• Barulho na vizinhança

    March 1st, 2010

    O fato aconteceu numa pequena ex-colônia espanhola. Foi- me contado por Miguel Muños, coveiro do cemitério de Regalos, um bairro chique da capital da agora república. Mas antes, é necessearia uma pequena introdução, apenas para entrarmos no contexto.

    Desde que se conhece como nação independente da matriz espanhola, o país vinha sendo governado por ditaduras que mal duravam dois anos já que os ocupantes do Palácio Presidencial tanto assumiam o poder como o perdiam através de golpes de estado.

    Essa iconstância no poder durou até 1952, quando assumiu o posto Carlos Rosa Perez, um caudilho com uma empatia incomum, um charme arrepbatador, que conquistou e uniu o povo. Ninguém ousou tirá-lo do poder. Enriqueceu a sua conta em paraísos fiscais, mas soube fazer isso sem arrogância e sempre lançou mão do populismo, coisa que os otros não faziam.

    A única pessoa que rivalizava em empatia e charme com Carlos era a sua própria esposa, Guilhermina Perez. Se um já era forte, os dois unidos eram realmente imbatíveis. Formavam uma equipe em harminia perfeita, entrosada e carismática. Só uma fatalidade poderia arrancar Carlos do poder, o que acoteceu depois de seis anos de mandato, quando o bimotor que o trazia de uma cidade do norte do país onde inaugurou uma ponte acidentou-se. Guilhermina não acompanhou o marido nesta viagem porque, segundo fontes oficiais, iria ter com os pequenos necessitados do orfanato municipal.

    O enterro do presidente Carlos foi um acontecimento quase tão grande quanto a coroação da rainha da Inglaterra. O povo chorou por semanas. Nos bastidores, discutia-se quem seria o substituto. Em nome da estabilidade das instituições, quem assumiu o poder foi a primeira dama Guilhermina. O povo faria tudo por ela e para ela. Teve ainda mais apelo popular do que o marido. Se Carlos era adorado, ela era venerada. Morreu de um ataque cardíaco dentro do Palácio do Governo, mas muitos não engolem até hoje a história de morte natural. Seu corpo descansa em um mausoléu no cemitério de Regalos, separado do mausoléu do marido. Segundo dizem, a família de Carlos nunca engoliu a primeira dama e ex-presidenta.

    Desde então, seu maosoléu tem sido destino de peregrinos fiéis a sua “santa presidenta” e obviamente dos turistas que querem conhecer aquela que até tema de musical ja tinha se transformado. Discursos, grupos musicais entoando hinos em louvor a ela, eram comuns na frente da atual casa da presidenta. Dia após dia a rua onde fica o maosoléu de Guilhermina se enche de gente e de homanagens do seu amado povo.

    O problema é justamente esse. Numa noite, quando o cemitério conta com a presença apenas do coveiro mor, o nosso amigo Muños, um punhado de gatos gordos e um ou outro ladrão de tumbas, deu-se o fato que passo a relatar. Um alvoroço fantasmagórico acontecia em frente ao maosoléu da caudilha. Os ocupantes dos maosoléus vizinhos não suportavam mais o barulho, a algazarra que se transformara a vizinhança por causa da peregrinação ao maosoléu de Guilhermina Perez.

    – Desde que a senhora veio morar aqui este lugar tem sido um inferno – reclama um coronel do exércido que ocupava o maosoléu ao lado.
    – Pessoas tocando cornetas, bumbos, discursos – completa uma senhora da sociedade que morrera dois anos antes da grande dama. – Não aguentamos mais tanta baderna.
    – A senhora transformou uma vizinhança tranquila e pacífica em um bairro boêmio – interveio um banqueiro do maosoléu da frente. – Essa gente não tem mais o que fazer além de vir nos incomodar incluindo sábados, domingos e feriados?
    – O que posso fazer, meus caros? – Pergunta Guilhermina, em tom debochado.- O barulho é irritange, sim, Mas é o ônus do compromisso que sempre tive com eles e com o país. Por exemplo, eu nunca os torturei inimigos, não é coronel?
    – Compromisso para com o país e o povo? – Ironizou uma herdeira que ocupava o terceiro maosoléu a direita do de Guilhemina. – Sabemos muito bem que a senhora não foi naquela inauguração da ponte que levou seu marido porque estava com vontade de comprar sapatos.
    – E só passou no orfanato para disfarçar – delatou a senhora da sociedade – ja que ele ficava no caminho da sua loja de calçados preferida.
    – Bom, pelo menos respeitava as pessoas e não as distratava como a senhora fazia com as suas empregadas, filhas e marido, sua megera. Quantas vezes tive que intervir a seu favor para que saísse livre de seus atos virulentos?
    – Em troca de um guarda-roupa novo a cada estação, não é mesmo?
    – O que vou fazer se tenho mais talento com a dissimulação do que a senhora?
    – O fato é que não podemos mais suportar essa gentalha “homenageando” a senhora em nosso momento de descanso – intervém o banqueiro. – Precisamos dar um basta nessas homenagens diárias e de mau gosto.
    – Senhor Monteiro! – Debocha a ex-presidenta. – Ouço ciúmes em sua voz? Sinto que o verdadeiro motivo da sua irritação não é o barulho que os prergrinos fazem, mas o fato de o senhor ser um explorador do povo com seus jutos exorbitantes.
    – Juros que a senhora sempre fez que não viu além de usufruir de uma boa porcentagem.
    – O senhor sempre soube que no nosso acordo eu sairia mais, digamos, endeusada.

    A troca de insultos e acusações seguiu-se por horas. Os vizinhos de maosoléus, ricos, poderosos e aliados em vida, acusando-se de explorar os mais necessitados. Os mesmos que agora iam diariamente ao cemitério render homenagens barulhentas à ex-presidenta Guilhermina e que eram a razão daquela bizarra e fantasmagórica reunião.

