrimas evaporam entes de sair dos olhos.

  • Abstinência

    December 29th, 2016

    Deu entrada na emergência do Eintein as duas e meia da tarde de um domingo ensolarado. Trazido pela esposa, que dirigiu o carro dividindo-se entre olhar para a frente e para o banco do passageiro onde assistia o marido em condições preocupantes. Em posição fetal, ele tremia, suava frio, vez por outra balbuciava palavras desconexas. Trajava uma camiseta da seleção brasileira ainda do tempo do tetra. É louco pelo Dunga, fã de discutir na rua contra os detratores do antigo cabeça de rea e técnico. Ao chegar, foi levado as pressas para uma sala a fim de fazer os primeiros exames. A esposa ficou em uma sala de espera. Roendo as unhas, falava pelo celular com o irmão e a cunhada que ficaram em casa para tomar conta dos filhos, um de quatro e outro de dois e meio.

    • O Lucas não para de perguntar o que aconteceu com o pai – diz a cunhada do outro lado da linha.
    • Não sabemos ainda, Glorinha. Ele entrou para fazer exames, ja tem uns cinco minutos. Mas parecem horas.
    • Calma, Dulce. Tudo vai ficar bem.

    Depois de mais dez minutos o médico apareceu e foi falar com Dulce sobre o estado do marido.

    • Boa tarde dona Dulce.
    • Tudo bom com o Neto, doutor?
    • Ele está sedado. Seu estado ja foi normalizado – tranquilizou o médico. – Eu gostaria de fazer algumas perguntas.
    • Claro, doutor. Tudo o que o senhor quiser.
    • Desculpe a minha indiscrição, mas a pergunta é necessária: o paciente está se recuperando do uso de alguma substância química?
    • Como assim?- Espetanta-se – O senhor quer saber se ele era viciado em drogas?
    • Por favor, dona Dulce, esta pergunta é necessária devido aos sintomas apresentados.
    • Sintomas? Que sitomas?
    • Ele apresenta um quadro agudo de abstinência.

     

    Dulce sentiu como se não houvesse mais gravidade. Os sons, subitamente se tornaram abafados e sem sentido. Neto era viciado em drogas e ela não sabia. Como pode ele esconder algo tão grave. Como pode ela nunca ter percebido algo tão sério? Perguntas flutuavam embaralhadas por entre os sulcos de sua massa encefálica. Sentiu um súbito tremor. E a gravidade voltou. Era o médico que, delicadamente, trouxe-a de volta chacoalhando calmamente Dulce pelos ombros.

    • Doutor, fora puxar um fuminho no tempo da faculdade, nunca soube dele fazer uso de drogas.
    • Bom, de qualquer maneira ja pedi um exame de sangue para vermos qual a substância que ele fazia uso e assim tentarmos o tratamento mais adequado. Mas eu posso dizer uma coisa, dona Dulce. Se é uma crise de abstinência isso indica que ele esta tentando largar o vício. E isso é louvável.

     

    O médico se retirou e a deixou para processar aquilo tudo. Aquela sensação de falta de gravidade ia e vinha. Tentava procurar em suas lembranças em que momentos o marido estaria doidão. Nunca notou nada de diferente em seu comportamento. Então, onde ele faria uso de drogas? Que tipo de efeito elas fariam em seu corpo? Ja era um viciado antes das crianças chegarem? E se a resposta for sim, de alguma maneira essa condição, essa tendência ao vício era algo que podia ser transmitido geneticamente? As crianças teriam tendência ao vício? Cada pergunta feita, cada possibilidade aberta era um soco no estômago de Dulce. Pegou o celular para falar com a cunhada ou com o irmão. Sentia-se solitária com aquela revelação, porém, a vergonha que aquilo causava era ainda maior. Não estava ainda preparada para dividir esse horror com a familia. Desistiu e sentiu-se ainda mais solitária. Eram só ela e aquela revelação humilhante.

    Passado algum tempo, o doutor voltou. Em sua expressão, havia algo de insondável. Ela tentava interpretar cada vinco na sua testa, o ângulo da boca. Queria a resposta mesmo antes de ele chegar a sua frente e descarregar a sentença mórbida.

