• E o palhaço o que é? – Parte 4

    May 25th, 2010

    Maria Clara

    O táxi me deixou no tal endereço um pouco antes das 15 horas. Eu e minha mala com o material de trabalho. Fiquei parado em frente ao prédio por alguns instantes. Era uma beleza. O condomínio devia ser mais alto do que o meu cachê. Apertei o botão do interfone. Segundos depois, uma voz metálica com forte sotaque nordestino saiu pelo aparelho. Dei todas as informações necessárias. Após alguns instantes, ouvi um estalo e o portão a minha frente se abriu. Passei pela casamata onde o porteiro devia estar. Era impossível vê-lo, pois os vidros eram escuros, quase pretos. Andei por um corredor e o meu coração começou a bater mais forte. Minha barriga era constantemente atacada por ondas de frio.

    O elevador social estava no térreo, como que me esperando. Entrei e subi até o décimo andar. Saí e me dirigi até o apartamento 102. A porta estava entreaberta. Não sei o que me esperava atrás dela. Permaneci parado por alguns segundos, olhando a porta, tentando visualizar a decoração por aquela fresta. Empurrei a porta e dei dois passos, passando pelo umbral. Maria Clara apareceu não sei de onde, me abraçou e beijou com a vontade de uma mulher que encontra o único homem do planeta. Soltei a mala e a abracei também. Se fosse fazer uma descrição da cena não fugiria muito do que qualquer um está acostumado. O volume dos seios dela contra o meu peito, o cheiro do seu perfume, seus cabelos roçando no meu pescoço e o meu pau num estado de enrijecimento tal que seria perfeitamente possível usá-lo como martelo para fixar um prego na parede. Ela arrancou sua boca da minha e passou a beijar meu pescoço, em áreas que eu nem tinha ciência que existiam. Usava um vestido preto maravilhoso. Quer dizer, talvez fosse maravilhoso só porque estivesse nela. Ela cravou as duas mãos na minha bunda e, resfolegante,  falou em meus ouvidos que tinha vontade de fazer aquilo desde a primeira vez que me viu. Depois se afastou e, com uma voz e uma expressão marota, falou:

    – Vá se vestir de o palhaço.
    – Como?

    Eu estava um tanto zonzo pelos momentos de sucção constante pelos quais havia passado.

     – A roupa toda?
     –  Incluindo a maquiagem.

    Eu nunca me maquiei tão rápido em toda a minha vida. Vesti a roupa em tempo recorde. Fui para o quarto e Maria Clara estava só de colar de pérolas, cujo preço devia valer mais que o meu guarda-roupa inteiro. Ela olhou para o meu sapato de palhaço e depois me encarou.

    – Tomara que seja verdade o que dizem sobre as pessoas que têm pés grandes.
    – Esses sapatos são falsos.
    – Vem, meu palhaço – diz, lânguida – vem me fazer rir.

    Eu fui. Mergulhei naquela cama com Maria Clara. O palhaço Lelé fez sua primeira performance para maiores, totalmente privê. Ela terminou com a cara toda lambuzada com a minha maquiagem.

    Após o usual momento de torpor pós-sexo, ela pegou o meu nariz vermelho de plástico e começou a encaixar e desencaixar na cabeça do meu pau – encaixava perfeiramente – enquanto falava.

    – Você é um homem e tanto.
    – Desde que conheci você a minha auto-estima deu um salto.
    – Seu amigo personal trainner ja ensaiou algumas investidas para me levar pra cama– confessa. – Ele tem um corpo incrível.  Mas você tem algo mais: charme natural. Seu jeito irônico de falar me deixa louca. Além do seu tato com as crianças.
    – Eu gosto delas.
    – E eu de você. Cada parte.
    – E esse apartamento – estava encabulado e resolvi mudar de assunto – de quem é?
    – Meu, da Maria Amélia e da Maria Alice.
    – O que é isso? Uma confraria?
    – Pode-se dizer quem sim – ela suspira com certa melancolia. – Confraria das mulheres mal amadas.
    – Quer saber? Seu marido é que é o verdadeiro palhaço nessa história toda.

    Ela dá uma gargalhada, depois parte para cima de mim e me esgota. Ao cair da tarde ela se levanta, toma um banho e coloca a roupa. Diz para eu ter calma, me arrumar sem pressa. Ela tem que estar em casa quando o Felipe chegar, como sempre. É realmente uma mãe zelosa. Ela beija longamente a minha boca e, antes de passar pela porta, vira-se e me pega olhando para aquela bunda maravilhosa. Com a cara mais convidativa possível ela deixa uma mensagem no ar.

    – Você vai se divertir muito aqui nesse apartamento.

  • E o palhaço o que é? – Parte 3

    May 18th, 2010

    A estréia

    Cheguei cedo ao local. Tinha feito o reconhecimento do buffet no dia anterior, mas fui numa hora em que não estava ocorrendo festa alguma. Em funcionamento, tudo era diferente, parecia outro mundo. Era enorme e os brinquedos eram de última geração, alguns até da próxima geração. Havia um trenzinho com aquilo que as propagandas de carro costumam chamar de “design arrojado”. Ele corria perto do teto, dentro de tubos e em parte do seu trajeto, saía das dependências do buffet por um lado, entrando por outro. Robôs brilhantes e falantes, jogos eletrônicos estalando de novos e o palquinho, que agora via iluminado. Era a primeira vez que eu ia me apresentar em um palco. Aquilo me deu frio na barriga. Estava parado no meio daquela parafernália, gelado, suando frio quando ouvi aquela voz.

    – Oi, Alexandre.

    Virei-me e ela estava ali, dentro de um vestido simples, sem muitos enfeites, com um decote que mostrava o colo de seios que pareciam de uma adolescente, o que ela definitivamente ela não era.

    – Boa tarde, Maria Clara.
    – É bonitinho aqui, não é?
    – É quase um circo.
    – Se você está procurando o seu camarim, é subindo aquela escada – apontou. – Eu tenho que tratar de algumas coisinhas. Depois eu dou a atenção que você merece.

    Claro, o Camarim. Na minha visita no dia anterior eles falaram em camarim e eu achei que só podia ser um exagero.  Devia ser um quarto, alguma salinha. Quando subi as escadas, guiado por uma funcionária muito gentil que adorava falar no gerúndio,  dei de cara com um camarim de verdade. Com direito a espelho rodeado por lâmpadas e até algum material de pintura, quem sabe para algum palhaço com falta de memória que pudese, por acaso, esquecer o seu material em casa. Não era o meu caso. Havia checado e re-checado tudo. Estava com todo o meu material e, claro, com meu grande, e inseparável amigo, Peraltinha. Feito de madeira e pano, com mais ou menos oitenta centímetros de altura. Peraltinha era o ponto alto do meu show. O momento maior onde, após um monte de brincadeiras e mágicas, eu mostrava minhas habilidades de ventriloquista. Era uma parte muito interessante do show, pois o Peraltinha sempre foi uma espécie de meu alter ego politicamente incorreto.  Por isso mesmo, esta parte do show sempre chamava a atenção dos pais também, que paravam para assistir o ato com mais atenção e até participação, embora esse desleixo de comportamenteo do meu pequeno amigo fosse voltado para a criançada.