    O coveiro, Miguel Muños, assistia a tudo escondido em uma lápide morrendo de rir. Para ele, aquela era uma quadrilha que recebia o seu merecido castigo após terem deixado o mundo dos vivos. Nunca iam descansar em paz, por causa da peregrinação constante ao maosoléu da ex-heroína do povo. Naquele momento, Muños concluiu que Deus tinha um senso de humor que as vezes podia ser diabólico.

  • Pais em tpm apresenta: Mundo moderno

    February 17th, 2010

    Marcelo ficou sem palavras, sem reação, sem o chão sob os seus pés quando Isabela a sua filha de 17 anos, apareceu com o namorado em casa. O Maurício. Aliás o Mauricinho. E é justamente aí, no diminutivo, que reside toda a preocupação do Marcelo. O Mauricinho tinha este nome por causa da idade: 9 anos.

    – Minha filha, eu não entendi muito bem – disse o Marcelo ao finalmente conseguir articular a língua. – Você disse namorado?
    – Claro, pai.
    – Muito prazer, seu Marcelo – disse o moleque estendendo a mão direita. – É um prazer conhecer o pai da Isabela, a mulher que eu amo.

    Ele falou aquilo olhando para o Marcelo de um jeito firme, resoluto. Marcelo não conseguia esconder a sua estupefação. Enquanto apertavam as mãos, Marcelo passou a encarar a filha Isabela, quase desesperado, como que implorando a ela que aquilo fosse uma brincadeira.

    – Eu combinei com a mamãe que ia trazer o Mauricinho aqui para jantar.
    – E por que ela não me contou nada? – A voz do Marcelo mal saía.
    – Eu queria fazer uma surpresa, paizinho.
    – Minha filha, mesmo que você avisasse já seria uma surpresa.

    O casal apaixonado se sentou no sofá sob os olhares do pai. Os dois de mãos dadas, apaixonados. Os pés dele balançavam ritmadamente para frente e para trás já que as pernas ainda não tinham tamanho suficiente para alcancar o chão. O pobre Marcelo levantou e foi até a cozinha pedir explicações à mulher. Pedir, não. Exigir.

    – Mariana você sabia de tudo isso e não me falou nada?
    – Marcelo, deixa de ser antiquado.
    – Mariana, aquele pirralho tem 9 anos. Nossa filha vai ser presa por assédio a menores, pedofilia.
    – Mas ela também é menor, Marcelo – pondera.
    – Pior, nós vamos ser presos.
    – Marcelo, depois a gente conversa. O jantar que eu pedi acabou de chegar.

    Enquanto comia o seu Mac Lanche Feliz, Mauricinho falava com a desenvoltura de poucos.

    – Sabe, seu Marcelo, sua filha é uma mulher maravilhosa. Foi paixão ao primeiro chat.
    – Minha filha não é uma mulher.
    – Pai, ja menstuei faz 3 anos.
    – Meu Desu do céu, Isabela, a mesa não é lugar para assuntos íntimos. Sem falar que tem um estranho entre nós.
    – Ele não é estranho, é o meu noivo.
    – Que história é essa de amor ao primeiro chat, rapazinho?

    Marcelo perguntou aparentemente sem perceber que o moleque ja tinha sido promovido pela filha: de namorado para noivo.

    – Nos conhecemos através da internet.

    Ao ouvir aquilo, o Marcelo teve vontade de quebrar o computador do quarto da filha. Não, quebrar, não que aquilo custou um bom dinheiro. Pensou numa solução melhor: confiscar a máquina. Onde já se viu computador no quarto? Aquilo era mesmo uma máquina do mal. Não havia mais controle. O mundo não podia ficar sem controle. Anarquia. Caos. E a filha falando em menstruação na mesa de jantar na frente de um pirralho de 9 anos.

    Após a sobremesa, Mac mix com M&Ms, todos foram para a sala. Um pensamento acalentador tomou conta de Marcelo. Aquilo era uma pegadinha. Mauricinho, era um ator mirim de um destes programas dominicais de mau gosto e em alguns instantes pessoas irromperiam a sala dando risadas e ele ia processar todo mundo.

    – Eu sei que o senhor deve estar achando tudo muito estranho – Mauricinho começou em tom sério.
    – Pra dizer o mínimo.
    – Mas por favor, não me leve a mal. Eu amo a sua filha de verdade.
    – Eu acredito que você pensa que ama. Na sua idade a gente confunde as coisas.
    – Mas eu quero me casar com ela.
    – Meu filho, digamos que eu seja tão maluco quanto vocês todos nessa sala e admita um casamento desses. De que maneira o senhor pretende sustentar a casa?
    – Bom, na verdade eu ja sustento.

    O garoto mostra uma revista Wired, a biblia americana da tecnologia, na qual ele está na capa como o novo gênio da internet. O pirralho ali na sua frente inventou um novo navegador, que ele mesmo prefere chamar de borwser, e tinha faturado muitos milhões de dólares. Não era montagem. A edição era verdadeira.

    – Na verdade ja sustento quatro casas, seu Marcelo. Acabei de comprar a quinta. O que o senhor acha de se mudar para Malibu?

  • Fidélis, o desquitado

    February 15th, 2010

    Para os verdadeiros amigos do Fidélis, a notícia de sua separação não chegou a surpreender. Após dez anos, o casamento ruíra por motivos que aqui não cabe mencionar até porque seria uma verdadeira chatice. O fato é que as coisas não iam bem, pelo menos no último ano e meio entre ele e Alice. Mesmo sem traumas aparentes, toda a separação é triste. Dez anos que se vão, deixando lembranças nos móveis comprados em conjunto, no cheiro impregnado nos lençóis e tudo mais. E como o Fidélis acabou ficando com o apartamento, resolveu seguir os conselhos de um profissional especializado no assunto, ou seja, separações. E é aí que começa o fato curioso.

