• Cavinato e o cinema.

    May 17th, 2011

    Cavinato chegou ao trabalho furibundo. A cada bom dia bem humorado que ouvia durante o caminho até a sua mesa, respondia com uma onomatopéia gutural. Estava possesso dentro das calças. O olhar em chamas, a respiração ofegante. Parou na cozinha e, em gestos completamente automáticos, pegou um copo descartável, serviu-se de café da garrafa térmica, colocou açúcar, pegou a colher de plástico e, mexendo energicamente, como se quisesse agredir o copo, o café dentro dele a pobre colher de plástico transparente, subiu as escadas e foi para o seu lugar. Ligou o computador usando uma foça desproporcional ao apertar o botão. Fosse um jogo de futebol levaria um amarelo pelo ato. Se ja tivesse um amarelo, seria expulso. Colocou o copo de café na mesa e, ato continuo, trouxe o telefone para perto, teclando raivosamente o número que os colegas ja sabiam ser de algum SAC. Enquanto esperava alguém atender do outro lado, tamborilava os dedos com energia de dar inveja a John Bonham, que, quando vivo, costumava largar as baquetas e solar em sua bateria usando as próprias mãos e dedos. Se deslocasse algum tarso ou metatarso, não seria de surpreender.

    – Telefala as suas ordens, Maria da Graça, as suas ordens, com quem falo.
    – Cavinato.
    – Seu Honrato…
    – Ca-vi-na-to – interrompe.
    – Correto. O senhor pode dizer o número do seu telefone com DDD, por obséquio?

    A palavra obséquio entrou pelos ouvidos do Cavinato como navalha afiada. São raríssimas as pessoas que usam, no seu dia a dia, a palavra obséquio e uma menina com aquele sotaque de Pirituba, naquela idade certamente não era uma delas. É óbvio que isso fazia parte do “manual” da empresa, o que leva Cavinato a ter certeza que vai falar com uma autômata de carne e osso. Mesmo assim, ele tenta.

    – Maria da Graça…é esse o seu nome, né? Maria da Graça.
    – É, seu Cavinato.
    – Escuta, Maria da Graça, você assistiu Black Swan?
    – Como senhor?
    – Ah, desculpe, é essa minha mania de ser fiel ao nome original dos filmes. Eu perguntei de você assistiu ao Cisne Negro no cinema.
    – Eu vi sim.
    – Que bom, Marica da Graça. E você gostou?
    – Não estou entendendo, seu Cavinato. O senhor ligou para falar do Cisne Negro ou fazer uma reclamação?
    – Pois essa é justamente a minha reclamação, Maria da Graça.
    – Não estou entendendo.
    – A empresa que a senhora trabalha deixou a senhora ir ao cinema assistir Cisne Negro. Mas a mim não deixou. Não permitiu. Manteve-me em cárcere privado.
    – Não entendi, o senhor trabalha aqui também?
    – Estou sendo sarcástico, mas parece que não está surtindo efeito, bem como o serviço de reparos de vocês?
    – O senhor pode explicar?
    – Minha linha está muda e vocês prometeram ir ontem a minha casa, no horário comercial, o que significa até as dezoito horas.
    – Entendo.
    – Não, a senhora não entende. Porque eu ainda não terminei. Eu passei o domingo dentro de casa e não vieram, Maria da Graça.
    – Entendo.
    – Pois muito bem, como perdi a tarde toda enfurnado em casa, preso feito um condenado pelo crime de ter um telefone da sua companhia, acabei tendo que ir a sessão de cinema depois das seis. E sabe o que aconteceu?
    – Senhor…
    – Lotado, Maria da Graça. Todos os cinemas que eu tentei…lotados. Porque domingo a noite, metade da cidade vai ao cinema e a outra metade não consegue porque as sessões estão lotadas.
    – Desculpe, mas o senhor tem smartphone?
    – E o que tem isso a ver, Maria da Graça?
    – É G3?
    – Sim, dona Maria da Graça.
    – Podia ter comprado o ingresso pela internet para uma sessão da noite e garantido lugar. Não podia?

    Aparvalhado pela lógica incontestável da Maria da Graça, Cavinato ficou sem fala. Passou o domingo todo tão obsecado pela certeza de que o técnico não viria e, portanto, excitado pela possibilidade de ligar para o SAC da companhia telefônica – não esqueçamos que esse é o seu vício – que esqueceu de usar a cabeça e garantir o seu ingresso em caso do técnico não vir. Antes de desligar, ainda teve que ouvir a dona Maria da Graça.

    – Alô?…Seu Cavinato… Alô?…Xi, ficou mudo igual ao telefone da casa dele.

