• Crônicas de San Francisco 3 – Os Grisalhos do Castro

    July 12th, 2011

    SF4

    O bairro do Castro, em San Francisco, dispensa maiores explicações. É só mencioná-lo para ouvirmos risinhos e piadinhas homofóbicas de sempre, incluindo as minhas, é bom que fique claro antes que me chamem de engajado, coisa que não sou para nada, a não ser em defesa do bom senso. Pois um passeio pelo bairro revela-nos um lugar realmente aprazível, com casas vitorianas em sua maioria reformadas, porém, respeitando a arquitetura e pintura originais, ladeiras de fazer a gente bufar e por muito pouco não deixar mesmo o coração em San Francisco, como dizia o Tony Bennett, , árvores e pássaros gorjeando dando um ar ainda mais bucólico à região. Pensem o que quiser, mas eu moraria lá fácil, provavelmente passando o primeiro mês repetindo a frase “thank you, I`m flattered, but I´m straight”.
    Quanto mais nos aproximamos da Market Street, mais a coisa vai ficando diferente. As casas dão lugar à lojas e o ar bucólico da lugar ao movimento.. A primeira sensação é estranha. Não estava, definitivamente, acostumado a perambular por um mundo onde os homossexuais são a imensa maioria. A diferença é que ninguém estava me olhando feio. Ninguém falou alguma gracinha. Aliás, não estavam nem aí para mim e para as meninas. O tempo passa e você vai ficando mais a vontade com o mundo inverso. E daí, começa a perceber uma coisa curiosa. A maioria dos habitantes do bairro, pelo menos os que ali perambulavam em casais de homens de mulheres ou solitários, tinham idade um tanto avançada. Não sei se acontece só comigo, mas quando a palavra gay é mencionada perto de mim, a primeira coisa que me vem a mente são pessoas entre os 20 e 40 anos. Mas o que eu vi por lá foi um enorme contingente de gays com mais de 55 anos. Cabelos grisalhos aos borbotões. Em certos casos, cabelos e bigodes grisalhos, como os de Erik, um dos típicos habitantes do bairro que, ao ouvir a gente conversando na mesa da lanchonete Orphan Andy´s, aproximou-se de nós e passou a travar um diálogo que transmito agora, devidamente traduzido.

    – Desculpe, mas de onde são vocês?
    – Brasil – respondeu minha filha.
    – Ah, eu estava ouvindo vocês falarem. Adoro a musicalidade do português. É a primeira vez em San Francisco?
    – É. E você, mora aqui no bairro?
    – Moro. Depois de anos em guerra comigo mesmo, encontrei a paz e vim morar aqui.
    – Guerra com você mesmo¿
    – Isso
    – Eu tenho uma curiosidade. Como foi pra você até o momento que você assumiu – perguntei. – Quero dizer,ser gay há décadas atrás era bem mais dificil, não¿
    O que veio daqui pra frente foi surpreendente. Aquele homem que mais tarde disse que tinha 63 anos de idade passou a contar a história da sua vida em pouquíssimas linhas.

    – Era. E, antes de assumir, eu era um aqueles que tornava as coisas mais difíceis, Eu fiz carreira no exército americano. Fui oficial no Vietnam e, felizmente, voltei com a minha sanidade intacta. Na época, o jeito de lsufocar aquilo que eu realmente era foi me tornar um homofóbico ferrenho. Durante a guerra descobri dois homossexuais no pelotão que eu comandava. Eu os persegui incessantemente. Dava a eles as piores missões, dizia que eles faziam errado quando faziam certo. Num dia, em uma missão de reconhecimento, caímos em uma emboscada e eles deram a vida para salvar oito homens do pelotão. Passei o resto da guerra vendo os dois em cada missão. Assombrações me vigiando, apontando o dedo pra mim, lembrando da minha opção sexual que eu tentava esquecer. Quando a guerra acabou e eu voltei pra casa, o meu filho, que nascera enquanto eu estava no Vietnam, já tinha um ano e meio de idade. Não demorou muito e minha mulher engravidou de novo. Foi uma gravidez complicada e ela acabou morrendo no parto da nossa filha, Melinda. Criei os dois sozinho. Meu filho, Edward, começou a demonstrar claramente suas tendências homossexuais desde pequeno. Eu sabia exatamente o que ele sentia, suas dúvidas, seus medos. Aquela era a primeira mensagem. A segunda não tardou. Melinda também passou a demonstrar claras tendências homossexuais. Meu filho e minha filha eram ambos gays. Querem saber o que eu penso?- aproximou o rosto dos nossos e passou a falar num tom ais baixo, como se tivesse medo de que as pessoas nas mesas pr[oximas fossem escutar. – Eu acho que aqueles dois soldados voltaram como meus filhos. E para mim isso foi o suficiente para que eu me tornasse quem sou de verdade. Casei novamente. E agora, moro aqui. Estou pela primeira vez no meu verdadeiro lugar.

    Neste momento, o garçon que nos atendeu estava saindo. Era o final do seu turno. O nome dele é Joel. O marido de Erik. Saíram de mãos dadas e pareciam bem felizes. E nós…bem, nós tivemos que chamar outro garom para pedir a conta.

  • Crônicas de San Francisco 2 – O Paraiso dos Esquizofrênicos

    July 10th, 2011

    SF3Não sei por quantos já passei, mas não conto menos de vinte diferentes desde quando cheguei, o que dá uma média de cinco por dia. Refiro-me aos moradores de rua que falam sozinhos. Temos dos mais variados tipos. Os que falam baixinho, com olhos arregalados, para o seu companheiro imaginário ao lado, como que contando um segredo terrível o qual, não descarto, seja uma conspiração alienígena que visa não destruir cidades com armas de incrível poder destrutivo, mas, quem sabe, escravizar os humanos para que eles venham a trabalhar para os futuros donos do campinho.

    Tem os que reclamam com gestos largos, também para um companheiro imaginário ao lado, contra o aumento dos impostos que ele, ou ela, de qualquer maneira, já nem pagam mais, mas enfim, reclamar pode ser um vício igualzinho ao cigarro e uma crise de abstinência não é, de maneira alguma, algo que este pessoal esteja com vontade de encarar.

    Há os teatrais, que falam em voz empostada, contando verdadeiras epopeias, talvez candidatos a atores e atrizes que tenham fracassado na sua busca pelo estrelato na Califórnia, mas obtido sucesso tremendo na quantidade consumida de drogas a ponto de fazer da rua o seu cenário e dos transeuntes o seu publico cativo.

    E há os de filme, aqueles que parecem ter caído direto alguma das tantas guerras em que este país está metido, para as ruas de San Francisco. Parecem acuados, esperando que alguma bomba vinda sabe-se lá de onde vá explodir perto deles a qualquer momento.