    A hora se aproximava e eu ouvia o som da criançada lá embaixo. Um som que ia aumentando a cada minuto. O consumo de docinhos era como encher de combustível máquinas de correr e fazer barulho. Olhei-me no espelho. Ali estava o Lelé, finalmente, num lugar que merecia. Finalmente num buffet a altura do seu talento. Olhei fixamente para aquele palhaço no espelho. Respirei fundo. Peguei o Peraltinha que, sabendo da minha ansiedade, como um bom amigo, lascou seu desejo de boa sorte típica do teatro:

    – Merda!

    Sucesso

    Após a minha apresentação, já em roupas civis e sem a maquiagem, desci as escadas que levavam do camarim ao salão principal. Havia crianças que ainda insistiam em correr e brincar. Os remanescentes da festa que se comportavam como partículas ínfimas correndo e se chocando ao acaso. Suas roupas compradas em lojas caras estavam completamente manchadas de brigadeiro, glacê, refrigerante e outras coisas de cores muito difíceis de definir. Algumas com pinturas de animais na cara e os sapatos, há muito, jogados em algum canto fazendo com que as meias, compradas nas mesmas lojas caras, terminassem a festa com rombos enormes. Ao pé da escada, Maria Clara me esperava com um sorriso que quase me fez rolar os cinco degraus restantes.

    – Que sucesso, hein? O meu filho achou você incrível.
    – Ele merece. É um garoto muito legal.
    – Vem aqui – disse ela me pegando pela mão. – Quero apresentar você a duas amigas. Elas querem contratar os seus serviços.

    Ela me levou até uma mesa onde estavam outras duas mulheres. Elas aparentavam ter a mesma idade de Maria Clara e também o mesmo dinheiro. Eram tão bonitas quanto a Maria Clara, cada uma ao seu jeito.

    – Gente, aqui está o sucesso da festa – Maria Clara agora põe o braço no meu ombro – o palhaço Lelé, agora como Alexandre.
    – Muito prazer! – As duas estendem as mãos e juro que estão com olhares quase lânguidos.
    – Prazer – eu respondo e me precipito para beijar o rosto das duas.
    – Essas são Maria Amélia e Maria Alice –ela s apresenta enquanto eu as cumprimento – duas amigas. Duas grandes amigas.
    – É, nós dividimos tudo. – Maria Amélia fala, afetada. – Tudo mesmo, até você.

    Elas caíram numa gargalhada gostosa. Depois tratamos de alguns detalhes sobre a festa dos filhos das outras Marias ali presentes. Obviamente eu disse que ia checar em minha agenda, mas citei a minha boa memória e afirmei quase com certeza que as datas que elas estavam querendo estavam vagas. Despedi-me de todas e Maria Clara me levou até a porta do buffet.

    – Você está de carro?
    – Não, eu vim de táxi.
    – Quer que o chofer leve você?
    – Não precisa. – Paro para encará-la por uns segundos. – Eu posso perguntar uma coisa?
    – Claro.
    – Não vi o seu marido.
    – Está viajando – diz com desprezo. – Por mim ainda vá, mas nem pelo filho ele põe a empresa em segundo plano.
    – Desculpe, eu vi que o assunto incomoda você.
    – Não é sua culpa o fato do meu marido, ou os maridos da Maria Amélia ou da Maria Alice, nunca estarem presentes.
    – De qualquer jeito, me senti metido.
    – Não – e estendeu um envelope para mim. – O resto do seu pagamento.

    Naquela mesma noite deitei em minha cama e sabia que não ia conseguir dormir. Havia várias razões para ficar olhando para aquele teto que supostamente devia ser branco, mas já estava amarelado e com rachaduras cujo desenho se assemelhava muito ao rio Amazonas visto de um satélite. A primeira delas era o fato de ter realmente ingressado no mundo maravilhoso dos buffets dos ricos. Já tinha duas festas marcadas. E pelos mesmos honorários da festa que eu acabara de animar. Tinha mesmo feito sucesso. A segunda razão era Maria Clara e suas outras duas amigas. Havia entre elas uma cumplicidade que ultrapassava a simples amizade. É difícil descrever, mas eu tenho sensibilidade suficiente para perceber que elas tinham uma espécie de pacto para viver a vida. Eram lindas, inteligentes, bem tratadas, tinham praticametne a mesma idade e um problema em comum: maridos que dão tudo, menos atenção para elas e para os filhos. Mas o que realmente me deixou ansioso estava dentro do envelope com o pagamento que Maria Clara me deu ao sair do buffet. Ali, além do cheque com os meus honorários e uma polpuda gorjeta, havia um pequeno bilhete. “Alameda Campinas, 1265 ap.102. Encontre-me amanhã nesse endereço às 15 horas. Por favor, traga sua roupa de palhaço”.

  • E o palhaço o que é? – Parte 2

    May 9th, 2010

    Na manhã seguinte o telefone o celular tocou me fazendo pular da cama. O celular pulou junto, já que eu peguei no sono de barriga pra cima e com ele no meu peito. Saí desesperado a sua procura enquanto tocava. Precisava ser mais rápido que a caixa postal. No desespero em que me encontrava para achar o aparelho, topei com a canela na quina da cama. Mas não havia tempo para sentir dor nem para praguejar. Finalmente encontrei o celular embaixo do móvel onde ficava a televisão.

    – Alô? – Atendi, ofegante.
    – Alexandre? – Uma voz feminina, rouca e forte do outro lado.
    – Ele mesmo. Falo com quem? – Como se eu não soubesse quem era.
    – Meu nome é Maria Clara – esclareceu. – Estou ligando por indicação do Julinho – Julinho, vejam só, isso ele não me conta. – Ele disse que você é um grande animador de festas infantis, como é mesmo o nome do seu personagem?
    – Lelé, o palhaço.
    – Exatamente! Ele me disse que o Lelé faria o maior sucesso na festa do meu filho. É na semana que vem, no dia quatro, você está livre?
    – Um momento, eu vou consultar a minha agenda.

    A frase foi um reflexo, uma jogada de marketing. Pareça ocupado e ganhe respeito. Até porque a minha agenda era uma seqüência de folhas em branco. Quer dizer, não totalmente em branco. Havia os dias da semana e do mês impressos na parte superior.

    – Perfeito! – Respondo. –  No dia quatro está perfeito. A que horas?
    – A festa vai começar às 18 horas.
    – Eu preciso do endereço para poder me comunicar com os proprietários do buffet e checar o local da apresentação.
    – Muito profissionalismo da sua parte. Gosto disso.
    – Tudo pela alegria das crianças, minha senhora.
    – Por favor, apesar de casada, tem coisas que prefiro manter como antes. Nada de senhora.
    – Você manda!
    – Falando nisso, precisamos nos encontrar antes da festa para fechar os últimos detalhes. Preciso conhecer você pessoalmente antes de contratá-lo.
    – Justo.

