Quando eu tinha sete anos de idade, minha mãe virou-se para mim com aquele seu jeito amável e perguntou o que eu iria pedir ao Papai Noel. Eu olhei fixamente para ela e disse que o Papai Noel era uma impossibilidade. Como é que um velho gordo metido numa fantasia vermelha e branca poderia ser capaz e de presentear todas as crianças do mundo em uma só noite? Ainda mais se locomovendo em um trenó voador puxado por renas, até porque renas não voavam. Mas se ela quisesse comprar um mini-laboratório de química ou os livros da coleção Conhecer estava ótimo para mim. Eu já tinha uma imensa curiosidade científica desde cedo. Aprender, para mim, era como bricar no balanço. Desde muito cedo eu fui dominado por uma lógica inascessível a uma criança da minha idade e, portanto, lendas nunca me emocionaram, incluindo o Natal, com todas suas histórias de velhos entrando por chaminés, renas voadoras e duendes empacotadores.
Por favor, não me julguem mal. Não é que eu não goste do Natal. Eu acho até uma bela data pelo poder que exerce nas pessoas. Há os que se deprimem, os que lançam irados protestos contra o excessivo mercantilismo e aqueles que são dominados por uma generosidade incontida, tentando dar em uma semana o que não deram o ano todo. Em mim, nada. O espírito natalino era uma impossibilidade para mim, visto que espírito era um conceito nada científico. E, para o físico que eu havia me tornado, conceitos nada científicos são uma total perda de tempo. Se tinha um velhinho de cabelos brancos que fez “milagres”, para mim, foi Einstein.
Mas no último Natal a minha falta de fé e emoção sofreu um sério abalo. Naquele 24 de dezembro me fui para o apartamento de minha tia Alberta. Ela foi a minha mais abnegada incentivadora para que eu tomasse o caminho da ciência. Eu simplesmente adoro a tia Alberta e, apesar de tudo o que já expliquei, sou presença certa nas suas ceias natalinas em seu apartamento.
Quando cheguei no prédio olhei o relógio de pulso. Eram dez horas em ponto. Astrogildo, o porteiro, cumprimentou-me com um ligeiro menear de cabeça. Não estava com boa cara. Provavelmente por estar trabalhando numa noite daquelas em que certamente preferia estar junto às filhas e à mulher. Caminhei até o elevador social e apertei o botão para subir. O elevador do prédio da tia Alberta sempre foi lento. Fiquei ali esperando entediado quando tive minha atenção chamada por vozes. O Astrogildo falava no interfone. A sua frente, todo empertigado e com um imenso saco nas costas, estava o Papai Noel. Bem, não o Papai Noel, mas um Papai Noel. Astrogildo balbuciou algo ininteligível para a figura encarnada, que tomou o rumo do elevador, que acabara de chegar. A porta se abriu e eu deixei que ele entrasse primeiro. Ele agradeceu como que por obrigação e logo entrou. Entrei atrás. Ele apertou o botão do vigésimo andar, a cobertura, eu o do décimo sétimo. A porta se fechou e a lenta ascensão começou. Ao chegar no nono andar um tranco. O elevador parou. Olho para o Papai Noel que retribui o olhar. Ele poreja e a sua respiração acelera.
– E agora? – pergunta ele, nervoso.
Minha resposta é apertar o botão de emergência. Nada. Nenhuma reação. Olhamo-nos de novo e tomamos a única decisão lógica para dois homens sensatos numa ocasião como aquela: socamos a porta aos gritos de socorro. Olhei para o relógio de pulso. Dez e cinco. Certamente alguém iria chegar e eu estaria no apartamento da tia Alberta em tempo de saborear uma deliciosa coxa de peru. O problema é que, naquele instante, o Papai Noel não compartilhava do meu otimismo.
– Quando sair daqui que eu vou encher aquele porteiro de porradas – esbravejou.
– Quem sabe ele já chamou ajuda? – Falei pausadamente, tentando acalmá-lo.
– Entende a merda que o mundo é? – Ele poreja por todo o rosto vermelho, uma extensão da sua roupa. – Esse incompetente aí fora tem um emprego.
– Deve haver algum motivo para ele não ter ouvido.
– O motivo eu já falei, é um incompetente.
Passou a chutar a porta novamente e a gritar. Eu ali olhando aquela cena patética. Um Papai Noel completamente fora de si aos berros dentro de um elevador.
– Isso não vai adiantar nada, meu amigo.
– Que intimidades são essas? – Ele se vira pra mim com o rosto desfigurado – Eu não sou seu amigo.
– Eu só estou tentando puxar conversa. É um bom remédio pra claustrofobia.
– Claustrofobia? – Ele ri pela primeira vez, um riso de escárnio – Quer conversar? Então vamos conversar. O seu nome, qual é?
– Gerson.
– Muito prazer, Gerson, como você já percebeu eu sou o Papai Noel. E o senhor faz o que?
– Sou físico.
– Eu não entendi.
– Sou formado em física e trabalho em pesquisas no campo da física quântica.
– Bem, doutor gênio, será que o senhor tem aí um telefone celular?
– Tenho.
– Então, por que não usar o seu aparelho para ligar seja lá para quem for que você veio visitar nesse prédio?