  • Diálogos – A Ironia

    May 16th, 2011

    – O senhor adredita em Deus, doutor?
    – Eu entendo que na sua situação…
    – Não me interprete mal, doutor. Não vou agora me agarrar  à religiosidade de ocasião dos desesperados. Apenas seja sincero, como ja foi agora há pouco me dando a notícia. O senhor acredita em Deus?
    – Não. Vou ser obrigado a usar um chavão: sou um homem da ciência. Mas confesso que ja vi coisas inexplicáveis no exercío da medicina.
    – Eu não quero, absolutamente, levar a nossa conversa para esse lado. Não estou esperando milagre algum, doutor.
    – Então, por que a pergunta?
    – Sabe, doutor, segundo o detetive Poirot, Deus está nas coincidências. Mas eu discordo dele, doutor.
    – O senhor gosta de Agatha Cristie?
    – Sim, muito, o que não me obriga a concordar com ela sempre.
    – Então, Deus não está nas coincidências.
    – Absolutamente. A frase correta é “Deus está nas ironias”.
    – E a sua condição tem tudo a ver com isso, eu suponho.
    – A minha dondição, doutor, é o exemplo acabado de que eu estou certo e a senhora Cristie não.
    – O senhor pode ser um pouco mais específico?
    – Eu ainda estou em consulta ou há outro condenado lá fora esperando?
    – Ainda temos tempo.
    – Não sei se o senhor fazia idéia da minha fobia.
    – Qual seria?
    – Voar, doutor. Entrar em um avião sempre foi um sofrimento…não, mais do que isso, um suplício. De tão avassalador que era eu simplesmente parei de voar faz dez anos.
    – Faz dez anos que o senhor não entra em um avião?
    – Pouco mais, pouco menos.
    – O senhor nunca tratou isso?
    – Claro, mas nenhum tratamento rendeu frutos, a não ser para entender exatamente do que eu tinha pavor.
    – Mas isso não era óbvio?
    – Medo de morrer? É o que todos pensamos, doutor. É a conclusão mais fácil. Mas não, não é o medo de morrer.
    – Então o que é?
    – É aí que está a ironia doutor. O meu pavor está relacionado ao fato de que,  há um momento entre a pane  e o acidente. É esse momento é a causa da minha fobia.  Ou seja, o tempo em que você está ainda vivo, mas sabe que vai morrer. Entende isso? Podem ser dez segundos, um minuto, não importa. Há um momento em que você sabe que a sua morte é iminente e não há nada mais que possa fazer. Não seriaisso Deus me usando como papagaio, português? Eu assunto de piada dEle.
    – Considerando seu dioagnóstico.
    – Bem doutor, tenho ainda pelo menos 6 meses.
    – No mínimo.
    – Mas de um ano não passo.
    – Não.
    – Então, ja sei que vou morrer. Ja tenho consciência da pane. Nada posso fazer a respeito. E confesso, não está sendo ruim.
    – Ja dei este tipo de notícia algumas vezes, mas esta sendo, realmente, a mais curiosa.
    – Eu só quero um favor.
    – Claro.
    – Que lugar do mundo o senhor mais gostou de ter visitado até agora?
    – Grécia.
    – Então, doutor, é pra lá que eu vou.
    – Quer dizer então que o senhor…
    – De avião, doutor. De avião.

  • A voz do infortúnio

    March 21st, 2011

    Em algumas cidades do Brasil existem rádios que prestam serviço de obituário, quanto contratadas pelos familiares do falecido. A rádio que o meu pai escutava enquanto fazia nossos churrascos de final de semana ou enquanto dirigia o seu carro, fazendo as vezes de nosso transporte escolar, prestava tal serviço. O texto era apresentado por um locutor de voz nem fina e nem grossa. Em tom solene, no modo mais informativo possível. Ele nos dava a funesta notícia sempre assim: “Falecimento. Ocorreu hoje o falecimento de Guilhermina Moraes dos Santos. O velório está sendo realizado na capela C do Cemitério João Vinte e Três. O féretro sairá às 16 horas quando ocorrerá o sepultamento. Noticiamos o falecimento de Guilhermina Moraes dos Santos.”

    Um detalhe que me chamava a atenção era essa volta no final, quando ele repetia o nome do falecido(a), talvez com a intenção de informar o incauto que por acaso ligasse o radio no meio da nota. Lembro-me muito bem também, que ao ouvir a palavra féretro, um calafrio percorria a minha espinha, até eriçar os meus cabelos, até o dia em que resolvi perguntar para a minha mãe que diabos significava aquela palavra de sonoridade lúgubre. “Caixão”, ela disse. “Quando ele fala o féretro sairá tal hora, é quando as pessoas carregam o caixão e todos vão em procissão respeitosa até o local onde ele vai ser enterrado.” Após o esclarecimento feito pela minha mãe, os calafrios não só continuaram a ocorrer sempre que ouvia aquela palavra, como intensidade destes passou a ser dobrada.

    Mas depois de muitos e muitos anos, essas notas de falecimento tornaram-se uma lembrança um tanto pitoresca da minha infância. O fato mais curioso foi ficar sabendo o que ocorrera com aquele locutor. Sim, porque aquela voz, nem fina e nem grossa, ficou para sempre relacionada ao infortúnio. Aquele timbre metálico e sem emoção era a lembrança da nossa finitude. Era, no mundo dos vivos, o voz do ceifador. Anunciando que, da próxima vez, quem sabe não estou falando de você. Termo seu nome pronunciado pelo dono daquela voz era a última coisa que qualquer um iria querer.

    O dono daquela voz se chamava Watson Mendes. Exatamente. Os pais, fãs da obra de Artur Conan Doyle batizaram o filho com o nome do companheiro inseparável de Sherlock Holmes. Isso por si só ja deveria ser um prenúncio de que alguma coisa estranha espreitava aquela criança. Os pais se defendiam, dizendo que Sherlock, seria muito mais estranho, ao que os interlocutores faziam sua tréplica perguntando porque então não batizaram o pobre menino com o nome de Artur. Fato é que Watson foi e Watson ficou.

    Watson sempre quis trabalhar em rádio e a chance veio como o locutor da má nova. Ele não se importou. Achou que aquela era a porta de entrada para uma brilhante carreira no rádio, não se importando muito que aquela fosse a porta do cemitério. E aquela, que seria a oportunidade de ouro transformou-se em seu fardo. Na rádio constantemente almoçava sozinho, separado dos colegas, afinal, quem em sã consciência abocanharia um pedaço do suculento bife de alcatra servido na cantina da rádio, ouvindo o Watson contar uma piada? Aquela voz a lembrar que aquele pedaço de bife poderia entalar na garganta e…fim de linha.? Não. Deixa ele lá com os seus mortos.