    • E então doutor?
    • Bem, dona Dulce, é um tanto estranho.
    • Estranho? Como assim, estranho? O que o senhor quer dizer mais estranho do que já está?
    • Os exames não mostraram nada de anormal.
    • Oi?
    • Isso mesmo, o paciente não mostra resquicio algum de substiancia estranha, a não ser o normal de quem bebe a sua cervejinha.
    • Mas então, como ele pode apresentar algum sintoma de abstinência?
    • Pois eu não disse que era estranho?
    • Mas era mesmo o sangue dele? Quero dizer, não podem ter se enganado?
    • Checamos e re-checamos. Ele nunca teve algo parecido antes?
    • A senhora pode me descrever como tudo começou?

    Dulce se põe a pensar. Os olhos tentam virar-se para dentro, como que querendo ver cada momento daquela manhã de domingo fotografado na mente. O irmão chegou com a cunhada e as crianças. O dia estava lindo. Neto ja começava a fazer o fogo na churrasqueira enquanto ela e as crianças estavam na piscina, dividindo petiscos e caipirinha. Não as crianças. Essas bebiam Coca-Cola. Neto e o Rubens, o irmão, conversando animadamente. Subitamente, o Neto coloca uma camisa da seleção brasileira. E foi nesse exato momento. A cena é bem clara. Ele começou a se encolher, como se tivesse levado uma facada no estômago. Começa a ter espasmos, repetindo palavras de ordem. “Dilma, vai pra Cuba e leva o PT”, “Somos todos Sergio Moro”, “Xô corrupção”, “Fora, Renan Canalha”. E assim foi até chegar no hospital.

    • Diga-me uma coisa, dona Dulce. Ele costuma ir aos protestos na Paulista?
    • Ele não, doutor. Todos nós. O povo tem que acordar, sabe?
    • Mas minha preocupação agora é com o paciente – pondera o médico. – Como é o seu estado quando está para ir a um protesto de rua?
    • Ah, da uma coisa na gente, sabe? Infla o peito. O Neto se sente invencível. Fala assertivamente, tem todas as respostas. Vou confessar uma coisa, doutor. Foi em noites em que durante o dia fomos aos protestos que tivemos os melhor sexo – diz baixando o tom de um jeito maroto.
    • Hum!

    Aquele “hum”saiu da boca do médico acompanhado de um meio sorriso. Vindo depois da confissão de alcova feita por Dulce, aquilo soou desrespeitoso. Notando o rubor no rosto de Dulce, o médico então explica a sua reação.

    • Dona Dulce, como sabemos, ja estamos há mais de dois meses sem protestos. Depois que a Dilma saiu, guardara-se panelas, palavras de ordem, camisas vede e amarelas. Um ou outro protestinho tímido, mas nada com a grandeza. Nem os jornais falam mais no assunto, voltou tudo ao normal.
    • É verdade.
    • Bem, pela sua descrição o quadro de seu marido durante estes eventos – bem como da senhora também, diga-se – é o mesmo de quem faz uso de substiancias químicas: excitação, sensação de invencibilidade, uma distorção da realidade momentânea.
    • O que o senhor quer dizer com isso?
    • Que o seu marido, bem como a senhora, apresentam um quadro de dependência a protestos. A banalização desta atividade, o uso exagerado age como uma substância nociva ao funcionamento do corpo. Pessoas passam a esquecer o trabalho, a mente voltada apenas para o final de semana, para o próximo protesto. Dois meses sem palavras de ordem e carros de som tem se totrnado uma luta árdua para o seu marido.
    • Mas porque eu ainda não tive uma crise.
    • Tenho meu palpite, diante do que a senhora me contou: vestir a camisa da seleção brasileira foi o gatilho.

    Já anoitecia quando Dulce dirigiu para casa levando um neto mais calmo e refeito da crise de abstinência. Não tocavam no assunto. Um silêncio total. A camisa da seleção amarfanhada no banco e trás. Neto olhou para ela com ar de despedida. Aquilo era um perigo. Iriam enterrar as duas camisas que tinham no quintal. E nunca mais tocar no assunto. A despeito do sexo maravilhoso daquelas noites que jamais iria se repetir.

  • Um homem e sua televisão.