    Na tarde naquele mesmo dia eu estava no lugar combinado: um shopping chique da cidade onde ela iria fazer umas comprinhas. Ela marcou comigo em um café no piso superior e descreveu a roupa que usaria. Eu também descrevi a minha, que, nos padrões antigos, seria definida como uma roupa de domingo, em plena terça feira. Subi dois lances de escadas rolantes e cheguei ao café. Ninguém usando roupa com a descrição dada por ela se encontrava ali. Sentei e pedi um expresso. Era caríssimo. Mas eu devia encarar aquele despêndio de dinheiro como investimento. Cinco minutos depois ela apareceu. O número de sacolas em cada mão era assustador. No entendimento de uma pessoa em total crise fianceira, como era o meu caso, aquilo estava longe de ser definido como comprinhas. Estava prestes a fazer parte de um encontro de dois mundos completamente diferentes. Só possível naqueles termos: ela pagava para eu ser o palhaço.

    Levantei-me para que ela me localizasse. Era uma mulher e tanto. Que corpo! O Julio César era mesmo muito bom. Cabelos negros ondulados harmonizando com feições fortes, marcantes. Um olhar decidido e ao mesmo tempo com certa tristeza. Devia medir um metro e setenta. Apesar do jeans, era possível vislumbrar pernas torneadas. Era robusta, mas muito bem distribuída. Ao me ver, abriu um sorriso que quase me derrubou. Veio em minha direção com aquele sorriso de dentes sadios, simétricos e alvos cercados pela moldura vermelho escura dos sues lábios. Parecia feliz em me ver. Parou na minha frente exalando um perfume caro.

    – Alexandre?
    – Maria Clara.
    – Muito prazer – a voz parecia um pouco mais suave do que a do telefone. – Vamos sentar?

    Havia apenas uma cadeira desocupada em nossa mesa, e obviamente era insuficiente para deixar aquela penca de sacolas. Foram necessárias mais duas cadeiras e mesmo assim as sacolas tiveram que ficar umas sobre as outras.

    – Estou aproveitando a liquidação do shopping– ela fala enquanto acomoda as sacolas. – Os preços estão ótimos.

    O shopping estava liquidando? Pelo que eu concluí dos preços dos preços que testemunhei nas vitrines era uma liquidação em que tudo estava de exorbitante por apenas caro.

    – O Julinho falou muito bem do seu trabalho.
    – O “Julinho” é um bom amigo.
    – Eu gostei de você. – Falou aquilo me olhando fixamente. – Gostei muito de você.
    – Mas só falamos uma vez pelo telefone e não faz nem cinco minutos que estamos conversando.
    – Digamos que eu sou sensitiva. – Ela aproximou o rosto ainda mais do meu. – Não preciso de muito tempo para gostar de alguém. Ou odiar. E de você eu gostei.

    Aquela conversa tomou um rumo estranho. A parte da minha contratação foi muito rápida. E rentável. Eu chutei um cachê alto e ela aceitou sem pestanejar. O triplo do que eu cobrava normalmente. E ainda pagou metade na hora. Depois, ela passou a fazer perguntas  sobre a minha vida pessoal. Inúmeras. Maria Clara não era só fisicamente bonita. Era charmosa e insinuante. Havia algo mais do que uma relação contratante-contratado se formando naquele momento, embora eu me recusasse a acreditar que uma mulher daquela casta fosse sequer notar a minha existência enquanto homem.

    – Bem, Alexandre, infelizmente eu tenho que ir. O Felipinho vai chegar da escola daqui a pouco e eu gosto de estar em casa quando ele chega.
    – É bom para o menino saber que a mãe dá carinho e atenção.
    – Tem dias que a mãe gostaria de receber carinho e atenção – falou com os olhos fixos nos meus. – Se você for tão engraçado como palhaço quanto é charmoso, vai fazer o meu filho e os amigos dele muito alegres.

    Aproximou seu rosto do meu e me beijou na face esquerda. Seu perfume invadiu minhas narinas, sua respiração invadiu meus ouvidos. Ela roçou o seu rosto no meu. Levantou-se, pegou as sacolas e se afastou sem olhar para trás. Eu fiquei paralisado, olhando Maria Clara se afastar até se misturar ao batalhão frenético de compradoras aproveitando os preços incríveis da tal liquidação. Era uma mulher impressionante. Lembrei-me de Julio César. Olhando os movimentos ritmados daquele conjunto de curvas, saliências e protuberâncias pensei na justiça que tinha feito a ele na noite anterior quando o chamei de Michelangelo. Se o artista italiano exculpisse uma Maria Madalena, ali estaria ela. Sem as sacolas e sem aquele jeans branco agarradinho. Eu me peguei completamente excitado. Uma rocha no meio das pernas. Se eu levantasse dali naquele momento,  as senhoras frenéticas iam perceber certo entumecimento por baixo das minhas calças. Talvez ficassem mais frenéticas. Precisava esperar um tempo para tudo voltar ao tamanho padrão. Pedi outro expresso. Ja não importava que fosse caríssimo. Agora eu tinha um cheque bem gordo nas mãos.

  • E o Palhaço o que é? – Parte 1

    May 1st, 2010

    Eu podia ver o reflexo distorcido do meu nariz vermelho no cano prateado da pistola. Era ridículo morrer vestido daquele jeito. Vestido de palhaço. O personagem e o criador prestes a ir desta para melhor, é o que dizem, mas sinceramente não estava com a mínima vontade de ir para algo melhor, até porque ninguém voltou de lá para comprovar. Como alguém tinha coragem de apontar a arma para a cabeça de um palhaço e simplesmente acabar com a vida dele? Não teve infância? Não lembra do famoso “Hoje tem marmelada? Tem sim, senhor. Hoje tem goiabada? Tem sim, senhor. E o palhaço o que é? Ladrão de mulher”. Ladrão de mulher. Mas que ironia de merda. Ladrão de mulher. A rima que eu tornei realidade. E que agora era a minha condenação. A rima que se tornou uma filosofia de vida, era agora a minha passagem para a escuridão, a inexistência. O palhaço Lelé, alegria da criançada, lenda viva dos buffets infantis estava prestes a virar apenas lenda. E tudo porque eu também era a alegria de algumas mães. Três delas para ser mais exato. Mas enquanto a bala não vem, convido você, querido leitor, a acompanhar o relato do como cheguei a esta situação desesperadora.

    O Início

    Há pouco mais de um ano eu devia meses de aluguel. Já era o palhaço Lelé e fazia alguns números em festas de aniversário de crianças, mas nunca tive o meu talento reconhecido pelo que eu chamo mainstream no mundo dos buffets infantis. Fazia meus números em buffets de segunda, com aqueles brinquedos descascados, comprados usados e uma piscina de bolinhas que fedia a chulé porque a faxineira dos locais não aparecia com frequência. Os pais pagavam meus honorários em dez parcelas, muitas vezes paravam na quarta ou na quinta e me mandavam reclamar com o bispo. Minha vida estava fadada ao fracasso. Nunca passaria pelos grandes buffets de Moema ou dos Jardins. Ali estava a grana. Ali era o mundo que eu merecia viver,  o lugar onde o meu talento merecia ser apreciado.