    Enfim, chama a atenção essa imensa quantidade de esquizofrênicos vagando por aqui. Fico tentando formular alguma teoria válida. Por exemplo, San Francisco foi a meca do movimento hippie com farto consumo de heroína, mescalina e tantas outras inas. Será que isso comprometeu o bom funcionamento cerebral das gerações vindouras? Ou a teoria da minha filha que diz que após o grande terremoto de1906 as pessoas que perderam suas casas e não puderam comprar novas criaram gerações de moradores de rua que foram enlouquecendo aos poucos. Outra boa teoria: todos os moradores de rua daqui são médiuns e, portanto, dialogam com os espíritos que vagem pela cidade. Agora, como este é um país riquíssimo, talvez todos eles tenham bluetooths de tamanho irrisório em suas orelhas e eu é que acho que estão todos falando sozinhos.

  • Crônicas de San Francisco – Turismo e descoberta.

    July 9th, 2011

    SF1 Toda vez que chego a algum lugar penso em alugar um carro e conhecer um monte de coisas incríveis em pouquíssimo tempo. Algumas que a gente já sabe que existem de antemão, outras que são sugeridas por amigos seja porque você perguntou, seja porque eles estão realmente interessados em que você se divirta. Ocorre que, quando chego em alguma cidade, esteja ela onde estiver, não consigo simplesmente não andar usando o meio de transporte mais antigo que existe: as pernas direita e esquerda. Chegar direto ao ponto determinado, ou seja, fazer turismo, não tem a menor graça, pelo menos pra mim. Liberar doses cavalares de ácido lático pode ser doloroso por um lado, mas nos oferece momentos únicos. E depois, as dores musculares somem, mas as descobertas ficam guardadas em um ponto da nossa memória que resume todas as sensações que passaram por nossos cinco sentidos.

    Hoje, saímos do hotel decididos a pegar um daqueles bondinhos típicos da cidade de San Francisco e cair direto no fervo que é o Pier 39, num local chamado Fisherman’s Wharf, região de Embarcadero, onde fica o porto da cidade. Mas ao sairmos do hotel, sem prévia combinação, passamos a caminhar olhando absortos cada prédio, ouvindo cada barulho e passando por inúmeros homeless , muitos deles falando com algum companheiro imaginário (assunto de que me ocuparei em outra oportunidade). E quando nos demos conta, descobrimos um parque encravado entre a MIssion Street e a 4th street chamado Yerba Buena Garden.

    Até aí, nada demais, a despeito do parque ser muito interessante. O que fez a diferença é que, neste exato momento, acontecia um show que, viemos a saber depois, fazia parte de um festival chamado Yerba Buena Gardens Festival. A ideia do festival é promover a convivência entre as pessoas em parques e espaços abertos da cidade. Havia uma incrível variedade de tons musicais, de cores e até de seres humanos espalhados pela grama com cheiro de recém cortada com seus pratos de comida, já que era hora de almoço. Nos misturamos a tudo, como residentes, ouvindo uma banda da melhor qualidade acariciando nossos ouvidos com o jazz mais bossa nova que eu já tinha ouvido.

    Aquela era uma oportunidade única que a cidade, agradecida por não sairmos correndo feito obcecados para ver aquelas coisas que dela sempre querem ver, resolveu nos revelar como quem se abre para um amigo em quem confia. Caminhar é entrar em escaninhos, fiordes, desvios. Andar é falar a toda hora “olha, vamos ver o que tem ali?” e sempre tem alguma coisa. Andar é descobrir.

    É claro que fomos ao Fischerman Wharf e é lógico que também foi muito divertido. Lojas e restaurantes coloridos, tudo tremendamente organizado para o consumo, o que também tem lá o seu apelo. Amanhã tem mais. Agora, por favor, deem licença mas vou fazer uns alongamentos. Minhas pernas vão precisar.

  • Espelho

    July 3rd, 2011

    Andavam os dois de carro pela cidade. Um dirigia, o outro só falava.

    – E essa copa de 2014? Neguinho vai se locupretar atrasando obra de aeroporto, de estádio, tudo de propósito pra fazer as coisas a toque de caixa e superfaturar sem licitação…sai de trás desse cara,…passa pela direita mesmo. E o Paloccil? Enriquecer 20 vezes em 4 anos com uma empresa de consultoria de um homem só? Conta outra, pelo amor de Deus…O que? Claro que dá pra parar, faz filinha dupla ali que dá eu fico aqui no carro no caso de chegar o guarda….o que eu tava falando mesmo? Ah, esses politicos não têm jeito. E não é só politico, não. Você viu o presidente do supremo que levou a mulher com verba pública? Estamos pagando pra madame fazer compras em Nova Iorque. É o fim da picada…passa logo esse sinal vermelho que não tem ninguém atravessando mesmo, sinal inútil esse!…ah, e a votação do código ambiental? Mais uma palhaçada deste governo mancomunado com a bancada ruralista …o que? Ah, não vi o cinzeiro..também é só uma bitucazinha de nada, não faz nem cócegas em bueiro. E falando em bueiro, e o prefeito que agora se deu aumento? De 12 paus passou pra 20 e poucos paus. Eles não querem saber, o negócio é tirar vantagem, essa gentalha…ah, olha aqui essa nota de vinte. Tava com tinta vermelha, veio de assalto a caixa eletrônico, mas eu e uns amigos inventamos um jeito de lavar a tinta, que eu não vou até banco trocar que dá um trabalho do cão. Ta nova. E o Ricardo Teixeira que embolsou os tubos em propina? E continua mandando na CBF graças a bancada da bola la no Congresso, pouca vegonha. Aliás, falar em bola, ja arrajei as coisas pra liberar a carteira da tua filha, até semana que vem ela ta com tudo na mão. E ninguém se deu mal naquela história do dossier do Serra, hein? Isso aqui é mesmo uma terra de ninguém, vou te contar. Se é nos Estaduso Unidos ja tem uma dúzia atrás das grades…põe logo o carro na vada de idosos, não sei pra que tanta vaga pra eles. Duvido que tenha tanto velhinho assim dirigindo carro aqui dentro desse shopping…