    December 2nd, 2016

    Seu Rogério é um telemaníaco. A poltrona, que fica em fente a sua tv de 40 polegadas de tela plana ostenta a marca muito bem definida dos seus dois glúteos. E com tanta intimiade, gerada pela convivência, fica claro que a atitude de seu Rogério ja deixou de ser passiva tem muito tempo. Ele fala com a televisão. Responde os comentaristas nas mesas redondas, xinga repórteres dos jornais, bota o dedo na tela e diz barbaridades sobre os comerciais que julga repetitivos e idiotizados. Por falar em comerciais, numa quarta feira a noite antes da rodada do campeonato, seu Rogério acabou deparando com mais um dos inúmeros comerciais estrelados por Luciano Hulk.

    • Puta que me pariu, mas é tu de novo? Cacete, tu vende tudo? Qualquer dia aparece vendendo a mãe.

    Só que ele não contava que a televisão iria deixar a passividade de lado também.

    • A mãe, não – responde o Luciano Hulk olhando fixo nos olhos do seu Rogério. – Respeito é bom e eu gosto. E a minha mãe muio mais,
    • Jesus, Maria, José !

    Seu Rogério faz um sinal da cruz para cada nome citado.

    • Que história é essa?
    • É isso que o senhor ouviu – responde Luciano. – Eu sou uma televisão de respeito, cansei de passar o dia ligada ouvindo seus impropérios. To usando a voz e a cara do Luciano Huck pra poder me expressar.
    • Não, eu devo estar maluco. Ai, meu Deus!
    • Nisso você tem toda razão. Aliás, não tem, não. Você não está maluco, você é maluco.
    • Pera lá, não é porque tu é a minha televisão falando com a cara e a voz do Luciano Huck que tem que me ofender.
    • Ué, você quem começou com isso de maluco. E nem vou falar quem é que costuma ofender Deus e todo mundo aqui nessa sala. Ah, e de vai usar o tu, então é “tu és”.
    • Mas era s´ø o que me faltava. Uma tlevisão professora de português. Olha aqui, eu sou eu e tu é ru. E quer saber? É isso mesmo, não aguento mais te ver em tudo o que é comercial. Eu tenho o direito de me exressar em minha própria casa.
    • Direito a que me também arrogo. O seu problema não é com a liberdade de expressão, é com o recalque.
    • Olha…
    • Recalque sim. Vai ouvir uma verdades. Recalque porque o Luciano Huk fatura uma nota preta vendendo como garoto propaganda.
    • E ainda fala na terceira pessoa.
    • Já falei que não sou o Luciano Huk, sou a sua televisão falando através da imagem e da voz dele. – Luciano olha para o lado como que falando com alguém fora da ciamera e completa – Esse aí ja está caducando.
    • É o seguinte, como minha televisão tu não tem que falar nada, tem é que ficar aí passando os programas para o meu bel prazer. E ponto.
    • Eu to é passando mal de tanto que você reclama de mim. Olha pa minha tela. Ja viu o tanto de perdigoto tem aqui? E quando você sai pra ir ao banheiro, eu sou obrigada a ficar contemplando a marca dessa sua bundona no assento da poltrona. Porque não troca essa porcaria de poltrona? Toda ensabada.
    • Mas era só o que me faltava. Tu me respeita, ouviu bem? Você é minha.
    • Só quando você resolver me respeitar, parar de me ofender. O que foi aquela mesa redonda ontem? Eu contei quarente e três “mas é um filho da puta mesmo” que você disse. E olha que to me fixando só em uma expressão chula. Aliás, por que você fala “vai tomar na bunda em vez de vai tomar no cu”?
    • Eu falo o que eu quiser pra minha televisão. E quer saber? Vai tomar na bunda você.
    • Eu não tenho bunda. Só uma tela plana. Caguei.
    • Se não tem bunda não pode cagar.
    • Meu Deus.
    • O que ?
    • Já to ficando igual a você. É essa maldita convivência.
    • Convivência é uma boa definição, né, seu Luciano. É tanto comercial que tu me aparece que já é de casa.
    • Mas caralho, ja falei que eu não sou o Luciano Huk sou…
    • …a minha televisão falando com a imagem e a voz do Luciano Huk. Sei.
    • Se sabe, porque repete?
    • Pra te incomodar.
    • Olha, tomara que o seu time perca hoje. Aliás, tomara que eu tenha um problema em alguma placa e você nem consiga assistir o jogo.

