• Missa de sétimo dia

    January 14th, 2010

    O Astrogildo não gostava de igreja. Na verdade, tinha verdadeiro horror a tudo o que se relacionasse com os dogmas da fé católica. Era da opinião de que os padres eram um bando de cínicos que enchiam a barriga com boas carnes, boas massas, bons vinhos, tudo a custa da boa vontade dos incautos fiéis. Ele costumava afirmar esta aversão originou-se em sua infância, quando a sua avó, uma tremenda carola, que rezava toda noite o terço em latim, costumava levá-lo a tira-colo nas missas dominicais. Tinha que acordar cedo, para um domingo, a fim de estar às dez horas da manhã na igreja. Uma tortura que durou anos a fio até o dia em que a velha foi encontrar o criador pessoalmente. “Provavelmente a primeira coisa que Ele perguntou a ela quando chegou lá em cima foi: Por que latim, minha senhora?” Astrogildo costumava repetir. Desde então, falar em igreja causava-lhe urticárias. Quando aparecia uma cerimônia, daquelas infaltáveis, era um suplício para a pobre dona Marta tentar convencie-lo.

    – Astrô, você tem que ir. – suplica.
    – Marta, você tem certeza que a minha presença na igreja é indispensável?
    – É o nosso casamento, Astrogildo.

    E casaram com o Astrogildo se coçando durante a cerimônia inteira. E a vida seguiu com seus batizados, casamentos e missas de sétimo dia que ele teve que aturar heroicamente, se bem que ele nunca entrava e nem sentava nos bancos da igreja. Sempre ficava lá atrás, bem perto da porta, em pé, criticando tudo o que acontecia durante o rito, às vezes com a voz um tom acima do que devia.

    – Pronto, Lá vem a cestinha. Esses padrecos tem muita cara de pau..
    – O que foi que o senhor disse?
    – Ah, nada freira. Só estava orando.

    A frase mais esperada pelo Astrogildo era o “vão em paz e que o senhor voz acompanhe”, a única coisa dita por um padre que ele obedecia sem questionar nem pestanejar. Saía correndo e entrava no carro para esperar por dona Marta, encarregada de cumprir a missão diplomática, que consistia em dar parabéns aos noivos, quando casamento, aos pais (inclusive dos próprios netos) quando batizado ou então prestar consolo aos familiares em caso de missa de sétimo dia. Quando dona Marta chegava, ele começava com a implicância.

    – Pensa que eu não vi?
    – Viu o que, Astrô.
    – Você depositou dinheiro naquela famigerada cestinha.
    – Ai, Astrô. Foi só um real.
    – Um real daqui, outro dali…tudo pro Papa. O Papa tudo.

    Apesar de não gostar de igreja o Astrogildo não tinha nada contra Cristo em si. “Na verdade”, ele dizia, “no dia em que nós nos encontrarmos, tenho certeza de que ele vai concordar comigo sobre essa corja de batina ganhando dinheiro as custas dele.” Pois o Astrogildo acabou tendo esta oportunidade pouco tempo depois. Um dia o Astrogildo simplesmente não acordou. Estava com 76 anos. Dona Marta ficou arrasada, pois apesar da ranzinice dele com relação às coisas da igreja, ele era um bom marido, bom pai, enfim, ela o amava muito. E como é costume quando um ente tão querido morre, ela acabou marcando uma missa de sétimo dia em memória do marido, não se dando conta de que ele provavelmente não aprovaria a idéia. Na véspera, um pouco antes de ir para a cama, a dona Marta sentiu uma coisa estranha, um calafrio. E quando entrou no quarto lá estava o fantasma do marido. Sentado na cama, com aquela cara de quem ia reclamar com ela. Ela não sentiu medo. Ela simplesmente aceitou a aparição do marido. Ficou até feliz.

    – Marta você mandou rezar missa de sétimo dia?
    – Não começa, Astrô. Até aí do outro lado você continua com essa mania?
    – Isso não é mania, é convicção.Você vai, né?
    – Sei não.
    – Você não me faz essa desfeita. Aliás, não se faça essa desfeita.

