• Pais em tpm apresenta: Uma e meia

    August 2nd, 2010

    Felicio abriu os olhos de repente. Era como se não tivesse aberto, pois a escuridão do quarto era imensa. Vagarosamente, formas foram aparecendo na escuridão, denunciando o aumento de sua pupila. Ouvia respiração relaxada da esposa ao seu lado. Dormia tranquilamente. Que horas seriam? Tateou a mesa de cabeceira procurando o relógio de pulso. Encontrou. Só então acendeu a luz. Meia noite e quarenta e dois. Conclui o óbvio. Tinha dordmido no máximo durante meia hora. Sentou-se na cama e a medida em que os segundos avançavam a consciência ia se inteirando das coisas. Perguntou-se por que diabos tateou o relógio no escuro e só então acendeu a luz? Não seria mais lógico ter feito o inverso? Estava inquieto e aquela meia hora de sono seria o máximo que ele conseguria naquele momento. Apagou a luz novamente, levantou-se e, antes de abandonar o quarto, ouviu o ressonar da esposa acompanhado de um movimento. Deiva ter se revirado. Mas continuava dormindo. “Como ela consegue?”, ele se pergunta.

    Felicio abre a geladeira. Está cheia. A carne crua prenunciando o churrasco no dia seguinte. Um belo pedaço de alcatra, outro de picanha. Salsichões, coração para a criançada. Eles adoram coração de galinha no espeto. Misturam tudo com farinha e se lambuzam. Um cachorro late la fora. Ele aguça o ouvido. Nada. Ele avistra a ambrosia. É irresistível. Serve-se de uma generosa porção e vai até a sala. Senta-se na poltrona, pega o controle remoto e liga a tv. Abaixa o volume até ele sumir. Ele não está interessado no que está passando, apenas quer a companhia de algo que está acordado. Ele saboreia a ambrosia em colheradas lentas. Gruda aquela pasta doce meio granulada no céu da boca, prensando com a língua. É uma sensação maravilhosa. Ele olha pra o telefone enquanto pensa. “Será que eu ligo? Eu prometi não ligar.” Felicio não pára de pensar. Ele pega o telefone. “Azar.” Nove, nove, cinco, oito…”Não. Onde estou com a cabeça!” Olha para o relógio e são uma da manhã. Não há nada errado. Ainda. Falta meia hora. Os próximos trinta minutos serão cruciais. Ele tenta não pensar e se concentrar na ambrosia. Na televisão, um homem degola outro num parque. A noite. Aquela imagem não ajuda em nada. Muda de canal. Lobos correm na estepe perseguindo coelhos. Muda novamente. Victor Mature aparece com aquela cara de bebê chorão. “Que canastrão!”, ele pensa. Abre um soriso. Mas é um sorriso carregado, contido. Victor Mature está meio descolorido. “É o Manto Sagrado”, Felicio conclui em pensamento. “Meu Deus, ainda exibem o Manto Sagrado perto da semana santa.” Felicio aumenta um pouco o som da televisão. O filme está dublado. Dublagem dos anos 60. São uma e dez da manhã. Ele termina a ambrosia e olha para o telefone de novo. Está chegando perto. Ele já sente a derrota iminente. Faltam quinze minutos. “Eu sabia”, pensa. “Eu sabia.” De repente, ele pensa em outra possibilidade. A violência la fora. “Onde eu estava com a cabeça quando deixei?”, clupa-se falando para o Victor Mature. Uma e vinte e três. O cachorro late. Um som de carro. Ele corre para a janela. Vê a Isabela saindo do carro. Vem em direção a porta da frente escoltada pelo namorado. Ela cumpriu o prometido. Chegou antes da uma e meia da manhã. Ele saiu correndo, desligando o Victor Mature no caminho e se enfiando na cama o mais rápido possível. A filha não podia sequer desconfiar que ele havia, por um breve instante, perdido a confiança. Virou para o lado, mas não ia pegar nos sono tão rápido. Agora, era a culpa que não o deixava dormir. Ah, que inveja da esposa.

  • O encontro

    July 26th, 2010

    Encontraram-se na mesma hora de sempre. Encararam-se mutuamente, como de costume.

    – Você ta um tiozinho bem charmoso.
    – Como é que é? Tiozinho?
    – Não, falei um tiozinho bem charmoso.
    – Isso é crueldade. Precisa ser assim cruel?
    – Eu não sou cruel. É só a verdade.
    – Mas tiozinho? Uma palavra imortalizada num comercial de refrigerante sabor laranja artificial? Podia aliviar?
    – Eu diria que é melhor difinição, o que eu posso fazer, eu digo o que vejo.
    – Eu não te perguntei.
    – Você sabe muito bem que minha função não é responder perguntas. Minha função é falar. Parou aqui, eu falo. É incontrolável. É mais forte que eu. É a minha missão nesse mundo.
    – Tiozinho é humilhante.
    – Você queria o que?
    – Sei la. Uma outra abordagem, quem sabe. Mais repeitosa.
    – Ja que você está pedindo vou dar aqui a,gumas opções.
    – Pensando bem, deixa assim.
    – Não, agora provocou. Vou desfilar minha erudção em logismos.
    – Deixa pra la.
    – Você está conservado. Conservado é bom.
    – Não torutura.
    – Hummmm, você está com uma aparência jovial.
    – Pegou pesado.Pegou muito pesado.
    – Calma, tem mais, que tal…
    – CHEGA! Ja entedi.

    Virou as costas e se afastou daquele espelho maldito, mas aina deu tempo de ouvi-lo falando “fofo”.

  • O desenhista

    July 24th, 2010

    João Clemente desenhava desde pequeno. Ele não lembra de alguma vez em sua vida que não estivesse com um lapis na mão colocando no papel o seu testemunho em traço firmes das coisas que o cercavam. Seu impressionante sentido de perspectiva e dimensões nasceu com ele. Aos 14 anos, resolveu que o talento nato pedia um pouco de técnica. Entrou para uma escola. Ganhou solidez, nobreza e recursos que o tornaram um verdadeiro artista. Quando fez 16 anos, João resolveu ganhar um dinheiro com a sua arte. Não queria ser como os seus amigos que fganhavam mensada. Foi para uma praça no centro da cidade com um caderno de desenho, um tripé, seus lápis e um banquinho. Se ajeitou em uma área onde a circulação de pessoas era intensa. Colocou la a sua plaquinha. “Caricaturas em 3 minutos R$ 5,00. Retratos R$ 15,00.

    Foi um período muito rico para João Clemente. Ganhou algo que nenhum curso de técnica poderia dar: conhecimento profundo do comportamento humano. Aprendeu enxergar a alma, que mesmo invisível, molda o mundo materia e a reagir de acordo com o que vial. Aprendeu a ser cinico com pessoas que pediam caricaturas e depois as rasgavam tomadas pela ira porque “isso aqui não sou eu”.

    Aprendeu a compaixão ao perceber, no olhar fixo das pessoas que pediam seus retratos, o pavor do que aquele espelho no papel poderia revelar. Com o tempo soube perceber como exaltar o que elas tinham de melhor, ou, se não tivessem, podia inventar algo para que elas saissem felizes com a sua versão em crayon no papel.

    Aprendeu a ler os olhos das pessoas e perceber que as criancas tinham um olhar igual ao papel branco a sua frente, puro e totalmente aberto para receber o que a vida resolvesse desenhar neles.

    Aprendeu a custo de sua própria consciência que não exitem atos incionsequentes.

    Era um dia como qualquer outro. João estava na mesma praça com seu caderno, seu tripé e o seus lápis. Ja anoitecia e ele pensava em ir embora quando dois policiais apareceram na sua frente. Eles escoltavam uma mulher, pequena, loira com os olhos borrados de sombra desfeita pelas lágrimas que ainda caiam. Ela tremia e soluçava.

    – Você desenha rostos, não é? – Perguntou o policial mais velho. – Eu vejo você por aqui. Você é bom nisso.
    – Obrigado.
    – É o seguinte, essa mulher acabou de ser assaltada. Eu quero que você faça um retrato falado do assaltante.
    – Eu não sei fazer retrato falado.Eu faço retratos e caricaturas das pessoas que estão na minha frante.
    – Meu filho, você vai ter que se esforçar. Isso pode ajudar a gente a pegar o cara ainda hoje.

