• Entrevista com Janaína

    November 9th, 2010

    Janaína é um nome fictício. Ela hoje se diz uma mulher recuperada, plena, completa, mas com um único e pequeno probleminha. Ainda não contou para sua namorada que se entregou de corpo e alma a um homem, o que seria considerado muito mais do que traição pela parceira. Seria um crime muito acima do hediondo. Daí o nome fictício. Mas Janaína não voltou ao sexo com plug natural por um homem qualquer. Muitos já tentaram, até porque trata-se de uma mulher arrebatadora, para dizer o mínimo. Janaína se entregou para ninguém menos do que JJ. Claro, não surpreende. Mas intriga. O maior troféu que a maioria dos homens gostaria de ter, junto com sexo anal e grupal, seria trazer uma lésbica de volta aos bons tratos masculinos. Pois bem, meu caro machão. O fato é justamente esse: JJ não trata o ocorrido como troféu, como você vai perceber ao ler a entrevista com Janaína. Leia e aprenda, ou continue um boçal ignorante e insensível.

    Eu:
    Quando você percebeu que tinha preferência por mulheres?

    Janaína:
    Já faz uns 10 anos. Acho que os meus motivos são muito parecidos com o de muitas mulheres que trilharam esse caminho. Os homens com os quais eu me relacionei antes mostravam uma gentileza falsa e uma preocupação excessiva com eles mesmos. Nunca souberam me excitar de verdade. Nunca se importaram. Eu achava que era assim mesmo. Viveria uma vida miserável sexualmente falando. Uma vez, numa festa, eu bebi um pouco além da conta. Estava mais, digamos, liberada. Percebi a amiga de um colega me encarando fixamente. No início me senti intimidada. Mas a medida que a tequila subiu à cabeça eu fui me soltando. Ela percebeu. Saímos dali direto para o apartamento dela. Ela sabia, exactamente, como me fazer feliz. O jeito, o toque tudo. Aquela noite foi a noite da virada.

    Eu:
    A sua namorada é a mesma daquela noite?

    Janaína:
    Não. Aquela era muito envergonha (risos). E como eu fui, digamos, introduzida por ela, os meus primeiros anos foram de pura senvergonhice.

    Eu:
    Em nenhum momento sentiu vontade de ir pra cama com um homem?

    Janaína:
    Quanto mais eu saía com minhas amigas, mais longe dos homens eu me sentia. E quer saber? Mais mulher eu me sentia.

    Eu:
    Você é muito sensual, se me permite…

    Janaína:
    Ta me cantando? (risos)

    Eu:
    Eu não me atreveria, considerando que você já esteve com JJ.

    Janaína (suspirando absorta enquanto morde os lábios):
    Ai…o JJ…

    Eu:
    Ja vamos chegar lá. Bom, você viveu uma vida louca por um tempo. Como foi se apaixonar a ponto de namorar.

    Janaína:
    Foi normal, como acontece com qualquer um. Um dia você conhece alguém que, além de combinar sexualmente, também combina espiritualmente. Foi também numa festa que eu conheci a Gláucia (nome fictício). Percebemos que quando estávamos juntas era mágico e as vezes passávamos mais tempo conversando do que transando. E quanto estávamos longe, sempre dávamos um jeito de nos falar pelo celular, messager, essas coisas. Assumimos a paixão e fomos viver juntas.

    Eu:
    Ainda vivem, certo?

    Janaína:
    Pois é. Vai ser uma coisa difícil contar pra ela.

    Eu:
    Então chegamos onde interessa: JJ. Defina o homem.

    Janaína:
    Na minha concepção de ver e sentir as coisas, ele não é um homem. Homem são todos os canalhas que tentaram me comer. Essa é a diferença, homens tentam te comer, mulheres trocam prazer e sentimentos e o JJ, bem JJ é uma alma evoluída. Talvez não seja deste planeta.

    Eu:
    Pelo que sei, mesmo neste seu período mulherengo, inúmeros homens tentaram se aproximar sem sucesso de você, certo? Como eu disse, você é realmente uma mulher linda. Mas o que JJ fez que os outros não fizeram?

    Janaína:
    Você está vendo como são os homens? Olha a sua pergunta: “O que JJ fez”. Os homens estão sempre pensando em tácticas, subterfúgios, planos e o diabo para terem uma mulher. JJ não fez nada. Essa é a diferença. Vou começar com o olhar. Aqueles olhos postos em você te fazem repensar tudo. Eu não sei te explicar, é uma admiração. Ele me olhava como quem olha para uma obra de arte no Louvre e não como um croque mounsieur num prato do bistre da esquina. Entendeu? Duvido.

    Eu:
    Entendi, mas não tenho esse dom. E quando isso aconteceu? Já sei, numa festa.

    Janaína:
    (muitos risos) Acertou. Ele estava lá com uma amiga da irmã da Glaucia. Cruzamos na cozinha. Ele estava pegando uma cerveja na geladeira e me ofereceu uma long neck. Não sei o que foi, mas já nesse momento, minhas pernas balançaram.

    Nota do entrevistador: lembram-se que eu falei do “miasma hipnotizante” no ultimo texto sobre JJ? Olha a prova aí.

    Janaína:
    Eu peguei a long neck e passamos a conversar. Ficamos um tempão batendo papo. Nenhuma vez ele disse que eu tinha um sorriso lindo, que meus cabelos eram maravilhosos ou que eu era gostosa. Mas a impressão é que ele tinha dito tudo aquilo com os olhos, nas entrelinhas. Quer que eu te diga uma coisa? Falei que a minha bebida preferida era Dry Martini. Ele me contou como ele prepara o dele. Do jeito que ele falou, me olhando com aquela ternura, eu sentia claramente que era de mim e não do Dry Martini que ele falava. Era como se ele me derramasse como Gin, me perfumase com Vermouth de Marselha e me girasse no gelo. No final daquela conversa eu estava entregue como se tivesse bebido uns três ou quatro Drys. E sabe o que ele fez depois? Comigo nesse estado de letargia sexual?

    Eu:
    Fala logo…

    Janaína:
    Nada. Porque ele não tinha me cantado, efetivamente, entende? Ele falou de Dry Martini, de um monte de outras coisas, mas me cantar como qualquer homem faria, não cantou. Ele me encantou.