    O meu destino começou a mudar numa noite em que comia tangerinas como jantar e sobremesa ao mesmo tempo – uma idéia que roubei de um livro de Joe Fante, cujo personagem principal, Arturo Bandini, um pretenso escritor sem dinheiro que vivia em um hotel barato, tinha como sua principal fonte de alimentação laranjas cedidas por um feirante oriental muito gentil.

    Mas voltando a minha história, eu comia minhas tangerinas, e o meu celular, que eu mantinha a muito custo como telefone de meu escritório ambulante, tocou. Do outro lado da linha estava o meu amigo, talvez único amigo, o Júlio César. Diferente de mim, Julio César estava com a vida mansa. Era personal trainner e tinha como alunas muitas ricaças, mulheres de executivos que podiam pagar o seu preço de 250 a hora-aula.

    – Fala, Alê! – Sua voz soava disposta como sempre. – Fazendo o que aí?
    – Jantando, ou algo parecido.
    – Vamos tomar um choppinho?
    – Em primeiro lugar você nunca bebe chopp. Sua profissão não deixa. Em segundo, eu também não. Minha situação financeira não deixa.
    – Eu pago.

    Eu nem questionei. Ele tinha todas as condições para me fazer aquela oferta e ainda por cima nossa amizade era sincera o suficiente para eu não ter que ficar com aquele papo furado de que não podia permitir que ele me pagasse. Também vi uma oportunidade de ouro de, além de beber chopp, comer algo salgado como bolinhos de bacalhau. Meus dentes já estavam esturricados de tanto ácido cítrico.  Excitado pela possibilidade de comida de verdade, levantei-me e fui para bar combinado.

    O lugar estava cheio. Gente recém saída dos escritórios, todos prontos para única e exclusivamente rir e se divertir, de preferência falando mal daqueles colegas que não estavam presentes na mesa. Garçons faziam seu costumeiro malabarismo com as bandejas repletas de tulipas se esgueirando pelo espaço apertado entre as mesas. Júlio César, quando me viu, levantou e acenou. Embora como homem eu me torne reticente em descrever qualidades físicas de outro macho da espécie,  tinha de admitir que o Júlio César era dono de atributos suficientes para atrair as ricaças. Era forte, mas sua musculatura era bem desenhada e não hipertrofiada pelos exercícios exagerados regados a anabolizantes. Aliás, Julio César tinha horror a tais métodos que ele chamava de “engorda de frangos”. Fora isso, ostentava um sorriso constante no rosto, uma simpatia genética. Tinha lá o seu charme. Não admira que muitas de suas alunas eram também amantes. Cheguei até a mesa e sentei.

    – Como está a vida, Lelé? – Pergunta animado.
    – Fora a afta na ponta de língua de tanto comer tangerinas e a falta crônica de dinheiro, eu estou bem.
    – Pelo menos não vai ter problemas de escorbuto e nem gripe. Choppinho?
    – E se você não se importar, um enorme prato de sanduíche aberto pra acompanhar.

    Ele estalou o dedo e o garçom com um mau humor calculado veio até nós. O pedido foi feito e, em poucos minutos, nossa mesa estava repleta de coisas deliciosas, tirando a água sem gás do Júlio César.

    – E então, Júlio, como vão as alunas?
    – Alê, não posso me queixar – diz com os olhos transbordando satisfação – minha agenda está cheia.
    – Tanto no horário comercial quanto fora dele, eu presumo.
    – Perfeitamente. Você não imagina o poço de insatisfação e tensão sexual que impera nas grandes academias. Minhas alunas têm uma energia acumulada que transborda pelos poros.
    – Energia?
    – Os maridos primeiro casam com elas, para depois traí-las com outra: a carreira. E aí a coisa entorna – diz com ares de analista.
    – Sei.
    – Agora, cá pra nós, que é uma sensação fora do comum você dar forma ao corpo que você vai levar pra cama, isso é.
    – Digamos que, apesar de não estar casado com alguém que tem uma carreira como amante, tenho uma certa energia acumulada. Essa falta de dinheiro não me deixa comer nada direito. – Falo e logo me arrependo pela piada sem graça.
    – E pra que são os amigos?
    – O que você está tramando?
    – Provavelmente amanhã, uma de minhas alunas, a Maria Clara, vai ligar pra você. Tem quarenta anos, mas que corpo, modéstia parte. O filho dela vai fazer seis anos e eu comentei sobre você. Ela se interessou, e eu dei seu celular. Ela tem muita grana.
    – Mais uma das esculturas que você comeu,  Michelangelo?

    Julio Cesar solta uma gargalhada.

    – Essa não. Tem aquele olhar de predadora, sabe? Mulher insatisfeita. Mas eu ainda não tive sucesso com ela. Quem sabe você?

    Quem soltou a gargalhada dessa vez, fui eu.

    Naquela noite demorei muito para dormir por causa da ansiedade. Se a tal Maria Clara ligasse, eu teria a minha chance de entrar no mundo dos buffets de primeira linha. Era a chance que eu precisava. Além da mãe do aniversariante, muitas mães estariam lá. Muitas possibilidades de trabalho assistindo o meu desempenho. Aquele maldito celular precisava tocar. (continua)

  • A ligação do Morgado

    April 21st, 2010

    Morgado é mau humorado. E o mau humor funciona exatamente como a alegria: melhor quando você divide com alguém. Hoje ele me ligou. Tudo porque passou pela banca de revistas. A seguir, o nosso diálogo telefônico. Na verdade, praticamente um monólogo.