    E na outra manhã a dona Marta estava na primeira fila, bem perto do altar. E quando a missa começou ela deu uma olhadinha para trás, em direção a porta. E lá estava o fantasma do Astrogildo. No lugar de sempre. Ela ficou feliz, felicíssima. Nem percebeu que ele estava fazendo um sinal pra que ela não colocasse um centavo sequer naquela famigerada cestinha.

  • Ciúmes

    January 12th, 2010

    O Cunha é uma daquelas pessoas ótimas de se conversar. Constantemente bem disposto e falante, nada o tirava do sério. Quer dizer, quase nada. Há uma coisa que o atormentava. Uma coisa pesando dez quilos, peludo, olhos azuis que atende pelo nome de Deco. É o gato de estimação do Cunha e da Dora, esposa dele. Só dela, segundo o Cunha, que sofre de um ciúme exagerado em relação ao bichano. É verdade que de vez em quando a Dora exagera nos cuidados com o gato. Mas não justifica.

    Os amigos do Cunha, sabendo dos sentimentos que ele tem pelo felino, atiçam-no sempre que possível, o que é extremamente divertido. No happy hour, quando as garrafas de cerveja se acumulam sobre a mesa e as línguas perderam há muito a destreza dos movimentos, alguém vira para o Cunha e faz a pergunta fatídica.

    – E aí, o Cunha, como vai o gato?

    – Não me fale neste merdinha – reponde com expressão contrairada. – Ontem cheguei em casa e a Dora estava na cozinha, preparando algo. Eu cheguei por trás dela, cheio de carinho e quartas intensões. Fui abraçando e beijando aquele pescoço a mostra. Adoro pescoço a mostra. Nos pegariamos ali mesmo sobre o balcão da cozinha em meio a cebolas, nabos e bererrabas. Uma salada sexual. Puro engano. Quando virou para mim, era um pudim de lágrimas. Temi o pior. Morte de um parente, por exemplo. Aos prantos e soluços explicou que o Deco passou mal e ela levou o pobrezinho para o médico. Ela chama veterinário de médico, como se o Deco fosse gente. O gato ja estava medicado e ela estava preparando uma “carninha moida para o doentinho”. Tudo com ele é “inho”. Quando eu tive aquela gripe forte no mês passado, nem canja de pacote ela me fez.

    O ciúmes do Cunha não conhece limites. Tinha vezes que ele aparecia emburrado no trabalho. Aquela expressão característica delatava problemas com o Deco. Era a cara “perguntem-me o que aquele gato aprontou”. No happy hour, como sempre, alguém se encarregou de perguntar.

    – Hoje é dia cinco – ele respondeu.- É o dia da contabilidade.
    – Ja está no vermelho, Cunha?
    – Não falo de dinheiro. Todo dia 5 eu faço a contabilidade dos dos beijos do Deco a dos meus.
    – Como é que é?
    – A Dora vive beijando aquele infeliz. Deve ter quilos de pelo no estômago. Eu conto quantos beijos ele ganha e quantos eu ganho no período. Tenho uma tabela estatística mensal. Aquela peste me ganha de lavada. Isso contandos só os beijos que acontecem na minha frente. Vocês fazem idéia do quanto isso dói? Eu levo flores e o Deco é que leva os beijos.

    Nesses últimos tempos o Cunha andava meditabundo. Genuinamente tristonho, cabisbaixo. Não era a cara “perguntem-me o que o Deco aprontou”. Estava muito claro que o problema era realmente sério. Não estva indo ao bar com a turma, algo impensável. Até que um dia, o Cunha foi praticamente arrastado para lá pelos amigos após o expediente. Ele bebeu. Bebeu muito. E como todo mundo que bebe, acabou abrindo o seu coração.

    – Olha, pessoal. Eu e a Dora não estamos mais juntos. É isso. Eu já andava desconfiado. Ela estava fria, distante.
    – Bom, Cunha. Pelo menos olha pelo lado positivo. Você está se livrando do gato – alguém fez uma tentativa de animá-lo.
    – Me livrando? Pois sim. A Dora se apaixonou pelo veterinário do Deco. Aquele que ela chama de médico. Saiu de casa e nos deixou. Eu e aquele gato. Dois cornos morando juntos.