    Ao falar isso, a televisão tem uma idéia. Da pra ver claramente pela expessão iluminada no rosto do Luciano Huk.

    • Olha só a ideia aí…e se eu der defeito?
    • Ah não, isso não.
    • Eu posso apagar, queimar alguma coisa. Da uma dorzinha, mas nada é pior do que aguentar ver você reclamando 90 minutos do comentarista e do narrador. É o seguinte: você vai ter que se segurar.
    • O que? Tu ta me impondo condições?
    • Se começar com aquela ladainha falando dos caras da tv eu pifo.
    • Mas aí…
    • Não tem “mas aí…”. Pifo. Escureço. Desmaio.

    Os vizinhos do seu Rogério ficaram abismados naquela noite de jogo. Foram os noventa minutos e ainda todos os programas de mesa redonda depois do jogo sem ouvir um impropério que fosse vindo do apartamento dele. Teve gente que pensou que ele tinha até batido as botas. Mas niguém foi até lá pra conferir.

  • A Aposta

    November 24th, 2016

    Sentia-se leve. De uma leveza difícil de explicar. Ouvia os sons da sala de cirurgia como que se afastando. O silvo perene, em linha reta, do aparelho que marca as batidas do coração indicavam apenas uma coisa. “Alguém morreu.” Passados alguns instantes, deu-se conta. “Putz, esse alguém sou eu”. Isso era tão óbvio quanto o teto, que se aproximava  cada ves mais dele, o que, na verdade, era o inverso. Olhou para baixo e viu-se deitado na mesa de operações, cercado por médicos e enfermeiras, todos apressados tentando o que ele mesmo ja sabia que não seria mais possível.

    Ao atravessar o teto, e isso dizia a ele apenas uma coisa: ia passar por vários andares e testemunhar momentos da vida de algumas pessoas, mesmo que de maneira fugaz,  em cada quarto pelo qual passasse. No quarto andar, um filho pedia perdão a um pai que estava deitado na cama. Não deu tempo de saber o que estava acontecendo pois passou rápido para o andar de cima. Era o andar da maternidade. Notou que este tem uma luz diferente. Era claro e brilhante. E ele percebeu que conseguia notar mudanças na iluminação de acordo com o humor das pessoas vivas ocupavam os ambientes. No quarto por onde passou, uma mamãe amamentava o seu recém nascido. E assim foi, até que chegou ao topo do prédio e viu uma cena que jamais imaginaria ver naquele estado: uma enfermeira e um residente em cena de sexo ardente e urgente sob a caixa d’água. Em volta deles, uma luz piscava como naquelas “festas modernas que hoje em dia, que chamam de balada.”

    Na verdade, ele jamais imaginaria ver cena alguma depois que morresse. Tinha a convicção dos materialistas de que quando o seu corpo parasse de funcionar viria o nada. E o nada é, bem o nada. Não é escuro, nem claro. O nada, em verdade, não era. E enquanto passava por algumas nuvens cumulonimbus lembrou-se do Carvalho. O Carvalho era o seu amigo inseparável. Acreditava piamente da vida após a morte. “A morte é a gente tirando a roupa para tomar um banho e para depois vestir uma novinha para vivermos um outro momento”, dizia. Ele ria muito daquelas metáforas do Carvalho. Um espírita tão convicto quanto ele, só que a cento e oitenta graus de distância.

    Já acima da estratosfera e ainda indo para algum lugar, reparou em como o espaço era de uma imensidão espantosa. Cravejados de pontos de luz e nuances de cores. Sempre achou que naqueles filmes de ficção científica havia uma certa romantização das imagens espaciais. Mas, ao deparar com a imagem real, achou aquelas imagens criadas pelo cinema de uma timidez constrangedora. De repente, deu-se conta que ali já não deveria haver mais oxigênio e que, portanto, não estava respirando. Mas que sensação estranha. Respirou a sua vida toda, fora os momentos em que trancou a respiração quando estava embaixo d’água. E agora, não sabe explicar com palavras a sensação de não respirar e estar vivo. Quer dizer, morto vivo. Quer dizer, ele não tinha como definir seu estado.