  • Fidelidade

    July 3rd, 2011

    – Crepitar?
    – Essa é boa.Realmente muito boa.
    – E não é? Dúvido que na língua portuguesa tenha palavra mais fiel ao que ela define quanto essa.
    – Deve ter. Deve ter, vamos ver…
    – Crepitar é incrível, vai? É praticamente o que a madeira fala quando estala. A palavra é o som do que ela define.
    – Pomposo.
    – Quem? Eu?
    – Não, pomposo é uma palavra fiel.
    – Sob que critério.
    – Se você falar para quem não entende a nosso língua a palavra pomposo, eu tenho certeza que ele vai chutar e acertar. A sonoridade dela é perfeita.
    – Esse critério do estrangeiro é bom, mas, cretpitar é melhor do que pomposo. É muito mais fiel. Não da para comparar.
    – É tem razão. Mas tem que ter outra.
    – Firula. Firula é concorrente séria.
    – Ah, é verdade. Firula é bem fiel ao que ela significa. Mas, se bem que, se usarmos o critério do estrangeiro e disermos a ele que isso na sua perna é uma firula em vez de uma ferida, ele é capaz de acreditar, você não acha?
    – Tem reazão, tem toda razão. Ah, mas essa é boa: tique-taque.
    – Pera…pera.Vamos impor umas regras. Onomatopéia não vale. Tem que ser palavra que define uma coisa ou ação. Imitação do som é óbvio que ganha.
    – Certo, certo. Corretíssimo.
    – Então tá, onomatopéia não vale.
    – Combinado. Ah, olha essa: altivo.
    – Essa é boa. E ouvir a palavra e me vem a cabeça uma pessoa de queixo erguido, olhar decidido, para frente, mesmo nos piores momentos.
    – É, mas se você colocar ao lado de crepitar, perde.
    – Perde feio.
    – Goleada acachapante?
    – Opa, acachapante é boa.
    – Acachapante vem como toneladas caindo sobre a gente.
    – É boa…é boa.
    – Mas não como crepitar.
    – Tem razão, perde de um a zero, nada acahapante, mas perde.
    – E ingles? Eu acho mais fiel: ugly.
    – Inglês não. É contra as regras.
    – E que tal diáfana.
    – Sabe que eu não sei o que ela significa? Mas ouvindo assim, me parece uma pessoa sensivel, amável. Uma pessoa diáfama.
    – Então essa está fora. Diáfama é uma coisa que, mesmo sólida, deixa passar a luz. Um véu de noiva, por exemplo, é uma coisa diáfama.
    – Então, crepitar continua soberano.
    – Bruxuleante.
    – O que?
    – A luz bruxuleante das velas.
    – Opa, temos uma candidata. E tem a ver com fogo também. Não é uma coincidência? E por falar em bruxuleqnte, que tal lúgubre?
    – Ah, lúgubre é outra séria candidata. Acho que se um estrangeiro ouve lúgubre, o castelo do Drácula é a primeira coisa que vem a cabeça dele.
    – Castelo do Drácula me lembra vento. Vento que balança as árvores e faz as folhas “farfalharem”.
    – Na mosca. Farfalhar é perfeito. Melhor do que crepitar. Muito mais fiél.
    – Será?
    – Hum. Pensando bem. Farfalhar. Crepitar. Crepitar. Farfalhar.
    – Acho que temos um empate.
    – Então, empatado está.

  • Apartheid

    June 13th, 2011

    Renato não tinha um smartphone. Para ele, uma coisa sempre foi muito clara: telefone é telefone. Não é relógio, não é agenda não é câmera fotográfica e tampouco computador. Telefone era uma peça que servia para comunicação a distância e a única vantagem que um celular trazia era ser um telefone sem fio que funcionava há muito mais do que os usuais trezentos metros da base. Renato nunca foi tocado pelas constantes e cada vez mais rápidas mudanças de tamanho, design e funções que aparelho vem sofrendo. Só trocava por um novo quando o que ele usava já mostrava sinais cabais de completa desfiguração funcional e física. E assim sempre viveu satisfeito e incólume a todo o movimento evolutivo dos tais “handsets” , alcunha com a qual os seus amigos mais moderninhos passaram a chamar o aparelho.

    No entanto, esta postura pragmática diante das maravilhas cada vez mais impressionantes acumuladas em cada aparelho, acabou por afetar as interações sociais com as quais Renato se envolvia diariamente. No início, as reações eram tênues, quase imperceptíveis. No ambiente de trabalho, quando o seu celular tocava e ele atendia, risadinhas disfarçadas de colegas que ostentavam orgulhosos os seus BlackBerrys e seus iPhones ao perceberem que o Renato ainda lidava com um simples celular. Era o escárnio tecnológico ainda silencioso, quase mudo, mas presente como um miasma pairando no ar.

    Ao sair com os colegas para almoçar, passou a perceber com um pouco mais de clareza que algo não estava certo. Ao chegar, todos colocavam os seus smartphones sobre a mesa normalmente, mas quando o Renato colocava ali o seu celular, todos olhavam para aquele celular e depois para o Renato como quem dizia, sem mencionar em palavras, que aquilo era um tanto inadmissível. Durante o almoço, a capacidade dos smartphones era o assunto da mesa. Discutia-se sobre novos aplicativos, trocavam músicas, fotos e endereços via bluetooth, o que deixava o Renato naturalmente alheio, mudo e sem assunto.

    Com o tempo e inúmeros updates depois destes primeiros almoços, as reações preconceituosas contra Renato só aumentavam de intensidade. O ato de colocar os telefones sobre a mesa ganharam uma reação bem mais dramática. Era o Renato colocar o celular dele para os outros afastarem os seus smartphones de perto, como se fossem pegar algum vírus só por estar próximo daquela coisa antiquada e completamente demodê. Isso, primeiro era feito de maneira disfarçada, um pouco envergonhada. Mas, depois, passou a ser feito ostensivamente. As claras. Um recado inconteste que dizia: Renato, você e este celular não pertence a nossa turma.

    O apartheid ficava ainda mais evidente quando, nestes almoços e também nos happy hours, o pessoal resolvia registrar os momentos de descontração usando as poderosas câmeras de sete, oito e até nove megapixels contidas em seus smartphones. No dia seguinte as fotos eram baixadas nos computadores e compartilhadas no escritório. Todos apareciam, menos o Renato. Notava-se o esforço para tirá-lo de quadro, o que as vezes era impossível e, portanto, algumas das fotos mostravam meio Renato, um quarto de Renato. O pobre era fatiado sem dó nem piedade.

    Por fim, Renato passou a não ser convidado para mais nada. Combinavam todos os almoços e os happy hours nas suas costas. Não era convidado para festas. Era mantido como um leproso, longe da convivência da sociedade sadia. Solitário e sem apoio, Renato se tornou amargurado e descuidado. Tão descuidado que um dia, com a cabeça nas nuvens, acabou deixando cair o seu celular que se espatifou em centenas de pedaços. Ele disse que foi um acidente. Mas a mãe jura que o aparelho, em total depressão, suicidou-se.