    Mas se vocês pensam que isso ocorria apenas na rádio enganam-se. Mesmo nas coisas mais simples, como perguntar ao empregado de um supermercado onde ficava o papel higiênico era uma causa perdida. Não era raro o pobre funcionário ao ser indagado pelo Watson com aquela voz incofundível sair correndo como se tivesse visto o ceifador em carne putrefada e ossos. Coube ao Watson decorar onde ficavam todos os utensílios que precisava dentro do supermercado. Tudo sempre ia bem até que algum gerente, num espasmo de arqutiteto resolvesse mudar a distribuição das coisas para fazer o pobre Watson ter que aprender tudo de novo. Perguntar onde ficavam as coisas decididamente não era uma opção válida.
    nEm bares, o Watson, fazia sucesso, conquanto seguisse de boca fechada. Era até que bem apessoado e não raramente recebia olhares lânguidos de mulheres prontas a serem saciadas. Mas era abrir a boca para ouvir todo o tipo de desculpa como “preciso ir ao banheiro” e pronto. Iam ao banheiro como aquele marido que ia comprar cigarros e nunca mais voltavam. O pior é que nem a saída óbvia para o alívio dos desejos mais animais de um homem era-lhe possível. Nos puteiros da vida, o pobre Watson não chegava nem a discutir o preço. Muito antes disso, aquelas pobres mulheres, cheias de culpa, fugiam dele, apavoradas e pedindo perdão a Deus de mãos estendidas aos céus. Diz-se que muitas viraram freiras só por ouvir a voz do fim dos tempos.

    Ele tentou algumas táticas que o ajudaram por uns tempos. Como era um grande imitador, Watson muitas vezes recorria a outras vozes para ter sucesso em coisas triviais como ir a uma farmácia – longe do seu bairro, ja que onde morava todos sabiam quem era ele – para comprar aparelhos de barba, mercurio cromo e aspirina. Imitava o Silvio Santos, o Lula, o Francisco Cuoco e até a falecida Aracy de Almeira. Muitas vezes ele imitava vários deles na mesma compra. No inicio achavam engraçado, mas como ele nunca mostrava a voz verdadeira passaram a achá-lo desprovido de razão. Um maluco, enfim.

    Watson tornou-se taciturno, recluso, pensou em dar fim a vida. Até que um dia o telefone tocou. Ele olhou para o aparelho pensando em não atender, ja que sempre que depois de falar “alô”, seja quem fosse do outro lado da linha prontamente desligava o aparelho. Decidiu então fazer um jogo. Iria atender. Se a pessoa falasse com ele, iria continuar vivendo. Se, como sempre, desligassem na sua cara, iria tirar a própria vida. E outro que noticiasse o seu falecimento na rádio.

    – Alô?
    – É o Watson, da radio? – fala uma voz feminina do outro lado.
    – É ele mesmo.
    – Fala mais, fala mais.

    Aquele diálogo ja atingira um tempo recorde. Mas uma mulher pedindo para ele falar mais? Com a própria voz?

    – Aqui é o Watson. Quem esta falando aí. É trote?
    – Ai meu Deus, fala “falecimento” que nem você fala na rádio.
    – Minha filha, isso não tem graça.
    – Fala, fala, vai. Ta todo mundo esperando aqui.
    – Todo mundo quem?
    – Meus amigos. O telefone ta no viva voz.
    – Falecimento.

    Gritos no outro lado do telefone. O Watson,quem diria, tinha uma legião de fãs entre os góticos. Tornou-se celebridade nas festas góticas da cidade. Gravaram até uma música que virou hit entre a tribo. Tinha uma parte que dizia:

    “O anjo da morte tem uma voz,
    que anuncia o seu fim,
    pode ser engasgado com uma noz,
    pode ser com um tiro no seu rim”

    E depois desse refrão, ouvimos a voz solene do Watson”

    “Falecimento”.

  • A Figueira

    March 7th, 2011

    Henrique andava pelo saguão do aeroporto procurando pelo portão de embarque número dois. Não eram passos decididos, pelo contrário, eram titubeantes e tornavam-se cada vez mais titubeantes à medida em que a hora da decolagem se aproximava. Na verdade suas pernas tinham uma certeza, que era compartilhada com o seu cérebro: ele não queria embarcar. Exatamente como em todas as outras vezes que tinha que voar por força do seu trabalho. Suas pernas desejavam ardentemente levar o resto do corpo para fora daquele aeroporto, para um lugar seguro, ao nível do mar. Mas o seu senso do dever era muito mais forte. Ele odiava aquele senso de dever. Só não o odiava mais do que a idéia de intrometer-se dentro de um avião hermeticamente fechado, alçar vôo e permanecer a dez mil metros de distância do chão por um longo período, o que significava qualquer coisa acima de trinta segundos.

    Em seu caminho para a sala de embarque, viu, em néon, três letras que poderiam abrandar o seu sofrimento: bar. Consultou o relógio, que costumava usar no pulso direito. Ainda faltava um bom tempo para a decolagem. Valia a pena parar e tomar um uísque, talvez dois, a fim de tornar aquela viagem mais agradável, ou, melhor dizendo, menos desagradável. O barman trouxe-lhe um duplo. Enquanto bebia, Henrique tentava alcançar o motivo de todo aquele medo que o obrigava a fazer um esforço sobre humano toda vez que precisava voar. Nunca tinha tentado uma análise de sua situação e aquele momento pareceu-lhe muito propício.

    Olhando absorto o vai e vem nervoso e apressado dos transeuntes pelo saguão do imenso aeroporto, ele pôs-se a escarafunchar suas memórias algum momento em que puesse ter começado a relação malfadada com as alturas. Lembrou-se da figueira. De uma enorme e frondosa figueira que ficava nos fundos do sítio de seu avô. Quando pequeno, ele sempre teve uma, digamos, alma de explorador. Intrépido e curioso, tinha mania de escalar muros, dunas de areia, árvores só para ver como o mundo era lá de cima. Outro de seus passatempos prediletos era o de se enfiar por encanamentos para ver onde davam. Aquela figueira era o maior dos desafios e ainda vinha com um bônus que a tornava mais desafiadora. O fato de a sua mãe o proibir terminantemente de subir naquela árvore.