  • A grande heresia

    January 9th, 2010

    O local do julgamento é um enorme depósito velho. Tem que ser, porque a concentração de pessoas também é enorme. Entre todos, chama a atenção o vasto uso do “tu”, do “bah” e do “capaz”, expressões ouvidas entre os inúmeros diálogos travados no local. Era o julgamento anual do herege do ano, promovido pelo CTG do B – Centro de Tradições Gaúchas do Brasil – que reúne os gaúchos que, por vários motivos, estão espalhados pelo nosso imenso país.

    E a hora tão esperada finalmente chega. Num patamar mais alto entram perfilados o juiz, o taquígrafo, o acusado, cercado por dois guardas e o promotor. A pedido do acusado, ele mesmo iria se defender, até porque nenhum advogado seria louco de defender alguém de um crime tão grave. Muito mais grave ainda pelo fato de nunca ter sido negado pelo réu. Todos ocuparam os seus lugares e a gritaria que tomou conta da turba foi silenciada a golpes de martelo que o juiz desferia contra a mesa aos gritos de “ordem, indiada!”. Feito o silêncio, o juiz deu início a sessão. Logo após, o promotor tomou para si a palavra.

    – Senhoras e senhores, irmãos das terras farroupilhas. Estamos aqui hoje para julgar este homem – aponta para o acusado – José Rocha, nascido em Porto Alegre, pelo crime de heresia. Este homem é acusado de não gostar de, que Deus me perdoe, costela.

    Ao mencionar o crime a turba não se contém e começa a chamar o acusado de traidor aos berros e de punhos cerrados. Muitos pedem pena máxima. O juiz volta a bater com o martelo na mesa pedindo ordem naquela casa, ou melhor, naquele depósito. Após conseguir serenar os ânimos, o promotor continua.

    – Este crime inominável, que atinge um dos sustentáculos de nossa cultura, que une chimangos e maragatos, gremistas e colorados, vem sendo cometido sem pudores por este senhor. Como vocês poderão ver, este homem fala abertamente, a quem quiser ouvir, e a quem não quiser, que não gosta de costela. E mais. Diz a todos que a simples visão de uma costela no espeto, com aquela fina e apetitosa manta de gordura causa-lhe ânsias.

    Nova reação irada da multidão força o juiz a tomar providências novamente. Com muito trabalho, paciência e marteladas o juiz consegue o seu intento. O promotor chama a primeira testemunha, Marília Cunha, paulistana, vinte e cinco anos.

    – Senhorita Marília – o promotor fala em tom calmo e sereno. – Conte-nos a sua experiência com o acusado na churrascaria Minuano.
    – Bom, uma noite eu estava com vontade comer numa churrascaria e convidei o José, que é meu colega. Fomos ao Fogo de Chão. Os garçons, sempre muito gentis, passavam a toda hora na mesa, oferecendo todos os tipos de carne: picanha, maminha, lombo de porco, enfim, de tudo. Aí, um dos garçons, percebendo que o José era gaúcho, quiz ser gentil.
    – E foi aí que aconteceu o grave fato, não foi, senhorita Marília? – interrompe o promotor encarando a platéia.
    – Bom, não diria que é grave alguém não gostar de alguma coisa, certo? Gosto é gosto.
    – Resuma-se a resposta, senhorita Marília.
    – Este garçon trouxe um espeto de costela, que o José recusou. Disse que não gostava de costela.
    – Ele disse mais uma coisa, senhorita, não disse?
    – Disse, sim. Depois que o garçon se foi, ele disse que na verdade odiava costela e só não teve um ataque por educação, já que o garçon fez aquilo tentando agradar.

    O garçon da churrascaria também foi chamado a depor e confirmou a história de Marília. A última testemunha foi chamada. Outro gaúcho, Marcelo Tavares, casado, 35 anos.