    Eu:
    Mas e daí?

    Janaína:
    Ele foi embora com a amiga. Eu fiquei completamente arrebatada. Não dormi a noite. Deu o maior trabalho pra esconder da Glaucia o que estava se passando comigo. No outro dia o JJ simplesmente não saía da minha cabeça. O dia inteiro, cada segundo. Eu fui atrás dele. Simples assim. Eu tinha que ver o JJ. Eu perdi qualquer amarra, qualquer vergonha. Ele tinha me dito onde trabalhava. Saí mais cedo do trabalho e fui atrás dele.

    Eu:
    E?

    Janaína:
    Ele ainda estava trabalhando. Quando me viu, aqueles olhos…ai…mostrou satisfação, mas não surpresa. Parece que sabia que iasao iria acontecer. Acho que sabia. Pediu para eu esperar um pouco. Eu esperaria muito se ele quisesse. Ele logo apareceu. Nós saímos, jantamos, quer dizer, eu não consegui comer. Saímos dali, fomos para o seu apartamento. Eu vou resumir uma coisa e é só o que eu vou contar do que aconteceu dali pra frente: ele me fez descobrir algumas partes do corpo que nem eu sabia que tinha.

    Eu:
    Você não vai revelar nenhum detalhe? Nenhum?

    Janaína:
    Bom, vou dizer apenas um. Lembra do seu personagem, o Palhaço Lelé? Fizemos a cena da lavadora de roupa na centrifugação.

    Nota do entrevistador: ela se refere ao conto “E o Palhaço o que é?”, que está neste blog, no momento em que Lelé está transando com Maria Amélia. Ele sentado na lavadora de roupa e ela sentada sobre nele, encaixada. A lavadora na centrifugação fazendo todos movimentos.

    Janaína:
    Não sei se você experimentou isso de verdade. Uma loucura…uma loucura.

    E assim termina a minha entrevista com Janaína, a linda lésbica que voltou a ser mulher só por causa de JJ. Uma entrevista reveladora, esclarecedora e que põe todos nós, homens comuns, em nosso devido lugar. O positivo, pra mim, é que o JJ lê meus contos. Ele e minha mãe, pelo que sei.

  • JJ

    November 8th, 2010

    Vez por outra, a humanidade recebe de presente espíritos evoluídos em forma de seres humanos. Aqueles que vêm para nos dar um empurrão evolucionário. Mozart e Bethoven na música, Einstein e Drawin na ciência, Jobs e Bowermann na cultura empresarial. Quando o assunto é a lide com o sexo oposto, este espírito veio na forma do JJ (pronuncia-se Jei-Jei).

    JJ não é lindo, não tem abdome de tanquinho, não é alto, não tem uma voz aveludada, não toca guitarra, não é famoso em nenhum assunto que torna as pessoas famosas. Tem um bom emprego, é bom no que faz e tem uma vida material boa, isso lá ele tem. Mas o que ele realmente tem é uma admiração profunda e sincera por toda e qualquer mulher do planeta. É algo tão singelo, tão verdadeiro e tão estrondosamente poderoso que emana em forma de algum miasma hipnotizante que só atinge o sexo oposto. Ele não procede à gentilezas porque quer levar as mulheres para a cama. Ele faz porque as admira, ama sinceramente a todas e por isso, lhe é natural como respirar. Enquanto o homem comum abre a porta do carro para que uma mulher entre apenas no estágio “quero te comer”, JJ não. JJ continua abrindo a porta do carro mesmo para aquela com a qual trocou carícias e líquidos corporais, coisa que, aliás, faz semana sim e outra também.

    As mulheres percebem esta sinceridade, esta verdade em cada movimento. JJ não tem vergonha de passar em frente a uma Kopenhaggen e comprar uma caixa de lingua de gatos para dar a secretária do seu chefe porque, uma vez, a ouviu dizer que adorava tal iguaria. Ele não espera nada dela, a não ser ver um sorriso iluminar o seu rosto. E por isso mesmo ela lhe deu muito mais do que o tal sorriso.

    Para JJ não existe mulher feia. As mulheres “foram feitas por último e os homens foram apenas um rascunho para o Criador chegar a perfeição, que são elas”, costuma repetir. Para JJ, existem mulheres pelas quais ele sente desejos, mas a admiração por elas é um sentimento democrático. JJ não se importa de dar seu casaco a uma gordinha que sente frio, nem de ceder seu bombom Sonho de Valsa a uma baixinha de medidas desproporcionais e rosto de fuinha. Todas são mulheres e todas são admiradas igualmente. Desejo é outra coisa. Esse respeito e atenção com que trata as não tão abençoadas fisicamente acaba por provocar ainda mais simpatia e desejo entre as lindas e bem dotadas de curvas e volumes. JJ não é galenteador de oportunidade. JJ é assim.

    Muitos homens tentam vilipendiar JJ, gozando de seus gestos amáveis e gentis. Ele não se importa e não sente vergonha por isso. Segue sua sanha incansável de agradar toda a mulher do mundo, simplesmente porque ela é mulher A cada gozação, a cada manifestação de escárneo, JJ segue impassível, sem se importar, fato que só faz crescer o seu magnetismo natural perante elas. Pobres homens que não conseguem alcançar a inteligência emocional de JJ, a superioridade energética de JJ. Tolos. Voltam para casa e vão fazer justiça com as próprias mãos inspirados em algum site de sacanagem, enquanto JJ divide carícias e atenções com suas fêmeas completamente entregues, lânguidas.

    Existe várias histórias sobre JJ, por isso, para terminar esse relato emocionado e admirado. JJ foi recentemente acometido de um mal súbito. Corre dali, corre daqui e la se foi o nosso herói para o hospital. Após os exames, constatou-se que ele precisaria passar por procedimento cirúrgico: tirar pedras da vesícula. Conta-se que, pouco antes de perder a consciência devido a anestesia, ouviu uma das enfermeiras contando para o anestesista o quanto ela adorava bomélias. Foi ouvir isso e apagar. No outro dia, a enfermeira recebeu um lindo arranjo de bromélias com um cartão agradecendo a ela pelo carinho na sala de cirurgia. Ele mal conhecia a enfermeira, nem viu se era bonita ou feia, apenas se apressou em saber o nome dela e pediu para que enviassem as bromélias. Só JJ para inverter a ordem natural das coisas. Em vez de receber flores no hospital, ele foi quem as deu. Por amor as mulheres. Não é preciso dizer que JJ anda saindo com a enfermeira (Lana é o nome dela). E parece que aquelas pedras andam adornando as orelhas da moça em forma de brincos. Ela adorou. Parece estranho para você? É por isso que você é você e JJ é JJ.