    – Alô?
    – Morgado?
    – Ta perguntando porque, se o meu nome apareceu no identificador do seu celular?
    – Mania
    – Sabe porque eu to te ligando?
    – Não
    – Porque eu gosto de você. Você não é Maria vai com as outras, como a maioria desses debilóides por aí.
    – Obrigado
    – Por exemplo, você não gosta da Veja, gosta?
    – Não sou muito fã, não.
    – Por isso eu gosto de você. Ja falei isso?
    – Já
    – Rapaz, você viu a capa da Veja desta semana? O Serra. A porcaria do Pasquin não se apruma, não é? Aliás, deixa eu ser justo com o Pasquin, que foi um bastião a favor da liberdade num dos momentos mas negros da nossa história. O jornal não merece uma ofensa como essa. Ser comparada a uma revista que faz tudo menos bom jornalismo. Corrijo: menos jornalismo. Escuta , se eles apoiam o pústula do José Serra – um sujeito que faz campanha pra prefeito, foi eleito e em dois anos de mandato para o qual lutou e fez promessas larga tudo para concorrer a um cargo maior -que o faça com coragem e não subrepticiamente…existe essa palabra enquanto advérvio?…foda-se. Voltando, que apóie esse oportunista no seu editorial. Eu não posso com esse apoio travestido de fatos. Eu fico com bortoejas e urticearias quando me deparo com isso. Você percebe também, não percebe?
    – É eu entendo.
    – É por isso que eu gosto de você. Enfim, eu quero dexiar claro que não apóio canditado nenhum. Eles todos adoram nos escorchar com taxas e impostos, logo, que ardam todos no fogo do inferno. Mas essa revistinha é o maior desperdício de papel que eu ja vi. Quanta árvore derrubada em vão, meu Deus. Pra dar apoio ao Serra, desencavam fatos antigos e transformam em novidade. Igual a minha mãe, que pega a linguiça que sobrou do currasco de domingo coeta em rodelas, faz um molhinho com cebola e serve na terça. A vantagem da linguiça é que fica uma maravilha, é muito mais útil do que o Serra como presidente. Aliás, na tal reportagem, o Serra me vem com essa maravilha: “eu me preparei a vida toda pra ser presidente”. Isso me dá calafrios. A vida toda? É um maníaco compulsivo. Quando chegar lá, além de fazer as asneiras que faz no estado em que governa, não vai querer sair. E o Civita apóia. É da turma. Abre o olho, hein?
    – Ja falei que não leio muito a revista.
    – Por isso gosto de você. Aliás, na mesma edição, voltam a meter pau do Duda Mendonça. Colocaram lá que agora ele cobra 12 milhões pra fazer campanha. Mas vejam só, que coisa. Por que eles não colocam lá quanto a Veja fatura com propaganda em cada edição? Pois eu te digo que é capaz de superar os 12 milhões que o baiano cobra. A propósito, fico me perguntando: por que a Veja pega tanto no pé do Duda Mendnça? Pois nem se preocupe em responder. Eu já sei. O Duda Mendoça ja conseguiu eleger muito mais gente com seu trabalho do que a Veja com seu apoio disfarçado em artigos e matérias. É ciúme. O mais deslavado dos ciúmes. Mas você não assina a Veja, assina?
    – Ja falei que não. Nem leio muito.
    – Eu sabia. É por isso que eu gosto de você.o do Morgado Muito mau humorado,adosquando me deparo com isso. re. Ele Mendoça ja conseuiu eleger muito mais gente com seu trab

    E desligou o telefone sem nem mesmo se despedir. Como sempre. Ele é assim. Muito mau humorado.

  • Palavras que eu gostaria de matar

    April 18th, 2010

    O post de hoje foi escrito por um convidado especial, o meu grande amigo Morgado, o mau humorado. Espero que apreciem.

    “Porque diabos a imensa maioria dos seres humanos mais parecem papagaios com cérebro debilitado que repetem tudo que alguém supostamente mais “descolado” lhes impoem sem antes se perguntarem o porquê? A imensa maioria da massa ignara e da não tão ignara assim está usando palavras irritantes e desvirtuando o bom andamento do português coloquial simplesmente porque elas estão “na moda”.

    Comecemos pelo nosso esporte nacional. No futebol, de uns tempos pra cá, passamos a usar a palavra assistência para designar aquilo que sempre chamamos de passe que deixou o centroavante na cara do gol, ou simplesmente, passe. Alguém tentar nos impingir uma palavra importada do basquete americano ja é de fazer Aurélio Buarque se revirar no túmulo. Agora, a tal palavra pegar é motivo de condenação a prisão perpétua sem direito a visita. Assistência o caralho. É passe, sempre foi passe. Ja não chega perdermos nossos craques para os europeus, agora vamos perdendo nossas palavras para os americanos? Assistência pra definir passe eu mataria a tiros.

    Continuemos no futebol. Não satisfeitos com o uso constante da assistência e o consequente sepultamento do passe, ja começo a ver um movimento novo em direção à macaquice linguística. Os jogos de ida e volta das copas, como a Copa do Brasil, estão virando “pernas”. A definição é inglesa: “first leg e seccond leg”. Mas alguns jornalistas brasileiros mais “moderninhos” ja estão adotando “primeira perna e segunda perna” ao invés do clássico jogo de ida e jogo de volta. Mas nesse caso ainda há salvação. Por favor, você que me lê neste pretigiado blog: resita. Perna é perna, membro inferior encontrado aos pares na maioria dos casos. No Brasil, temos excelentes exemplos de pernas que merecem culto, como as da Juliana Paes, da Ivete Sangalo e…bem a lista é longa. Pernas, pra definir jogo de ida e de volta, eu mataria de uma forma temática: as chutes.

    No mundo corporativo então, as palavras que eu gostaria de matar encontram terreno fértil. Aliás, se puedesse mataria não só as palavras como os deboilóides que as repetem em qualquer situação. Tem palavra mais idiota e imbecil do que escopo? Pois é. Escopo, que parece nome de matemático grego, é a palavrinha carimbada nas salas de reuniões. Quer outra que é repetida sem parar? Desafio. Desafio e escopo eu não só mataria como torturaria antes. Elas são um jeito metido de dar uma noticia ruim. “Nós temos um desafio” poderia ser traduzido leteralmente para “eu vou fuder vocês, inclusive no final de semana”. “Sua idéia é interessante, mas não tem aderência ao escopo do projeto”, pode sertraduzida como “Se eu contar essa sua idéia, que é incrível, você provavelmente vai tomar o meu lugar” Desafio eu jogaria nos trilhos do metrô. Escopo eu mataria a facadas. Umas setenta e duas facadas

    E sinergia? Sério, sinergia eu mataria com as minhas próprias mãos. E os funcionários, que agora, nesta sanha politiciamente correta, viraram “colaboradores”? Quem colabora comigo, faz porque quer. Logo, não preciso lhe pagar salário, nem férias nem hora extra. Eu não quero colaborar com ninguém, eu quero ganhar pra trabalhar, ora bolas. Colaboradores é uma palavra que eu jogaria da boca de um vulcão em atividade. Morreria envenenada pelo enxofre e quimada ao mesmo tempo. Merece morrer mais de uma vez essa coisa.

    Eu vou parar por aqui, pedindo a você, vigilante do bom e coloquial português, para não esmorecer. Se não tiver nem arma de fogo, nem arma branca, mate a desgraçada com as próprias mãos ou de um jeito criativo. Sempre tem uma frigideira por perto para você bater sem parar num escopo da vida.”

  • Dez mil metros de altura

    April 12th, 2010

    Eis-me aqui, na poltrona 31C, corredor, no voo 120 da Delta Airlines com destino a Nova Iorque. Acabamos de passar por uma turbulência. Tenho plena consciência que não foi das mais severas, mas para um fóbico aéreo recalcitrante é sempre uma coisa que beira o apavorante. O que ocorre de especial neste vôo é que resolvi fazer uma auto-análise de campo em tempo real.

    O meu homeopata uma vez perguntou do que exatamente eu tinha medo, o real motivo de eu sentir formigamento no saco, frio na barriga, boca seca e uma vontade louca de dar um berro quando as portas da aeronave de fechavam. Após a minha resposta meio rebuscada ele concluiu simpeslmente “bem, você tem medo de morrer”. Não era isso que a minha resposta rebuscada merecia como conclusão, mas enfim, ele é o doutor e eu o paciente.