    Graças a vigilância constante da mãe, ele foi obrigado a suprimir o seu espírito em todas as vezes que visitavam o sítio. Mas, ao contrário de toda a criança, Henrique era paciente. Sabia que um dia a sua mãe iria relaxar a vigilância. E quando aconteceu – ele lembra que fazia um calor infernal naquele dia e a mãe havia pego no sono, deitada em uma rede que ficava no alpendre onde sempre soprava uma aragem agradável – ele não perdeu tempo. Dirigiu-se passo a passo na direção da árvore até chegar a um metro de seu espesso tronco. As raízes enormes que mostravam seu dorso sobre o solo poderiam causar tropicões por quem ali passasse com desatenção. Com o coração acelerado, ele passou mirar a árvore com reverência, de baixo para cima, acompanhando a linha do tronco até chegar a copa que se espalhava para todos os lados num emaranhado de galhos de todos os calibres e folhas de todos os tamanhos, produzindo uma sombra cuja área parecia ter o tamanho de um país. Ele estudou tudo, as saliências na casca, os sulcos, nenhum detalhe que pudesse ajudar em sua escalada passou despercebido. Com o coração ainda mais acelerado, ele começou a sua escalada.

    Após os primeiros minutos em que ele quase caiu por duas vezes, a relação entre ele e a figueira atingiu um nível que ele nunca poderia imaginar. Era como se os dois pudessem se entender apesar de pertencerem a reinos tão diferentes na classificação dos seres vivos. Era como se ele e a figueira estivessem em comunhão, algo telepático. Henrique poderia jurar que estava sendo ajudado pela árvore. Sulcos que antes não estavam no tronco passaram a surgir debaixo de seus pés. Saliências simplesmente apareciam do nada, facilitando o apoio de seus pezinhos. Já bem no alto, teve a certeza de que, por duas vezes, galhos se estenderam em sua direção para que pudesse chegar ainda mais alto. Henrique lembrava o júbilo que sentia naquele momento, fazendo o seu peito estufar. Ele era o menino que tinha amigos na natureza. O menino que se comunicava com as árvores. Ele estava chegando ao topo da rainha das todas as árvores. Aquele momento de suprema glória que estava experimentando e que encheria qualquer um de seus amigos de inveja simplesmente se desvaneceu no momento em que ouviu o seu nome gritado de uma maneira seca, irritada e que vinha de muito, mas muito abaixo de onde estava.

    O pequeno Henrique virou sua cabeça para aquela voz e os seus olhos encontraram os olhos irritados de sua mãe recém acordada. Depois do choque, da surpresa, ele percebeu que os olhos da sua mãe mudavam de expressão. De irritados passaram lentamente a ficar apreensivos. E também estavam se aproximando, como se ela estivesse flutuando em sua direção. Era claro que isso seria impossível e só poderia estar acontecendo o contrário. Ele é que estava descendo em direção a ela. Ele estava caindo. E, por alguns instantes, isso não pareceu nenhum problema, pois ele sabia que a sua amiga figueira iria salvá-lo. Estava quase certo que ela esticaria um galho e que ele seria salvo de atingir o chão. Mas se a gravidade fazia o seu trabalho, a figueira não. Ele até poderia jurar que a árvore recolhera um ou dois galhos para que ele não pudesse se salvar. Ele atingiu o chão com relativa força. A mãe veio correndo, levantou-o imediatamente e, após apalpá-lo de cima a baixo e disparar um monte de perguntas sobre a sua condição física, percebeu que nada passara de um susto. E a partir daí, a preocupação da mãe foi substituída por aquela irritação anterior. Saiu de lá puxado pela mãe que não cansou de listar um monte de coisas que ele estaria privado de fazer durante toda aquela semana por conta da desobediência. Ele ainda teve tempo de virar para trás e dar uma última olhada na figueira. Ele jura que ela tremia, como que rindo de seu infortúnio. Talvez a figueira fosse mais amiga de sua mãe do que dele afinal. A voz monotônica, vinda dos alto- falantes, anunciavam o embarque do seu vôo. Dirigiu-se para o embarque com o medo de sempre. Mas com um novo objetivo. Voltaria para o sítio e acertaria contas com aquela figueira. E o melhor é que para lá, ele podia viajar de carro.

  • As ligações do Cavinato

    March 4th, 2011

    O Cavinato é um imã que atrai problemas de toda sorte. É o mais argentino dos brasileiros. Na verdade, é mais argentino do que milhões de argentinos. Tema para uma coletânea de tangos. Joguete das pequenas tragédias do dia a dia. Um boneco manejado pelas mãos frias e habilidosas da desventura.

    Cavinato, não chorou ao nascer pelo motivo usual: a invasão do ar em seus pulmões. Seu choro foi uma reclamação veemente contra o médico que o tirou do conforto de seu lar e ainda era um desajeitado que o segurava pendurado de ponta cabeça. Fato é que desde então, Cavinato tem a mais plena convicção que há um complô orquestrado contra ele em quase toda a empreitada na qual se mete.

    Esta crença o tornou uma pessoa viciada. Mas não pense que o seu vício são as anfetaminas, ervas indígenas que nos fazem ver espíritos brotando do chão ou bebidas com teor alcoólico acima de 40%. Cavinato viciou-se em outra droga, só que aí, a palavra droga pode ser usada em seu duplo sentido. Ele é viciado em ligar para Serviços de Atendimento ao Cliente. Não passa dia sequer sem ligar para um SAC.