  • Sem pé nem cabeça

    November 2nd, 2010

    Ele era um excelente contador de histórias, do tempo em que as histórias que ele contava ainda eram chamadas de estórias. Quando começava a contá-las as pessoas ficavam hipnotizadas.

    – Mas o cara saiu correndo de que, vovô?
    – Isso eu não sei. Só sei que ele saiu correndo e rolou numa ribanceira e só foi parar de rolar no chão duro, preto e meio áspero.

    Uma pausa dramática leva os netos a loucura.

    – Então vovô.
    – Era asfalto, minha filha, ele caiu no meio de uma estrada. Quando deu por si viu a luz de dois faróis em sua direção.
    – E então vovô?- Todos falaram em uníssono – E então?
    – Não sei. Mas como era a vítima do tombo que estava contando esta história para um amigo, julga-se que escapou ileso, pois não?

    Os netos odiavam quando isso acontecia, ou seja, sempre, mas nunca conseguiam resistir quando ele começava a contar suas histórias. As vezes, algo no meio de um jantar era o suficiente para lembrá-lo de uma de suas histórias inacabadas. Fora os filhos, que se divertiam muito sabendo como elas não iam acabar, os outros convidados eram capturados pelo talento do seu Maurício na arte de contá-las.

    – Milho me lembra a história de uma moça que morava no interior. Ela estava para casar com o seu namorado de anos. Uma eternidade tinha aquele namoro. Nos fundos da casa do pai tinha um enorme milharal e um dia ela resolveu se embrenhar por entre a tal plantação. Como as hastes com os milhos estavam altas ela se perdeu, acreditam? Se perdeu completamente. O dia estava nublado e sem a referência do sol, não sabia para que lado ir. A coitada ficou desesperada. De repente, do nada, surgiu um lindo rapaz, segundo ela disse. Alto, cabelos e faces brilhantes e uma vestimentas deveras esquisita. Ela tinha a mais absoluta certeza de que ele não era deste mundo.

    Como de costume, recorria a sua pausa dramática. Pegou um milho e fitou-o como se aquele milho pudesse ser a testemunha da história que ele contava ali. Os convivas na mesa nem respiravam. Ele sabia captar a audiência.

    – O rapaz pegou na mão dela e, sem falar nada a conduziu pelo milharal. Apesar dele ser um completo estranho ela simplesmente não conseguiu resistir aquela mão estendida. Por alguma razão que não conseguia explicar, confiava plenamente naquela figura alva. Ele a conduziu sem dizer uma palavra até a saída daquele labirinto verde e amarelo. Quando olhou a casa, sentiu um alivio imenso. Virou-se para agradecer e aí veio a surpresa…

    Mais uma pausa, mas desta vez, a impaciência tomou conta da mesa.

    – Que surpresa, seu Mauricio. O homem era de outro planeta mesmo?
    – Não.
    – Ele sumiu, era um espírito?
    – Talvez.
    – Como talvez, seu Moreira?
    – Eu não sei, gente, juro que não sei. A tal moça e a amiga para quem ela contava a história desceram no décimo primeiro andar. Vida de ascensorista era assim, meus filhos. Muitas histórias ou sem pé, ou sem cabeça, ou sem nenhum dos dois. Nunca foi fácil. Nunca foi fácil. Delicia esse milho, hein?

  • O vórtice das vitrines.

    October 19th, 2010

    Márcia e Cláudio saem do cinema com os créditos ainda fazendo o seu caminho vertical de baixo para cima. Seguem o fluxo de pessoas em direção à saída da sala. Não conversam, ao contrário de muitos outros que fazem seus comentários sobre o filme recém-findo em voz alta, já que a música ainda sai pelos potentes alto falantes estrategicamente distribuídos dentro da sala. Após alguns passos morosos eles alcançam a saída. Os olhos tendo que se acostumar à claridade acachapante das luzes alvas do shopping. Eles então seguem caminho pelos corredores.

    – Então, gostou do filme? – Ele pergunta.
    – Adorei. – Ela abre um sorriso – E você?
    – Não foi o que eu esperava.
    – Nossa, logo você que adora ficção científica.
    – Deve ser por isso, quando a gente gosta do gênero, fica mais exigente.

    Os dois continuam andando pelo corredor ainda sem destino definido. Andam no mesmo passo vagaroso das pessoas que estão ali pelo prazer de ver as lojas e pela temperatura amena proporcionada pelo ar condicionado. Lá fora, 34 graus.

    – Eu estou com fome. – Ele, passando a mão no estômago.
    – Muita?
    – Você conhece o meu estômago. Aquelas pipocas não fizeram nem cócegas. E depois, eu estou louco para comer aquele sanduíche de pão francês com tiras de filé e cebola frita que eles fazem naquela lanchonete da praça de alimentação…

    Cláudio percebe que as pessoas estão olhando para ele. Algumas claramente apiedadas, outras com um sorrisinho indisfarçável. Uma menininha passa, olhinhos arregalados na direção dele, agarrada às pernas da mãe, que a abraça enquanto se afasta dele a uma distância que julga segura. Todas aquelas reações eram sinais claros e inequívocos do que ele mais temia. Olhou para o lado e teve certeza. Ele estava falando do tal sanduíche para ninguém. Falava sozinho, com água na boca, do seu sanduíche favorito, pois sua amada Márcia havia sumido de uma hora para a outra. Havia sido sugada pelo vórtice da vitrine. Estancou no meio do corredor. Olhou para trás. Vitrine era o que não falta dentro de um shopping. O vórtice da vitrine, segundo Cláudio, é uma anomalia no espaço-tempo, uma singularidade, que afeta a maioria esmagadora das mulheres. Ele se forma ao passarmos por uma determinada vitrine, que suga suas vítimas para dentro de uma outra dimensão: o mundo da gastança. A princípio pensou que o fenômeno afetava apenas a Márcia, mas após cuidadosos estudos com amigos e parentes, chegou à conclusão de que este era um fenômeno tão corriqueiro quanto as massas de ar quente e frio que se chocam causando as chuvas.