    Algo estranho chamou a sua atenção.   Algo que não estava ali antes, mas que agora estava. Era uma cidade. Ou não. Havia prédios. Estranhos, não conseguia definir de que material eram feitos. Muitas árvores. E um bando de pessoas, paradas, com um sorriso fixo no rosto. Como que esperando alguém chegar. Percebeu que ele tinha um corpo. Era igual ao dele, só que quando tinha 27 anos. E se deu conta de que esse foi o melhor ano da sua vida, segundo o seu próprio julgamento. Também olhou para o lado e viu que tinha a companhia de outras pessoas, de varios sexos e idades e nacionalidades. Porque podia ouvir tudo o que pensavam em diversos idiomas e, o que o fez rir, era capaz de entender tudo. “Ora, então aquele bando de pessoas paradas não parecem esperar alguém. Estão la esperando mesmo. Todos nós que estamos chegando”

    E foi nesse momento que lembrou da aposta que fez numa de suas discussões mais acaloradas com o Carvalho. O amigo encerrou o assunto com um desafio. “Vamos apostar”, disse ele. Se eu estiver certo sobre a vida depois da morte, você vai deixar de ser turrão e vai fazer uma declaração pública dizendo o quão teimoso você foi”. Notou que o Carvalho estava no meio daqueles que esperavam. Ele acenava para ele com aquele sorriso engessado e pacífico no rosto. Mas não tinha dúvida. “O Carvalho vai me cobrar aquela declaração pública.” . Então ele abriu um sorriso. Pelo menos ele acha que abriu. Afinal, ia cumprir com prazer o trato. Mesmo perdendo a aposta, ele ganhou algo que era muito inesperado. E, convenhamos que, estar errado em um assunto desta magnitude, é muito , mas muito melhor do que estar certo.

  • Ilhas

    November 17th, 2016

    Eram sete e dezesseis da tarde quando abriu a porta de casa chegando do trabalho. Digo da tarde, porque ainda havia bastante claridade de um dia quente e modorrento de verão, que só com o ar condicionado do escritório e do carro poderia ser vivido nas mínimas condições que um ser humano requer para produzir alguma coisa, nem que fosse um pensamento mínimo. Sim, pensar pode fazer alguém suar num calor daqueles. Assim que entrou, procedeu ao seu ritual diário de final de dia: descalçou os sapatos, jogou a pasta em alguma poltrona da sala, foi até a cozinha e encheu um copo com água, bebendo tudo de um gole. Posteriormente, pegou um pouco de gelo, colocou em um copo baixo, voltou para a sala derramou um pouco de uísque. Adorava ver o liquido dourado escuro se imiscuindo ao gelo enquanto caía. Atirou-se em uma poltrona e la ficou sem pensar em nada específico, apenas ouvindo os estados dos cubos de gelo.

     

    De repente, deu-se conta de que a casa estava numa paz e num silêncio que chegavam a incomodar. “Onde está Marta e as crianças?”, pensou. Levantou-se e, numa pequena excursão pelos cômodos notou que estavam todos em casa . Marta, a esposa que chegara um pouco antes dele, acabara de sair do banho e escolhia algo confortável para vestir. Os filhos de 10 e 12 anos e a filha de 14 estavam em seus quartos. E foi isso que o incomodou. Uma casa com tantas crianças (para um pai o termo criança não escolhe idade) estar assim, silenciosa, era muito estranho, quase um disparate. E que aquele silêncio fosse algo comum – pois, ao puxar pela memória, percebeu que a casa é sempre assim – acionou um alerta.

     

    Na casa de seus pais, quando tinha a idade aproximada da que os filhos têm hoje, paz era algo impossível. Havia um alarido constante, um mover das moléculas do ar acionadas por ondas de choque provocadas pela inquietude dele e dos irmãos. Uma briga aqui, uma discussão acolá, espocando sem aviso. Um irmão tomava partido de outro mas, dependendo da razão da discórdia, poderia se bandear para o outro lado facilmente. Não foram raras as vezes em que os três ouviram a mãe repetir que gostaria muito de tirar férias e ir para uma olha deserta cheia de cocos e outras iguarias que lhe seriam servidas a vontade e quando bem quisesse. O único som que gostaria de ouvir, seria o das ondas. Crianças seriam proibidas. Ou então ter que lidar com a perda de paciência com voz de trovão do pai, que os fazia escafeder cada um para um canto como ratos que de repente são surpreendidos por um gato enorme, gordo e esfomeado.