    Fidélis queria tornar a separação o menos traumática possível, por isso procurou o tal profissional. Fidélis saiu da consulta convencido a tomar algumas atitudes que seriam de grande ajuda para que ele pudesse suportar os primeiros momentos. O “tratamento” se apoiava em pressupostos simples. Um deles era: livre-se de tudo o que representa lembrança de momentos felizes. Fidélis seguiu à risca. Repintou o apartamento, mudou móveis de lugar – em alguns casos comprou novos – pôs fora todas as fotos de viagens a dois, presenteou a mãe com as fotos do casamento, pôs fora os cds que representavam algo entre ele e Alice, enfim, qualquer objeto que lembrasse o casamento deveria ser, e foi, deletado.

    O outro pressuposto era: agora você ocupa a cama sozinho, fato que pode causar uma profunda depressão e consequente insônia. Uma cama que antes era divida com amor e afagos tornava-se insuportavelmente extensa. A área ganha na hora de dormir deveria ser preenchida por travesseiros. E assim fez o Fidélis. Toda a noite ia dormir com seus novos companheiros.

    Os primeiros dias de traramento deram resultado. Fidélis estava sentia-se muito bem apesar da recente solidão. Realmente não vinha experimentando arrependimentos, nem lembranças avassaladoras de bons momentos. Tudo corria na maior das normalidades. Até o dia, ou melhor, a noite em que Fidélis se deu conta de uma nova fase em sua vida. Acordou agarrado a um travesseiro sentindo por ele uma enorme excitação. Tomado pelo tesão, manteve relações sexuais com o travesseiro que aceitou tudo passivamente.

    O tempo foi passando e as atenções de Fidélis para com o seu novo amor foram aumentando e ganhando novos contornos. Em princípio ele manteve tudo em casa. Durante o dia saía para comprar novas fronhas. Chegou ao requinte de comprar fronhas de seda, que deixavam o seu travesseiro mais excitante e sensual. Fidélis estava perdidamente apaixonado pelas formas arredondadas, o encaixe anatômico e a total submissão de seu novo amor aos seus caprichos. O travesseiro dava tudo e simplesmente não pedia nada.

    Arrebatado de paixão, Fidélis passou a passear com o travesseiro, assumindo a sua relação em público. Com o travesseiro ele frequentava parques, restaurantes e até cinemas. Certa vez, em uma lanchonete, enquanto se dividia entre afagos no travesseiro e colheradas de um delicioso sunday, não se conteve ao perceber que dois homens olhavam de uma mesa próxima a cena insólita. Levantou-se e foi tiar satisfações.

    Não têm vergonha, não? – Bradou. – Dando bandeira para um travesseiro acompanhado?

    Obviamente que além dos dois homens na mesa, a lanchonete inteira estava olhando para aquela cena de amor completamente for a de qualquer normalidade. Os dois permaneceram imóveis, enquanto ouviam o pito cheio de ciúmes passado pelo Fidélis, temerosos de que ele começasse a babar e acabasse mordendo os dois ou algo sememelhante.

    Os amigos estavam todos muito preocupados com a situação do pobre Fidélis. Em toda a reunião, biribinha, churrascada, lá estava o Fidélis com o seu travesseiro em tórridas cenas de amor. Alice até se prontificou a ir ao apartamento que antes ocupara para tentar fazer Fidélis voltar a realidade, mas foi escurraçada aos gritos de “ciumenta, ciumenta!”. Até que um dia, a campainha do apartamento do Célio, seu melhor amigo, soou. Parado na porta, o Fidélis. E desta vez, sem o travesseiro.

    – Tenho que te dizer algo – fala o Fidélis sério. – Esse negócio com o travesseiro…
    – Até que enfim, Fidélis! Já era hora – regozija-se o Célio.
    – Imagine, eu e um travesseiro – debocha o Fidélis. – Bem que vocês tentaram me abrir os olhos.
    – Você não imagina o quanto estávamos preocupados, bom amigo. Já estávamos achando que era caso de internação.
    Eu e um travesseiro – continua. – Eu, Fidélis, me ralacionando com outro homem. Pode isso?
    Como é?
    Felizmente acabou – continua indiferente. – Me apaixonei por uma almofada. Uma linda e fêmea almofada.
    – Almofada?! – Espanta-se o amigo – Você enlouqueceu, Fidélis?
    – E o amor não é uma loucura? De qualquer modo, a almofada já está vivendo comigo. Voltei a ser um homem completo. Um homem completo é o que eu sou.

  • Pimenta nos olhos dos outros

    February 10th, 2010

    Não da pra dizer que o Moreira quase caiu pra trás porque na hora ele estava confortavelmente sentado na sua poltrona predileta lendo o jornal. Mas o coração disparou quando teve seu nome chamado pelo seu melhor amigo, o Zeca, que estva parado bem na sua frente. O que o Zeca estava fazendo em sua casa num sábado as onze horas da manhã? Como ele teria entrado sem que o Ricota, o pastar alemão da casa que odiava o Zeca, emitisse latido sequer? E o mais intrigandte, porque o Zeca estava completamente nu?

    – Moreira, você precisa me ajudar?
    – Meu Deus do céu! Você foi assaltado?
    – Antes fosse, Moreira, antes fosse. É muito pior do que isso.
    – O que pode ser pior do que ser assaltado e levarem as suas roupas?
    – Eu tive um infarto, Moreira. To morto. Morto mas ainda não enterrado.
    – Calma, Zeca, muita calma.

    Moreira olhava para o amigo completamente desesperado a sua frente. Mas a situação parecida óbvia. Zeca saiu pra dar uma corridinha no parque em que eles costumavam frequentar, gastarem suas calorias e contemplarem algumas bundinhas firmes e peitos rijos balouçantes correndo pra la e pra cá com seus fones de ouvido, quando foi abordado por dois ou mais assaltantes que, de arma em punho, o arrastaram para um ponto mais ermo e o livraram de seus tênis, meias, calção e camisetas de marca famosa. Provavelmente levaram também o seu mp3. Zeca devia estar tão chocado que não falava coisa com coisa.