    O próximo passo é procurar por Márcia loja por loja, refazendo todo o caminho já percorrido. Num shopping, o trabalho fica ainda mais árduo por razões óbvias. Alguns se gabam de ter muitos quilômetros de vitrines. Mas, não é hora para esmorecer. Não há tempo a perder, pois neste momento, Márcia já deve estar sob o domínio dos seres que habitam a dimensão para a qual o vórtice da vitrine leva suas vítimas: as sereias atendentes. Insidiosas, elas atacam suas vítimas com elogios e paparicações com o único e pérfido objetivo de se obter seu alimento: a comissão. O tom hipnótico da voz se torna irresistível. Aquele par de brincos ficaria ainda mais lindo com a gargantilha. A gargantilha, por sua vez, combina perfeitamente com a blusa marrom, que fica divina com a calça jeans stone washed, que fica perfeita com a bota de bico fino e cano médio. Obviamente, a bota pede um cinto no estilo e cores pertinentes e, por último, a bolsa. Ele precisa achar Márcia rapidamente, antes que ela seja seduzida a levar um guarda-roupa ineiramente novo. E, dependendo da loja, pode estar até levando o guarda-roupa mesmo. O móvel. Cláudio olha desesperado, loja em loja. Invade provadores, procura por entre araras, assustando clientes. Cláudio é um homem desesperado. Finalmente, após vinte minutos de procura desenfreada, ele enxerga Márcia cercada por duas sereias atendentes. “Covardes”, pensa, “Atacando em bando”. Ele entra na loja como um cavaleiro andante pronto a salvar sua donzela. Só que, em vez da espada, ele saca o seu cartão de crédito. Cláudio sabe muito bem que ela não vai sair lá de dentro de mãos vazias. As sereias atendentes mudam o tom gentil e solícito para o desesperado assim que percebem a chegada Cláudio. Mas só ele percebe, porque só os homens percebem esse tipo de mudança. Ele finge não ver e toma todos os cuidados, pois está numa dimensão que não é a sua. Márcia percebe a sua presença, vira-se segurando a uma blusa abóbora na frente do corpo.

    – O que você achou.

    Estava feliz. Era ele quem dava as cartas. As sereias atendentes recuaram, conformadas com a mísera comissão que tinham conseguido até ali. Ele tinha pressa, muita pressa. Além de tirar ela do mundo da gastança, lembrou de sua fome. Aquele sanduíche parecia cada vez mais delicioso.

  • Cinco boleiros e um menino.

    September 20th, 2010

    O menino ainda estava em formação. Não falo da formação física porque esta já se tinha concluído. Pulmões, rins, cérebro, coração, tudo em pleno funcionamento. O que ainda estava por ser difinido eram certas convicções do menino. Dentre as quais a mais sagrada: o time do coração. Como qualquer menino, ele teve os primeiros contatos com o futebol pela mão do pai. Mão que o levava todo final de semana ao estádio Olímpico. Os sons da torcida, o grito dos vendedores, o cheiro de cigarro recém-aceso e aquele azul-celeste desfilando pelo gramado deram ao menino a condição de gremista. Mas veja bem, meu amigo leitor, que uma coisa é ser gremista e outra é ser gremista convicto. E tal afirmação vale para qualquer preferência clubística. E não é fácil chegar à convicção. É um caminho doloroso, cheio de espinhos, solitário, triste e, por isso mesmo qualquer um pode fraquejar e se tornar o tipo mais abjeto de ser humano a habitar este planeta: o vira- casaca.

    Pois o nosso menino acabou percorrendo o tal caminho em meados dos anos 70. Nessa época surgiu na cidade um bando formado por quatro sujeitos que pareciam ter como meta de vida fazer esse menino trocar a cor da sua paixão. Eram eles Figueroa, Falcão, Carpegiani e Lula. O primeiro, seguro e elegante até para dar uma cotovelada. O segundo, altivo como um rei, cargo que aliás ocupou mais tarde em outra cidade. O terceiro era rápido, incansável e inteligente. E o quarto driblava e ia à linha de fundo como se ninguém estivesse a marcá-lo. Quatro sereias a cantar todo final de semana no ouvido desse pobre menino: vira colorado, guri. Vira colorado, guri. E o menino lá, resistindo bravamente, mas longe de vencer a tentação.

    Dia que tinha Grenal então era um suplício. Sempre pela mão do pai, lá ia ele para o estádio. Sentava nas cativas, pronto para torcer para o seu time. Mas lá no fundo ele também ia admirar o maravilhoso futebol dos quatro. Tentava não admitir para si, mas que admirava, admirava. Sabia que o Grêmio não teria a menor chance com aquele bando de craques jogando do outro lado. Seria tudo tão mais simples se ele fosse colorado. Imagina poder bater no peito e dizer: O Falcão, o Carpegiani, o Lula e o Figueroa são do meu time. Mas no que pensava em tal coisa a consciência aparecia e gritava no seu ouvido: Vira- casaca! Vira-casaca! É isso que você quer ser?

    Outra prova a que esse menino tinha que passar era enfrentar as peladas no recreio do colégio. Todo colorado tinha uma vantagem incontestável. Cada um que pegasse a bola podia se imaginar um craque do seu time. Narrando em voz alta, era comum ouvir avoz deles, enquanto carregavam a bola, um “lá vai Lula”, ou um “que passe maravilhoso de Falcão!” e assim por diante. O pobre menino não tinha um ídolo no seu Grêmio que pudesse incorporar em seu imaginário enquanto estivesse com a bola de couro número cinco já sem tinta nos pés. Seria tão mais fácil se adotasse o vermelho. Poderia ser Lula, Falcão, Carpegiani ou Figueroa,quer dizer, este último com certa relutância, porque não gostava muito de jogar na zaga. Mas aí, a consciência apareceia mais uma vez e repetia no ouvido dele: Vira-casaca! Vira-casaca! É isso que você quer ser? Uma tortura. Uma dolorosa tortura.