    João relutou, mas acabou concordando com o policial. Sabia que era um despropósito, mas de que adiantaria argumentar mais? Ele pegou um papel, o lápis e a mulher foi descrevendo o sujeito. Ele foi seguindo aquelas as instruções truncadas por os soluços e fungadas. Lembrou-se das aulas de proporção e foi fazendo o que lhe desse na telha. Ele sabia muito bem que aquele não era o rosto do criminoso, mas também, não era o rosto de ninguém. Aquilo não ia dar em nada. Ao terminar, entregou a ela o desenho e ela apontou firme para o rosto no papel “Sim, é ele, é ele!”. Claro que não era, pensou João Clmente. Aquele era um rosto que não existia. Mas a mulher naquele estado confirmaria qualquer rosto que ele fizesse. O que ele queria mesmo era se livrar daquila missão o mais rapido possível.

    Minutos depois, ele ouve gritos. É ela, a loira do olho borrado novamente. Os policiais trazem com eles um homem algemado que jura inocência. João Clemente corre para ver de perto. Olha bem para o rosto. Seu coração dispara. É incrivelmente parecido com o desenho que ele tinha feito a alguns minutos atrás.

    – Parabéns desenhista – diz o policial.
    – Obrigado, moço – repete a loira.

    João simplesmente não conseguiu dizer que o rosto que ele fez foi completamente cirado do nada. Ele olhava para a vítima na esperança dela cair em si e dizer que aquele não era o ladrão, Mas em sua confusão mental, a pobre e perturbada mulher afirmava ser aquele o assaltante e ainda apontava para o retratpo falado, que agora estava na mãos dela como se fosse prova insofismável.

    João foi para casa naquele dia sem saber o que fazer. Mal tocou na comida e foi se trancar no quarto mas mesmo assim não conseguia se livrar da sensação de estar sendo vigiado por alguém superior com cara de poucos amigos. Resolveu acabar com aquile sentimento. Tirar o peso insuportável. Saiu em direção a delegacia para onde foi levado o inocente e ao chegar la viu o policial com cara consternada.

    – Olha, o desenhista.
    – Onde está o homem que vocês prenderam?
    – O assaltante? Morreu.
    – O que? Como assim, morreu?
    – Você sabe como é. Ficou numa cela com outros presos esperando os procedimentos. Deve ter se metido am alguma treta com outro detento. Mataram. Essa gente se merece.

    João aina não pegou num lápis. Ja faz cinco anos.

  • E o palhaço o que é? – Final

    July 5th, 2010

    Cada vez que ia a um lugar público com Vera, tremia com a possibilidade de encontrar uma das três Marias por acaso. Elas seguiam me indicando para festas, mas as idas ao “nosso apartamento” para sessões de sexo estavam se tornando mais escassas, com excessão de Maria Amélia. Ela realmente não havia percebido nada de diferente no meu comportamento. E continuava se divertindo. Eu procurava ir com Vera a lugares onde a possibilidade de encontrá-las se aproximasse do zero por cento. Sempre escolhia uma mesa em que eu pudesse ficar de frente para a porta de entrada para ver quem entrava. Prestava atenção nos carros no estacionamento. Meu comportamenteo não passava desapercebido por Vera.  Era evidente, por algumas mudanças en seu semblante, que ela percebia o meu comportamento um tanto suspeito, mas, mesmo assim, nunca havia me confrontado. No máximo um “tudo bem?”e mais nada. Até que um dia tudo parecia ter desandadeo de vez. Estavamos em um restaurante quando noto Maria Amélia entrando pela porta. Pôs os olhos em mim assim que passou da porta. Lançou-me o seu típico sorriso de criança. Meio disfarçado, pois estava com o marido e os filhos. Uma estalactite entrou pelo meu estômago. Naquele momento, Vera segurava a minha mão demonstrando todo o carinho do mundo. Eu fiquei lívido. Uma estalactite de gelo imaginária penetrou meu estômago. Sabia que Maria Amélia não viria falar com a gente, já que estava com toda a família. Passou direto por nós e foi sentar-se em uma outra mesa, longe da minha vista.

    Desta vez nnao houve como Vera não me interpelar. Se uma mulher inteligente percebe uma mínima mudança molecular no comportamente de um homem, imagine uma surpresa daquelas estampada na minha cara como um luminoso de motel.

    – Você está bem?
    – Como assim?
    – Você não está bem – ela fica séria. – Quando homens querem sair pela tangente sempre dizem isso.

    Já tinha ouvido aquilo recentemente. Maria Clara veio a minha mente na hora.

    – Eu não sei o que é – faço voz de doente. – Acho que é o camarão. Tem vezes que não cai bem.
    – Quer ir para casa?
    – Se você não se importa.

    Quando saí do restaurante o ar puro invadiu meus pulmões com a força da cavalaria salvadora. Estava, em parte, aliviado. Mas seria lógico pensar que Maria Amélia iria comentar a cena de amor entre mim e uma chinesa muito bonita na mesa do restaurante. Estava me sentindo muito mal pelo fato de elas saberem da minha relação com Vera daquele jeito. Fui arrancado de meus pensamentos por um beijo doce, quente no meu rosto. Vera e seu carinho oriental. Olhei para ela e as minhas preocupações se esvaneceram. Ela era perfeita. Uma chinesa da ponta dos pés ao último fio de cabelo. Mas fora os traços, era tão brasileira quanto o seu primeiro nome. Nada de paciência oriental, nada de provérbios milenares para me dar alguma lição. E mais um item de atração: dirigia como um homem. Muito melhor do que eu. E olhando para aquela mulher dirigindo furiosamente pensei que seria um verdadeiro ato de amor contar tudo para ela. Tinha que reunir coragem e cuspir aquilo de uma vez. A coragem que não tive com as três Marias eu devia a ela. Eu precisava fazer isso o quanto antes.

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    Passaram-se mais de duas semanas daquele encontro fotuito no restaurante e nada demais havia acontecido. Eu via Vera praticametne todos os dias. As festas continuavam a aparecer na minha agenda. A única diferença é que eu não havia recebido nenhuma ligação de qualquer uma das três Marias. Aquele silêncio me deixava tenso. Pensei em ligar para Maria Clara algumas vezes. Eu a tinha como ponto de referência. Tudo havia começado por ela. Até porque, como já disse, tinha Maria Clara como a mais carente dentre as três, apesar de sua casca de mulher decidida. Na verdade, eu tinha mais medo dela do que as ameaças do Xuxu e o seu mentor, o palhaço Xexé.

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    Estava em casa treinando novos truques para as festas e pensando seriamente em falar com as três para desfazermos o nosso trato quando o telefone tocou. Era Maria Alice.

    – Oi, Alê.
    – Maria Alice – meu coração disparou – por onde vocês andavam?
    – As outras eu não sei. Eu estava viajando.
    – Onde você está?
    – No nosso apartamento.
    – Fazendo o que?
    – Esperando você – era possível sentir o aroma de dry martinoi saindio pelo poros do telefone. – Pega o Peraltinha e vem.

    Pensei em dizer não. Mas vi ali uma oportunidade para conversar com ela sobre tudo. Ligaria de lá e chamaria as outras duas. Estava decidido. Seria assim, embora Maria Amélia tivesse me visto no restaurante com Vera, eu tinha mais a contar, a história inteira. Todas elas mereciam o meu respeito. Elas mudaram minha vida. O mínimo que eu poderia fazer era ir até lá e contar sobre Vera olhando nos olhos de cada uma delas.  Antes de sair vi a caixa do Peraltinha. Não teria sentido levá-lo.  Mas pensei bem e achei que seria um bom presente de despedida para Maria Alice. La fomos os dois para a garçoniere. Pela última vez.