  • Golias e Davi

    June 6th, 2011

    Sentado em sua ampla poltrona dentro de sua igualmente ampla sala acarpetada e com paredes revestidas em madeira de um marrom denso, peças decorativas cuja a mais barata pagaria dois anos de salário da sua secretária, Rafael Guedes não estava nada satisfeito. O cabelo cuidadosamente cortado e penteado, com cada fio parecendo ocupar o seu lugar correto no universo era uma perfeita moldura para um rosto que ia ficando avermelhado a medida em que a inveja empurrava sangue para a superfície de sua pele. Os olhos pequenos, fumegavam olhando para a revista em suas mãos. Ele contou e recontou as páginas, tendo o cuidado de esfregar cada uma delas usando indicador e o polegar molhados com a saliva para na vã esperança de que encontrar duas delas grudadas. Em sua concepção de vida, estava diante de um pecado. Dos mais graves. Daqueles puníveis de forma exemplar. Rafael pegou o telefone e com voz baixa e monotônica, chamou a secretária, dona Lucia. .

    – Sim, seu Guedes.
    – A senhora, por favor, chame a Miram, dona Lúcia?
    – Agora mesmo, seu Guedes.

    Um minuto e meio depois, entra pela sala, esbaforida e com os olhos arregalados uma mulher de 32 anos, cabelos negros, presos em coque, rosto de feições delicadíssimas. Uma delicadeza agredida sem piedade pelo cansaço que agora se misturava com um pavor que prenunciava o que estava por vir. Ela parou em frente a enorme mesa de mogno de seu patrão, se bem que ela pensava mais nele com seu dono. Os olhos contrariados de Rafael encontram os olhos condenados de Miriam. Ele sentiu um frêmito de prazer ao perceber aquele sentimento expresso no olhar dela. Sentia sabor de filé suculento na boca ao olhar aquela pessoa desmoronando a sua frente. As pernas bambas mal se sustentando sobre o sapato caro de salto, a cabeça fervendo e o corpo fragilidade formigando de cima a baixo. Ele sentia estendeu o silêncio por puro prazer. Até o sabor do filé desaparecer da sua boca. Então, jogou a revista sobre a mesa, que pousou, mansa, bem na frente dela.

    – Eu quero acreditar que a senhora já tenha total consciência disso.
    – Eu não sei como aconteceu.
    – A senhora não é paga para saber ou não saber como isso aconteceu. É paga para que isso nunca aconteça. E muito bem paga.
    – Mas eu acompanhei toda a publicação – a voz saía aos pedaços, falhada -, eu realmente não entendo como o artigo sobre ele saiu com duas páginas a mais do que o seu.
    – Em primeiro lugar, não é ele. É Newton Johansen, que vem a ser meu ex-sócio e, como a senhora está sabendo, a pessoa que menos suporto neste planeta.
    – Ele deve…ele deve
    – O que ele deve ter feito a senhora devia ter sabido antes de ele fazer, obviamente, e desfazer ou fazer mais. Ninguém, em momento algum, deve ter um artigo, em qualquer revista com mais páginas do que um artigo sobre mim. Essa é a regra numero um de nosso contrato, dona Miriam. E a senhora a descumpriu logo com ele. A senhora sabe que eu vou monitorar a sua vida daqui pra frente, não sabe? A senhora que aprenda a fazer outra coisa, porque como assessora de imprensa nunca mais vai arranjar emprego em lugar algum. Saia da minha frente e deste prédio imediatamente.

    Dona Lúcia vê Miriam saindo da sala de Rafael aos prantos. Já presenciara cenas como aquela inúmeras vezes. Uma pessoa entra na sala, a porta se fecha. Não se ouve som algum vindo de lá de dentro. E dona Lucia entende que aquele silêncio é a forma que Rafael tem de gritar. Ele se comporta como um Deus, o que naquele prédio ele realmente é. Quando está contrariado, não grita, apenas muda a expressão dos olhos, apertando-os um pouco mais, mirando quem está a sua frente, e passa a falar em uma nota só, pausando as palavras, do jeito que ele havia pedido para chamar Miriam ainda há pouco pelo telefone. O procedimento tem um efeito devastador. Valia mais que berros insuportavelmente altos. De repente, a porta se abre a pessoa que entrou sai como um zumbi ou como se tivesse passado por uma tortura ministrada por algum inquisitor espanhol.

    Rafael sai revigorado de uma situação como esta. Se alimenta do pavor que extrai daqueles que trabalham para ele. É uma espécie de vampiro corporativo. Ele vê os seus funcionários, do menos ao mais graduado, como pratos de um banquete diário do qual serve-se a hora em que bem entende. Quando ninguém comete aquilo que ele julga como pecado, passa a criar situações de desconforto para alguém que ele escolhe a esmo. São dias torturando psicologicamente essa pessoa, mudando parâmetros de trabalho de uma hora para outra, fazendo com que a vítima sofra constantes descargas de adrenalina, muitas vezes destratando ele ou ela com uma insuportável elegância na frente dos seus colegas.

    Apesar da truculência psicológica e um ego que sufoca quem está a sua volta, muitos são atraídos por ele. Ele é um imã para os ambiciosos e, como sabemos, estes estão em todo o lugar. A ambição alheia é a sua coleira. Com ela, domina completamente as pessoas que para ele trabalham. Joga com o ciúme e a competição bastando para isso dar um elogio que na verdade tem a função, não de incentivar o elogiado, mas de provocar os não elogiados. É como um sequestrador que tem mais de seiscentas vítimas com Síndrome de Estocolmo trabalhando para ele. Elas criam uma dependência doentia e, por mais maltratados que sejam, basta um sorriso vindo dele para terem a certeza de que vale a pena estar em suas empresas.

    Após ter demitido Miriam, ele saiu de sua sala e dirigiu-se ao elevador particular, mas é impedido de utilizá-lo por um defeito banal. Ja tinha a quem destratar a tarde, mas o almoço marcado com o governador era no momento mais importante. Iria pelo elevador comum. Entrou e nem notou o jovem mensageiro do ali dentro. O corpo esbelto e alto de Rafael parecia ocupar todo o elevador, tal era a imponência que a sua presença transmitia. O garoto ficou espremido no canto do elevador. A porta se fechou e o elevador começou a descer. Ouvia-se apenas o zunido do motor do elevador ao longe. Rafael, embora percebendo a presença de alguém na caixa de três metros quadrados, não se dignou a sequer virar o pescoço para ver quem era. Naquele momento, ele parecia ter três metros de altura e o rapaz, que atendia pelo nome de Antonio, sentia-se com 50 centímetros. Foi quando Antônio pensava nessas duas medidas que ocorreu o tranco. O elevador parou entre o quarto e o quinto andar.