    Suas ligações tornaram-se celebres entre os seus colegas, ja que hoje em dia, nas corporações modernas, a parede é um conceito praticamente extinto e você é obrigado a ouvir coisas da vida alheia das quais poderia ser poupado. Mas, as ligações do Cavinato são a exceção a esta regra. São uma atração. Como daquela vez em que tentou relatar um chiado na sua linha telefônica.

    – Luiza Mota atendimento ao cliente em que posso ajudar?
    – Eu estou com um problema na minha linha telefônica.
    – Qual a natureza do problema?
    – Um chiado. Não da pra ouvir nada que o outro fala.
    – O senhor quer que eu fale mais alto então?
    – Por que diabos a senhora falaria mais alto?
    – Porque o senhor disse que tem um chiado na sua linha e que mal ouve o que se fala do outro lado dela, meu senhor.
    – Dona Luiza, a esta hora da manhã, presume-se que eu esteja no trabalho, portanto a senhora não precisa gritar.
    – Pois não eu vou estar passando para a nossa área técnica, o senhor, por favor, aguarde um minutinho?
    – Ah, não…
    – Como, senhor?
    – A senhora está tentando me enganar usando o diminutivo de minuto, achando que isso terá efeitos tranquilizantes sobre mim.
    – Não entendi, senhor.
    – Por acaso o minutinho é um minuto de 40 segundos e por isso a senhora acrescenta este “inho”?
    – Não, claro.
    – Exato. Eu não sou suscetível a essa tentativa torpe de me enganar com o que eu chamo de “expressões tranquilizantes”. Um minuto é um minuto em qualquer ponto do planeta terra. Leva sessenta segundos até começar o outro minuto. Não tente me enganar acrescentando um “inho” na tentativa de me tranquilizar.
    – Pois não, senhor, então eu estarei passando para a nossa área técnica que vai atendê-lo em um minutinho…
    – Minha senhora eu acabei de falar… alô…alô…

    Voz gravada dizendo o quanto a ligação do Cavinato é importante mesclada com uma música do Keny G em looping até o área técnica atender.

    – Area técnica, Claudio Lins. Com quem eu falo?
    – Claudio Lins, por favor, quantos segundos tem um minutinho?
    – Como, senhor?
    – Quantos segundos tem um minutinho?
    – Acredito que sessenta senhor.
    – O que é o mesmo que um minuto, certo? Um minutinho e um minuto têm sessenta segundos, correto?
    – Ã…correto.
    – Não, Cláudio Lins, errado. Um minutinho é uma unidade de tempo cujo conceito é bem elástico, porque a sua colega Luiza disse que até você atender ia levar um minutinho, numa tentativa clara de me enganar, passando a idéia de que talvez um minuto tivesse 40 segundos ou quem sabe até menos, coisa que, aliás, disse a ela que não existia. Mas eis que eu descubro que o minutinho de vocês leva 8 minutos e 37 segundos na unidade de tempo do mundo real, que vem a ser o meu, aqui do outro lado da linha.
    – É que hoje estamos tendo muitas ligações…
    – Eu não estou discutindo o número de ligações que vocês estão recebendo hoje e sim a medida da unidade de tempo que, me parece, é uma aí e outra aqui, inclunido o fato de existirem minutos que deviam levar 40 segundos ou menos e por isso são chamados de minutinhos, mas que na pratica levam mais de 8 minutos, o que pra nós aqui no mundo real levaria o nome de minutão.
    – Certo, senhor, o senhor tem toda a razão.
    – Ah…finalmente uma voz sensata. Muito obrigado então.

    E desligou o telefone sem resolver o problema do chiado, contente que ficou por alguém ter dito que ele tinha razão.

  • Abstinência

    February 13th, 2011

    Estava sentado na mesma pedra voltada para o lado oeste da ilha. No inicio, quando era um recém-chegado, aquele era um espetáculo deslumbrante. Um sol monstruoso dando adeus a mais um dia mergulhando lentamente na imensidão do mar a sua frente, colorindo o céu de vermelho, laranja e outras matizes de nome indefinível que eram possíveis ser vistas pela completa falta de poluição. Eram as “cores da ilha”, como resolveu apelidá-las. O astro despejava um rastro de luz que cintilava pela superfície da água, levemente crispada pela passagem das correntes marinhas. Com o passar dos dias aquele já não era senão uma visão comum e extremamente enfadonha.

    Estava sentado na sua pedra por uma razão muito mais prosaica: rotina. Era a rotina que o aproximava das coisas que ele deixara na civilização desde que o avião caíra deixando-o como único sobrevivente que, depois de muito custo, tinha dado naquela ilha sabe lá Deus em que ponto do planeta. Sentia prazer de chegar lá na hora e sentar no momento em que o sol estava há um dedo de tocar a superfície do horizonte marinho. Esse era o horário estabelecido por ele para estar devidamente sentado la. Um dedo de distancia. Nunca chegava atrasado.

    Depois de 237 dias de completa solidão naquela ilha uma pessoa que vive em uma cidade sofre transformações. As primeiras são obrigatórias e têm a ver com o instinto de sobrevivência. É preciso recorrer aos antepassados gravados em algum gene recôndido para acender fogo, pescar, caçar e se alimentar devidamente, bem como aprender que plantas têm algum poder curativo. É preciso aprender a lutar para sobreviver. É necessário entrar em processo de comunhão com a natureza. E quando você passa por este estágio, há um verdadeiro júbilo causado pelo senso de realização. Mas isso já era passado, tinha ficado bem lá para trás. Ele dominava a ilha, era o senhor daquele pedaço de terra abençoado por uma extensão de água de um tom de verde muito peculiar e um céu que se mantinha azul durante todo o dia, exceto por um breve período no meio da tarde que durava, segundo seus cálculos, aproximadamente uma hora (seu relógio quebrara no acidente), quando uma boa quantidade de água caía de maneira resoluta dos céus.