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    Quando cheguei ao apartamento a porta estava entreaberta, como na primeira vez que entrei lá. Empurrei e não a vi ninguém lá dentro. Dei dois passos e o mundo escureceu. Quando voltei a mim estava sentado no sofá com as mãos atadas, usando minha fantasia de palhaço. Maria Alice estava em pé na minha frente apontando uma pistola em direção a minha testa numa mão, enquanto segurava uma taça de dry martini com a outra. Peraltinha jazia desajeitado sobre o sofá, com um furo de bala na no meio dos olhos. Ela tinha o rosto transfigurado.

    – Minha cabeca está doendo – tentei permanecer calmo. – Com o que você me bateu?
    – É só eu apertar o gatilho que passa, seu filho da puta.

    O bafo de vários dry matinis ja consumidos saiam pela boca junto com os impropérios mal articulados também pelo efeito da bebida.

    – Talvez você não acredite, Maria Alice, mas eu vim aqui no intuito de contar tudo.
    – Depois que a Maria Amélia nos contou? Muito fácil.
    – Onde estão as duas?
    – Sei lá – balbucia.
    – Elas sabem que você está aqui me apontando isso?
    – Elas não viram nada de mal em você estar dando atenção para outra. Compreendem perfeitamente. Queriam até fazer almoço de despedida. Muito compreensivas, as idiotas.
    – Desculpe a sinceridade, Maria Alice, mas se você puxar esse gatilho, a idiota vai ser você. Eu vou desta para melhor e você para a cadeia.
    – Eu amava o Peraltinha e você, seu palhaço.
    – É o que eu sou.
    – Você não é mais meu e nem vai ser de mais ninguém. Vou enterrar você e esse boneco na mesma vala.

    E cá estou eu. Vestido e maquiado de palhaço por Maria Alice quando estava inconsciente. Olho fixo para o reflexo do meu nariz vermelho no cano prateado da pistola. Estamos em silêncio. Meu coração apertado, batendo como nunca, talvez querendo pulsar tudo o que pode antes de parar. Ela arfando e liberando seu hálido de dry martini na minha frente, a arma apontada firmemente na minha testa. Olho para o lado e vejo Peraltinha caído desajeitadamente no sofá com aquele buraco na testa e um sorriso idiota na face. Estou esperando ela decidir quando parto desta vida quando, subitamente, dois sujeittos invadem a sala bruscamente. Um brutamontes com um revólver na mão e um outro mais magro com um boneco na mão. Maria Alice vira a cabeca na direção deles.

    – O que é isso? – Assusta-se. – Quem são vocês?
    – Eu é que pergunto – Xuxu responte. – Quem é você, sua vaca?
    – Sou a dona do apartamento que vocês estão invadindo.

    Ela desvia a arma de minha cabeca e aponta para eles. Muscles, em resposta, aponta a sua arma para ela.

    – Saiam já daqui! – As palavras dela saem pastosas.
    – Não sem antes acertar contas com esse palhaço no sofá, sua puta.
    – Calma, Xuxu – interrompe Xexé no seu tom sibilante. – Parece que a dama vai fazer o serviço para a gente. O seu coleguinha já levou um teco bem no meio dos olhos.
    – Dama nada – responde Xuxu. – Uma puta. Puta e gostosa. Puta, gostosa e metida. Eu é que devia mandar o Peraltinha dessa para melhor, caralho!

    Se eu não estivesse duplamente ameaçado de morte, acharia essa cena hilária. O Xuxu é mesmo um pentelho. Aliás, pude perceber que isso tinha causado certa impressão em Maria Alice.

    – E por que vocês querem acertar contas com ele?
    – Minha senhora…
    – Puta, puta e gostosa! – Xuxu interrompe Xexé.
    – Chega, Xuxu! – Xexé perde a calma pela primeira vez. – Este palhaço está intrometendo-se em nosso pequeno círculo de animação infantil e nos tirando um mercado promissor.
    – Em resumo, sua gostosa, ele tá fodendo com a gente – Xuxu não se contém.
    – Nós avisamos a ele para sair por bem. Ele não escutou. Então, passamos a segui-lo e decidimos que hoje seria o dia.
    – Pow, bem no meio dos cornos dele – se não fosse pelo fato de ser um boneco, eu poderia jurar que tinha baba escorrendo da boca do Xuxu – Sua puta gostosa.

    A medida em que o boneco fala mais e mais obsenidades, Maria Alice vai se entregando ao tesão. Ela deixa a pistola cair no chão e lança o corpo contra o de Xexé, dá-lhe um beijo cheio de lascívia enquanto acaricia o boneco. Muscles olha a cena atônico. E eu louco para rir. Um boneco e seu dono. E um boneco boca suja. Era tudo o que Maria Alice queria. Ela parece ter conseguido o seu menage a trois de novo, já que Xexé e Xuxu respontem aos beijos e carícias com intensidade.

    – Vem comigo pra cama. Você e esse boneco deliciosamente pervertido.
    – E ele? – Pergunta Xexé, apontando pra mim.
    – Ele não vai ser mais problema. Você vai ter uma nova empresária. E ele vai sumir do mercado.

    Os três vão para cama e me deixam com o Muscles na sala. Eu vejo os olhos de Muscles que estão postos no falecido Peraltinha. Uma lágrima escorre pelo rosto daquele brutamontes. Peço para ele me soltar. Ele obedece enquanto soluça, triste por ver Peraltinha morto. Levanto. Vou até o banheiro e tiro a maquiagem e a roupa de palhaço. Saio e despeço-me do enorme sujeito que agora segura Peraltinha no colo, desconçolado. Estou louco pra encontrar Vera.  O elevador chega. Entro.  Vou passar em casa antes e tomar um banho. Suei muito embaixo do braço quando estava sob ameaça daquela pistola. Suor nervoso. E fede um bocado.

  • E o palhaço om que é? – Parte 9

    June 28th, 2010

    Os dias

    O reflexo distorcido do meu nariz vermelho de palhaço no cano prateado daquela pistola me incomoda profundamente. Falta pouco para terminar o relato de como eu cheguei até aqui. Na verdade, estou na reta final e isso me apavora, porque tenho a forte impressão de que quando acabar os dedos que estão encostados no gatilho vão pressioná-lo.

    Os dias que se seguiram ao primeiro encontro com Vera e, principalmente, depois daquela primeira vez em que estivemos na cama, foram de apreensão. Em primeiro lugar pelo fato de não ter contado nem a Vera sobre o meu pacto com as três Marias e nem a elas sobre a minha estonteante e definitiva paixão por Vera. Sempre que pensava em falar para as três o meu estômago se transformava em um embrulho malfeito de feira. Sentia um profundo senso de dever para com elas e ao mesmo tempo, justamente por esse senso, sentia que não era justo estar com elas ao mesmo tempo em que outra mulher tomava conta de todos os meus sentidos e do meu coração. Bem, não é preciso dizer que era ainda mais injusto com a própria Vera. Ser desonesto com ela era a principal razão das minhas dores de caebeça e da minha consiência que mais parecia um promotor público apontando o seu dedo acusador para mim debaixo de uma toga encardida e malcheirosa. Não há nada pior do que a indecisão. Equilibrar-se no fio entre duas atitudes, sendo que este fio é tão afiado que maltrata a sola do seu pé. Mas foi o que decidi fazer até achar um meio de contar a elas.

    É lógico que eu passei a me comportar com um certo distancioamento em relação às três. A minha dedicação integral era humanamente impossível. Maria Amélia nem percebeu. Com seu jeito infantil, ela continuou me ligando quando dava na telha e seguíamos trepando por todo aparamento em posições cada vez mais esquisitas. Seguramente é a que mais se divertia. Não era capaz de perceber o meu natural afastamento emocional. Eu era um brinquedo na mão de uma criança. Era a mais desapegada de todas. Uma separação, para ela, seria pouco traumática. Na verdade, não seria trauma nenhum.

    Com Maria Alice seria bem mais complicado. Aquele negócio de menage a trois com o Peraltinha perdera todo o sentido. Passei a me sentir o mais ridículo dos seres humanos e, impulsionado pela paixão verdadeira que estava sentindo, passei a enxergar aquela pobre mulher como uma patológica sexual. Tentei algumas vezes convencê-la a deixar o Peraltinha na caixa e irmos os dois para a cama, mas ela recusava terminantemente a fazer sexo só comigo. O Peraltinha tinha que estar sempre conosco, falando obsenidades no seu ouvido. E “ai de você se não for assim”. Aquele, “ai de você” provocou calafrios que percorreram minha espinha de cima a baixo.