    Houve aquele momento em que os dois esperavam que aquilo não tivesse acontecido. Que tinha sido apenas uma impressão e que, na verdade, o elevador estava ainda fazendo o seu caminho descendente. A constatação cabal de que o elevador tinha realmente parado não demorou a chegar. Não havia zunido vindo do motor. Não havia movimento. Não havia dúvida. A respiração de Rafael torna-se ofegante. Ele passa a bater com as mãos espalmadas no metal frio que reveste as paredes do elevador e a gritar desesperadamente por socorro, para espanto de Antônio, ainda no canto do elevador, acuado. Rafael então, pela primeira vez, olha para o outro. E o que Antônio vê muda completamente a percepção inicial daquela viagem. Os olhos de Rafael que eram como canos de uma arma apontados para qualquer um, que davam recado a todos que por ventura cruzassem o seu raio de visão que ali estava uma rocha feita de algum material fora deste mundo, quem nunca pediram ajuda a ninguém, estavam suplicantes, indefesos, desesperados. Sua testa porejava indiscriminadamente. Na visão de Antônio, aquele homem que há pouco media três metros diminuía a olhos vistos, como uma Alice após ter tomado a poção de diminuição. Tinha virado alguém comum, minúsculo, insignificante. Rafael estava tomado pelo pavor. Passava por uma situação que fazia tempo havia enterrado em algum lugar distante e insondável. Pela primeira vez em décadas, não estava no controle. Desmoronou na frente de Antônio. Ajoelhou-se em frente a este, pôs as duas mãos em seus ombros e o sacudia energicamente, enquanto repetia “eu preciso sair, eu preciso sair”. Estava histérico e só parou quando Antônio desferiu-lhe um tapa no rosto. Ali, dentro daquele elevador, os dois haviam trocado os papéis. Antônio mandou que se calasse e que respirasse fundo. O outro obedeceu. Em seguida, agindo com a razão, Antônio apertou o botão de alarme. Em seguida o som estridente da campainha era ouvido em todo prédio. Rafael observava e invejava a calma e o discernimento de Antônio, que, pela sua visão, movimentava-se com a graça e a leveza dos calmos diante de situações extremas como aquelas. Rafael faria tudo o que Antônio ordenasse. Em seguida, Antônio sentou-se ao lado e Rafael. Este, encostou a cabeça no ombro do rapaz, como se o toque naquela fortaleza transmitisse calma por osmose.

    Passaram-se dez minutos até que fossem resgatados. Rafael saiu primeiro. Bastou respirar um pouco de ar fresco para resgatar o seu comportamento normal. Olhou parra Antônio e disse no ouvido deste “Você vai ser recompensado, desde que não fale nada a ninguém. Dirija-se ao meu secretário, ele estará esperando com um cheque com um valor que você nunca viu em sua vida.” Antonio vibrou com a possibilidade de realizar alguns sonhos que para Rafael eram pequenos demais. No carro Rafael mandou um recado ao secretário. “Avise Genésio. Quando o menino sair do banco…bom você já sabe… essa cidade anda mesmo muito violenta.”

  • Pais em TPM – Barrigas

    May 30th, 2011

    Ela estava linda em seu uniforme escolar. Cabelos presos com duas maria chiquinhas. E uma franja mantida meticulosamente reta acompanhando a linha das sobrancelhas. Orgulhosa, porque ja tinha tamanho para ocupar o banco da frente do carro. Uma alegria que contrastava com o seu mau humor quase constante quando estava comigo e com a mãe dela. Os hormônios da adolescência somados a herança genética do pai, confesso. Mas naquele momento, naqueles minutos pós escola ali no carro, o seu sorrido redimia qualquer frase agressiva que terminasse em “saco”, referindo-se a uma simples pergunta do tipo, “você ja escovou os dentes?”. Naquele momento era a filha de 12 anos perfeita. Uma jóia da nossa criação. A coisa mais linda que podia haver no universo. Um ser vivo tão perfeito que mesmo que eu pudesse estar passando pelo pior dia da minha vida – o que não era o caso – tudo se tornaria pequeno, ínfimo, só de olhar para aquele ser vivo ali ao meu lado.

    A sensação de alegria só aumentou quando eu perguntei como tinha sido a escola. Ao contrário do usual, a resposta veio leve, emoldurada por um sorriso incomum em circunstância como aquela. “Foi legal.” Sim, duas palavras apenas e nenhuma delas tinha sito “saco”. Se um dia me perguntassem “que momento em sua vida você gostaria que durasse uma eternidade?” eu citaria aquele, sem dúvida alguma. O entrosamento total entre um pai e uma filha. Tudo completamente encaixado, perfeito. As cores do mundo visto através dos vidros do carro estavam no seu exato lugar. O marrom dos troncos das árvores estavam no tom correto. O verde das folhas cintilavam ao encopntrar um raio de sol, dizendo que a clorofila fazia seu diligente trabalho de tirar do ar o famigerado gas carbônico, nos dando de presente o tão estimado oxigênio. O azul do céu bailava graciosamente com o branco de algumas nuvens que vagavam entregues a vontade do vento. E aquele doce sorriso ao meu lado. O sorriso vira-se em minha direção e, ao ouvir uma das música que vem de sua rádio preferida, sintonizada assim que ela entrou no carro, disse.

    – Pai, você sabia que hoje é o aniversário do Taylor Lautner?
    – Aniversário de quem?

    A total ignorância sobre o mundo da minha querida filha de 12 anos revela-se na pergunta anterior e é sacramentada na próxima.

    – Você tem um colega norte americano?
    – Nããããããão, pai! O Jacob – o sorriso ainda mais lindo quando menciona Jacob.
    – Mas afinal, é Taylor, é Jacob, Taylor Jacob ou Jacob Taylor?
    – Pai, e Taylor Lautner, que faz o Jacob no filme Crepúsculo.
    – Ah! Esse.

    Respondi com um conhecimento mentiroso, afinal, não tinha remota idéia da fisionomia do rapaz, o que me foi esclarecido logo em seguida.

    – Ele é lindo, pai. Ele tem aquela barriga de tanquinho…ai.

    E, a partir daí, ela pasou a explicar os outros dotes físicos do rapaz mas eu ja não estava ouvindo. Barriga de tanquinho? Como uma menina de apenas 12 anos começa a descrever um sujeito que ela acha bonito pela barriga de tanquinho? Não podia ser pelo seus ohos encantadores? Seu sorriso lindo? Seus cabelos maravilhosos? Sua voz maviosa? Não, maviosa não que uma garota de 12 anos nunca usaria maviosa para descrever a voz de quem quer que seja. Não interessa. Quem olha a barriga de tanquinho de alguém são pessoas muito, mas muito mais velhas. Tive ganas de frear o carro. Mas não. Aquele era um momento de crise e nos momentos de crise, após o choque inicial é preciso que nos recomponhamos. Nada de coração, mas sim, a razão. A medida em que tentava me reencontrar no meio daquela conversa, o colorido perfeito de árvores, céu, nuvens desmanchavam-se e misturavam-se numa forma abstrata. Aquela barriga de tanquinho dita com um sorriso e aquelas olhinhos verdes a beira de revirarem-se acabaram com a pintura bucólica que eu acabei de descrever ainda agora.