    Mas tudo mudou numa noite chuvosa do inverno porto-alegrense. O pai novamente pegou na mão do menino e o levou ao Beira Rio para assistirem a mais um Grenal. E lá foi ele para ver mais um show do quarteto fantástico. Havia três anos que o Grêmio não ganhava um mísero Grenal nem que fosse por laranjas. E não havia nada que projetasse uma jornada diferente naquela noite. O jogo começou e o Grêmio jogou como nunca. Naquela noite fria e chuvosa, os quatro ficaram pequenos na frente de um ponta-direita de cabelos altos estilo black power, parecia um dos Jackson Five. Um carioca que não tinha nada a ver com aquele clima gélido, polar. Era conhecido pela alcunha de Zequinha. Pois o endiabrado ponteiro fez três gols naquele Grenal e o Grêmio acabou vencendo por três a um. Um gol para cada ano sem vitória sobre aqueles vermelhos. O peito do menino inflou como nunca havia acontecido antes. Inflou de felicidade. Inflou de convicção. E no dia seguinte, na tradicional pelada da hora do recreio, na primeira vez que tocou na bola de couro número cinco já sem tinta, o menino, imitando narrador de rádio, falou em alto e bom som: bola com Zequinha.

  • Pais em TPM apresenta: confusão na firma.

    September 13th, 2010

    Ernesto chegou no trabalho no horário de sempre. Nem um minuto a mais, nem um minuto a menos. O jeito metódico estava encrustrado em algum de seus gens, herdado da mãe, que tudo organizava, tudo anotava e tudo planejava. Não tinha os exageros da velha senhora, mas mostrava certos traços, o suficiente para atrapalhar, vez por outra, a convivência com a sua esposa, Celina. Ernesto entrou em sua sala cumprimentando Dona Olga, sua secretária, com a firmeza e a mesma frase de todos os dias “Bom dia, dona Olga, como estamos hoje?” Quando sentou-se em sua mesa e ligou o seu computador, percebeu algo errado. Não conseguia estabelecer a razão daquela pequena incomodação, daquele desconforto, até que percebeu que os jornais não estavam sobre a mesa como é usual. Fato que o fez lembrar que ao passar poor dona Olga e feito a pergunta de praxe não ouviu resposta alguma. E como estava com a audição em ordem, como bem disse o úktimo check up, então a expressão certa não seria não ouviu e sim a dona Olga não respondeu. O que era muito estranho. Julgando o mundo a sua volta pela sua ótica oredeira, alguma coisa estava errada. Levantou-se e foi até a dona Olga. Percebeu um olhar de desaprovação vindo dela. Não uma desaprovação total, mas desaprovação, por certo.

    – A senhora está bem dona Olga?
    – Em pefeito estado de juizo, seu Ernesto. Coisa que falta a uns e outros neste escritório.
    – A senhora está se referindo a quem, dona Olga?
    – Tome aqui os seus jornais – falou ela estendendo-lhe os jornal. – Estou só com uma indisposição.

    Aquilo era muito esquisito. Ela estava se referindo a ele quando dizia “certas pessoas”? é claro que estava. Quando um interlocutor fala a expressão “certas pessoas” com aquele tom pejorativo certamente está se referindo àquele com o qual está conversando. Enquanto ruminava o que poderia ele ter feito à dona Olga, se esquecido do aniversário? Uma promessa de aumento não cumprida?

    Ao voltar de suas divagações percebeu alguns olhartes acompanhando a seus passos até o bebedouro. Havia olhares de reprovação como os de dona Olga e outros acompanhados por um sorriso sorrateiro e cúmplice. Estaria ele imaginando tudo aquilo? Sentiu o coração disparar. Havia muita coisa fora do lugar para o seu gosto organizado. Quando estava chegando ao bebedouro percebeu dois estagiários que conversavam e teve a nítida impressão de ouvir claramente um “é ele, não é?”. Constranfeito e descioncertado, passou pelo bebedouro e alcançou a cozinha que, felizmente, estava deserta. Jogou os jornais sobre a mesa e procurou a térmica. Sentiu que precisava de um café quente, mesmo que fosse o café meio sem gosto da dona Rúbia. Ele nunca javia entrado naquela minúscula cozinha e notou a bagunça, para os seus parâmetros, que era aquele lugar. Pegou um copo plástico, despejou o café fumegante até a metade, acresceuntou uma colherinha de açucar e sorveu o oprimeiro gole. O líquido quente pareceu abrandar um pouco a sua ansiedade. Estava tentando se colocar nos trilhos e se perguntando se aquilo não era apenas uma ilusão da sua parte. Subitamente a figura lânguida, esguia e sensual entra cozinha adentro.

    – Bom dia, Ernesto? Que surpresa encontrar você nesta cozinha – ela era toda sorrisos.
    – Bom dia, Clarice.
    – Como foi seu final de semana?
    – Normal.
    – Olha – ela baixou a voz e se aproximou dele a ponto dele sentir o cheiro do shampoo caro que ela usa – se você quiser passar outro destes seus finais de semana normais, me avisa, tá?

    Ela saiu da cozinha como se estivesse mostrando um vestida da nova coleção Dolce & Gabana na passarela, deixando-o completamente desconcertado e certo de que algo estranhíssimo estava ocorrendo. Aqueles olhares, aquele comportamento de dona Olga não eram truques da sua imaginação. Por que diabos estava sendo o foco de atenção dos colegas? Sim, ele ja não tinha mais dúvida. Era alvo de comentários. E aquela cozinha ja devia ter ouvido poucas e boas sobre ele. “Esse lugar é praticamente o estúdio de onde é transmitia a rádio corredor”. Olhou para a geladeira, o fogão, a violeta da janela como se pedisse para contarem alguma coisa que tivessem testemunhado. O cheiro do shampoo da Clarice impregnando suas vias nasais. A cantada da Clarice ainda viajando pela sua mente. Tinha vontade de ficar ali naquela cozinha e não sair mais, mas a dona Rúbia chegou e começou a lavar as xícaras e pires que povoavam a pia.

    – Ué, doutor Ernesto. O que o senhor ta fazendo aqui?