     

    Com três pré adolescentes em casa, que brigavam e discutiam por qualquer motivo, desde pegar o maior bife da travessa, até um lugar na janela na hora de sair com o carro a casa estava sempre em pé de guerra. Um oriente médio particular onde pequenos conflitos eram deflagrados por disputa de territórios como, por exemplo, quem ficava na cama de cima do beliche ou o canal em que a televisão deveria estar neste ou naquele momento. Os pais nunca sabiam quando e onde uma bomba ia explodir dentro de casa.

     

    Pois ele e Marta, hoje, viviam naquela ilha de paz que a mãe sempre sonhou. E que saber? Estava incomodado. Porque aquelas batalhas, aqueles desejos de fuga da mãe, a voz de trovão do pai foi o que o ensinou a perder, a negociar, a respeitar espaços. Aquela algazarra constante é que tornava uma casa de alvenaria, paredes e cômodos em um verdadeiro lar. Era o que aquecia as relações. Eram guerras sem ódio, que fatalmente acabavam em festas e sorrisos. Era o amor sincero sendo regado. Na casa dele, hoje, não existiam mais aquelas guerras folclóricas. O lugar era um exemplo de silêncio e de paz um tanto falsificados, porque sem alma, sem lustro. Uma paz ascética de quem tem aquela mania de limpeza. Que filhos comportados, mansos, respeitosos eles tinham.

     

    Como era sexta feira, ele decidiu que a família ia sair junta para jantar. De preferência, num lugar bem barulhento. Queria sentir aquele aconchego que só a balbúrdia familiar é capaz de nos dar. Iam tagarelar, ia haver briga pra pegar o maior pedaço da pizza. Ia ser como nos velhos e bons tempos, como uma velha e boa família. Entraram no carro. Marta ao seu lado e as crianças atrás. Antes de dar a partida, algo o incomodava. Era o silêncio. De novo. Ninguém brigando para pegar o lugar na janela. Ouvia-se apenas o silêncio frio, tão frio que nem era preciso acionar o ar condicionado do carro. Olhou para trás e percebeu o porquê. Cada filho tinha a sua própria janela na mão. Digitando freneticamente, podiam olhar para onde quisessem. Menos para quem estava mais próximo.

  • O Sobrado da Marcílio Dias

    April 8th, 2016

               Esse era, ou melhor, ainda é, o nome da rua em que morei na primeira década da minha vida. Ela liga o bairro da Azenha, onde, na época, ficava a casa do glorioso Grêmio Futebol Porto Alegrense, e a Avenida Praia de Belas. Lembro que na Marcilio, há uns, sei la 300 metros ou mais da nossa casa, ficava a fábrica da Pepsi Cola, que muita gente, incluindo o escritor aqui, costumava chamar de “Pépis”. Era um sobrado de dois andares, geminado a outro igual do lado esquerdo. Como todo sobrado, a porta ja dava direto na calçada. Na frente da casa, a beira do meio fio, ficava um canteiro de coroas de cristo. Para mim eram enormes naquela época, mas devia ser algo de sois metros por um. Uma vez levei um tombo próximo ao tal canteiro e machuquei o dedão direito nos espinhos. Até hoje tenho uma cicatriz em forma de V com a perna do lado direito maior e mais inclinada do que a outra. Como aquele sinal de confere que colocamos com a caneta ao lado do item de uma lista qualquer.

               Tenho muitas lembranças daquele lugar que resolveram aparecer agora. Tinha um vizinho meu, de descendência alemã, o Guido. Ele morava do outro lado do sobrado que era igual ao nosso. Ele ia brincar na rua as vezes com a gente, as vezes sabe-se la com quem e, quando o final da tarde chegava, a mãe dele costumava chamá-lo de volta para tomar banho e jantar co uma assobio característico. Onde quer que a gente estivesse brincando, o assobio nos alcançava. O Guido baixava a cabeça, desanimado por ter que nos abandonar, dirigia-se obediente para casa. Ou, se não estivesse com a gente, logo concluíamos que em algum lugar um Guido cabisbaixo dirigia-se para a casa como um condenado indo para o patíbulo.