    Ao chegarmos em casa ela saiu do carro saltitante como sempre. E eu, acompanhando seus movimentos e me perguntando se aquela alegria era por causa de uma barrida de tanquinho estranjeira. Subi até o quarto e levantei a barra da camisa em frente ao espelho do quarto. Definitivamente, a minha barriga estava longe de ser de tanquinho. Só espero que ela não cresça tão rápido como a minha filha.

  • As aventuras de JJ 3 – O serial lover.

    May 24th, 2011

    Outro dia encontrei o Dr. José Augusto, grande amigo que enveredou pelo estudo da psiquê humana. Grande psiquiatra discípulo de Jung, mas de maneira nenhuma pode ser considerado um radical, uma vez que concorda com vários conceitos freudianos. Mas, o importante a ser tratado nestas linhas não é a corrente que o bom doutor acredita ou deixa de acreditar e sim a luz que ele jogou sobre um assunto recorrente a este que vos escreve. Como eu, o doutor José Augusto conhece muito bem o nosso querido JJ e, nesse nosso encontro para um café no meio da tarde, ele trouxe uma revelação perturbadora.

    – Não há a menor sombra de dúvida, meu caro – afirma taxativo, o doutor José Augusto – o nosso amigo JJ é um psicopata.
    – Pára com isso, José Augusto. Você quer me dizer que o JJ está na iminência de se tornar um assassino em série?
    – Ele já é de certa forma.

    Quase engasguei com o expresso carioca que bebia no momento. Seria possível que JJ já tivesse tirado uma vida e extraído do ato vil um prazer indescritível? E que talvez fosse seguir fazendo isso? Teria ele, quando criança, torturado moscas indefesas, arrancando suas asas e vendo-as agonizar em dor profunda? Sequestrado pássaros da gaiola dos vizinhos e deixado as pobres aves a mercê de algum gato esfomeado em uma sala fechada, não sem antes cortar-lhes as asas para impedir o vôo salvador? Mas o bom doutor esclareceu-me aquela afirmação de maneira surpreendente.

    – Não, nada disso. Nosso JJ jamais tirou a vida de quem quer que fosse, inseto, pássaro ou ser humano. Seus impulsos são dirigidos para o ato sexual. – Empertigou-se na caderia e começou sua explicação com mais detalhes. – Como sabemos, para muitos psicopatas, o ato de tirar a vida tem conotações sexuais. Alguns, como sabemos, gozam enquanto perpetuam as barbaridades mais indescritíveis.

    Eu sinceramente não conhecia tal fato. O cara goza introduzindo não o seu pênis em alguém, mas uma faca?

    – Mas no caso de nosso querido JJ o ato é o puramente sexual. Eu classificaria o osso amigo como um “Serial Lover”. JJ, meu caro amigo, é um psicopata do amor.

    Pedi outra rodada de cafezinhos com um bolinho de maçã pra acompanhar o relato. Nunca havia pensado em JJ nestes termos. O equivalente a um Jack, o Estripador, só que com consequências muito menos trágicas e horripilantes.

    – Veja – seguiu o bom doutor – o nosso querido JJ tem um modus operandi que não nos deixa dúvidas. Primeiro, seu impulso é dedicado ao mesmo tipo de pessoa, no caso, mulheres, todas com atributos físicos, digamos, exuberantes. Como uma ave de rapina, ele avista a sua vítima e passa a sobrevoá-la. E aí, neste momento, revela-se mais um traço inconfundível. Ele invariavelmente encontra uma fraqueza em sua vitima, Algo que ela quer muito ou que a perturba. Encantador como qualquer psicopata, ele se coloca como solução para esta fraqueza. E aí temos o terceiro traço. Nosso amigo não tem moral alguma.

    Percebendo os meus olhos arregalarem, o brom doutor apressa-se em explicar esta última colocação.

    – Esta falta de moral é uma “amoralidade”. Isto é, ele simplesmente sofre de falta de culpa. Se ele, por exemplo, descobre que o sonho mais recôndido da sua vítima é casar-se na igreja, ele, sem o mínimo remorso, a convence de que o sonho da pobre moça é também o sonho dele. Essa ausência de culpa junta-se ao seu “descolamento social”, que se manifesta em pequenos atos que o tornam ainda mais encantador.
    – Como?
    – Abrir a porta do carro para uma mulher na frente de todos os amigos. Dar presentes a elas, de um bouquet de rosas a um brigadeiro na cara de todos no trabalho. Ele faz isso sem abalos, sem se importar com a opinião dos seus pares. Ele é impermeável à gozações, o que, aos olhos da mulher que é alvo de sua atenção, torna-o algo perto de um herói grego. Um semideus. Ela está entregue. E JJ, como sabemos, faz delas o que quer. E por último, vem a “pantomima da morte”.

    O doutor deu aquela paradinha para criar suspense. Bebeu um gole do seu café. Foram segundos que pareciam durar décadas. Meu olhar era suplicante. O que seria a “pantomima da morte”?

    – Delicioso este café. Eu dizia?
    – A pantomima, José Augusto. A pantomima.
    – A pantomima da morte. É uma consequência muito simples dos atos amorosos e sexuais de nosso amigo. Ele e a vítima ingressam em intenso relacionamento, para ela de profunda dependência. Para ele, sexual. Os encantos do nosso serial lover intensificam-se. Mas há um momento em que, saciado, JJ simplesmente desliga. Passa a não mais querer aquela mulher, a não ser como amiga e troféu vivo de carne e osso. Continua por perto, mantendo curta distância e, com isso, a chama que queima no peito de vítima continua viva e intensa. Elas todas saem destes idílios combalidas e entregues e, mesmo sabendo que JJ talvez nunca mais volte a ser delas, não conseguem pensar em outro homem que não nele. Enfim, elas, enquanto mulheres disponíveis jazem mortas para mim, para você e para todos os outros bilhões de habitantes do sexo masculino deste planeta.

    Seguimos tomando o nosso café em silencio. Aquelas eram revelações científicas irrefutáveis. Terminamos e nos despedimos. Enquanto me dirigia para casa fiquei pensando em quantas vitimas JJ já tinha amealhado em sua coleção. Uma coisa era certa. Ele só ia ser procurado pela polícia se algum dia resolvesse ter caso com a mulher de algum delegado.