    Teve vontade de beijar a dona Rúbia. Era a única que permanecia a mesma, a dona Rúbia do seu mundo organizado e ordeiro, longe da bagunça que se encontrava agora. Precisava criar coragem e sair da cozinha. Afinal, havia trabalho a fazer. Passou por todos novamente e os olhares disfarçados, mas nem tanto, o acompanhavam de todos os lados. Ele precisava encontrar o Jarbas. Era mais que um colega, era alguém com que podia contar e que colocaria ordem no seu mundo. Passou por dona Olga que coninuava emburrada. Foi até a sala do Jarbas e cruzou com dona Juliana sem nem perceber que ela o olhava como se ele fosse um idolo. Irrompeu a sala do colega e quase aos prantos suplicou.

    – Jatbas, pelo amor de Deus, diz que eu não sou louco. A empresa inteira, tirando a dona Rúbia, está me tratando como se eu tivesse feito alguma sandice.
    – E você não sabe? Nem desconfia? – O Jarbas mostra aquele mesmo sorriso sorrateiro de alguns.
    – Você também quer me enlouquecer, Jarbas? É claro que eu não faço a menor idéia. O que é estranho é que metade da empresa me olha como criminoso e a outra metade como um herói. Até cantada da Clarice eu levei.
    – A gostosa da Clarice? – Impressiona-se o Jarbas. – Meu Deus, Ernesto, depois de tanto tempo, você resolve mudar e virar um predador.
    – Jarbas, PELO AMOR DE DEUS! Eu nao sei o que está acontecendo.
    – Não se faz de desentendido. Você foi flagrado e o flagra foi documentado.

    Jarbas vira o computador que mostra vearias fotos do Ernesto com uma menina linda. Fotos que mostram os dois em inúmeras demonstrações de afeto. Carinhos, mãos dadas, abraços.

    – Jarbas, você e essa maravilha. Num shopping. Que gatinha é essa, meu Deu?
    – Quem tirou essas fotos?
    – O Romano, estagiário. Mas antes que vocé se irrite com o rapaz, confesso que até eu, no lugar dele, fotografaria e espalharia a foto pra empresa inteira. Garanhão! Essa mulher é uma…uma
    – Uma o que Jarbas?
    – Uma gostosa. Olha isso, meu Deus, que coisinha Ernesto. Como é o nome dela.

    Ernesto se jogou sobre o Jarbas com uma fúria descontroada. Cairam sobre a mesa e depois no chão. Ernesto pegou o Jarbas pelo colarinho e chacoalhava o colega que batia com a cabeça no chão. Com os dentes cerrados, porém gritando sempre a mesma coisa.

    – Essa é a Joyce. A Jouyce que você viu nascer, seu pedófilo potencial.

    Demorou pra separarem os dois. A Joyce, que o Jarbas viu nascer mas que foi estudar na Europa fazia dois anos e apareceu de surpresa no final de semana. A Joyce que estava linda e apenas com 16 anos. Que estava no shopping com o pai no momento em que as fotos foram tiradas por aquele maldito estagiário fofoqueiro.

  • O exterminador de discussões.

    August 30th, 2010

    Quanto entrava na discussão, era acachapante, definitivo. Tinha um argumento tão inatacável que a discussão perdia o sentido. Não importava o assunto, a discórdia, ele era o ponto final, a tecla “mute”. Sua visão neutra, gélida e coberta da mais racional das razões desestruturava qualquer embate. Tirava-lhe o sustento. Implodia-o impiedosamente. Um: “Foi pênalti”. Outro: “Bola na mão, bola na mão”. Um: “Penalidade mais do que máxima, meu amigo. Teu time vive recebendo mãozinha dos de preto.” Ele: “A bomba já explodiu, de que adianta continuar discutindo se o fio que devia ser cortado é o branco ou o verde?”. Silêncio. Sepulcral. Inconteste. Entre cada sílaba daquela frase completamente coberta de sabedoria ecoava a completa inutilidade daquela discordância. Um: “Como pode votar nele? É um inepto. Quando estava no Ministério da Educação, o investimento em ensino básico caiu drasticamente”. Outro: “E quando foi que ocorreram aqueles dois apagões? Quando o teu candidato era Ministro das Minas e Energia”. Um: “E o filho do teu candidato, que de desempregado virou milionário prestando serviços para o Ministério da Educação?”. Outro: “Filho? E o teu candidato que empregou filho, nora, genro, mulher e o escambau na época em que era Deputado Federal? “. Ele: “Ótimo. Vocês me deram razões para não votar em nenhum deles. Vou de terceira via.” Novamente, o silêncio insuportável. O silêncio de quem cai em si. De quem constata a sua própria estupidez. Ele sempre foi assim, ouvia dezenas de colocações, de justificativas apaixonadas, envolvendo qualquer assunto. O casamento, o trabalho, o trânsito, tudo. Quando abria a boca era definitivo. Era uma única frase. Certeira. Mortal. Um atirador de elite. Um matador frio. Era abrir a boca para termos uma cizânia morta. Desfalecia ante a constatação de sua estrondosa inutilidade. Mas seu tirocínio tornou-se um fardo. Uma maldição a persegui-lo. Implacável. Afinal, quem, em sã consciência, deseja ficar perto de uma pessoa dessas? Quem, em em seu juízo perfeito, deseja ter por perto alguém que espelha o nosso lado mais débil? Ninguém. Alma viva. E depois, uma discussãozinha é sempre muito bem vinda. Que o digam as mesas redondas. Essa maldita inteligência, essa perspicácia corrosiva foi, com o tempo, se virando contra ele. Se tinha um bolinho, este se desfazia quando ele chegava. Ninguém o queria por perto. Hoje, vaga solitário, acompanhado apenas da sua razão indómita. Ainda bem que gosta de cachorros.

  • Pais em TPM apresenta: O justiceiro recalcitrante

    August 22nd, 2010

    Sou um assassino. Um assassino obstinado. Um serial killer da mesma pessoa. Já a matei de várias formas. Mas nenhuma foi cruel o bastante para aplacar a minha ira inconsolável. É sempre igual. Assim que o mato, comprazo-me, extasio-me. Mas no que volto a mim, lá está ele novamente. O maldito bípede de cabelos compridos continua vagando por esse planeta, incólume. Não sofreu o bastante, então preciso de uma forma ainda mais dolorosa de tirar-lhe a existência.

