Mirava solene o seu reflexo no espelho do banheiro. Porque solene era aquele momento. Momento de assumir um compromisso pesado, difícil de cumprir, beirando o impossível. Por essa razão ele precisava de algo mais do que algum motivo apenas racional. Estes ele ja conhecia todos. Ele precisava ter medo, um medo descomunal. Lembrou da penca de tios e tias consanguíneos que haviam morrido de câncer. E essa foi a luz. Inventou um fato no qual acreditou piamente de tanto que internalizou aquela idéia. Respirou fundo. Seu reflexo no espelho fez o mesmo. Então, falou.
– Aquele cigarro que você fumou faz uma hora foi o último sem consequências. Tragadas impunes não existem mais. O próximo que você colocar na boca e acender, vai detonar um câncer no seu pulmão.
E foi assim, com uma auto praga, que recolheu forças para a empreitada. Falou com tanta assertividade que passou a acreditar naquele vaticínio sinistro. Iria contrair a doença na próxima tragada. Não havia duvida.
As semanas passaram e o estratagema mostrou-se eficiente. O câncer a espreita só esperava um momento de fraqueza. Poderia ser depois de uma cervejinha no bar, sentindo o aroma de um cigarro recém aceso na mesa ao lado. Ou depois de sair estufado de uma feijoada completa num sábado friorento. Só quem fuma ou fumou sabe o que é acender e tragar um cigarro com o retro gosto de três pratos de feijoada acomodados no estômago. Qualquer momento de tentação poderia ser fatal. A auto sugestão tornou-se uma aliada nestes momentos cruciais. O medo vencera a tentação. E quando já não mais suava frio lutando contra a vontade durante tais momentos, sentiu-se um vitorioso.
Porém, esse sentimento despertou um alerta. Porque todo ex-fumante que vence o vício se torna, invariavelmente, um chato. Vencermos a nós mesmos é a mais difícil das vitórias e, por isso mesmo, transforma-nos em pregadores da força de vontade. Deu graças ao se dar conta disso. Estava ciente de que não poderia se entregar a uma nova tentação, que seria proferir discursos infindáveis sobre as mazelas de pitar um cigarrinho e das benesses de largar esse vício degradante. Negava-se a se tornar um Fidel Castro do anti tabagismo.
E com esse cuidado em mente, passou a viver cada dia. Um ex-fumante neutro, uma voz destoante de uma classe que se tornou um aborrecimento, proferindo sermões a todo momento em que alguém acende o seu pito. Ele jamais seria assim.
Toda a vez que alguém pegava um cigarro na sua frente, lembrava que ele tinha parado de fumar e, por isso, hesitava em acendê-lo. Ele, percebendo a hesitação, fazia questão de deixar o fumante muito a vontade.
– Não, não, por favor. Pode acender. Acho que todo ser humano tem o direito de fazer o que bem entende. Eu sei como é e jamais vou esquecer esta sensação agradável que este cigarrinho pós-almoço proporciona. Aliás, digo mais. Há no dia três cigarros que são essenciais: depois do café da manhã, depois do almoço e depois do jantar. Depois do sexo também, mas isso já não faço todo dia, se é que alguma vez ja fiz sexo com esta frequência. O problema é que atrás destes três ou quatro vêm os outros que o vício nos impõe. Então, a escolha foi minha. Fume a vontade na minha frente. Na minha casa, inclusive, eu tenho cinzeiros espalhados por todos os cômodos, porque acho uma barbaridade que as pessoas que eu recebo sejam obrigadas a curtir o seu cigarrinho do lado de fora, muitas vezes enfrentando as intempéries. Não há apatheid na minha casa e, muito menos, na minha presença. Fume o quanto quiser sem o menor constrangimento.
Assim era toda vez que alguém hesitava em acender um cigarro na sua frente. O mesmo discurso, sem tirar nem por. Emocionava-se na parte dos cinzeiros pelos cômodos da casa. Era o ápice. Ouvia aplausos de uma platéia de fumantes imaginária. Milhares de pessoas com seus cigarros fumegantes na boca a aclamá-lo. Não tinha se tornado um Fidel Castro do anti tabagismo é verdade. Mas ainda sim, tornara-se um Fidel Castro.