    – Eu não fui assaltado, Moreira, ja falei. Tive um infarto.
    – Como você sabe que eu acho que foi um assalto. Eu nem falei nada, só pensei.
    – Eu sei la? Acho que fantasmas podem ler pensamentos.

    Moreira levantou e foi colocar a mão nas costas do amigo para levá-lo até o quarto onde iria empresatar algumas roupas para tirá-lo daquela situação vexatória. Por sorte, a sua mulher não estava. Tinha saído justamente com a mulher do Zeca e com as meninas. Só que algo realmente esquisito aconeceu naquele instante: o braço do Moreira simplesmente atravessou o corpo do Zeca como se esse não estivesse ali. Como se ese fosse uma projeção holográfica. Soltou um grito de pavor.

    – Eu não te falei? Eu morri. Sou um fantasma fresquino da Silva. Estagiando na nova carreira, E eu preciso da sua ajuda.
    – Meu Deus do céu! Você é uma assombração.
    – Que assombração o que? Eu saí do corpo, mas não fui ainda pra onde tinha que ir porque preciso resolver esse problema. E só você pode me ajudar.
    – Que problema?
    – Primeiro, calma. Seu coração ta disparado. Vai que você também te um infarto. Vamos na cozinha, toima uma água e eu te explico.
    – Você teve um infarto?
    – Vamos pra cozinha, Moreira.

    Na cozinha, o Zeca explicava o que tinha acontecido para um incrédulo Moreira que virava copos e mais copos de água.

    – Pois eu estava sozinho em casa, Zeca. A Lucila e a Isabel sairam com a sua mulher e a sua filha, como você bem sabe. Estão juntas gastando no shopping. Vai pagar a conta com o dinheiro do seguro de vida, coitada. Enfim, acordei, tomei meu banho e fiquei peladão, andando pela casa. Fui até a cozinha, tomei meu café bem calmo. De repente lembrei que um colega meu do escritório me passou um site de sacanagem e disse que era o melhor que ele ja tinha entrado. Fui conferir, Zeca. Te digo que era mesmo uma maravilha. O tesão foi tomando conta de mim de um jeito que eu não consegui me controlar. Levei o laptop pra cama e, bom sabe como é né? Fui fazer justiça com as próprias mãos.
    – Eu não sei se quero ouvir o resto.
    – Você quer sim, Moreira. Presta atenção. Bati uma longa e inspirada punheta olhando aquele site. Ia e voltava. Quase gozava e parava. Uma loucura. Até que deixei rolar e quando gozei aconteceu, Moreira. Morri com o pinto na mão, todo lambuzado e o computador ta la, do meu lado, naquele site.
    – Mas o que você quer que eu faça, Zeca. Tentar te ressucitar? Repiração boca a boca?
    – Que nada, Zeca. Isso ja não adianta. Ja fui desta pra melhor. Quer dizer, se é melhor ainda não sei, mas enfim, por aqui não fico por muito tempo. O problema é essa situação constrangedora em que me encontro la em casa. Você precisa ir lá limpar a cena do crime.
    – O que?
    – Pô, você é meu amigo ou não é? Imagina a Lucial e a Isabelzinha chegando lá e me vendo naquela situação.
    – Você pirou, Zeca. Você pirou.
    – Eu morri batendo punheta em casa e to nu em cima da cama totalmente lambuzado com um computador ao lado exibindo um site de sacanagem, Zeca. E você é o meu melhor amigo.
    – Não dá, Zeca. Não dá.
    – Olha aqui, ou você faz isso ou eu te assombro pro resto da vida. Eu vou aparecer peladão assim quando você estiver jantando em familia, nas suas reuniões de negócio.
    – Você vai fazer isso com o seu melhor amigo?
    – Eu é que te pergunto. Na hora em que eu mais preciso da nossa amizade você vira as costas pra mim?

    Nesse exato momento, o telefone toca. Os dois se olham. Suspense. Será que já sabem? Será que a mulher do Zeca ligando num choro que mistura tristeza e raiva pra dar a notícia e pedir ajuda?

    – Alô? – responde Moreira.
    – ….
    – O que? – Apavora-se.
    – …
    – Ja estão saindo?
    – …
    – Beijo.

    Moreira virou-se para o Zeca, mais branco que o próprio Zeca ali na sua fente.

    – Ta bom, Zeca. Eu vou resolver o seu problema. Que agora é nosso.
    – Quem era?
    – A Valéria. Vão sair daqui a pouco do shopping. O carro da Lucila pifou e você não está atendendo o telefone. Elas vão pra sua casa ajudar a sua com as compras e vão almoçar por lá enquanto você vai resolver o problema do carro. É pra eu ir gtambém e levar o pudim de leite que está na geladeira.
    – Quer dizer que agora você vai fazer o que eu te pedi?
    – Vou. Não posso sumeter a minha mulher e a minha filha a esta cena horrorosa.
    – Então é assim, né? Agora mudou de figura. Pimenta nos olhos dos outos, né Moreira?

    Disse o Zeca antes de desaparecer pra sempre.

  • O primeiro tiro

    February 6th, 2010

    A pistola ainda fumegava em sua mão direita. Ele estava paralisado, entregue a um torpor que conquistou o seu corpo. Um segundo atrás ele era um ser humano sem máculas, tinha apenas pequenos pecados. Quem não os tinha? Mas agora não. Agora ele acabara de ultrapassar a fronteira que delimita o pequeno pecado de um daqueles enormes. O estampido do tiro ecoando na cabeça. O cheiro de pólvora queimada entrando pelas narinas. O corpo estirado a sua frente. O sangue se esvaindo pelo furo da bala transofrmando-se em uma mancha crescente na camisa branca. Os olhos arregalados, denunciando a incredulidade apavorada do que estava por vir. A partir daquele segundo, daquele átimo que teve como música o estampido da pistola que conseguiu no mercado negro, ele era um assassino. Cessara a existência de um ser humano tão fácilmente como quem come um bombom.