    Maria Clara obviamente percebeu o meu distanciamento. E como sempre foi a mais direta de todas. Não teve problemas em me perguntar tudo. Na cama, depois de uma sessão de sexo, ela acendeu um cigarro e, toda borrada de maquiagem de palhaço que eu estava usando, começou a me questionar:

    – O que é que você tem?
    – Como assim?
    – Como assim é a resposta mais usada para quem quer sair pela tangente.
    – Me dá um trago do seu cigarro? – Desconverso
    – Não, você não fuma – irrita-se. – Por que você está distante?
    – Não sei.
    – Olhe nos meus olhos.

    Comecei a rir.

    – Rindo do que?
    – Desculpe, mas é difícil falar sério com você toda borrada de maquiagem.

    Ela também começou a rir. Os dois riam, um alimentando o outro até o riso virar uma gargalhada retumbante. E naquele momento eu senti algo terno por Maria Clara. Eu a beijei. Ela respondeu o beijo com vontade. E trepamos novamente. E ela não perguntou mais nada. Foi para o banheiro tomar um banho. Enquanto ouvia o chuveiro, ficava remoendo algumas idéias que vinham à mente. Maria Clara provavelmente já sabia que o pacto não ia durar por muito tempo. Talvez soubesse até o porquê. E isso me assustava. Ela me parecia a mais carente das três. As vezes o seu olhar me dava medo. Sinceramente, achava que ela podia ser capaz de qualquer coisa se contrariada.

    Ela saiu do apartamento e me dixou lá. Nem bem bateu a porta e o meu celular tocou. Atendi automaticamente, sem ver o número no visor.

    – Alô?
    – E aí, seu palhaço de merda?
    – Xuxu?
    – Ele mesmo, em madeira e pano.
    – O que é que você quer?
    – Será que aquele aviso amável não foi o suficiente, seu filho da puta?
    – Meu Deus! Só tem porcaria nessa sua boca de boneco?
    – A sua boca é que vai ficar cheia de formigas se você não ouvir o meu aviso, seu imbecil: saia do nosso negócio.

    Ele bateu o telefone com tanta força que o estalo incomodou o meu tímpano. Calafrios percorriam meu corpo de maneira descorndenada. Eu claramente fui ameaçado de morte. Depois, comecei a rir do ridículo. A tal ameaça havia partida de um boneco de ventríloquo pelo celular. Eu devia estar enlouquecendo, pois eu dissosciava o boneco do seu manipulador, o palhaço Xexé. Parecia-me óbvio que aquilo era para me assustar. Estava fora de qualquer razão eu ser assassinato por alguém só porque eu fazia sucesso no meu ramo de trabalho. Ainda mais sendo esse alguém um boneco. Assumi que o tal Xexé era um maluco. Um completo maluco.

  • A malcriação de Dunga é uma benção.

    June 21st, 2010

    Arrisco-me quixotescamente a defender uma causa das mais ingratas e ainda por cima usando um ícone que é atualmente o mais visado pelos defensores das causas que se disfarçam de nobres. Fazer o que? Sou um imbecil que tem realmente uma opinião.

    Fato é que Dunga, apesar de convocar uma seleção que eu também não sou lá muito fã (Felipe Melo, Michel Bastos, Gilberto Silva e Doni é impalatável), tem tido uma atuação exemplar no que tange a desmascarar a casta abjeta conhecida como critica esportiva nacional. Se concordo com os modos de Dunga? A falta de modos dele é que está pondo às claras essa gentalha que se acha acima do bem e do mal, porque se diz representante de uma categoria que se considera “imparcial”. Quanto a isso, vamos logo estabelecer o óbvio: somos seres humanos e, por natureza, a imparcialidade é um conceito ideal, logo, inexistente. Posto isso, voltemos ao nosso malcriado treinador. Ele cometeu o pecado mortal: responder esta gente à altura e com a emoção acima da educação sabuja dos que engolem desaforos em nome da elegância e do medo da desaprovação pública. As favas com a elegância. Essa gente deselegante, arrogante e imbeclizante passa o dia inteiro achicalhando os pobres desafetos tal qual aquelas pobres mulheres acusadas de bruxaria nos idos de 1600. Queimam sem perdão o dia inteiro e o pobre condenado tem que arder quieto, sob a ameaça de, se soltar um gritinho, ser ainda chamado de “dodói”.

    A metáfora acima não apareceu de graça. Dunga, esse insolente, escancara o que eu ja sabia: a esmagadora maioria dos jornalistas esportivos da pátria de chuteiras estão mais para inquisitores da santa fé. As malcriações do nosso treinador são as mãos que removem a pedra do chão e revela os vermes que se contorcem com a luz indesejada do sol. Dados a generalizações e simplismos que ofendem a quem tem mais de três neurônios funcionais, essa gente, por exemplo, chama todo dirigente, pejorativamente, de cartola. Para eles, todos fazem parte de uma quadrilha a mamar nas tetas dos clubes. Todos. Meu pai foi dirigente do Grêmio na década de 70. Entrou lá dono de três casas de comércio. Saiu com uma. As outras duas perdeu por dedicar seu tempo e amor ao clube. Portanto, meus amigos, cartola o caralho. Sim, vou ser tão malcriado quanto o nosso treinador. Vocês não merecem a boa educação que esse mesmo pai me deu.

    Ah, sei o que vocês estão pensando. Estou generalizando também. Não, não estou. La em cima me referi a vocês como “imensa maioria”, portanto, não contem como a minha memória curta, uma das melhores amigas de vocês. Os poucos jornalistas esportivos de verdade estão atolados nessa montanha de prepotência.

    Por fim, caros (e são caros mesmo, se levarmos em conta o número de catedráticos na boca livre da Africa do Sul, tudo pago para sentar no fim do dia a dar pitacos em frente as câmeras), o jornalismo que eu respeito é aquele que prima pela sua base maior: a informação. Jornalista que informa errado devia ser caso de demissão sumária. Quem faz pior? Dunga ou Renato Mauricio Prado que “informou” que Felipão era o novo técnico do Flamengo? Os palmeirenses se divertiram a beça. Eu não. Porque o sujeito continua a dar pitacos de doutor do futebol e do comportamente humano via satélite, mesmo depois de errar grosseiramente no básico da profissão.

    Não me interessa e nunca me interessou a análise dos bedéis da especialização. É muito mais criativo e inteligente, por exemplo, colocar os dois lados opostos de um fato a debater entre si para que nós mesmos formemos opinião, como faz Herodoto Barbeiro toda a manhã na CBN (ah, sim, não é jornalismo esportivo). O que alivia a minha solidão é ler a análise de um destes inquisitores a colocar lenha na fogueira de Dunga, o Impertinente, nos blogs na web e ver que os comentários que vêm da massa leitora são, na imensa maioria, destoantes da opinião desta gente. A internet, esta sim, é uma santa. E a Dunga só peço uma coisa. Não, não é o hexa. Apenas, que continue malcriado.

  • E o palhaço o que é? – Parte 8

    June 21st, 2010

    Vera

    Subitamente, num daqueles dias em qeu chamamos, um dia qualquer, a minha vida deu uma segunda guinada. Eu estava almoçando quando o celular tocou. Não conhecia aquele número no visor, mas isso não tinha nada de anormal. Provavelmente era mais um garotinho fazendo aniversário querendo os serviços do grande Lelé. Atendi.

    – Alô?
    – Por favor – voz feminina do outro lado – é por esse número que entro em contato com o palhaço Lelé?
    – É o meu alter ego – gostei daquela voz.
    – Ahahahah! Muito espirituoso – adorei aquela voz. – Isso é bom. Meu nome é Vera. Eu gostaria de ter você coo atração principal do aniversário de sete anos do meu filho. Você foi muito bem recomendado. Na verdade você é famoso.
    – É muita bondade sua.

    – Poderíamos tratar disso frente a frente? Gostaria de conhecer você pessoalmente. Nnao abro mão disse antes de contratar quem quer que seja.
    – Quando?
    – Hoje à tarde, lá pelas quatro horas?
    – Tudo bem.