    Mas depois do dia 206, segundo ele recorda dos riscos que ainda faz num coqueiro, passou a sofrer profundas mudanças de humor. Começou a se incomodar profundamente com toda aquela harmonia imposta pela natureza. Buscar coisas das quais sentia falta, como a rotina, era um sintoma. Sentado na sua pedra voltada para o oeste estava muito mais indiferente ao espetáculo à sua frente do que o costume. Retorcia-se numa clara crise de abstinência. Queria o cheiro de gasolina, de diesel. Ansiava por ver os gazes formando aquele manto marrom sobre os prédios cinza deformados pela excreção translúcida do combustível lançada por milhares de carros desesperados pela total incapacidade de chegar em algum lugar na hora planejada. Sentia uma saudade insuportável de chamar o filho da puta que o fechou no trânsito de, bem, filho da puta. De alcançá-lo e fechá-lo da mesma maneira. Necessitava da competição no trabalho, fazer de tudo para conquistar mais e mais para depois ter o prazer de olhar a expressão de inveja e derrota daqueles que superou. Queria uma pessdoa para a qual mentir, alguém para trair a confiança. Precisava ofender alguém só porque este alguém torce por um time diferente do dele. Ali, naquela ilha era o rei. Mas não tinha nenhum súdito para comandar. Ele era um ser humano, ora bolas. Completamente fora do seu habitat. Completamente desconfortável com toda aquela aborrecida harmonia do mundo.

  • Os carros do Braga: a Brasília creme.

    January 16th, 2011

    O Braga é um sujeito muito bacana, mas sempre teve as suas peculiaridades. A principal delas é não ter amor nenhum pelos carros que dos quais foi dono. “Carro é uma máquina que tem que nos levar do ponto A para o ponto B, e, desde que esteja andando é o que interessa”, diz convicto. Com carro, o Braga só gasta o essencial, o que se resumia a abastecer (quantidade que nunca ultrapassava um quarto de tanque) e uma eventual troca de óleo quando o motor já desse sinais de queima do mesmo. Coisas bobas como trincos de porta e estofamento com manchas e outros cpontratempos não faziam parte dos “essenciais” do Braga. Não que ele não tivesse dinheiro para consertar esas coisas. Ele era simplesmente desleixado.

    O Braga teve um casal de filhos, o Marcelo e a Carina. Tinham dois anos de diferença entre si, sendo o garoto mais velho. E foi ele quem mais sofreu com este desleixo obsessivo do Braga com os carros. Quando atingiu os dezoito anos idade, em que sair para festas e levar as candidatas a um relacionamento para jantar, ele pagou os pecados de algumas encarnações com a Brasilia creme que é o carro que o Braga liberava para as saídas – ele tinha um Corcel 2 e mais um fusca que esposa usava. Nessa idade, o ter um carro a disposição, sabe-se, é uma vantagem ainda mais em 1982. Mas a Brasilia creme que o Braga liberava para o filho conduzir as donzelas tinha la seus problemas, mas nenhum que superasse os trincos inoperantes das portas. Uma vez que você trancasse as portas, era impossível destrancá-las por for a, o que fazia o simples ato de entrar no carro um exercício. O único modo de destrancar as portas era destrancar o porta-malas, projetar meio corpo para dentro do carro pelo porta-mala e esticar o braço, alcançar o pino, levantando o mesmo, liberando o trinco e aí sim, destrancando a porta, tanto a do piloto quanto a do carona.

    A sina de entrar pela porta do porta-mala para poder abrir as portas da Brasilia creme dificilmente abandonava a retina da menina que saia com ele. Era uma primeira impressão. Algumas não podiam evitar e começavam até a gargalhar subitamente no meio de um papo em uma festa ou no bar lembrando a imagem do Marcelo com o corpo projetado para dentro do porta malas debatendo-se para alcançar o pino da porta o que fazia os seus pés que ficavam pra fora do porta malas balançarem no ar tal qual a cauda de um peixe recém tirado dá água e, depois, o rosto rubro e a respiração ofegante pelo esforço, enquanto abria a porta para a moça em questão entrar.

    Era um problema era simples de solucionar, não fosse um carro do Braga, e por isso, derrubou inúmeros prospectos de relacionamento do pobre e sofrido Marcelo. A irmã debochava dele, que ficava prostrado sempre que o namorado dela aparecida para pegá-la para sair com um carro cujas portas funcionavam perfeitamente. Ele implorou ao Braga pra dar um jeito naquela situação, que estava “queimando o meu filme” com ele costumava definir sua situação, não raramente com a voz embargada. O Braga, impassível, inventava desculpas das mais variadas: “Bobagem, isso é um ótimo quebra gelo” ou “Cadê a sua criatividade, moleque? Transforme um fato negativo em positivo e elas vão babar por você.” Ou, ainda, “Se a menina gosta mesmo de você não vai se importar com uma ciobinha a toa como esta.”

    Cansado se ser humilhado pelos pinos desobedientes da Brasilia creme, Marcelo resolveu acabar de uma vez por todas com as situações vexatórias que era obrigado a passar. Na noite em que finalmente ia sair com Lúcia, a menina mais incrível da escola, resolveu usar uma tática simples: não trancaria as portas da Brasilia creme em momento algum. Daria um basta naquela cena burlesca da qual ele era o palhaço principal. Com a Lúcia não.