    Lembrou-se da primeira vez que tinha ido para a cama com uma puta, fazia muitos anos. Ela era uma mulher maravilhosa. A melhor das mulheres do universo. Esse sim um motivo justificável para ir pra cama. Estava mergulhado em excitação. Foder com ela era tudo que valia a sua existência naquele momento. Seus sentidos, seus líquidos, seu metabolismo, a história da sua vida, tudo tinha o mesmo destino: aquela bunda perfeita, aqueles peitos indizíveis, aquele sorriso maroto. Ansiava, arfava, não via a hora. E depois do gozo, tudo virou uma grande e enorme merda. Estava farto, enojado e não via sentido naquele gemido falso, tão falso quanto o louro dos cabelos daquela mulher deitada ao seu lado. O orgasmo daquela noite e o tiro que acabara de desferir eram a mesma coisa. Um átimo e tudo fica diferente. Tudo ficava fora de sintonia, fora da razão. Assim como aquela mulher ao seu lado não era mais desejável, o escroto caído inerte a sua frente não parecia mais tão escroto. Aliás, não era. Era apenas um sujeito competitivo do escritório. Doente, quem sabe? Louco por promoções e cargos cujo caminho vivia cruzando com o seu. Mas não escroto. O escroto estava em pé com uma pistola na mão achando que ia resolver o problema de uma maneira bem simples. Um escroto ainda mais doente do que aquele prostrado, sem vida.

    Subitamente, a porta abriu. Ele nem viu quem entrou. Virou-se e atirou de novo. Num reflexo. Nem uma réstia de razão, apenas uma atávica auto-defesa. E agora tinha dois pecados dos grandes. E então, decidiu que ia ser um pecador enorme, épico. Ainda tinha muita gente no escritório naquela noite.

  • De nada, Geofrey.

    February 1st, 2010

    Este curioso fato que passo a contar agora se passou na Inglaterra. É a história de um inglês, obiamente. Um sujeito chamado Geofrey Sheridan. Ele estava sentado em frente ao balcão de um dos muitos pubs de Londres. Bebia muito. É uma característica um tanto normal entre nós, britânicos em geral. Sim, sou igualmente britânico, mas esse detalhe é irrelevane. O que importa é que o sujeito em questão estava bebendo demais, inclusive para os nossos padrões. Nosso amigo Geofrey era um inglês bem comum. Nariz enorme, cabelo loiro repleto de ondulações como a superfície do Lago Ness em dia de muito vento, dentes um tanto mal cuidados, costeletas generosas, corpo magro e alto metido em um terno sisudo.

    Geofrey estava bebendo para esquecer sua profunda decepção. Profunda e fresca, já que a causa havia sido recente. Pouco antes de estar entornando copos e mais copos ali na minha frente, nosso pobre Geofrey voltava para a sua casa, vindo do trabalho, um pouco mais cedo. O motivo era uma insistente dor de cabeça que não o deixava se concentrar em seus afazeres. Estacionou o carro, subiu as escadas do prédio até chegar ao terceiro andar. Parou em frente a porta do apartamento 31 e gastou um certo tempo procurando a chave correta no molho em sua mão ditreita. Destrancou a porta e entrou. Parou dois passos depois. Na verdade foi obrigado a parar. Tentava inutilmente não acreditar no que via. Ali, sobre o sofá azul da sala, estavam a mulher e o seu melhor amigo, Philip. Não apenas isso. A sua mulher usava botas de cano longo de saltos altos e finos enquanto praticava libidinosos exercícios sexuais com uma desenvoltura de dar inveja a qualquer estrela pornô. E ainda por cima, era ela que tomava toda a iniciativa.

    Aquela cena inisitia em permanecer em sua cabeça por mais cervejas que bebesse. Geofrey bem que tentou dividir suas fantasias sexuais, seus fetiches com a mulher. Tentativas sempre infrutíferas. Deus sabe como os ingleses são reservados para tais assuntos. Abrir-se desse jeito, mesmo que para sua esposa, foi um um esforco desgastante para o nosso amigo Geofrey. Ele conseguira, mas fora imediatamente tolhido pela esposa, pretensamente puritana demais para o assunto. A mesma mulher que estava sobre o tal sofá azul, que ela comprou a despeito dele detestar aquela cor. E usando aquelas botas brilhantes de cano longo e saltos altos fazendo piruetas com seu melhor amigo Philip.

    O que Geofrey sentia naquele momento era uma imensa vontade de desaparecer do mundo. Queria morrer. Morrer era o que mais desejava e ficava repetindo isso incontáveis vezes.”Eu quero morrer! Morrer seria um ótimo, um verdadeiro presente”, lamuriava-se. “Minha mulher usando botas de salto alto com meu melhor amigo naquele horrendo sofá azul!”, repetia entre lágrimas e generosos goles.

    Como fiquei sabendo dessa trajédia? Era eu quem estava ao lado dele naquele balcão no pub. Eu, um ilustre desconhecido, tornei-me o depositário de sua angústia, sua dor. Era o amigo forjado pelo acaso e pela grande quantidade de álcool que viajava por suas veias.

    E você deve estar se perguntando o que esta história tem demais. De fato, a história seria muito comum, não fosse justamente pelo fato do pobre Geofrey ter contado tudo para mim. E principalmente por ter expressado a sua imensa vontade de morrer com tanta veemência. Porque eu estava lá justamente com um fim específico. Tinha instalado uma bomba no banheiro com poder para mandar aquele pub inteiro pelos ares exatamente as 21 horas, horário em que o lugar atingia o maior movimento. Exatamente como o pessoal IRA tinha me requisitado e me remunerado generosamente para fazer.