  • O Papai Noel e o cientista.

    May 22nd, 2011

    Quando eu tinha sete anos de idade, minha mãe virou-se para mim com aquele seu jeito amável e perguntou o que eu iria pedir ao Papai Noel. Eu olhei fixamente para ela e disse que o Papai Noel era uma impossibilidade. Como é que um velho gordo metido numa fantasia vermelha e branca poderia ser capaz e de presentear todas as crianças do mundo em uma só noite? Ainda mais se locomovendo em um trenó voador puxado por renas, até porque renas não voavam. Mas se ela quisesse comprar um mini-laboratório de química ou os livros da coleção Conhecer estava ótimo para mim. Eu já tinha uma imensa curiosidade científica desde cedo. Aprender, para mim, era como bricar no balanço. Desde muito cedo eu fui dominado por uma lógica inascessível a uma criança da minha idade e, portanto, lendas nunca me emocionaram, incluindo o Natal, com todas suas histórias de velhos entrando por chaminés, renas voadoras e duendes empacotadores.

    Por favor, não me julguem mal. Não é que eu não goste do Natal. Eu acho até uma bela data pelo poder que exerce nas pessoas. Há os que se deprimem, os que lançam irados protestos contra o excessivo mercantilismo e aqueles que são dominados por uma generosidade incontida, tentando dar em uma semana o que não deram o ano todo. Em mim, nada. O espírito natalino era uma impossibilidade para mim, visto que espírito era um conceito nada científico. E, para o físico que eu havia me tornado, conceitos nada científicos são uma total perda de tempo. Se tinha um velhinho de cabelos brancos que fez “milagres”, para mim, foi Einstein.

    Mas no último Natal a minha falta de fé e emoção sofreu um sério abalo. Naquele 24 de dezembro me fui para o apartamento de minha tia Alberta. Ela foi a minha mais abnegada incentivadora para que eu tomasse o caminho da ciência. Eu simplesmente adoro a tia Alberta e, apesar de tudo o que já expliquei, sou presença certa nas suas ceias natalinas em seu apartamento.

    Quando cheguei no prédio olhei o relógio de pulso. Eram dez horas em ponto. Astrogildo, o porteiro, cumprimentou-me com um ligeiro menear de cabeça. Não estava com boa cara. Provavelmente por estar trabalhando numa noite daquelas em que certamente preferia estar junto às filhas e à mulher. Caminhei até o elevador social e apertei o botão para subir. O elevador do prédio da tia Alberta sempre foi lento. Fiquei ali esperando entediado quando tive minha atenção chamada por vozes. O Astrogildo falava no interfone. A sua frente, todo empertigado e com um imenso saco nas costas, estava o Papai Noel. Bem, não o Papai Noel, mas um Papai Noel. Astrogildo balbuciou algo ininteligível para a figura encarnada, que tomou o rumo do elevador, que acabara de chegar. A porta se abriu e eu deixei que ele entrasse primeiro. Ele agradeceu como que por obrigação e logo entrou. Entrei atrás. Ele apertou o botão do vigésimo andar, a cobertura, eu o do décimo sétimo. A porta se fechou e a lenta ascensão começou. Ao chegar no nono andar um tranco. O elevador parou. Olho para o Papai Noel que retribui o olhar. Ele poreja e a sua respiração acelera.

    – E agora? – pergunta ele, nervoso.

    Minha resposta é apertar o botão de emergência. Nada. Nenhuma reação. Olhamo-nos de novo e tomamos a única decisão lógica para dois homens sensatos numa ocasião como aquela: socamos a porta aos gritos de socorro. Olhei para o relógio de pulso. Dez e cinco. Certamente alguém iria chegar e eu estaria no apartamento da tia Alberta em tempo de saborear uma deliciosa coxa de peru. O problema é que, naquele instante, o Papai Noel não compartilhava do meu otimismo.

    – Quando sair daqui que eu vou encher aquele porteiro de porradas – esbravejou.
    – Quem sabe ele já chamou ajuda? – Falei pausadamente, tentando acalmá-lo.
    – Entende a merda que o mundo é? – Ele poreja por todo o rosto vermelho, uma extensão da sua roupa. – Esse incompetente aí fora tem um emprego.
    – Deve haver algum motivo para ele não ter ouvido.
    – O motivo eu já falei, é um incompetente.

    Passou a chutar a porta novamente e a gritar. Eu ali olhando aquela cena patética. Um Papai Noel completamente fora de si aos berros dentro de um elevador.

    – Isso não vai adiantar nada, meu amigo.
    – Que intimidades são essas? – Ele se vira pra mim com o rosto desfigurado – Eu não sou seu amigo.
    – Eu só estou tentando puxar conversa. É um bom remédio pra claustrofobia.
    – Claustrofobia? – Ele ri pela primeira vez, um riso de escárnio – Quer conversar? Então vamos conversar. O seu nome, qual é?
    – Gerson.
    – Muito prazer, Gerson, como você já percebeu eu sou o Papai Noel. E o senhor faz o que?
    – Sou físico.
    – Eu não entendi.
    – Sou formado em física e trabalho em pesquisas no campo da física quântica.
    – Bem, doutor gênio, será que o senhor tem aí um telefone celular?
    – Tenho.
    – Então, por que não usar o seu aparelho para ligar seja lá para quem for que você veio visitar nesse prédio?

    Não admira que ele me chamasse de gênio com todo aquele sarcasmo. Eu já devia ter pensado nisso há muito. Mas a idéia que era perfeita sofreu um pequeno revés.

    – Fora de serviço.
    – Droga! Mas que maldita droga!

    Enquanto pragueja, ele enfia a mão no enorme saco e tira de lá um revólver. Uma pistola pra ser mais exato. Não era de plástico. Uma pistola verdadeira. Ele continua falando e gesticulando como antes, nervosamente. Só que agora eu também estou nervoso. Ele tem uma pistola na mão.

    – Essa pistola é verdadeira? – Arrisco.
    – Mas claro que é? Não tem outro jeito de fazer o que eu pretendo se ela disparar água, meu amigo cientista.
    – E o que é que você pretende?
    – Já que você quer mesmo conversa, eu vou te contar toda história – ele retoma o fôlego, senta-se ao meu lado e eu não tiro o olho da pistola em sua mão. – O homem aí da cobertura era o meu ex-patrão. Eu trabalhava na contabilidade de uma empresa de advocacia. Esse filho da puta me demitiu. O departamento estava buscando um novo perfil de profissional. – Faz uma suposta imitação do seu ex-patrão ao falar isso. – Cagou para todos os anos de dedicação à empresa e para a minha família.
    – Eu sinto muito.
    – Faça um favor para mim, amigo gênio, cale a boca e me deixe continuar.