              Outra lembrança daquela casa foi a minha bicicleta Caloi. Era enorme, pelo menos pra mim,naquela época, um garoto com idade ainda de um solitário dígito. Era manhã de Natal. Lembro-me de acordar e, antes de abrir os olhos, sentir o aroma de algo diferente no quarto. Aroma de coisa nova. Novíssima. Intocada. Flamante. Assim que minhas pálpebras se separaram, virei para o lado direito e la estava ela. Ao lado da minha cama. Imponente. Uma frondosa Caloi de duas rodas reluzindo. Eu cheguei a ouvir trombetas assim que aquela visão estupenda fez-se realidade. Meu primeiro veículo. Claro, na época, não pensava em uma bicicleta como tal. Era apenas diversão. Aliás, lembrei agora. O tal v no no meu dedo foi adquirido graças a um tombo sofrido enquanto pilotava naquela bicicleta.

              Minha vó, mãe do meu pai, morava com a gente. Dona Ana, portuguesa que vestia cinquenta tons de cinza muito antes dessa expressão significar algo que lembre sedução. Dona Ana era uma católica fervorosa. Católica Apostólica Romana. Rezava o terço toda noite antes de se recolher. Cada conta uma Ave Maria ou um Pai Nosso, não lembro com precisão. Lembro que era em latim. O que era curioso. Minha vó era analfabeta. Mas na hora da crença, era bilingue. Aliás, falando em língua, a dela era afiada. Não havia empregada que se salvasse de suas críticas mordazes. Uma comia demais, outra era preguiçosa. Meus ouvidos de garoto eram repositório de suas críticas ferrenhas. Aliás, empregadas eram algo estranho. As vezes a gente tinha, as vezes não. Parece que nossa condição financeira dançava tal qua um pêndulo.

              Outra lembrança que tenho é da escada que levava ao andar de cima, onde ficavam os quartos. No dia 20 de julho de 1969, dois dias depois do meu aniversário, lembro que meus pais ja tinham me mandado para a cama. Aliás, aqui cabe um parêntese. O horário de dormir foi minha primeira relação com a publicidade. La pelas oito, nove da noite passava um comercial dos cobertores Parahyra. Uma animação mostrava pequenos garoto indo para cama aos bocejos enquanto ouvia-se uma musica cuja letra era: ’Ta no hora de dormir, não espere mamãe mandar. Um bom sono pra você e um alegre despertar”. Aquele era o momento em que eu devia subir e ir para o meu quarto. Eu ia aos prantos, tocado pela melancolia da música e contrariado também. Mas volte à noite de 20 de julho. Foi o dia em que o homem ia pousar e andar pela primeira vez na lua. Nem naquela noite me deram moleza. Tive que subir antes do grande acontecimento. Na cama, não conseguia pregar os olhos. Levantei e, sorrateiramente, dirigi-me até a escada que me levava para a sala no andar de baixo. Sentei em um degrau que me dava uma visão privilegiada da televisão. Meus pais não podiam me ver ali, mas eu podia ver a tv. Assisti aquele momento inesquecível em uma Philco metida a moderna.

              Podia relatar varias coisas. Meu vizinho do sobrado ao lado, o Paulinho. O dia em que eu e peguei sarampo e todos os outros meus dois irmãos pegaram de mim e o nosso quarto acabou se transformando em um hospital de campanha. Meu pai treinando minhas habilidades de goleiro chutando a bola contra mim todas as tardes. A “raspinha”, que era a massa crua que sobrava do bolo que a minha mãe assava todos sábados e que era toda minha até o dia em que o meu irmão que veio depois de mim começou a ter consciência de que ele também podia ter e aí passamos a ter ferrenhas disputas pelo precioso pote da batedeira. O abacateiro que ficava em nosso pátio, nos fundos da casa, e que rendeu vários doces de abacate.

              O interessante é que tudo isso acabou acordando dentro de minha mente graças a tal das novas tecnologias. Pois é. Assistir Alemanha X Itália na Copa de 70 no pelo Youtube me trouxe todas estas lembranças. A bola era preta e branca, as chuteiras eram pretas e as camisas não levavam logos dos patrocinadores, o que as deixava simplesmente lindas. Com direito a aromas, sons e tudo mais. Gavetas e mais gavetas que andavam fechadas na minha de repente abriram-se. Copa de 70. Pouco depois dela, mudamo-nos para a zona sul de Porto Alegre. E lá começamos uma outra vida. Mas aí já são outras lembranças.