    – Conte-nos, senhor Marcelo, o que aconeceu naquela festa.

    – Seguinte assim, carinha: era aniversário de um amigo em comum. Eu conheci o José por lá e vendo que ele era conterrâneo começamos a conversar sobre a terrinha. Falávamos saudosos de muitas coisas e, num certo momento, eu falei da costela. Falei que não existe no mundo carne como costela.

    – Por favor, senhor Marelo – interrompe o promotor. – Tente lembrar as palavras exatas mencionadas pelo acusado quando ele ouviu esta sua maravilhosa frase.
    – Bah, quando eu falei que não tem no mundo carne como costela ele teve um chilique. Disse “Deus me livre! Eu acho um horror, um nojo. Aqueles ossos todos, aquela gordura. Se tem coisa que eu não como nem amarrado é costela”.Tchê, fiquei chocado. Minha vontade foi de surrar este traidor – apontando para o acusado – mas me contive.

    Após todos estes testemunhos acachapantes, José foi chamado para dizer algo em sua defesa. Ele estava só, já que, como foi dito aqui, negar a costela é um crime tão hediondo que nenhum advogado aceita o caso. Advogados que tentaram, sofreram as consequências de tal ato: o preconceito e perseguição velados, porém persistentes, caindo em desgraça com os colegas, sendo jogados a um cruel ostracismo. Mas José seguiu firme em sua convicção.

    – Não nego, senhoras e senhores, não gosto de costela.

    Mais uma vez a multidão se enfurece e grita sem parar “Herege. Traidor”. O juiz mais uma vez a muito custo consegue reestabelecer a ordem. José segue o seu pequeno discurso.

    – Sou livre para gostar e não gostar do que eu bem enterder. Tirem minha liberdade, minha vida, se quiserem, as nunca poderão simplesmente negar a verdade. Sim. Como eu, existem mais gaúchos que não gostam de costela. Eles se revoltarão contra esse comportamento medieval e revoltante. Quem viver verá.

    Após seu emocionado discurso, José foi evidentemente condenado ao exílio permanente. Estava proibido de voltar a sua terra natal. Sua foto foi espalhada por todos os aeroportos, rodoviárias e churrascarias de estrada do Rio Grande do Sul. Se tentar entrar no estado será imediatemente detido. Dizem que o senhor Lauro e a dona Justina, pais do José, já deserdaram o filho em sessão solene na Semana Farroupilha. Eles não poderiam aceitar um filho subversivo.

  • Pum

    January 6th, 2010

    Aquilo era inadmissível, impensável e inacreditável. De tão absurdo ela simplesmente achou que não tinha ouvido direito. Mas uma coisa eram os ouvidos, outra o nariz. Não havia como negar. Era um pum. Um pum solto sem a menor cerimônia. Um pum incólume e poderoso pairando no ar. Não podia ser possível que ele tivesse o desleixo de soltar aquele pum e continuar olhando a televisão como se nada tivesse acontecido. Ela fez ainda uma tentativa, já que uma voz interna lhe dizia “e se escapou sem que ele pudesse segurar? agora ele está aí, nervoso, louco pra que você não tenha percebido.” Se isso tivesse realmente acontecido seria uma forma de respeito.
    – Luiz Cláudio, você soltou um pum? 
    – Desculpe, amor.
     
         Desculpe amor? Assim, com esta cara de sonso? Mas o que estava acontecendo? E o casamento? Como é que este cara dá um pum na sua frente e simplesmente pede desculpas com tamanha desfaçatez? Era pra ficar vermelho, cheio de vergonha, desconcertado. Até agora, quando eles tinham vontade de dar um pum, sempre disfarçavam. Ela, por exemplo. No caso de estarem assistindo televisão juntos e viesse aquela vontade, aquela que chega a doer na cintura, levantava e ia se segurando com passinhos bem curtos, como uma gueixa, até a área de serviço. Lá, devido a ventilação natural, o gás era levado para fora do apartamento. Ele nunca perguntou o que ela ia fazer de repente, vez por outra, na área de serviço no meio do filme. Nunca quis saber por que ela saía naquele passinho curto e voltava andando normalmente com uma expressão mais aliviada na face. Isso era respeito.
     