    Desliguei pensando quantas pessoas a Vera costuma contratar e se isso era um indicador de que ela era dona de um séquito de empregados que cuidavam de seu castelo, o que me levava diretamente para uma questão crucial: o cachê.

    Cheguei ao endereço que ela me deu um pouco antes da hora combinada. Era um prédio cuja fachada nos encarava com o nariz empinado dos milhnários. De uma suntuosidade assustadora. Todos os apartamentos duplex. Sendo que o ultimo andar, para onde eu ia, era triplex.

    Passei por inúmeros procedimentos de segurança. Só faltaram perguntar qual a cor da cueca que eu estava usando. Depois de mais ou menos vinte minutos consegui chegar ao elevador que levava direta à painthouse. No meu caminho eu contei três câmeras. George Orwell devia ser o nome daquele prédio. Mas acho que ele tinha um nome afrancesado. Chahteau alguma coisa. A porta do elevador se abriu e eu encarei uma nova porta feita de jacarandá, sem dúvida nenhuma. Aquela porta deve ter custado um ano de trabalho com agenda lotada. Apertei o botão da campainha. Segundos depois uma loira com bochechas muito vermelhas e olhos muito azuis vestindo uniforme azul escuro e aventalzinho branco abriu a porta e um sorriso simpático para mim.

    – Por favor, siga-me.

    “Siga-me”. Fiquei imaginando o salário de uma empregada saudável como aquela, capaz de usar a ênclise com a propriedade de um professor de português de escola particular. O apartamento era enorme. Se a loira saudável me largasse ali eu só sairia usando um GPS. Eu não vou perder meu tempo descrevendo cada detalhe porque o que não faltava naquele lugar eram justamente detalhes. O que posso dizer em poucas palavras é que os tais detalhes eram todos de origem oriental. Chineses, para ser mais exato. E nenhum deles sequer passava perto de ser uma imitação. Neste caso, o made in china emprestava uma nobreza indizível a cada peça. Isso me deu um calafrio na boca do estômago. Acredite, razões eu tenho, como vocês vão saber logo adiante.

    Finalmente, depois de andar numa escala de medida que se aproximava ao quilômetro, cheguei a uma sala aconchegante, com sofás imponentes, cobertos por lenços lindamente estampados. A simpática loira me deixou ali e, no meio daquela decoração rica meu olhar alcançou Vera. Estava sentada em uma poltrona com um livro na mão. Meu coração disparou e aquele calafrio se transformou em um vendo gélido que tomou conta de todo o meu sistema digestivo. Minhas pernas fraquejaram. Ela tinha cabelos curtos e negros e olhos puxados tão negros quanto os cabelos. Era chinesa. Não era coreana, nem japonesa. Por que coreanas e japonesas não costumam provocar em mim tais reações. Eu simplesmente tenho um fraco por chinesas. Elas me perturbam. Turvam meus pensamentos. Eu perco todo o meu senso de equilíbrio. Eu tive três namoradas chinesas e fui completamente louco por todas. Mas a contrapartida também é verdadeira. De alguma forma eu atraio as chinesas. Sei lá eu o porquê de tal empatia étnica.  Talvez eu lance um triplo de feromônio no ar quando as encontro como naquela caso. Esses três namoros foram intensos. Achei que ia casar nas três ocasiões. Mas ali, naquele momento, estava a chinesa mais linda que eu já havia tido a honra de dividir o ar que estava respirando.

    – Oi, Alexandre! – Levantou-se e veio em minha direção. – Gostei da pontualidade.
    – É.

    Foi a única coisa que consegui balbuciar. Um raquítico monossílabo que só teve a função de informar a ela que eu tinha voz. Estava ainda mais perturbado, porque, quando levantou, percebi que ela tinha uma borboleta linda tatuada na lateral da panturrilha esquerda. Outra coisa pela qual eu tenho fraco: mulheres com tatuagem na lateral da panturrilha.

    – É? – Ela pergunta com um sorriso curioso.
    – Que…quer dizer, pontualidade…eu costumo chegar na hora – minha boca está seca. – Velha mania.
    – Boa mania.
    – Engraçado, o seu nome.
    – Vera? O que tem de engraçado?
    – Bom, noto que você tem traços…
    – Orientais.
    – É.
    – Vera Sing Ly.
    – Ah!
    – Por favor, vamos sentar. – Em seguida, ela auemtna o tom de voz. – Solange!
    – Sim, madame. – A loira uniformizada reaparece.
    – Bebe alguma coisa?
    – Um suco de laranja.
    – Pra mim, um chá, Solange – pede com uma gentileza firme na voz.

    Vera Sing Ly, separada, trinta e dois anos, um filho chamado Wang Sing Ly neto com o mesmo nome do avô, dono da rede de restaurantes China Town, espalhados através de franquias pelo país inteiro. O filho iria comemorar sete anos na casa do avô. Bom, casa é um conceito um tanto humilde para descrever as fotos do local que me foram mostradas por Vera. Não fui indicado por nenhuma das três Marias. O filho me viu atuando numa festa e não parou de falar em mim desde então. Vera não foi a tal festa, o garoto foi com o chofer e a babá. Só sei que ela conseguiu o meu número com a mãe do aniversariante e lá estava eu.

    – Bom, então eu posso contar com os seus serviços na festa do meu filho?
    – Quem sou eu para negar o pedido de um pequeno fã?
    – E é só dos pequenos fãs que você não nega um pedido? – Os olhos em mim.
    – Só tenho pequenos fãs – saio pela tangente. – Desconheço que exista algum de outro tamanho.
    – Você é uma pessoa especial, sabia?

    Aqueles olhos puxados parecendo navalhas atravessando a minha débil força de vontade para permanecer imóvel e não saltar sobre ela naquele momento.

    – E você uma pessoa muito direta, sabia?
    – Sabia.

    Saí de lá apaixonado. Completamente apaixonado. Perdidamente
    apaixonado. Eu queria casar com a Vera Sing Ly. Com separação de bens. Ela e só ela me bastava. Ela e uma cabana. O resto da minha vida.

    Paixão mútua e algumas histórias

    A festa na casa dos Ly foi um evento digno de umas cinco páginas na revista Caras. Algo inimaginável. Aquele vasto pedaço de terra ornado por lindos jardins oreintais, alguns recantos e fileiras de amendoeiras e pinheiros. O esforço do senhor Ly de fazer da sua morada um pedaço da China dera certo. Bom, pelo menos acredito que tenha dado, uma vez que jamais estive na China.  E naquele dia então, com o lugar repleto de convidados de olhos puxados andando para todos os lados, a maioria falando cantonês, mandarim, ou, seja lá que dialeto fosse, a impressão de se estar na China era ainda maior. Até o cônsul do país estava presente. Quando cheguei e vi aquela multidão, fiquei com os nervos abalados. Era o maior público para o qual eu ia me apresentar. E me parecia um público bem exigente. Como me sentia um pouco acuado, enfraquecido, pensei no meu grande amigo Peraltinha.

    Outra coisa perturbadora é que, logicamente, havia muitas chinesas lindas andando por lá, filhas mais velhas, mães, aquilo fervilhava e eu estava arrebatado, perdido em total convulsão hormonal. Mas quando Vera apareceu, exibindo o seu sorriso estonteante, tudo ficou em paz. Aquele sorrido me dava confiança. E foi graças a ele que eu fiz a maior apresentação da minha vida.

    Dois dias depois do evento e eu já dividia uma mesa em um restaurante com Vera. Aqueles olhinhos puxados postos em mim, desafiadores e carentes ao mesmo tempo. Desde a primeira vez que a vi, no meio daquele monte de almofadas em sua casa, a imagem dela ficou estampada na minha retina, os seu aroma na minha memória olfativa e o seu espírito no meu coração. Todos os meus atos, a partir daquele dia, tinham o rosto dela no meu campo de visão. Como o logotipo de um canal de televisão que fica na tela durante a programação. Toda noite eu acordava e o rosto dela era a primeira coisa que a minha mente ia buscar. Falei daquelas outras chinesas que namorei? Pois Vera era a que mais rápido tinha me conquistado. Estava entregue. Mas eu podia perceber que havia a mesma intensidade de sentimentos que vinham do caminho inverso. Sentia claramente que Vera havia se apaixonado por mim.