    Aquela pistola dava a ele toda a autoridade. Eu não iria discutir.

    – O nome do dono da cobertura é Olegário. Nomezinho feio, não? Um dia eu recebo um recado do senhor Olegário. Ele queria que eu fosse até a empresa pois precisava muito falar comigo. Imagine a excitação que eu senti no momento em que recebi o recado. Achei que ele iria reparar a injustiça e me chamar de volta. Tudo não havia passado de um pesadelo. De um enorme engano. Lá cheguei, meu amigo gênio, com o peito inflado de felicidade. Somos tão idiotas, não é verdade? Ficamos felizes porque estamos ganhando algo que já tínhamos há muito. Cheguei na sala do senhor Olegário por quem fui muito bem recebido. Ele olhou para mim e disse “Meu bom José Carlos” ao que eu corrigi “João Carlos” e ele, então continuou, “Eu sempre confundi José e João. Bem, meu caro João Carlos, eu tenho uma proposta para o senhor. O Natal se aproxima e como eu sei que o senhor ainda não conseguiu uma colocação, eu posso, pelo menos, conseguir um meio de o senhor conseguir um dinheiro para o final de ano.” Eu fiquei um tanto decepcionado, mas segui ouvindo “A idéia é a seguinte, seu João Carlos. As ceias de Natal são sempre um acontecimento em nossa família. Mas as crianças, o senhor sabe, seu João Carlos, elas andam muito espertas. E como estão espertas! Bom, nestas ceias sempre alguém da nossa família faz as honras de ser o Papai Noel. Mas a criançada sempre descobre que o Papai Noel é falso, que é alguém da família com aquela barba de algodão. Então eu me lembrei do senhor, seu João Carlos. Essa barba branca e essa barriga acentuada, tudo de verdade. Sendo mais direto, seu João Carlos, eu queria que o senhor fosse o Papai Noel da nossa ceia deste ano. A criançada vai ficar maluca. Vai mesmo acreditar que o Papai Noel em pessoa está passando um tempo conosco. Vai ser o maior presente para os meus netos, seu João Carlos. Claro, que eu vou pagar um bom cachê pela sua atuação. E a roupa, claro, eu também fornecerei.

    Ele começa a chorar copiosamente. Depois de ver um Papai Noel perturbado chutando a porta do elevador aos berros, agora vejo um Papai Noel se desmoronando emocionalmente ao meu lado. E com uma pistola na mão. Resolvi olhar para o meu relógio de pulso. Ele marcava dez e cinco. Ele tinha parado, até aí nada demais. Mas o estranho é que eu tinha trocado a bateria do relógio no dia anterior. Uma bateria já sem carga? Não se pode confiar em mais ninguém.

    – Meu amigo gênio – ele se recompõe – eu deveria ter levantado, dado meia volta e ido embora ou, quem sabe, dar um murro na cara daquele filho da puta. Mas não. Simplesmente fiquei encarando aquele rosto narigudo por alguns segundos, totalmente prostrado na poltrona. E foi quando eu ouvi a voz que me soprou o plano em meu ouvido. Ela disse “aceite, vista a roupa de Papai Noel, pegue a sua pistola, entre com salvo conduto na casa deste idiota e quando toda a família estiver reunida, celebrando a sua chegada , quando você estiver cercado pelos netinhos dele, puxe a arma a atire na têmpora do vovô”. Então eu disse “sim, eu topo”. E agora, o elevador pifa e estamos nós aqui. O tempo passa, meu amigo gênio. E a minha determinação também.
    – Você quer dizer que já não está mais tão certo do que vai fazer? – Pergunto carregando uma certa esperança.
    – Não, eu não estou.
    – Então por que você não me dá essa arma?

    Ele ficou olhando para a pistola e começou a chorar outra vez e eu passei a ficar preocupado. Não por mim, mas por ele. Por um instante tive um grande receio dele apontar a arma para a própria cabeça e atirar. A idéia de passar o Natal com um Papai Noel morto num elevador não é a melhor, nem mesmo para alguém que não dá importância para data. Ele levantou a mão com a pistola até a altura dos olhos e passou a observa-la em todos os detalhes. Minhas narinas dilataram. Eu sentia um frio lancinante no estômago. Ele me encarou, olhos encharcados. Eram de uma tristeza avassaladora. Tive certeza que ele se mataria. Então, ele estendeu a mão com a arma em minha direção. Cano virado para ele. Ele estava me entregando a pistola. Eu a peguei imediatamente, antes que ele pudesse mudar de idéia. E, neste exato momento, o elevador passou a funcionar. O elevador parou no décimo sétimo. Eu saí sem dar uma palavra. A arma na mão. Virei-me e tive tempo de ter uma última visão do Papai Noel que logo desapareceu atrás das portas do elevador. Fiquei um tempo contemplando aquela arma, pensando naquilo tudo o que acabara de se passar. A lembrança de tia Alberta fez com que caísse na realidade novamente. Tinha de ir logo, pois ela e todos deviam estar preocupados com a minha ausência. Pelos meus cálculos havíamos passado mais de uma hora trancados lá dentro. Apressei o passo e logo cheguei ao apartamento. Num reflexo olhei para o relógio e ele marcava dez horas e nove minutos. Ele voltara a funcionar. Apertei a campainha. Podia ouvir o som de vozes, risadas, música que vinham de dentro do apartamento. Não parecia haver ninguém preocupado. A porta abriu e o sorriso iluminou o rosto de tia Alberta assim que ela pôs os olhos em mim.

    – Gerson, meu querido, seja bem-vindo!

    Ela não parecia nem um pouco preocupada. Estavam todos lá: primos, tios, meu irmão, a esposa e os meus sobrinhos. Ninguém parecia estar curioso por saber a razão da minha demora. Uma coisa me chamou a atenção. O peru estava inteiro, dominando o centro da mesa. Havia algo muito estranho no comportamento de todos. Nada denunciava que eu havia passado mais de uma hora trancado num elevador. E foi então que eu olhei para o relógio de parede na sala da tia Alberta. Ele marcava dez horas e onze minutos. Tia Alberta me deu uma taça de champanhe. Eu a peguei automaticamente. Bebi de um só gole ainda olhando para o relógio.

    – Tudo bem, Gerson? – Perguntou a tia Alberta.
    – O relógio da parede está certo, tia?
    – Perfeito como sempre.

    Pedi mais uma taça de champanhe. Ao contrário do relógio, a minha lógica acabava de perder sua perfeição.

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