    Cinco minutos antes das 21 horas saí do lugar e deixei Geofrey lá dentro. Atravessei a rua e me sentei em um dos bancos do parque que ficava em frente ao pub para assistir a meu trabalho em curso. O lugar explodiu exatamente na hora marcada. Naquele momento pensei em Geofrey. Eu era o responsável pelo seu desejo ter sido realizado. Ele devia estar me agradecendo la do além. Fiquei ali sentado ainda um bom tempo, assistindo o movimento das ambulâncias, da policia, da imprensa, a confusão toda. E enquanto isso, pensei em fazer uma visitinha à viúva na semana seguinte. Aquelas botas de cano longo e os tais exercícios sexuais me deixaram bem excitado.

  • Ferimentos de batalha

    January 30th, 2010

    E tem início o final de semana. Dois dias repletos de missões a serem cumpridas por homens corajosos e decididos. Jardins a se conservar, vazamentos para serem debelados, prateleiras por se construir, cortinas a se pendurar, enfim, uma infinidade de incursões com o intuito de conquistar a perfeição em todos os cantos e recantos do lar, a cargo que um exército de homens corajosos e cheios de habilidades no manejo de ferramentas dos mais variados tipos e funções.

    A  loja de ferragens está repleta no sábado pela manhã. É lá que este heróico contingente adquire suas armas e munição para suas batalhas. São homens decididos, prontos para o cumprimento do dever, ávidos por pregos, parafusos, trilhos, vernizes, tintas, brocas, pincéis para completar o seu arsenal que será usado nesta guerra santa contra o desleixo e o estrago e a imperfeição. Material este que é vendido aos borbotões, fazendo a alegria do proprietário.

    Mas havia algo mais acontecendo no referido estabelecimento comercial, chamando a atenção de um grupo de curiosos que só fazia aumentar. Eles cercam dois homens que estão no meio de uma ferrenha discussão. Um se chama Ovídio e o outro Manuel. Tudo começou quando Ovídio mostrou a mão esquerda para Manuel. Com os dedos bem separados, ele aponta com o indicador da outra mão para uma escoriação entre o indicador e o polegar.

    –        Chave de fenda – diz orgulhoso. – Estava colocando uma prateleira na cozinha quando ela escapou e atingiu com toda força bem aqui.

    Manuel, com um desdém impressionante, dá de ombros e tira o sapato direito e a meia. Aponta o dedão do pé, que ostenta uma enorme mancha preta, e diz com mais orgulho do que o outro.

    –        Paralelepípedo. Chutei uma pilha deles quando estava trabalhando naquele caminho que eu tenho no meu jardim. Perto disso este seu ferimento é coisa que só viado reclama.

    Após terminar, ele recoloca a meia e o sapato e olha, desafiador, para Ovídio. Só uma sobrancelha levantada. Sentindo-se fustigado, Ovídio não perdeu tempo. Ergueu os cabelos da sua escassa franja revelando uma marca vermelha de mais ou menos três centímetros.

    –        Martelo – falou com orgulho. – Soltou do cabo quando eu pregava uma prateleira. Caiu bem na minha cabeça. Rendeu cinco pontos.

    À volta dos dois homens, o grupo de curiosos continuava aumentando consideravelmente. Todos mostrando em uníssono o seu espanto a cada ferimento revelado. Já havia até um completo sistema de apostas estabelecido entre os observadores. Não querendo dar a última palavra ao outro, Manuel mostra o dedo indicador da mão direita. Nota-se a falta de um pequeno pedaço no mesmo.

    –        Serrote – diz, cheio de si. – Jorrou uma sangueira danada.

    Ovídio nem deixou o outro terminar e já foi arregaçando a manga do braço esquerdo. O que todos ali testemunham é uma cicatriz enorme no antebraço.

    –        Facão – falou com um sorriso vitorioso. – Aconteceu quando eu desmatava o terreno que fica ao lado da minha casa. Isso sim foi uma sangueira danada.

    Manuel ficou uma fera. Imitando o outro, arregaçou a manga do braço esquerdo e mostrou uma horrível marca de queimadura também no antebraço.

    –        Solda. Aconteceu quando eu consertava o aparelho de som do meu filho. – Abre um sorrido – Olha o buraco enorme que ficou aqui.

    Como antes, Ovídio nem deixou o outro terminar e já foi levantando a calça mostrando uma funda marca na canela esquerda.

    –        Enxada. Bati com toda a força na canela quando estava reformando o meu jardim. – E com um sorriso ainda maior do que o outro. – Apareceu até o osso.

    E assim, aqueles bravos homens continuaram competindo para ver quem tinha o pior ferimento adquirido em tantas árduas batalhas caseiras nos finais de semana. O fato é que ninguém chegou a uma conclusão. A não ser a de que aqueles dois eram muito, mas muito desastrados.

  • Água mineral, por favor

    January 26th, 2010

    Foi uma festa daquelas em que você sabe como entrou mas não tem a mínima idéia de como saiu. Quando tomei consciência de mim, tudo ainda estava envolvido em breu. O que não surpreende se considerarmos o fato de meus olhos ainda estarem fechados. Havia uma encarniçada luta dentro de mim. De um lado, uma latejante dor de cabeça – consequência de doses cavalares de uísque e sabe-se mais lá o que – forçava-me a permanecer com os olhos fechados, separado de qualquer fonte de iluminação por mais tênue que fosse. Do outro, uma curiosidade quase incontrolável, provocada pelo fato de estar deitado em uma cama a qual não sabia a quem pertencia, tentava me convencer do contrário. Mas os ouvidos a gente não controla. Os ouvidos a gente só tapa se colocar os dedos. E o que os meus ouvidos contavam é que lá fora havia uma ventania danada, daquelas uivantes, de fazer bater janela fechada.