    Mas se ele estivesse na poltrona 120 D, agora, e fizesse a mesma pergunta, a minha resposta seria bem diferente. Talvez nem medo seja, mas a sensação de completa impotência, de dependência. Aqui em cima, estou nas mãos de uma fila de gente, menos nas minhas. Nas mãos dos projetistas da aeronave, dos construtores, dos mecâncios, do piloto e do co-piloto, dos acionistas da companhia aérea (vai que eles são sovinas e resolvem ganhar as custas da revisão das peças?) e, para os religiosos mais fervorosos, turma que , a esta hora e a esta altura eu também me incluo, estou nas mãos de Deus. Este é o meu torturante ciclo de dependência.

    Estar nas mãos de outrém me faz sentir como se eu fosse de papel, sabe? O vento sopra levando você pra lá e pra cá, a esmo. O papel não decide nem o que escrevem sobre ele. Não tem a menor ingerência sobre ele ser parte de uma obra-prima da ou um desastre completo da literatura. É fino e frágil. É assim que me sinto neste exato momento, doutor. Uma folha de papel conduzida por algo tão grande, que nem consigo enxergar o que é. São dez e trinta. Ou seja, serei uma folha de papel por mais oito horas e 43 minutos. Ah, que saudade do caderno do qual me arrancaram.

    -x-

    Eu não sei se acontece com vocês, mas comigo é comum. Quando morre alguém que você acha muito chato e todos prestam homenagens ao falecido, eu me sinto um pústula. Um ser a margem dos sentimentos humanos mais nobres. Estou vivendo exatamente um destes momentos. Sempre achei o Armando Nogueira um dos bípedes mais chatos que ja andaram por este planeta. Meus contatos com o jornalista em questão se resumiram em grande parte a programas esportivos na televisão. Achava-o, além de chato, um dos maiores representantes da turma que tinha como lema nunca escritgo “for a de Rio e São Paulo não há salvação”.

    Por isso, nunca me interessei por nada que ele escreveu. Cruzei uma vez com uma de suas crônicas meio que por acaso. Acho que foi no Jornal Nacional. O tema da tal crônica, que leram com pompa e circunstância no ar para todo Brasil, foi o doping do Ben Johnson na Olimpíada de…sei la, esqueci. Era uma apologia ao politicamente correto. As frases começavam sempre com “O que é isso, negão?”. Hoje, o “negão” do texto não seria visto como politicamento correto e provaelmente ele seria chamado a dar explicações aos insuportáveis bons moços de plantão que pululam o nosso mundo nos dias de hoje. Ou, mais provável, escreveria: o que é isso, afro-descendente?

    Houve um outro episódio, lembro-me bem. Estava ele, num programa de televisão junto com Luis Fernando Veríssimo. Em dado momento do programa, ele pergunta ao escritor gaúcho se era verdade que o mesmo tinha uma facilidade de decorar a escalações de times antigos. Notório botafoguense, Armando pediu para
    Veríssimo escalar o Botafogo de alguma década distante. Veríssimo disse, “prefiro escalar o Internacionai de quarenta e poucos” – o único defeito do Veríssimo que eu saiba, é justamente torcer para esse time. O chato do Armando, que para ficar ainda mais chato, é daqueles que fica tocando no seu interlocutor toda vez que fala, insistiu e Veríssimo fincou pé. E não escalou o querido Botafogo. Essa foi uma das duas ou três vezes que eu torci por um colorado em toda a minha vida.

    Mas voltemos a minha culpa. Estou aqui me remoendo em culpa, enquanto todos homenageiam “o mesmtre”. Sou um crápula, bandido, um insensível, um criminoso. E eis que, em uma dssas tantas homenagens ao falecido, alguém publica uma crônica do falecido após a vitória do Brasil sobre a Itália em 1970. E não é que o tal texto do Armando é de fino trato? Fui dar uma olhada em outros e o cara tem frases realmente brilhantes. “A bola é uma flor com cheiro de gol nos pés de Zico”. Baita frase. É um jeito lindo de se dizer uma verdade. Po, Armando, você não podia ser tímido e pouco falante como o Veríssimo, que você tanto encheu para que escalasse o seu Botafogo? Fosse assim não estaria me sentindo este crápula irrecuperável.

  • Um metro e sessenta e sete

    March 22nd, 2010

    O velório já durava algumas horas. A viúva, dona Lucinda, já não tinha mais forças nem para ouvir os sentimentos alheios. Toda aquela lamúria, a palavra pêsames, tudo já havia perdido o verdadeiro sentido. Pobre mulher. Uma morte tão repentina e o velório não amenizava em nada o seu sofrimento. Na verdade, velórios só servem para aumentá-los. Notando o seu estado deplorável, Camila, sua filha, tomou-a nos braços no intuito de levá-la para casa, onde tomaria um um banho relaxante e trocaria as roupas.

    Ocupando o centro da capela estava o caixão aberdo do doutor Vicente, cujo corpo se encontrava na posição de praxe. Coroas de flores ladeavam o caixão. Eram duas. Ainda havia muita gente na capela quando chegou Felipe. Era o sobrinho preferido do falecido, uma espécie de terceiro filho – além de Camila, já mencionada, havia também Paulo. Felipe era o único filho da única irmã do doutor Vicente, Glória. O rapaz perdeu o pai quando tinha ainda 3 anos e passou a ter uma relação muito estreita com o tio. De certa maneira mais estreita que os próprios filhos do doutor Vicente.

    O rapaz nutria um extremo interesse que pela atividade do tio, o direito. Desde pequeno o Felipe acompanhava o tio em suas idas a tribunais, fascinando-se com as imensas colunas, as salas amplas decoradas em madeira e toda a opulência característica destes prédios. Após atingir a adolescência, a fascinação de Felipe só fez crescer. O rapaz atirou-se de corpo e alma na leitura de espessos livros de direito Civil, Penal e Romano, muito antes de ingressar na faculdade. O tio incentivou o quanto pode a vocação do sobrinho e nasceu daí uma grande amizade. Os dois costumavam permanecer horas a fio na biblioteca do doutor, estudando e discutindo os grandes julgamentos da história.

    Felipe se postou ao lado do caixão enquanto olhava para o tio tão querido. Lembrava que o falecido quando vivo sempre dizia que não morreria assim tão fácil. Que iria enganar a morte algumas vezes. E que tudo era um forte pressentimento. Dizia que a única tristeza era que a esposa iria antes dele. Mas o pressentimento do tio não era assim tão forte, pensava o rapaz. A morte o enganou e não havia mais nada a fazer a não ser orar pela alma do falecido. Mas suas orações foram subitamente interrompidas pelo insólito. Felipe jurou ver os olhos do tio, ainda fechados, se mexerem, exatamente como alguém faz quando está sonhando. O coração do jovem rapaz acelerou ao perceber a repetição do movimento. E então, como que acordando de um pesadelo, o defunto levanta de sopetão com um grito, permanecendo sentado no caixão.

    Desmaios, corre-corre, espanto generalizado. O doutor Vicente ressucitara diane dos olhos de pelo menos trinta e poucas testemunhas. Ainda sentado no caixão, o ex-falecido encarou o sobrinho que estava quase catatônico.