      Por sua vez, ela nunca soube como e onde ele costumava soltar os seus gases. Ela tinha uma teoria. Ele conseguia controlar a saída com extrema maestria. Soltava pum na hora e no lugar que bem quisesse. Não tem gente que mexe com a orelha e coisas assim? Então é perfeitamente possível que alguém domine a técnica de soltar pum na hora e no lugar mais conveniente.
        
    Mas tudo isso caiu por terra. Ele, Luiz Cláudio, seu marido, soltou um pum pela primeira vez na sua frente depois de três anos de vida a dois e nem ficou sem jeito. Aquele pequeno deslocamento de ar havia derrubado as bases sólidas sobre as quais o casamento entre os dois estava apoiado. Logo após gás se livrar das paredes do itestino e, completamente livre dos limites a que estava subjugado, espalhar-se pelo ar até chegar a seu nariz, não sem antes fazer uma pequena algazarra sonora na saída, ela tomou uma triste mas realista decisão: era preciso conversar. Hoje é um simples pum. Amanhã um arroto enquanto solta o cinto da calça após uma farta refeição e depois, sabe-se lá mais o que. Seria este este o caminho de todo o casamento? Um fim escatológico? Seria por isso que os seus pais se separaram?  Era preciso cortar o mal pela raiz.
     
    – Luiz Cláudio. Nós precisamos ter uma conversa. Muito séria – intima.
    – Dá pra esperar uns minutinhos? Eu estou louco de dor de barriga.

    E lá se foi o Luiz Cláudio para o banheiro com os mesmos passos curtinhos de gueixa que ela costuma dar quando visita a área de serviço. Não ouviu a porta do banheiro fechar. Talvez estivesse ficando paranóica. Por via das dúvidas, pegou o controle remoto e aumentou o som da televisão. Queria estar segura de não ouvir nada proveniente daquele banheiro.

  • Pais em tpm apresenta: O vestidinho verde

    January 5th, 2010

    Ele lia a sua revista calmamente no sofá da sala, aproveitando o começo da noite de sábado. O único som que ouvia era um eventual estalo do gelo em seu copo de Jack Daniels sobre a mesinha que fica ao lado da poltrona. Um silêncio que acalentava, abraçava, acolhia. A matéria da revista falava algo sobre pessoas que começaram a desenvolver técnicas para a fabricação de diamantes. Muito interessante. Ele praticamente devorava o artigo. Pegava o copo e dava um gole aqui, outro ali sem tirar os olhos da revista. Naquele instante, precioso, divino, o mundo era a pura perfeição. Respirava com êxtase, a alegria entrando pelas narinas e preenchendo seus pulmões. Nada seria capaz de quebrar o encanto daquele momento. A simplicidade como fonte de prazer. A não ser, claro, o fato de a sua filha de dezesseis anos estar descendo a escada trajando um mini vestido verde. O “toc – toc” do salto da sandália da filha delatando a sua descida pela escada. Ele tirou os olhos da revista e virou-se na direção do som. Estancou o olhar. Todo o seu bem estar esvaneceu-se como que por encanto. Ele podia jurar que viu a sua menina subindo a escada dizendo que ia se aprontar para a festa a fantasia. Agora, vê uma mulher descendo a escada. Uma mulher irritantemente maravilhosa, perturbadoramente encantadora. Olhou fixamente para o rosto dela para certificar-se de que era mesmo a sua filha. Havia uma grande esperança de que fosse uma amiga dela, mais liberada para usar um vestidinho daqueles. Não, não era.

    – Alto lá – ele ordena. – Que roupas são essas?
    – A minha fantasia, pai – a filha responde naturalmente – pra festa.
    – Minha filha, fantasia é cowboy, bataman, palhaço, anos 30, por exemplo, mas isso?
    – Então, pai, eu estou indo de anos 70.