    Funcionou perfeitamente quando foi pegá-la no apartamento. Funcionou perfeitamente quando saíram do bar e se dirigiram para a festa. Mas, quando saíram da festa, no espaço onde estava estacionada a Brasília, estava o Corcel 2 novinho do Lugato, ou melhor, do pai do Lugato, que, por sinal, andava de olho na Lucia também. Ladrões se aproveitaram das facilidades apresentadas e levaram a Brasilia creme. A Lúcia, quem levou foi Lugato, deixando, no caminho, o Marcelo na delegacia para fazer o boletim de ocorrência. Marcelo estava aborrecido por ter que passar por todos aqueles procedimentos àquela hora da noite, mas não chegava a estar infeliz. A Brasilia creme ia para o desmonte. O Braga ia ser obrigado a comprar um outro carro. Mas, depois de um tempo, lembrou que, como todo carro do Braga, a Brasilia creme não tinha seguro. Passou a sentir calafrios ao imaginar o que viria pela frente.

  • O verdadeiro perigo (selo pais em tpm)

    December 27th, 2010

    Desacreditem do que a tradição imputa a vocês, pais de lindas meninas, como eu. Não pense que a tragédia suprema e inapelável vai tomar forma no dia em que a sua linda filha chegar em casa trazendo um cebeludo cravejado de piercings, mais parecendo uma daquelas almofadinhas de agulha que a sua mãe tinha quando costurava a próprias roupas.

    Nem será o fim do mundo se ela aparecer em casa num sábado a tardinha puxando pela mão um pastiche do Justin Biaber com cabelos penteados para a frente delatando que o pequeno sujeito ali na sua frente ficou pelo menos uma hora e meia em frente ao espelho manejantdo um secador e cabelos e uma escova, quem sabe até um secador/escova que foi surrupiado do quarto do irmã mais velha, com a finalidade estética de fazer com que cabelo atingisse aquele design “levei um vento de popa”.

    Nem se desespere se num dia como qualquer outro você chegar em casa depois de um dia repleto de reuniões intermináveis – cuja única finalidade era chegar a conclusão de que novas reuniões seriam necessárias para resolver um problema que na verdade não existe – e ao chegar na cozinha para beber um copo de guaraná com muito gelo, deparar-se com um marmanjo com mais delineador nos olhos do que a a sua filha e sua mulher somadas em dia de casamento, despejando o resto da última garrafa de guaraná da sua geladeira num copo que segura com as suas mãos que ostentam unhas pretas. Não, senhores. Não me refiro a extremidade da unha preta, tal qual um mecânico que ganha sua vida engraxando-se diariamente no processo. Falo de unhas pintadas com esmalte preto.

    Dizer que estes sujeitos representam alguma coisa de ruim, algum perigo para nós é a balela das balelas. O folclore dos folclores. Porque nenhum destes seres, caso existam, é ameaça maior do que a sua querida e amada filha aparecer com um sujeito que se veste com uma camisa de um azul normalíssimo, que, por incrível que pareça, combina com as calças, porta-se com o mínimo traquejo social, não só conversa sobre futebol com você como ainda torce para o mesmo time que você. Sua mulher acha que ele é um amor e um primor de educação, o que você acaba descobrindo ser a mais pura verdade. Ele tem pai, mãe e domicílio estabelecido, como diria um juiz no tribunal. Ele é classificado como “esse menino é de ouro”. Estas qualidades envolventes deixam você completamente anestesiado. Quando você menos espera está num jantar com o pai e a mãe dele no tal domicilio estabelecido. Sem se dar conta, com as defesas baixas, não se dá conta de que já caiu na armadilha insidiosa e repugnante.

    Então, na manhã com luz outonal de um sábado, com folhas formando um tapete dourado na calçada em frente àquela capelinha romântica que a sua filha e o “menino de ouro” escolheram, você, ainda entorpecido pelo veneno do que foi presa fácil, entrega a mão dela para ele. Você comemora. Discursos, palavras bonitas e algumas doses de tudo o que estiverem servindo depois, você acorda no domingo com duas dores de cabeça: a da bebida, que vai passar no mesmo dia, e a de ter se dado conta de que o menino de ouro passou a perna em você e tomou a sua filha. Essa dor de cabeça também passa. Mas demora mais.

  • Presentes – (Selo Pais em TPM)

    December 12th, 2010

    André cambeleava sem destino pela casa, ainda sem consciência total de que havia despertado. Acordara de sopetão ao olhar para o relógio na mesa de cabeceira e perceber que ja passavam das dez da manhã. Em sua cabeça, a confusão musical da noite anterior misturado aos som de inúmeros pré-adolescentes perambulando pela casa. Na verdade, permaneceu em sua mente durante o sono, como se a festa de anviersário da filha tivese atravessado a madrugada e chegado até ali pulsando ao som do bate estaca. Sabe Deus como chegou a cozinha e preparou seu usual café gelado. Achou o pão, pegou o leite e a manteiga na geladeira e a medida em que encheu seu estômago esvaziou a sua mente. Tinha entrado definitivamente no sábado. Foi até a porta da frente e pegou o jornal. A manchete, como sempre, ela alarmante. “Não dão folga nem no sábado”, André pensa. Pega o caderno de esportes. Ele sempre pega o caderno de esportes porque acha o mais inconsequente de todos. As crises lá expostas são tolas e pueris. É atÉ praticamente uma fotonovela. E os comentristas parecem mais lavadeiras fofoqueando sobre a vida alheia. Nada para pensar. Era isso que queria, no momento. Quando a cabeca estivesse cem por cento acordada, passaria para coisas mais inteligentes.