    – Felipe? O que você está fazendo aqui, meu filho

    O doutor Vicente ainda não tinha a menor idéia do que estava se passando. Aos poucos foi se dando conta de onde estava.

    – Mas o que eu estou fazendo aqui? – Pergunta o estupefato doutor Vicente.
    – Tio? – Balbucia o sobrinho.
    – Isso é um caixão! Um caixão! Eu estou dentro de um caixão! – Exalta-se o doutor.
    – É. – responde o sobrinho com os olhos arregalados. – O senhor voltou. Tal qual Lázaro.

    Muitos vieram em socorro do doutor Vicente, que na verdade sofria de catalepsia, fato descoberto ali, a duras penas, mas que, felizmente, teve o desfecho ainda no velório e não embaixo da terra.

    Aos poucos tudo foi voltando ao normal dentro da capela. Tiraram o doutor de dentro do caixão e o puseram sentado numa das cadeiras da capela. Deram-lhe um copo de água. Ele perguntou pela esposa.

    – Acho que ela já está a caminho com a Camila, pai – respondeu Paulo, o filho.
    – Então ligue pra elas – preocupa-se o ex-falecido. – Seria bom alguém avisar a ela antes de me ver aqui sentado.

    Seria mesmo. Afinal, não seria nada bom dona Lucinda e a filha encontrarem marido e pai ressucitado sem aviso prévio. Sabe-se la que consequências isso acarretaria. Tentaram o celular mas nada. Só dava caixa postal. Paulo foi para a porta do cemitério tentar encontrar as duas antes de chegarem a capela. O que ninguém contava é que, ao voltar para o cemitério, Camila e a mãe viessem por uma entrada alternativa. Mas foi o que elas fizeram. Mãe e filha cruzaram os corredores e, ao entrar na capela, dona Lucinda dá de cara com o caixão vazio. Ainda meio sem entender, ela vira um pouco a cabeça e encontra o doutor Vicente ali, vivíssimo, sentado e cercado por parentes e amigos. É demais para aquele coração cansado. Ela tem um ataque cardíaco fulminante e morre ali mesmo.

    Dona Lucinda, que Deus a tenha, tinha exatamente o mesmo tamanho do doutor Vicente. E após todos os procedimentos de praxe, o corpo dela acabou ocupando o mesmo caixão onde antes estava o seu quase falecido marido. E Felipe passou a confiar cegamente nos pressentimentos do seu tio.

  • Presente de Natal

    March 14th, 2010

    O garçon observava aquele homem sentado na mesa quatorze. Era sempre a mesma mesa, toda a quarta-feira já fazia três semanas. Antes disso, nunca o tinha visto. O homem olha o garçon de soslaio, ergue o copo de uísque vazio num pedido silencioso por mais uma dose. O garçon pega a garrafa, que usa como chapéu um medidor metálico, o balde de gelo e coloca tudo na bandeja. Vai até a mesa do homem solitário, coloca mais três pedras de gelo num copo baixo e serve o líquido que transborda do medidor por um ou dois segundos. Vira o medidor deixando cair todo o líquido no copo. Ouve apenas o estalar do gelo e o melancólico “obrigado” que vem de alguma parte funda do homem solitário da mesa quatorze.

    Ele se chama Luiz Onofre. Executivo de uma grande multinacional. Ele olha fixamente para o neon do restaurante em frente ao bar onde está. As palavras “Ristorante Da Mama” tremeluzem em verde, branco e vermelho. Na rua, pessoas passam apressadas com pacotes e sacolas. Estamos perto do Natal, tudo funciona até mais tarde. Um Papai Noel toca o seu sino pedindo ajuda, uma sobra do natal dos afortunados para os desafortunados sem Natal. Na última vez que esteve no bar, na quarta anterior, esse Papai Noel abnegado estava no mesmo ponto. Lembra-se de ter deixado algumas moedas na caixa dele quando saiu do bar. Voltou as atenções para o restaurante. O filho da mãe estava lá dentro como em toda a quarta-feira. Havia seguido a rotina do desgraçado. Hoje, tudo ia terminar. Deu um longo gole no seu uísque, de olhos fechados. O líquido invadiu suas entranhas, como as lembranças tristes abrindo caminho pela mente.

    A imagem do carro da esposa com as rodas viradas para o céu, o velório, a cremação, o fim inesperado e lancinante aberto e purgando no peito. A pergunta feita para si mesmo repetidas vezes: por que ela corria tanto? E, de repente, um filho adolescente que ele na verdade mal conhecia, porque tinha se dedicado à carreira como um faminto que finalemte encontra um generoso prato de comida pela frente. Quando quis preencher o abismo entre eles, ja era tarde. Não sabia como falar, o que falar, como agir. Não lembra do último abraço que tinha dado em Alexandre, mas lembra de todos os motivos que o levaram a faltar à maioria das festas de aniversário do filho. Foi a menos de cinquenta por cento das dezessete. Quem preencheu o vazio que a mãe deixou foi outra pessoa. Um traficangte conhecido como Chantal.

    Era para Chantal que o filho de Luiz trabalhava quando morreu. Aliás, foi exatamente por trabalhar para ele que acabou morrendo. Vendia drogas na escola e começou a ganhar o seu próprio dinheiro. Orbitava o mundo do traficante. Cheio de mulheres fáceis, de dinheiro fácil, de carros fáceis, de fama fácil. Luiz perdeu fragorosamente o jogo para Chantal. Não conseguia encontrar uma porta pela qual pudesse passar pelo muro criado pelo filho justamente para mantê-lo afastado.

    Mais um gole e a sua mente viaja para o dia em que olhava para o filho estendido no chão. Um tiro na boca, foi o que disseram os policiais. “Dizem que esse Chantal atira na boca de quem sabe muito.”, dizia o policial consternado e impotente. “O senhor fique tranquilo, pois vamos fazer de tudo pra pegar esse filho da puta que matou seu menino”.

    Luiz sabe que o policial queria acreditar naquilo que acabara de dizer. Mas não havia provas, embora todos soubessem quem era o mandante, não havia muito o que fazer pelo lado oficial. Luiz passou a seguir o traficante. Queria saber se na rotina de Chantal haveria um momento de fraqueza, de descuido em que ele pudesse acabar com a vida de quem tirou a vida do filho. Acabou encontrando. Toda quarta-feita, Chantal jantava no “Ristorante da Mama”. Sozinho. Incógnito. Não entende como nunca aconteceu nada com ele nesse momento de descuido. Ele deveria ter pencas de inimigos. Talvez fosse protegido por algum deus dos bandidos. Sabe-se lá. Mas isso terminaria hoje.

    Pediu a conta. Deixou a polpuda gorjeta de sempre. Passou pelo Papai Noel e deixou uma boa soma em sua caixa de coleta. Postou-se nos fundos do restaurante. Lá estava o carro do traficante. Não o que ele sempre usava, que era muito mais espalhafatoso. Um carro comum, sem graça, fácil de passar desapercebido. Pegou a pistola que conseguiu no mercado negro. O mesmo tipo e calibre que tirou a vida do filho. Quando Chantal saiu pela porta dos fundos, sozinho como de costume, Luiz ordenou.