    – Você não tocou na comida – ela fala olhando o meu prato cheio.
    – Nem você. Seu prato está muito parecido com o meu.

    Ficamos nos olhando por um tempo.

    – Você me deixa sem fome

    A última frase foi falada por nós dois ao mesmo tempo. Rimos muito daquilo. Era um clichê de comédia romântica. Só faltava a gente tentar pegar o mesmo garfo e, por isso, tocar as mãos involuntariamente. Mas a cena não era de filme e nós na verdade não tínhamos nada mais a fazer naquele restaurante. Já havia contado a minha vida – excetuando o pequeno detalhe das três Marias – e ela havia me contado a dela. O casamento que não dera certo, mas que dera a ela o pequeno Wang. Não havia dado certo por inúmeras razões, mas basicamente porque o “Jorge era um pulha irresponsável que na verdade havia casado com o dinheiro do meu pai”.  Vera contou que Jorge estava sempre em contato e que o contato não era apenas por causa do filho. Sentia uma necessidade que ela classificava como patológica de continuar a vê-la e de saber da vida dela. Meteu-se muito quando ela teve o seu primeiro caso depois do casamento, um antigo amigo da família e namorado de infância chamado Ho Yuin. Era comum, os dois saírem para jantar ou ir a um cinema e dar de cara com o Jorge, que fingia surpresa ao vê-los, como se não tivesse perseguido os dois. Mas fora isso, o Jorge era totalmente inofensivo. Ho Yuin fora compreensivo, aquele famoso ombro amigo depois da separação. De ombro passou a ser o corpo todo. Mas o namoro entre os dois acabou sem maiores problemas. Aos poucos foi se acostumando com a vida de ex-casada e estava realmente sentindo-se muito feliz e sem a necessidade de ter alguém ao seu lado além, é claro, do filho. Mas isso havia mudado desde o dia em que ela me viu pela primeira vez em sua casa. “Meu coração disparou, eu fiquei zonza, mas como boa mulher e chinesa soube segurar minha perturbação e manter a pose”, coisa que eu claramente não consegui e que ela percebeu “como boa mulher e chinesa.”.

    Saímos do restaurante fomos para o apartamento dela. O pequeno Wang estava dando o prazer de sua presença na casa dos avós. Só havia Solange, a empregada loira e educada que usa a ênclise, cujo quarto devia ficar à léguas de distância e que, como empregada educada que era, tinha entre as suas aptidões o dom da discrição. Entramos e não falamos nada um para o outro. Apenas fizemos amor apaixonadamente. A cada segundo que eu passava com Vera via as três Marias sendo soterradas pela minha paixão avassaladora. Juntamos nossos corpos, nossos líquidos, nossos sensos. Pela primeira vez em minha vida senti o que é a verdadeira unidade formada por duas pessoas. Aquela comunhão que eu nunca pensei ser possível. Enquanto rolávamos e nos beijávamos e nos penetrávamos, imagens de Maria Alice, Maria Amélia, Maria Clara, Peraltinha, Palhaço Xexé, Xuxu vinham a minha mente de um jeito muito peculiar: todos caíam em um abismo fundo e escuro até sumirem.

    Quando adormeci, sonhei como nunca. Sonhei com nuvens brancas, plácidas e confortáveis de puro algodão. Não tinha idéia se isso era a felicidade. Mas que se danasse o mundo. No meu sonho eu flutuava com Vera deitado sobre aquelas nuvens. Experimentava uma sensação de júbilo que preenchia os meus pulmões. O mundo lá embaixo não fazia mais parte de nossas vidas. E eu não queria acordar mais.

  • E o palhaço o que é? – Parte 7

    June 15th, 2010

    Maria Alice

    O recado na caixa postal do meu celular era conciso e muito claro. “Quero ver você e o seu amigo Peraltinha amanhã às três e meia da tarde em nosso lugar. Beijos. Maria Alice”. O amanhã era hoje. Estava tão cansado na noite anterior que desliguei o telefone e fui para a cama cedo. Tentei em vão ler uma revista. Adormeci na segunda linha de um artigo qualquer. O que me intrigava naquele recado era aquele “Quero ver você e o seu amigo Peraltinha”. Que diabos tinha ela na cabeça? Que planos sexuais ela reservava para aquela tarde? Ela sempre foi a mais discreta das três. Séria, de pouca conversa, sempre muito direta. Exatamente como o recado que tinha deixado. Mas eu não tinha absolutamente nada a questionar. Se tivesse a intenção de continuar com a minha “dolce vita”, tinha que cumprir minha parte no acordo. Mas confesso que, levar o Peraltinha para uma seção de sexo era algo que ia um pouco além do que eu tinha imaginado.

    Eram três e trinta e dois da tarde quando abri a porta da garçoniere. Maria Alice estava sentada no sofá da sala com uma taça de dry martini nas mãos. Ela estava bebendo aquela coisa bem no meio da tarde de um dia de semana. Seus olhos um pouco injetados combinavam com a nova cor do seu cabelo. Ela agora estava ruiva. Estava muito bem feito, o que não é de se surpreender. Gosto muito de cabelos ruivos em uma mulher. Ela se levantou e caminhou com passos lânguidos em minha direção. Diria que um pouco da languidez era culpa das doses da bebida que ela havia ingerido. Passou os braços pelo meu pescoço a língua gelada pela minha orelha. Estava usando um vestido com alças, muito leve e estava de pés descalço. Era a mais magra das três. Aquela língua gelada pelo dry matini estava me deixando bem louco. Larguei a mala onde estava o meu amiguinho Peraltinha no chão e ela protestou.

    – Cuidado com o nosso amiguinho – apesar de falar no meu ouvido, era possível sentir o ar carregado de bebida saindo de sua boca – ele tem que estar inteirinho para daqui a pouco.
    – Como assim? – Perguntei com medo da resposta.
    – Eu adoro um ménage a trois.

    Ela se afastou, preparou dois dry martinis e me estendeu um deles. Confesso que ela me amedrontava um pouco. Antes de beber, ela tirou o vestido. Exceto ela, não havia mais nada embaixo dele. Nem sinal de calcinha ou soutiein. Estava como viera ao mundo. Claro, com um pouco mais de peito e bunda, eu diria. Ela se recostou no sofá e me chamou para perto dela com o dedo indicador em forma de gancho fazendo movimentos repetidos. Eu obedeci. Em seguida, começou a jogar o dry martini pelo corpo e sussurrou um “bebe” quase inaudível. Eu bebi até ficar com câimbra na língua. Duas taças. De certa forma, sentia-me o cachorrinho da madame. Ela gemia muito. Era, de longe, a mais barulhenta das três. Depois levantou e disse.

    – Traga o seu amiguinho e venha pra cama.
    – O meu amiguinho está sempre comigo. E está bem duro.
    – Estou falando do Peraltinha.

    O que aconteceu daí em diante foi um tanto bizarro para os meus padrões, mas de certa forma, excitante. Eu transava com ela enquanto o Peraltinha falava Frases obcenas no ouvido dela. No início foi meio difícil pegar o jeito e o equilíbrio. Tinha que ser dois ao mesmo tempo. Mas na medida em que o tempo passava eu consegui achar o ritmo. Ela urrava e só falava com o boneco. Pedia para ele falar coisas que deixariam o rosro de qualquer pessoa da cor do meu nariz falso. Vaca era o que de mais leve ele teve que falar no ouvido de Maria Alice naquela tarde. Na hora, entretanto, nem eu nem ele estávamos nos preocupando com isso. A excitação e a bebida misturados nos fizeram perder a noção da normalidade. Era o que Maria Alice queria. Todos juntos, numa orgia louca, desenfreada. Num estado etílico avançado. Era como se ela quisesse estar fora da realidade. Como se fosse em um universo paralelo, uma outra vida. Era isso que ela desejava. Foi isso que ela teve.