    Depois de algum tempo mergulhado na sua leitura, percebeu que as gralhas que ouvia la fora davam gritinhos e falavam português. Foi quando concluiu que não eram gralhas e nem vinham do jardim. Eram Dora e Pati, mulher e a filha no quarto da última. Curioso, André deixou o jornal de lado e foi até a origem daqueles arroubos sonoros. “É incrivel como duas mulheres felizes podem parecer quatro ou cinco juntas. A alegria as multiplica”, ele pensa enquanto caminha em direção ao quarto da filha. Ao chegar, depara-se com as duas sentadas no chão ao lado de uma montanha de presentes, em cuja base, papéis coloridos e ja rasgados dos presentes abertos davam a impresão de lava colorida que jorrou de um vulcão esquisito. As duas estão conferindo os presentes e a cada um que abrem soltam gritinhos. Filha e mãe pareciam ter a mesma idade: 12 anos.

    – Olha, isso? – Dora excita-se com uma caixa nas mãos.
    – Maquiagem? Uhu! – A filha excita-se.
    – Ai, minha filha, olha essas calcinhas?
    – Mão, olha qui, olha aqui.
    – AaaaaaaaaaaaaaH!!! – As duas gritam juntas.
    – Uma bolsa com lugar para o meu celular e o meu MP3.
    – É Vuiton, mãe!
    – Ah, deve ter sido da sua madrinha.

    “Aquela chata esnobe da minha cunhada.”, ele pensa enquanto olha aquela cena. Elas nem aí pra ele. Os presentes foram sendo abertos e descobertos e a cada papel rasgado era acompanhado de “ai que lindo“ para os bacanas, “uhus!” para os mais bacanas e o “aaaaaaaaaah!” em uníssono para os realmente incríveis. A operação abre presente durou 40 minutos. O quarto da filha uma bagunça de papéis rasgados. As duas passaram por André e desceram falando ao mesmo tempo num grau de excitação dos mais elevados. Não era um diálogo, nem um monólogo. Não há classificação quando um diiálogo são frases sobrepostas entre dois interlocutores. A medida em que se afastavam o silêncio foi tomando conta do quarto. E o silêncio, que começou como um alívio, passou a se tornar insuportável para André. Porque foi o silêncio que permitiu a ele uma observação mais atenciosa de cada presente naquele quarto. Um a um, em todos os detalhes. Uma gélida corrente percorreu sua espinha. Ficou anestesiado por alguns momentos, prostrado diante do tamanho de sua constatação. Ouviu o bater da porta da rua. Pela força, cloncluiu que a filha tinha saído para se encontrar com alguém no condomínio. O dia estava muito bonito mesmo. Ele desceu e encontrou a esposa colocando as louças sujas na maquina de lavar.

    – Ela não está linda? – Orgulha-se Dora.
    – É.
    – É? André, mas que cara é esta.
    – Os presentes, Dora. Os presentes da Pati.
    – Ai, cada um mais lindo que o outro. Eu adoro abrir presentes com ela, volto no tempo.
    – Não tinha boneca, Dora.
    – Como?
    – Não tinha boneca, eu disse. Nem cozinha de brinquedo, aliás, a única coisa perto de um brinquedo que tinha ali era um game de Playstation.
    – Mas que tristeza é essa?
    – Você viu aquelas calcinhas? – Ele parece hiopnotizado. – Os batons. Eu juro que vi uma sandalia com um salto ali no meio. Uma sandália com salto.
    – E duas botinhas, com saltinho. Ela ficou uma coisa.
    – Coisa é o que eu estou sentindo no peito, Dora, na falta de descrição melhor.
    – Você está pálido, André. Está se sentindo bem?
    – Cadê os brinquedos, Dora. Nossa filha não ganhou um mísero brinquedo.

    Dora olhou para o marido entendendo tudo. Ele parecia um zumbi. Qualquer expressão que ja habitou o rosto de seu marido o havia abandonado naquele exato instante. Ao se olhar para aquele rosto, uma palavra veio-lhe a mente: catatônico. Diante da verdade dos fatos, ela resolveu guardar o noticia que tinha para dar. A de que a filha tinha virado mulher, biologicamente falando. O coitado do André ja tinha tido emoções demais por uma manhã.

  • A pertinência dos garçons 1

    November 29th, 2010

    Casal na mesa 15

    Ele:
    – Então o que achou?
    Ela:
    – Ai, Marcelo, que lugarzinho lindo!
    Ele:
    – Romântico, não?
    Ela:
    – O que você está querendo, hein?
    Ele:
    – Ué, um namorado não pode levar a namorada pra jantar num restaurante bacana?
    Ela:
    – Eu sei, eu sei. Afinal a gente ja está a cinco a os juntos não é?
    Ele:
    – Cinco anos é um momento decisivo numa relação, não é?
    Ele:
    – Você ta parecendo ansiosa. Tudo bem?
    Ela:
    Ai, Marcelo, fala logo.
    Ele:
    Marisa, o que você tem?
    Ela:
    Tá bom, tá bom… vou entrar no jogo e esperar o momento.
    Ele:
    Que momento, meu Deus?
    O garçon chega:
    – O senhor deseja fazer o pedido agora?

    O empreiteiro e o burocrata na mesa 7

    Empreiteiro:
    – Então, posso contar com essa ponte?
    Burocrata:
    – Bem…
    Empreiteiro:
    – Bem? Como assim, “bem”?
    Burocrata:
    – Tem muita gente interesada na ponte.
    Empreiteiro:
    – Você não disse que ia ser fácil?
    Burocrata:
    – Eu disse que ia ser “aparentemente” fácil.
    Empreiteiro:
    – Isso não está me cheirando nada bem.
    Burocrata:
    – (risos)
    Empreiteiro:
    – Qual é a graça?
    Burocrata:
    – Aparentemente você devia estar acostumado com o cheiro no nosso negócio, não?
    Empreiteiro:
    – Piadista agora? Tudo bem, tudo bem. O que eu preciso fazer?
    Neste momento chega o garçon:
    – A comissão não está incluída na conta. Posso cobrar?

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