    Curiosidade versus dor de cabeça. A segunda vencia por curta margem. Permaneci imóvel escondido do mundo atrás de minhas pálpebras. Pus-me a lembrar os fatos da festa na noite anterior. Deixei as imagens fluirem livres na mente. Na primeira delas eu ainda estou em casa, antes da festa, dando a última olhada no espelho, procurando alguma fonte de insatisfação na minha roupa. Este quadro se descola da minha atenção, voando para algum canto da mente, como uma folha de papel levada pelo vento, provavelmente o vento que eu ouça vindo la de fora. Agora já me vejo em meio ao burburinho de um salão enfumaçado e a confusão das vozes abafadas por uma música que mais parecia o barulho da obra do lado da minha casa. Não se faz mais música para dançar como antes. Depois, uma sucessão de copos de uísque sendo servidos nas mais diferentes partes do salão se sucedem como numa rapidez estonteante. Até que aparece ela. Um rosto lindo, emoldurado por cabelos castanhos claros que iam até a altura do queixo. Feições delicadas, lisas e claras. A medida em que a minha visão vai explorando lentamente o que vem abaixo do rosto, só fica melhor. O sorriso que vinha daquele rosto era uma brisa morna. Atingindo o meu rosto em cheio. A partir daí, um borrão passa a tomar conta de tudo, como se a imagens misturadas começassem a se esvair por um ralo imaginário. A escuridão volta.

    Ainda estou sem me movimentar enquanto o vento lá fora continua sua lúgubre cantoria. Um outro sentido passa a chamar a minha atenção. É o aroma delicioso de café recém passado. Começo a estalar a boca, que está tomada por uma saliva tão espessa como mingau de Maizena com gosto de pilha. Resolvo mexer as pernas e os braços vagarosamente. Sinto-me o Homem de Lata enferrujado. Tenho a intenção de me espreguiçar e abrir os olhos ao mesmo tempo. É o que faço louco para saber onde passei o resto da noite. Começo a me espreguiçar e abro os olhos lentamente. Uma imagem se forma aos poucos na minha frente. Parece um rosto. É um rosto. Aos poucos vai entrando em foco. E quando entra, o meu coração dispara. É ela. Aquele mesmo rosto com o sorriso de brisa morna que há pouco havia aparecido nas minhas lembranças. Ela está sorrindo para mim, vestindo apenas uma camisa. A minha camisa. Os lindos seios aparecem sob a camiseta umedecida pelos cabelos, que estão molhados e lindamente desgrenhados. Nas mãos, tem uma bandeija com café torradas, geléia.

    – Depois de ontem você merece- diz com voz meiga.

    Olhava para ela tomado de desespero. Era óbvio que eu estava em seu quarto. Era clara a satisfação em seu rosto. Era certo que tiveramos uma noite e tanto. E era definitivo que eu não lembrava de absolutamente de nada. Olhando para ela, naquele segundo, tentava lembrar. Tentava achar naquele quarto uma referência que disparasse a lembrança da noite de sexo com aquela maravilhosa mulher que estava a me trazer café na cama. Tentativa infrutífera. Se aquela noite fosse assunto de alguma prova eu tiraria um rotundo zero. Era como se não tivesse havido nada. Era como se algumas das horas mais divinas de minha vida tivessem sido roubadas de mim. Como se a sensação da conquista tivesse sido pilhada de minha mente após um ataque de hunos. Tivemos mais momentos, é verdade. Mas o especial, o primeiro, este está em algum lugar irrecuperável. É por isso que agora eu só bebo água mineral. Com gás.

  • Morgado, o mau humorado.

    January 22nd, 2010

    Morgado é mau humorado. Segundo costuma dizer aos mais próximos, a mãe, consciente do futuro do filho, não deu-lhe um nome e sim uma rima. O pai? Não sabe quem é. Filho de mãe solteira, o Morgado. Não se incomoda. “Não reclamo do meu destino, mas do destino dos idiotas quando cruzam com o meu” – é uma de suas máximas. Morgado é cheio de máximas. Uma das suas clássicas é em relação ao sorriso. Morgado não costuma sorrir com facilidade, segundo seu detratores. Ele refuta. “Sorriso é como ouro, diamante. Tem valor porque raro, porém sincero. Riso fácil é que nem bijuteria. Brilho barato e sem valor.” Morgado sorri, os amigos próximos juram que já viram. Aliás, para Morgado, o termo amigos próximos é um pleonasmo inconcebível. Amigo é próximo por natureza, segundo ele. Se não é próximo, não é amigo. É conhecido, colega ou um chato inconteste com quem você é obrigado a conviver segundo as convenções sociais para as quais ele tanto torce o seu nariz adunco.

    Morgado continua uma criança em relação ao tal traquejo social. Do que não gosta, fala. “A verdade é confundida com mau humor” – repete. Detesta reuniões.”Os japoneses são geniais. Inventaram a sala de reuniões sem cadeiras, para as pessoas irem direto ao ponto e rapidamente implementem o que foi decidido. Nós, aqui, colocamos biscoitos, doces, café meia boca, sucos de caixinha e perdemos horas preciosas em conversa pra lá de fiada. Reunião propriamente dita dura um terço do tempo utilizado na sala.” Morgado é econômico copm as palavras tanto quanto o é com o soriso. “Gente articulada me dá calafrios. Aquele muro de palavras geralmetne esconde a inoperância profissional. Ou seja, na hofra do vamos ver, não vemos nada. Se colocam como autoras do trabalho daqueles que falam menos porque estão fazendo alguma coisa de útil.”

    Morgado não acredita na isenção da imprensa. “Meu amigo, o homem é um ser imparcial por natureza.” – repete sempre que pode.” Aquele que confessa em público ter um lado é mais imparcial do que os auto-imaculados.” Morgado não lê jornais, apenas passa os olhos. “Você ja viu como os jornais estão cheios de articulistas? São os latifundiários do centímetro/coluna. Eu quero saber o que está acontecendo, não o que eles pensam sobre o que está acontecendo” – repete após alguns dry matinis, sua bebida preferida.

