Em uma era muito distante, quanto minha idade era explicada por apenas um digito, costumávamos jogar nossas peladas em uma rua perpendicular à rua em que eu morava. Eram jogos definitivamente de dois tempos distintos para cada equipe, visto que a rua inteira era uma subida ou descida dependendo do sentido em que estávamos indo. Isso dava clara vantagem para o time que estivesse a favor do declive. Tão importante quanto a escolha dos times, era a escolha do lado do campo de jogo. A ideia era escolher jogar o primeiro tempo atacando de cima para baixo e meter o máximo de golos possível, aproveitando-se da vantagem topográfica. No segundo tempo, o negócio era administrar o resultado, jogando na retranca e especulando contra-ataques e, quem sabe, matar o jogo, que era interrompido sempre que um carro subia, ou descia pelo campo de jogo, já que a rua era de mão dupla.
Não raro a bola as vezes, num chutão de um zagueiro, cair no corredor ao lado da igreja dos protestantes – era assim que nós chamávamos. Olhando com os olhos de hoje, vejo que ela estava mais para uma capela, mas devido ao nosso tamanho na época, todos piás de 9 a 11 anos, para nós aquela era uma igreja e pronto. Por não ser católica, a igreja trazia uma aura de mistério. Como assim uma igreja que na verdade não é que nem a igreja da rua de cima, essa sim católica, apostólica romana? Ouvíamos falar, ou éramos doutrinados, que os fiéis destas igrejas eram “contra os católicos” e quando havia cultos lá olhávamos as pessoas que chegavam para assistir o culto como alienígenas. Pessoas perigosas, que tinham um comportamento estranho. Eu tinha medo de chegar perto deles e, sei lá, ser levado e virar comida deles ou algo do gênero.
Todos nós tínhamos reservas com aquele lugar, que guardava uma aura um tanto lúgubre em nossa imaginação infantil, tão influenciada pelos adultos. E por isso não era uma boa ideia ser o autor do chute que colocou a bola dentro dos domínios daquela igreja, já que era ele que seria o responsável por adentrar aquele “lugar mal assombrado”, arriscando a vida a fim de recuperar o bem mais precioso para que a pelada seguisse o seu curso.
Eu mesmo já tive o desprazer “dar uma rosca” fazendo a bola caprichosamente foi cair la dentro. Lembro-me como se fosse hoje dos calafrios percorrendo o meu corpo, começando no topo da cabeça até chegar aos meus pés, devidamente calçados com um Kichute.
Parávamos todos na frente do portão para ver onde a bola tinha caído. A esperança do autor do chute, no caso eu, era de que ela estivesse bem perto do portão, possibilitando recuperar o balão de couro apenas esticando os braços por entre as frestas da, sem que fosse preciso adentrar aquele lugar horrível.
Constatado que a bola estava muito longe para tal operação, a sensação de que aqueles poderiam ser os últimos segundos da sua vida caíam sobre você de modo acachapante. Eu abri o portão e fui pé antes pé em direção à bola, com medo de acordar algum monstro que ali pudesse estar escondido. Chegar até ela levou uma eternidade e a sensação que tinha é que não estava só ali dentro. Ao pegá-la, eu me virei em direção a rua e dei de cara com todos aqueles olhos arregalados em suspense do outro lado do portão. Foi aí que me dei conta que eu podia correr e foi o que fiz. Corri o mais rápido que pude com o incentivo dos dois times do outro lado do portão. Ao sair, senti um alívio indescritível. Minhas pernas trêmulas mal me seguravam de pé. Levei um bom tempo até poder voltar para o jogo.
Naquela mesma noite, sonhei que estava andando pela rua do nosso futebol e que passava na frente do portão da igreja. Ao olhar la para dentro, vi a figura de um anjo vestindo uma túnica azul clara e com enormes asas brancas vindo volitando em minha direção pelo corredor estreito. Apesar de ser um anjo, que em geral era tido como um bom sujeito, a sensação de total pavor tomou conta do meu corpo. Estava borrado de medo e comecei a correr para bem longe dali. Mas, para o meu desespero, não saía do lugar. Corria como se estivesse numa esteira de academia. E aquela figura cada vez mais perto de mim, ficando maior e maior. Talvez ele estivesse ali pra me avisar algo do tipo “hoje deixei você entrar e pegar sua bola, mas na próxima eu te pego”.
Acordei em sobressalto. O coração disparado e a respiração ofegante. Ao meu lado, o meu irmão menor ressonava em paz. Só sei que, partir daquela noite,
nunca vi com bons olhos quando me desejavam sonhar com os anjos antes de dormir.