    A primeira vez que o matei foi muito simples, singelo até. Nada elaborado. Foi pura reacção. Simplesmente parei na frente dele e descarreguei uma pistola. O pirralho caiu imediatamente, estendido no chão com vários pontos por onde o sangue jorrava. Não durou muito. Não adiantou nada. Não era assim que eu queria. Precisava demorar mais. No outro dia eu apareci com uma faca e o esfaqueei repetidas vezes, um crime muito mais visceral, demorado, doloroso. Esfaqueei-o tal um Caim obstinado. Não contei quantas foram as estocadas. Gostei mais, pois ouvi gritos e gemidos vindos daquele boca. A mesma de onde saíram as palavras que causaram todos os problemas.

    No outro dia parecia que nada havia acontecido. E não havia mesmo. Ele obviamente estava vivo, desfrutando de saúde e provavelmente jogando seu charme em alguma incauta. Decidi aumentar o nível de crueldade. Sequestrei-o, levei para um lugar ermo e o enfiei em uma pilha de pneus usados. Joguei gasolina, peguei um isqueiro Zipo. Acendia e apagava, acendia e apagava, enquanto encarava o moleque desfrutando cada segundo. Seus olhos arregalados eram uma imagem doce para mim. Seus gritos desesperados eram a mais afinada das sinfonias, trilha sonora perfeita para a minha vingança, quero dizer, a nossa. Suas explicações entre lágrimas e soluços cheios de pavor me faziam dançar. Depois de alguns minutos joguei o isqueiro e o fiquei observando-o queimar. Urros e o crepitar do fogo. Nem bem passaram dez minutos e eu obviamente voltei a realidade. Nela sabia que ele estava e contente, talvez ouvindo música alta em seu quarto incomodando os próprios pais.

    Teve a vez em que eu o sequestrei novamente, levei-o para um depósito abandonado e o amarrei numa cama. Dava-lhe apenas um copo de água por dia. Ficava observando-o definhar dia a dia, aquele moleque insolente e cruel. Pensei no quanto estavam sofrendo os seus pais. Talvez sofriam como eu estava sofrendo. Um sofrimento lancinante e agudo. Uma sensação de impotência tão completa, tão pesada, tão escura que faz justamente me tornou nesse assassino frio. Lá pelo sexto dia de cativeiro tudo mudou. Radicalmente. No café da manhã eu olhei a minha filhinha, carregando um sorriso sincero no rosto.

    – Bom dia filhinha.
    – Oi, pai.
    – Que sorriso lindo. Há quanto tempo não via esse sorrido.
    – Meu coração está aliviado, pai. Bem que você me disse “o tempo vai curar essa dor”.
    – Esqueceu aquele moleque?
    – Acredita? Assim, simplesmente. Sumiu. É a melhor sensação do mundo. Bem que o senhor me falou.

    Ela levantou, beijou gostosamente a minha face e foi para a escola. Eu fiquei olhando para ela, leve, normal de novo. Longe daquela alma penada andando pela casa carregando o sofrimento da rejeição nos ombros pela primeira vez na vida. Fazendo-me sofrer ainda mais do que sofri com as minhas próprias desilusões quanto tinha a idade dela. A única coisa que eu podia fazer por ela não parecia o bastante: estar sempre perto, abraçá-la, repetir o óbvio sobre o tempo curar a dor. Por mim eu nada podia fazer, a não ser matar a causa desse sofrimento tantas vezes quanto eu podia em minha imaginação. Mas agora, isso já não importa mais. Libertei o moleque da minha tortura imaginária. Ele passa bem. Mas ai do moleque que fizer isso conosco novamente.

  • O diretor e o bedéu

    August 16th, 2010

    “Veja, meu caro Juliano, não admira você estar aí feito um dois de paus encarando-me admirado por não entender a minha atitude. É, basicamente, por isso que eu sou diretor desta prestigiada instituição de ensino e o senhor é apenas o bedéu. Por outro lado, seu espanto é que, de alguma forma, me espanta, porque, afinal de contas, o senhor é uma figura de autoridade e como tal deveria entender as pequenas sutilezas a que um homem em cargo de comando deve lidar diariamente. Eu não tenho preferência nem por Milena e nem por Isabela. Eu sei que o senhor está com essa caraminhola na sua cabeça porque o mundo das duas é completamente diferente, já que, por exemplo, uma pinta as unhas caprichosamente. Todas as unhas da mão da mesmo cor. Uma uniformidade cromática que denota equilíbrio e sistema. A outra tem uma unha da cada cor. Um caso cromárico. Um arco-iris na ponta dos dedos. Diferente, sem dúvida. É incrível como a maneira de uma mulher pintar as suas unhas diz muito sobre ela, não é verdade? Uma certinha, a outra, louquinha, um tanto, como direi, esquisita? Esquisito é uma boa palavra. Eu não nego que senti um certo, digamos, júbilo, o senhor sabe o que significa júbilo, Juliano? Pelo balançar da cabeça vejo que sabe. Pois muito bem, eu senti um certo júbilo ao ver as duas sentadas lado a lado na ante sala do meu gabinete. Aquelas duas vivem em mundos diferentes, nunca sentariam lado a lado em lugar algum. Mas o que não faz o infortúnio, não é mesmo, Juliano? O infortúnio junta pessoas injuntáveis. Homogeniza os heterogênios. Mas vejamos, onde eu estava? A, as duas lado a lado na ante-sala porque cometeram o mesmo deslize. Chegaram atrasadas, desconsiderando até mesmo a nossa tolerância de dez minutos. Eu sou uma pessoa razoável, não sou Juliano? Queria ouvir o que elas tinham a dizer, afinal, sabe-se lá que acidentes inomináveis poderiam ter acontecido para provocar os tais atrasos. E aí voltamos ao início da nossa conversa. O senhor não compreende porque depois de me contar aquela história esapafúrdia do cano que estourou no banheiro e a quase inundação que o vazamento provocou, fazendo, como ela disse?, “agua cair escada abaixo como as cataratas do Niágara.” Não é uma beleza enquanto metáfora pobre? Onde estava?Ah, sim, o senhor não compreende porque depois de me contar esta mentira tão descarada eu liberei Milena para assistir a aula, enquanto Isabela, que simplesmente olhou nos meus olhos e disse “dormi demais” foi para a detenção esperar o segundo período. Ora, Ora, Juliano. Eu não premiei a mentira em detrimento da verdade como eu supõe essa sua expressão espantada no rosto. Não sou insensível a esse ponto. Eu premiei o respeito e castiguei o escárnio e o sentimento de superioridade em relação a uma autoridade. Aquela mentira deslavada, ou se quiser, lavada em água do cano que na verdade não vazou é uma forma de respeito a mim. Demonstra que ela me vê como alguém capaz de manejar o seu destino aqui dentro desta instituição. Ja a outra, Isabela, tomou apenas sete segundos para atirar na minha cara a verdade. Isso demonstra o que, meu caro Juliano? Demonstra que a outra simplesmente não me vê como alguém que pode influir em sua vida. É um atrevimento jogar assim a verdade na cara de uma autoridade, mesmo com aquele jeitinho meio maluquinho. Não se fala uma verdade desse calibre, numa situação dessas para alguém numa pisção superior. Isso é uma ofensa, uma total falta de respeito. A punição é uma consequência lógica para este ato. Não é simples, Juliano? Cristalino como água a mesma água…isso do cano que não vazou. O senhor aprendeu, não aprendeu? Agora pode ir e leve esta valiosa lição com o senhor.”