    Peraltinha

    Depois daquela tarde com Maria Alice, algo mudou radicalmente na minha vida. Seria impossível enxergar o Peraltinha com os mesmos olhos outra vez. Ele tinha esse apelido justamente por ter uma personalidade forte, não tão politicamente correta, porém, infantil. Ele fazia e dizia peraltices. Mas naquela cama sua personalidade havia se transformado de uma maneira irreversível. Ele havia tido uma experiência sexual, a primeira, e já participara de uma orgia sem precedentes, com direito a ficar bêbado.

    Naquele dia, quando cheguei em casa ainda um pouco tonto, lembro-me de ter ido tomar um banho demorado. Quando saí do banho, dei de cara com o Peraltinha jogado na poltrona da sala de estar. Ele me encarava com aquele ar de riso permanente de boneco, só que com algo de safadeza adulta. Pode parecer ridículo, mas o fato é que até a expressão em seus olhos já não era mais a mesma. A inocência havia se esvaído daquele olhar. Eu olhava para ele e imagens da orgia recente vinham-me a mente. Ele falando aquelas coisas obcenas e a cada uma ela gemia e gritava, enquanto eu a penetrava. Sentei ao lado do meu amiguinho. Era preciso ter uma conversa com ele.

    – Então, amigo velho, o que foi isso?
    – Uma tarde de sexo louco – ele responde – e eu adorei.
    – Nossa! Como você cresceu, meu amigo.
    – Eu não quero mais me apresentar em seus shows.
    – Como?
    – Estou de saco cheio, estou pedindo demissão. Só quero sair da mala para encontrar Maria Alice.
    – Mas você faz parte importante no show.
    – Você acha que eu vou encarar aquelas crianças depois de tudo o que aconteceu? Você acha que eu consigo falar coisas engraçadinhas depois das coisas que eu disse? Não tem mais volta, Alê. Estou fora. Nem você conseguiria encarar a criançada comigo no seu colinho. – Falou irônico. –  Você iria lembrar de todas as coisas que eu disse e fiz.
    – Como assim, fez?
    – Não diga que você não viu quando pus a cabeça no meio das pernas dela? – Ele geme. – Ela adorou o meu nariz roçando nela enquanto você trabalhava.

    Eu tinha que aceitar. O meu amiguinho conhecera uma outra realidade. Provara do fruto do prazer e havia gostado de tal maneira que não era mais possível continuar a sua carreira.Era irreversível. Peraltinha agora só saía de sua maleta para se encontrar com Maria Alice. Ele passou a morar naquele apartamento.

  • E o palhaço o que é? – Parte 6

    June 8th, 2010

    Maria Amélia

    Mal entramos no elevador da garagem e Maria Amélia saltou sobre mim. Foi me bolinando, enquanto arfava no meu ouvido durante a subida. Estava totalmente louco com aquela mulher que parecia uma faminta da Biafra que de repente se viu em frente a um banquete de embaixada. Entramos no apartamento e ela foi tirando a roupa. Nenhuma palavra. Ela tirando a dela e eu a minha. Meu Deus, que corpo aquela mulher tinha. Apesar de Maria Clara já ser um fenômeno, Maria Alice era um outro departamento. Tinha músculos muito bem delineados e uma bunda dura. Duríssima. Uma bunda basáltica. Era um corpo de atleta, sem dúvida nenhuma. E trepar com ela exigiu também muito preparo físico. Esqueça a cama. Ela não usa. Transamos sobre tudo o que uma mente sem limites era capaz de imaginar. E nunca deitamos. Deitar com ela não era uma opção. Testamos nosso equilíbrio nas costas do sofá, em pé na soleira da porta do quarto, sobre a bancada da pia da cozinha, no banho, enfim, foi uma verdadeira excursão por dentro do apartamento. As vezes levávamos alguns tombos, o que provocava aquela gargalhada sublime de Maria Amélia. Mas como Maria Clara, que pediu para me vestir de palhaço, Maria Amélia também teve lá a sua excentricidade. Mas eu confesso que foi uma experiência e tanto. Depois de já termos passado por alguns lugares interessantes engatados um no outro, paramos para descansar. Sentados no sofá da sala, nus e suados. De repente, ela se levantou e me encarou com o olhar mais convidativo que eu ja recebi na vida.

    – Cansou, coisinha fofa?
    – Não vou mentir.
    – Mas eu quero mais.
    – Tudo bem, eu só preciso de um tempinho.
    – Não precisa não – falou com express ão mais infantil que a de qualquer criança. – Eu já volto.

    E foi para a área de serviço. Aquela bunda empinada e rígida em movimentos pendulares já começava a provocar mais uma reação no meu melhor amigo ali no meio das pernas. Ouvi um barulho estranho vindo da área de serviço. Ou eu muito me enganava ou era a lavadora de roupa. Ela voltou de lá e estendeu a mão para mim.

    – Vem.

    Segurei aquela mão convidativa e fui conduzido para a área de serviço. A lavadora de roupa funcionando na função de centrifugação. Ela pediu para eu sentar sobre a máquina. De repente eu entendi tudo e fiquei de pau duro na mesma hora. Eu e sentei sobre a lavadora que chacoalhava freneticamente. Ela veio para cima de mim, de frente, e encaixou meu pau dentro dela. Não era preciso fazer nada, apenas ficar parado aproveitando o chacoalhar da lavadora. Ela me olhava e sorria. De vez em quando beijava o meu pescoço. Aquele chacoalhar fazendo todo o trabalho e várias vezes o gozo quase veio para mim e para ela. Nenhum de nossos músculos fazendo esforço. Um delírio, algo impensável. Gozamos um pouco antes da centrifugação terminar. Ficamos abraçados um tempo sobre a lavadora. Ela pôs a boca no meu ouvido e, sussurrou:

    – E o palhaço o que è? Ladrão de mulher.

    Competição

    Graças àquelas três maravilhosas mulheres eu estava me tornando uma verdadeira estrela. Uma sensação cada vez mais comentada entre os buffets infantis de primeira linha. É claro que não eram apenas graças às três. Eu sempre tive muito talento, uma mente realmente inventiva e paciência no trato com as crianças, que eram decisivos para o meu sucesso. Junte-se a isso algo que eu até então não descobrira: trato com mulheres mais velhas e mais ricas. Pronto. Eis a minha receita para me tornar a lenda viva no mundo da diversão infantil.

    Em quatro meses de atividade eu já tinha mudado para um bom apartamento e comprado um carro. O apartamento tinha um escritório que eu tinha transformado numa espécie de atelier, onde eu criava e ensaiava novos números. Eu não tinha assistente fixo, porque eles poderiam descobrir do meu pacto com as Marias e bater com a língua nos dentes, o que acabaria numa tremenda confusão e provavelmente com a minha mamata. Talvez até com a minha vida. Usava quatro sujeitos em revezamento, que me ajudavam em procedimentos como troca de roupas e de elementos de cena. No palco eu trabalhava só. Essa solidão me obrigou a desenvolver números criativos, diferentes, o que acabou ajudando ainda mais a criar a fama que passei a desfrutar. Para dar um toque especial, criei uma espécie de currículo. Obviamente que haviam ali algumas coisas inventadas como ter estudado no “Clown Skills Intitute” em Toronto, Canadá.

    O sucesso era tão inebriante que nem percebi a reação invejosa da concorrência. O mercado de animação para buffets de primeira linha era muito restrito, um círuculo fechado dividido entre quatro ou cinco animadores que convivem em um acordo tácito, uma espécie de oligopólio da diversão. A entrada de um novato e, ainda por cima, fazendo aquele sucesso arrasador perturbava essa ordem estabelecida em que viviam sem maiores preocupações de competir.