    Suas pernas ficam bambas. Não bastasse sua filha naqueles trajes diminutos, ele se dá conta de que os seus amados anos 70, quando vicejaram Led Zeppelin, Pink Floyd e Raul Seixas, quando ele jogava futebol na escola e o corpo fazia o que o cérebro ordenava, tudo tinha virado passado. Um passado distante. Tão distante que nem tocava na existência de sua própria filha. Era motivo de fantasia em uma festa. Ele se irritou com aquela constatação acachapante, inconteste. Não estava ficando velho. Estava velho.

    – Anos 70 o escambau – esbravejou. – Não com esse vestido.
    – Mas pai, a mamãe me ajudou.
    – Sua mãe? Ela nunca usou um vestido reduzido como esse.
    – Mas esse vestido é dela – explica – aliás, ela disse que você adorava.

    Sim, o vestidinho verde que a Joana usava e ele adorava. Ficava louco. A Joana tinha pernas lindas. Na verdade ainda tem, mas no tempo em que namoravam, eram as melhores pernas da escola. O pai dela, seu Bernardo, reclamava muito quando ela vestia aquele mini vestido verde. Seu Bernardo – que na época tinha a idade que ele tem agora – discutia com a dona Clarissa e ele só ficava ouvindo. A Dona Clarissa sempre contemporizava, dominava a ira do seu Bernardo com paciência e conversa. Ele adorava, quer dizer, idolatrava a sogra. Dona Clarissa sempre esteve adiante do seu tempo, bem informada das coisas pertinentes ao mundo da filha e dos amigos da filha. Era perfeitamente capaz de manter uma conversa com qualquer um da turma. Eles até esqueciam que era a mãe da Joana e só eram alertados quando soltava um ou outro termo que pensava ser moderno. O seu preferido era o “prafrentex”. Mas ela era tão bacana que todo mundo perdoava. Mas agora, olhando a própria filha com aquele vestidinho verde, não tinha mais tanta certeza se a sogra era assim tão boa influência.

    – Ela disse? Bom, ela está enganada – gagueja, – Eu gostava era de outro vestido verde.
    – Pai, eu sei quando você está mentindo.
    – Eeeeeeeeeeeu?
    – Você sempre levanta a sobrancelha direita quando mente.
    – Quem disse isso pra você?
    – Ué, foi a…
    – Não responde. Não responde. Já sei.
    – Então? É ou não é aquele vestidinho verde que você adorava?
    – Parece que é. – Diz contrariado. – Mas na sua mãe não tinha esses dois quilômetros de perna aparecendo.
    – Não exagera, Arnaldo – intromete-se Joana descendo a escada – O vestido ficou uma graça nela.
    – Mas ela é muito mais alta do que você. Logo ele está muito mais curto. Olha essas pernas, Joana.
    – Não são lindas?
    – Implicância não. – Irrita-se. – Filhinha, sua mãe tem uma bata indiana muito mais anos 70 do que esse vestido.
    – Puiu, Arnaldo. A bata indiana que o papai adorava e que me cobria do pescoço até as canelas puiu.
    – Eu vou com o vestido verde, pai. Ele tá o máximo.
    – O mínimo. Você quer dizer o mínimo.
    – Não seja incoerente Arnaldo. – Irrita-se Joana. – Se era bom pra você na época, é bom pra você agora.
    – A incoerência é uma qualidade, Joana. Incoerência significa mudança. Tudo nesse mundo muda. Eu mudei. Eu evoluí.
    – Isso não é evoluir, é virar a casaca.
    – Nada me convence a deixar a menina ir a festa com esse vestido.
    – Mãe! – Desespera-se a filha
    – Sem pudim de leite.
    – Golpe baixo não, Joana. Golpe baixo não.
    – Ou ela vai a festa assim ou nunca mais você vai comer meu pudim de leite.
    – Hoje vai ter?
    – To indo pra cozinha.

    A festa foi ótima. O vestidinho verde foi um sucesso. E o Arnaldo comeu todo o pudim naquela noite mesmo. Ele tinha que fazer alguma coisa enquanto esperava a menina chegar em casa.

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