    Se a ignorância é uma benção, Morgado é um amaldiçoado, que, aliás, também rima com o seu nome. Se bem que ele já não se importa. Aceita. “Melhor assim do que ser um cagão” – aforma. “Sabe, os cagões? São aqueles que repetem sem parar ‘As coisas são assim mesmo.’ Detesto o tipo com ainda mais força do do que detesto os articulados” – não perdoa. Quando encontra um, não hesita “Você é um cagão” – diz-lhe na cara. “O cagão é a engrenagem que faz a máquina funcionar do jeito que aí está. Lubrifica-se o sujeito com um bom salário e ele abana o rabinho. Nascem com um botão play embutido. Repete sempre a mesma meia dúzia de expressões para qualaquer situação com os olhos inexpressivos. Mando tomar no cu. Faz bem mandar quem você acha que merece tomar no cu. Experimente” – aconselha. “É mais eficiente que chá de boldo.”

    Morgado é mau humorado. Vai aparecer por aqui de volta e meia com suas aventuras. Ele me acha uma besta por estar dando importância toda as suas opiniões. Não esperaria outra coisa, vindo dele.

  • Agressividade do mercado

    January 16th, 2010

    Já tinha mais de uma hora que Josias estava encostado no parapeito no topo do prédio. Prédio que ele frequentou por mais de dez anos como corretor de uma seguradora. Foram dez anos dedicados à firma que agora o chutava sem mais nem menos. “É hora de renovação nos quadros” disse-lhe o agora ex-patrão, “o negócio de seguros está mais agressivo e infelizmente você não se enquadra em nossa nova filososfia”, completou.

    Aquelas palavras latejavam em sua cabeça. A lembrança da cena da demissão também. Ele entrou na sala enorme de Antônio Oliveira Filho. Como o nome diz, Antônio Oliveira é filho de outro Antônio Oliveira, o fundador da seguradora, que havia se afastado da empresa poucos dias antes do acontecimento que está sendo relatado aqui. Antônio Filho era um sujeitinho de olhar arrogante, muito magro, de cabelo constantemente embebido em gel e sempre metido em ternos Armani que pareciam estar dois números acima do seu tamanho. Mas voltemos ao meomento em que Josias ingressou na sala da presidência. Ao entrar, Josias encontrou Antônio Filho, que estava de costas para a porta, olhando pela enorme janela que ficava atrás de sua igualmente enorme mesa. Sua cabeça estava imersa na densa fumaça que saía do seu charuto Monte Cristo, hábito fino que passou a cultivar após seus estudos no exterior. Fez um sinal com a mão para que Josias sentasse. Não se dignou a virar para encará-lo, enquanto o demitia falando todas aquelas coisas em meio a generosas baforadas em seu charuto.

    Agora Josias estava no alto do prédio olhando fixamente os transeuntes trinta andares abaixo. Eram minúsculos pontos que se movimentavam de um lado para outro. Pontos sem identidade, sem importância. Não queria ser como elas. Estava prestes a perpetuar o ato que o tornaria alguém. O vento batia no seu rosto sem dar trégua. O zunido era constante nos seus ouvidos. Trinta andares acima do nível da rua é um lugar onde venta muito. Agora, a sua atenção se voltava para o cruzamento de duas importantes avenidas. O prédio ficava em uma das esquinas. Seria uma queda e tanto. E se calculasse direito, o corpo poderia se esborrachar bem no cruzamento. Iria causar uma confusão e tanto.

    Dez anos na companhia e ele não se enquadrava mais no perfil agressivo exigido pelo novo mercado de seguros. Era um corretor dos velhos tempos, que gostasva de conhecer a fundo o segurado, ter uma boa conversa e conhecer a sua família. Mas agora, o que valem são estatísticas, a competição. O que vale é matar o concorrente. E ele não tinha estas características, segundo aquele pulha embebido em gel. Pois Josias estava lá em cima para provar o contrário. Iria se tornar famoso pela sua agressividade. Os jornais da televisão iriam falar nele ainda naquela noite. Imagine um corpo se esborrachando em um dos cruzamentos mais movimentados da cidade. Vai ser o assunto das edições extraordinárias. Olha para o relógio. São 20:43 horas. Ouve uma sirene ao longe. Dali de cima parece uma ambulância pedindo passagem. E se o corpo se esborrachar sobre um carro? Será que o dono do carro teria seguro? E se tivesse, seria da sua ex-empresa? E se fosse, teria sido ele o corretor responsável? O pensamento provoca-lhe um sorriso maldoso.

    Chega de pensar. Está na hora de agir de acabar com tudo de uma vez. Está na hora de provar para aquele seu ex-patrão idiota que ele tem toda a agressividade exigida. Saiu do parapeito e se dirigiu até Antônio Filho, que estava amarrado e amordaçado com os olhos arregalados de pavor poucos metros atrás. Josias tirou o celular do bolso interno do paletó do horrorizado ex-patrão, levantou-o e carregou-o nos ombros, como se fosse um ferido de guerra. “Magro e muito leve”, pensou o Josias. Dirigiu-se ao parapeito, atirou o homem lá de cima e permaneceu ohando o corpo cair em silêncio, bem no cruzamento, tal como havia planejado. Pegou o celular do ex-patrão e ligou para a polícia se entregando. Ficou lá no alto, vendo a confusão provocada por ele naquele cruzamento enquanto esperava ser devidamente preso. Ninguém mais poderia dizer que Josias não tinha um perfil agressivo exigido pelo novo mercado de seguros. Sentia uma imensa alegria e nenhum remorso. Até porque, a família do ex-patrão iria receber um polpudo seguro de vida. Ele sabe muito bem. Foi o próprio Josias que encaminhou os papéis.

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