    – Parado aí, filho da puta.

    O traficante levou um susto. Genuíno. Olhou nos olhos do seu algoz. Aqueles olhos não eram de um algoz, concluiu. Recupoerou a confiança e a arrogância.

    – E quem é você?
    – O cara que vai acabar com a tua raça.
    – Bom, tem muita gente querendo acabar com a minha raça. Eu realmente dou muitos motivos. – Chantal ganha tempo porque sabe que quanto maior a demora para Luiz puxar o gatilho, maiores são as chances de desistência. – Qual o que eu dei a você?
    – Você matou o meu filho.
    – Eu matei o filho de muita gente.

    Luiz comecava a fraquejar. Por mais raiva que sentisse daquele verme a sua frente, puxar o gatilho e acabar com uma vida, mesmo aquela vida, era algo assustador. Ele não iria conseguir.

    – O Alexandre, seu filho da mãe.
    – Ah, você deve ser o Luiz, como é mesmo? Onofre.
    – Cala a boca.
    – Ta com medo de ouvir o que você ja sabe? Que eu fui mais pai pra ele do que você?

    Luiz estava com raiva. Com raiva porque o verme estava certo. Com raiva da mulher que adorava andar com carro em alta velocidade. Com raiva dele mesmo, que não tinha nem coragem de puxar o gatilho. Chantal sentiu isso e, sorrateira e vagarosamente, preparava-se para pegar a sua pistola. Iria “juntar pai e filho”, pensou na hora, com certo prazer. Seria fácil. Nesse momento tenso os dois ouviram uma risada muito familiar. E muito fora de propósito para aquele momento. Viraram-se para o ponto de onde vinha a risada. O Papai Noel que angariava fundos para os menos necessitados estava lá, parado, segurando uma pisgtola em cada mão, apontadas para o traficante. Desta vez Chantal percebeu que estava perdido. Os olhos por trás daquele barba falsa eram realmente frios.

    – Não precisa fazer isso, Luiz – diz o Papai Noel. – Eu fui pago pra apagar esse lixo que matou seu filho.
    – Como assim?
    – Esse rapaz que parece todo poderoso também presta contas para alguém. Seu filho acabou testemunhando uma transação na qual esse aí iria ter um lucro maior do que o que era dvido a ele às custas de quem ele deve prestar contas. Soubemos, claro. Sempre sabemos. Agora baixe a arma, deixe comigo. Eu faço o serviço pra você. Considere um presente de Natal.

    Luiz obedeceu. Saiu sem olhar pra trás. Ouviu as suplicas de Chantal e depois, uma salva de tiros. Não contou quantos. Iria saber o número exato lendo os jornais do dia seguinte

  • Morgado e os comentaristas esportivos

    March 7th, 2010

    Morgado é mau humorado. As barbaridades que ele percebe e com as quais ninguém se incomoda o deixam nesse estado. Tem dias que ele acorda sem entender porque vive no mundo onde alguém é pago para dar opiniões. “Opinião eu, você, todo mundo tem. Já se perguntou porque a opinião de um jornalista é melhor que a sua? Por que a deles vale um bom salário e notoriedade e a sua não?” Morgado se pergunta muito. Por isso é tão mau humorado. E por isso ainda não casou.

    Os que mais irritam o Morgado são os “luminares do futebol”. Para Morgado, o futebol “é matéria fácil. Esporte nacional, todo mundo entende. Então por que opinião de um sujeito tão douto quanto eu em assuntos que ocorrem dentro das quatro linhas vale mais que a minha? O geraldino não entende que o que um colunista escreve no jornal ou diz em mesa redonda é tão bom, ou ruim, quanto o que ele mesmo fala na mesa do bar.” Morgado se irrita, porque o geraldino da mesa do bar aceita ser inferior ao sujeito da mesa redonda como torcida que abandona o estádio ao ver o time da casa tomando o quinto gol sem ter feito nenhum aos trinta e cinco do segundo tempo.

    Morgado é mau humorado, porque eles são todos engenheiros de time pronto. “E quando comentam sobre como escalariam as equipes? ‘Se colocar fulano aqui no lugar do cicrano, deslocar o beltrano para a direita a dinâmica de jogo melhora e o time flui. Se técnico não fosse tão teimoso o time estaria melhor na tabela.’ E seguem queimando o treinador, essa Joana D’Arc das casamatas, sem dó nem piedade. Contam com a ja conhecida amnésia nacional persistente, pois quando nada do que ele falou se confirma ninguém mais lembra. E se o treinador lembrar e cobrar é ‘porque não sabe receber críticas’”

    Morgado perde mais o seu humor, porque eles têm a mais absoluta das certezas que “que entendem mais do riscado do que os que ralam no dia a dia, sujeitos a erros e acertos, porque, afinal, são seres humanos como eu, você e até o sabe tudo dos microfones e colunas” ele nnao pára e emenda. “Imagina se todo mundo fosse para o seu trabalho e no final do dia fosse obrigado a ouvir um pequeno julgamento sobre o sua atuação: ‘fulano cometeu muitos erros de digitação e o relatório ficou muito aquém do aceitável. Mas também, o fulano sai toda quarta para a happy hou. É por essas e outras que anda fazendo relatórios fracos ultimamente. Sem falar que abandona a mesa frequentemente pra tomar cafezinho.’ Já pensou no inferno que seria? Pois é, idiota sou eu, que penso”, conclui.

    Morgado é mau humorado, porque “eles têm aquele olhar de superioridade e a empostação dos acadêmicos.Pra falar de futebol? E eles ainda dão nota. Não é demais? Vêem os jogadores como colegiais debilóides que correm atrás da bola. É três para o fulano que errou todos os passes, cinco para o cicrano que falhou na marcação e seguem distribuindo canetaços diretamente das salas refrescadas pelo ar condicionado das redações aos que suaram em bicas dentro do campo e têm o direito de acordar um ou outro dia com o pé esquerdo como qualqeur um de nós.”

    Um dia, Morgado encontrou um desses comentaristas quando saía do restaurante. Ao ver o sujeito a mesa, comendo um espaguete a carbonara não teve dúvidas. Parou na frente dele e disparou:.”Sua crônica de ontem foi patética. Repetiu a frase “valorizar a posse de bola” oito vezes, disse no primeiro minuto do jogo que o técnico se enganou a escalar o fulano numa posição que rende menos e o fulano foi o melhor em campo. Pediu desculpas para o técnico no final? Não. Esqueceu o assunto. Quer saber, sua nota é um. E é porque eu estou muito generoso hoje.” E deixou o homem lá plantado com o garfo de espaguete a carbonara a meio caminho da boca.

←Previous Page
1 … 12 13 14 15 16
Next Page→

Blog at WordPress.com.

  • Subscribe Subscribed
    • contandoumas.com
    • Already have a WordPress.com account? Log in now.
    • contandoumas.com
    • Subscribe Subscribed
    • Sign up
    • Log in
    • Report this content
    • View site in Reader
    • Manage subscriptions
    • Collapse this bar