    Senti esse incômodo dos competidores na pele. Foi num dia qualquer da semana, eu andava tranqüilamente pela rua sem perceber que um carro parou no meio fio de uma maneira suspeita. De dentro dele saíram duas figuras enormes sobre todos os sentidos que alguém queira aplicar a palavra e me arrastaram para dentro do veículo, no banco traseiro. Era uma van, com vidros muito escuros. De um lado do banco, um brutamontes e do outro, um sujeito magricela, vestindo uma camiseta onde estavam impressos um logotipo da Xexé Enterprises. Já tinha ouvido falar neste tal Xexé. Era o maior expoente dos buffets infantis chiques. O Palhaço Xexé. Ele me encarava com um sorriso constante no rosto, na verdade, a boca esticada para os lado e levemente arqueiada para cima nos cantos. Um olhar de escárnio. Ficamos nessa situação por algunbs segundos e eu nem tinha percebido que havia um boneco de ventríloquo do colo dele até esse boneco, muito mal educado por sinal, começar a falar comigo. O nome do pequeno era Xuxu, com “x” mesmo, pra combinar com Xexé. Eu também já tinha ouvido falar nele. Era uma espécie alter ego do palhaço Xexé, como acontece em todos os casos de ventriloquismo. Mas ele não era aquele alter ego apenas politicamente incorreto. Era mau. Um boneco muito esquisito. Tinha orelhas de abano e olhos perversos.

    – Ouça aqui, meu filho, nós não estamos satisfeitos com a sua intromissão em nosso círculo fechado.
    – Calma, Xuxu! – Xexé acalma o boneco com voz suave, mas o sorriso sempre pregado naquela cara – Ele é um pouco nervoso – completou olhando para mim.
    – Ele e o seu amigo grande aqui do lado – completei.
    – O meu primo Muscles?
    – Como?
    – Muscles, seu ignorante! – Grita o boneco – Músculos em inglês. Bem que eu vi que esse seu currículo é furado.
    – Xuxu, não trate mal as visitas no nosso carro – Xexé repreende o boneco. – A verdade, meu amigo Lelé, é que você está fazendo muito sucesso.
    – Fazer o que, né?
    – Você está tomando o nosso mercado muito rapidamente e isso não é nada bom.

    Xexé faz uma pausa misteriosa e dramática olhando para a janela enquanto Xuxu e Muscles me encaram. Depois fala em tom de voz mais sibilante.

    – Deixa muita gente nervosa.
    – Bem, se vocês não perdessem tempo em ficar nervosos e trabalhassem criando coisas novas, talvez não ficassem assim, nervosos.
    – Você não entendeu, meu amigo. Eu não estou nervoso. O meu amigo Xuxu é que está.
    – Estou sim, estou puto dentro das calças – o boneco põe a cara na minha frente. Se tivesse bafo, eu sentiria. – Por mim acabava com a tua raça. A tua e a do seu amiguinho, Peraltinha. Isso até é nome de viado. Vai ver que é viado, o Peraltinha.
    – Está vendo? – Xexé retoma calmo.  – O Xuxu tem pavio curto. E, além disso, o Muscles aqui tem adoração por ele. Faz tudo o que ele pede. É uma amizade que dá até emoção de ver. Olha – ele mostra o baço. – Todo arrepiado só de falar em tão sincera amizade. Mas voltando ao que interessa,  por enquanto eu estou conseguindo mantendo as coisas em termos civilizados. Mas sabe-se lá quando o Xuxu vai agir pelas minhas costas.

    O carro parou na frente do meu edifício. O que significa que eles sabiam onde eu morava. Aquele boneco filho de uma puta me deixou nervoso. Depois de uns minutos me dei conta de que estava dando autonomia para um boneco, imaginem. Um boneco chamado Xuxu que acabara de ameaçar a minha vida. O Xexé podia não ser criativo nos seus números, mas estava sendo no jeito de me ameaçar. OU criativo ou completamente louco, que era a opção mais próxima da realidade. Pensava nos acontecimentos recentes enquanto subia o elevador. E, de repente, um novo pensamento cortou a minha mente como uma navalha afiada e fria. Já que eles sabiam onde eu morava, será que sabiam das três Marias?

  • E o palhaço o que é? – Parte 5

    May 31st, 2010

    As três Marias

    Dois dias se passaram depois daquela tarde de sexo impecável. Nesses dois dias eu recebi telefonemas de muitas mães. Amigas de Maria Clara, algumas viram minha atuação na festa do Felipe e ficaram encantadas com o meu carisma. Agora eu tinha realmente uma agenda. Folhas brancas não existiam mais. Em dois dias eu já tinha oito festas marcadas. Estava me sentindo outra pessoa. Confiante e auto-sustentável. Eu precisava agradecer o Júlio César. Foi a indicação dele que provocou esta reviravolta estrondosa. Tinha perspectiva. Fazia o que gostava, o que tinha talento pra fazer, ganhava uma boa grana e ainda trepei com uma das minhas clientes que era uma maravilha de mulher em todos os sentidos. A fortuna, que vivia virando o seu lindo rosto quando eu passava, resolvera mudar de idéia e passou a me notar e me achar lindo também.

    Um dos tantos telefonemas recebidos nesse período era de Maria Clara. Marcou um almoço comigo e as outras duas Marias num restaurante da moda. Daqueles em que a primeira coisa que você tem vontade de comer não é um dos pratos do menu, mas a hostess, que está lá pra isso mesmo: fazer você voltar lá sempre com a falsa esperança que vai conseguir.

    Resisi bravamente aos encantos desta sereia da recepção, que tentou me hipnotizar com seu sorriso e gentileza, enquanto me levava até a mesa onde as três Marias ja estavam sentadas. As três eram uma coisa de louco.  Que tipo de homem trata mulheres como aquelas como se fossem comuns? Sentei-me na cadeira vazia que estava a minha espera.

    – Bom – Maria Clara começa o assunto – é melhor discutirmos o nosso arranjo agora, enquanto bebemos o nosso aperitivo.
    – Arranjo? – Pergunto surpreso. – Do que estamos falando?
    – Alê, como você já percebeu, muitas amigas de nosso círculo já ligaram para você.
    – Você é uma celebridade – intervém Maria Amélia, sempre mais espevitada.
    – Bom, meu querido – retoma Maria Clara – isso obviamente tem um preço.
    – Eu não colocaria a situação nesses termos, Clara – Maria Alice discorda – fica parecendo que somos, como vou dizer?
    –  Prostitutas? – Maria Alice responde de bate-pronto.

    As três se entregam a uma gargalhada e eu fico qual um pateta olhando para a cena. A curiosidade queimando meu estômago.

    – Por favor, gente. Dá para explicar onde é que as coisas vão chegar?
    – Meu querido Alexandre – Maria Alice responde – estamos propondo um pacto.
    – É muito simples, meu amor, muito simples – Maria Amélia sempre rindo – nós viramos suas empresárias e você é nosso.
    – Como assim, sou de vocês?
    – Ela quer dizer que, com o nosso círculo de amizades, você tem festas garantidas até o próximo século, agenda cheia, mas para isso, você vai ser nosso naquele apartamento.
    – E só nosso. – intervém Maria Alice.
    – Isso, todinho, todinho – completa Maria Amélia como se fosse uma criança.
    – Resumindo: vocês enchem a minha agenda…
    – E você nos enche de prazer, cherry.
    – Maria Amélia, por favor – irrita-se Maria Alice.

    Uma coisa era cristalina. Eu estava feito. Uma agenda cheia de festas classe AA e para ter isso bastava eu ser fiel a três mulheres do outro mundo. Naquele momento eu entendi o que a Maria Clara quis dizer com eu ser muito feliz naquele apartamento. Minha vida definitivamente tinha dado uma guinada. A guinada dos sonhos. Quer dizer, com aquelas três mulheres envolvidas, era mais do que eu podia sonhar. Fizemos os pedidos, conversamos sobre amenidades, elas choraram suas mágoas de mulheres mal amadas. Maria Clara era realmente a que tinha personalidade mais forte. Maria Amélia, apesar de ser um ano mais velha do que as outras, parecia uma colegial, sempre rindo, mesmo quando reclamava do seu marido. Maria Alice era bem mais discreta. Falava pouco. Ouvia mais. A mais erudita, fluente em cinco idiomas.  No final deste encontro de negócios regado a um belo cardápio, Maria Amélia se ofereceu para me levar em casa. Quando estávamos no carro, percebi que ela não estava indo em direção a minha pensão e sim para o apartamento. Lá ia eu cumprir minha parte no acordo, agora com ela. Feliz da vida.

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