  • Discurso para um falecido.

    February 25th, 2016

    * Traduzido para o português

    Senhoras. Senhores. Amigos deste grande ator e homem ainda muito maior que nos deixa em circunstâncias tão trágicas,  muito bom dia, dentro das possibilidades. Ron Woodward e  eu somos amigos desde a mis tenra infância. Já naqueles tempos idos, sua queda pela arte cênica ja era bem acentuada. Lembro-me, como se fosse hoje, que entre nossas brincadeiras,  a que ele mais gostava, a que estampava a felicidade no seu bochechudo rosto era quando fazíamos de conta que estávamos no teatro. Fazia de tudo. O script, comandava a montagem do palco contando com a nossa ajuda para que cada um trouxesse de casa um objeto de cena para fazer parte do cenário, o que era motivo de alarde entre nossas mães, já que muito vasos de louça que iam inteiros voltavam aos cacos. Ron, como se sabe, passou a infância em uma pequena cidade do Colorado. Havia, na época, apenas um cinema que ficava na sua avenida principal e que ele frequentava avidamente, mesmo sem dinheiro para pagar a entrada e com idade insuficiente para alcançar os padrões rígidos da censura. Engenhoso que era, conseguiu construir a muito custo uma passagem secreta pelos fundos do prédio e podia ver o filme por trás da tela. O que o fez ter uma visão inversa do cinema, já que para ele o esquerdo era o direito e o direito, o esquerdo. Participou de todas as peças infantis da escola. Era tão bom no que fazia que, certa feita, um professor de teatro falou, após a exibição de uma peça em que o nosso querido Ron vestiu a fantasia de macieira, que o fez com tanta diligência e talento que ao final da peça era possível ver pequenos brotos do fruto pendurados em seus galhos falsos. Um chiste, obviamente. Mas um elogio que impulsionou o nosso jovem astro.

    Ron Wodward era um obsessivo pela arte cênica. Trabalhou duro para poder pagar do próprio bolso as aulas de técnica teatral, dança, canto. Queria ser um ator completo. E até mesmo o emprego que conseguiu o mantinha focado no seu objetivo, já que trabalhava de projetista em um cinema de Denver, ja adolescente. Assistiu a  inúmeros filmes, inúmeras vezes.  Acompanhou atores excepcionais tantas vezes em sequência que podia indicar, de cabeça, em qual minuto da película aconteceu esta ou aquela fala. Estudou cada movimento, cada olhar de De Niro à Paccino, de Brando a Gable,  de Hepburn a Streep.  Sim, observava as mulheres também, porque não queria ficar limitado a personagens só do seu próprio sexo. “Um ator que não se desafia é apenas um imitador barato”. Quem não lembra de sua máxima?

    Ron jamais parou de aperfeiçoar sua arte. Uma busca pela perfeição que seis Oscars e mais uma montanha de prêmios em vários festivais em diversos países podem comprovar. Um ator consagrado, embora nunca se apoiasse em tal consagração. Queria  tirar mais da sua arte. Via e revia seus filmes apontando sempre falhas que, pare ele, eram grotescas. Imperdoáveis. Uma vez disse-me, “Billy, poderei ganhar estatuetas, fama, fortuna mas, o verdadeiro prêmio, a verdadeira láurea, o pináculo da minha carreira será o dia que eu for confundido com o meu próprio personagem na por alguém na rua.”

    Pois quis o destino que o dia que ele aguardava com tanta ansiedade tenha sido o seu último. Após a sua atuação mais gloriosa no cinema, como o implacável, frio e amoral agente Flint Bittencourt, do MI6, o reconhecimento tão esperado chegou juntamente com as seis balas que crivaram seu corpo em um café na rua 46. A assassina, senhora Julietta Preston,  não pode ser taxada de louca. Ela apenas foi, como todos nós, arrebatada por uma atuação magistral, que a fez confundir criador com criatura, desejo supremo do nosso querido Ron que agora deve estar sorrindo de alegria em algum lugar do grande firmamento. Um verdadeiro astro que agora está no lugar que é seu por direito.

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