  • Conveniências

    August 8th, 2010

    Três amigos inseparáveis, Zé, Tuti e Neco, relambravam os anos em que a maior responsabilidade deles era entregar os trabalhos e ter notas boas na escola, posteriormente faculdade. O Zé lembrou que naquela época começou entre eles a sindrome de 1984, o livro de George Orwell. No livro, haviam 3 continentes em eterna guerra. Num dia, a Eurásia era aliada da Oceania contra a Lestásia. No outro dia, a Eurasia e Lestásia eram aliados contra a Oceania e, de acordo com o Estado, sempre fora assim. Enfim, as alianças trocavam de acordo com a conveniênca do Estado totalitário descrito pelo autor inglês. No caso dos três amigos, dependendo do assunto, alianças semelhantes de formavam. Sempre dois contra um.

    Nos primeiros anos da amizade entre eles, quando se falava em futebol, o gremista Tuti ficava a mercê dos requintes de crueldade dos colorados Zé e Neco. As gozações eram intermináveis. Tuti sofria as vezes calado e resignado, as vezes com reações intempestivas e sem o menor sentido. Como quando apostou, na véspera de um grenal, que, se o seu time não vencese, iria cantar o hino do Interncaional em plena hora civica para toda a escola ouvir. Os outros dois fariam inverso se o Grêmio saísse vecedor no clássido de domingo. Era uma aposta injusta e completamente descabida, movida pelo desejo irracional de que Deus, se apiedando dos seus anos de sofrimento, ouviria seu desespero e intercederia no andamento da peleja, dando a vitória ao seu time do coração, uma vez que, pelos meios normais isso não aconteceria ja que a distância dos dois times era imensa.

    A zebra divina não apareceu no clássico domingueiro. Deus nem aí para o Tuti. E, se aparecesse, era sempre dois contra um, ou seja, para Zé e Neco seria fácil escapar do vexatório pagamento. Mas Tuti estava solitário. Argumentou o que pode, mas os dois simplesmente ignoraram as súplicas. Foi arrastado para a frente da escola inteira e cantou trechos iniciais do “Celeiro de Ases” até ser contido pelo bedel. Ele nunca ficou tão feliz de ter sido pego pelo bedel.

    As alianças mudavam quando o tema era a música. Eram todos roqueiros convictos. Porém, as concordâncias cessavam no estilo musical. O rock, como o futebol, era um território onde levantam-se bandeiras a favor deste o daquele grupo, cantor ou gênero. E neste caso, Tuti, um fã arodoroso e viceral do Led Zeppelin, contava com a companhia de Neco, que também adorava o grupo inglês. Zé era obrigado a ouvir o som do Yes, seu grupo prerido, na solidão de seu quarto. No porão da casa de Neco, local oficial das audições, apenas e se os outros o permitissem, o que era praticamente impossível. Numa destas audições a três, regadas a um baseado ou dois, se o Zé se atrevesse a colocar o Yes Album, o seu LP preferido, no Technics, sofria a pena máxima imposta pelos outros dois: eles dividiam só entre eles o baseado, deixando o Zé a mingua, enquanto assistia os amigos darem generosas baforadas e não menos generosas gargalhadas só de olhar para a expressão de criança sem doce que o Zé fazia. Doce, aliás, que os dois devoravam sem dó nem piedade – a mãe do Neco era doceira de mão cheia- após as audições vespertinas, enquanto Zé era privado do prazer de matar a larica.

    Quando se tratava de cinema, acontecia um novo arranjo. Neco detestava filmes de terror, justamente os preferidos do Tuti e do Zé. Ainda no reinado do vídeo cassete, os dois alugavam toda sorte de filmes arrepiantes, iam para o porão para demoradas sessões de cinema. O Neco se recusava a participar. Dizia que era um cinema pobre, de mau gosto, até porque os dois adoravam filmes como A Morte do Demônio e similares. “Se ainda fosse um clássico, como Nosferatu”, repetia Neco. Um dia alugaram Nosferatu e o Neco deu mil desculpas para não assistir. “Cagão”, repetiam os dois. “Esse papo de cinema clássico é desculpa, tem é medo de dormir a noite”, debochava o Zé. “Vai ver ainda faz xixi na cama, o debilóide”, completava o Tuti. Um dia colocaram a fita de Sexta Feira 13 dentro da caixa de e Chuva Negra o pobre do Neco caiu na artimanha. Amarraram o coitado na cadeira e o fizeram assistir o filme todo com eles. Conta-se que o Neco chegou na escola todos os dias da semana com cara de quem não dormiu.

    Os três divertiam-se, lembrando desta época mágica. O olhar, os fios brancos no cabelo e as rugas revelando os anos que os separavam destas lembranças . Conheceram suas respectivas ex-esposas quase que ao mesmo tempo. E quando lembraram disso a mágica desapareceu. Não foi um final de casamento pacífico para nenhum dos três. Reclamaram juntos da pensão, da casa que tiveram que deixar pra trás e de ter que ver os filhos com hora marcada. Nesse momento, o Zé lembrou que, pela primeira vez na história, os três estavam do mesmo lado. Ergueram os copos, fizeram um brinde. O momento era triste, mas raro. Merecia.

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