Não admira que ele me chamasse de gênio com todo aquele sarcasmo. Eu já devia ter pensado nisso há muito. Mas a idéia que era perfeita sofreu um pequeno revés.
– Fora de serviço.
– Droga! Mas que maldita droga!
Enquanto pragueja, ele enfia a mão no enorme saco e tira de lá um revólver. Uma pistola pra ser mais exato. Não era de plástico. Uma pistola verdadeira. Ele continua falando e gesticulando como antes, nervosamente. Só que agora eu também estou nervoso. Ele tem uma pistola na mão.
– Essa pistola é verdadeira? – Arrisco.
– Mas claro que é? Não tem outro jeito de fazer o que eu pretendo se ela disparar água, meu amigo cientista.
– E o que é que você pretende?
– Já que você quer mesmo conversa, eu vou te contar toda história – ele retoma o fôlego, senta-se ao meu lado e eu não tiro o olho da pistola em sua mão. – O homem aí da cobertura era o meu ex-patrão. Eu trabalhava na contabilidade de uma empresa de advocacia. Esse filho da puta me demitiu. O departamento estava buscando um novo perfil de profissional. – Faz uma suposta imitação do seu ex-patrão ao falar isso. – Cagou para todos os anos de dedicação à empresa e para a minha família.
– Eu sinto muito.
– Faça um favor para mim, amigo gênio, cale a boca e me deixe continuar.
Aquela pistola dava a ele toda a autoridade. Eu não iria discutir.
– O nome do dono da cobertura é Olegário. Nomezinho feio, não? Um dia eu recebo um recado do senhor Olegário. Ele queria que eu fosse até a empresa pois precisava muito falar comigo. Imagine a excitação que eu senti no momento em que recebi o recado. Achei que ele iria reparar a injustiça e me chamar de volta. Tudo não havia passado de um pesadelo. De um enorme engano. Lá cheguei, meu amigo gênio, com o peito inflado de felicidade. Somos tão idiotas, não é verdade? Ficamos felizes porque estamos ganhando algo que já tínhamos há muito. Cheguei na sala do senhor Olegário por quem fui muito bem recebido. Ele olhou para mim e disse “Meu bom José Carlos” ao que eu corrigi “João Carlos” e ele, então continuou, “Eu sempre confundi José e João. Bem, meu caro João Carlos, eu tenho uma proposta para o senhor. O Natal se aproxima e como eu sei que o senhor ainda não conseguiu uma colocação, eu posso, pelo menos, conseguir um meio de o senhor conseguir um dinheiro para o final de ano.” Eu fiquei um tanto decepcionado, mas segui ouvindo “A idéia é a seguinte, seu João Carlos. As ceias de Natal são sempre um acontecimento em nossa família. Mas as crianças, o senhor sabe, seu João Carlos, elas andam muito espertas. E como estão espertas! Bom, nestas ceias sempre alguém da nossa família faz as honras de ser o Papai Noel. Mas a criançada sempre descobre que o Papai Noel é falso, que é alguém da família com aquela barba de algodão. Então eu me lembrei do senhor, seu João Carlos. Essa barba branca e essa barriga acentuada, tudo de verdade. Sendo mais direto, seu João Carlos, eu queria que o senhor fosse o Papai Noel da nossa ceia deste ano. A criançada vai ficar maluca. Vai mesmo acreditar que o Papai Noel em pessoa está passando um tempo conosco. Vai ser o maior presente para os meus netos, seu João Carlos. Claro, que eu vou pagar um bom cachê pela sua atuação. E a roupa, claro, eu também fornecerei.
Ele começa a chorar copiosamente. Depois de ver um Papai Noel perturbado chutando a porta do elevador aos berros, agora vejo um Papai Noel se desmoronando emocionalmente ao meu lado. E com uma pistola na mão. Resolvi olhar para o meu relógio de pulso. Ele marcava dez e cinco. Ele tinha parado, até aí nada demais. Mas o estranho é que eu tinha trocado a bateria do relógio no dia anterior. Uma bateria já sem carga? Não se pode confiar em mais ninguém.
– Meu amigo gênio – ele se recompõe – eu deveria ter levantado, dado meia volta e ido embora ou, quem sabe, dar um murro na cara daquele filho da puta. Mas não. Simplesmente fiquei encarando aquele rosto narigudo por alguns segundos, totalmente prostrado na poltrona. E foi quando eu ouvi a voz que me soprou o plano em meu ouvido. Ela disse “aceite, vista a roupa de Papai Noel, pegue a sua pistola, entre com salvo conduto na casa deste idiota e quando toda a família estiver reunida, celebrando a sua chegada , quando você estiver cercado pelos netinhos dele, puxe a arma a atire na têmpora do vovô”. Então eu disse “sim, eu topo”. E agora, o elevador pifa e estamos nós aqui. O tempo passa, meu amigo gênio. E a minha determinação também.
– Você quer dizer que já não está mais tão certo do que vai fazer? – Pergunto carregando uma certa esperança.
– Não, eu não estou.
– Então por que você não me dá essa arma?
Ele ficou olhando para a pistola e começou a chorar outra vez e eu passei a ficar preocupado. Não por mim, mas por ele. Por um instante tive um grande receio dele apontar a arma para a própria cabeça e atirar. A idéia de passar o Natal com um Papai Noel morto num elevador não é a melhor, nem mesmo para alguém que não dá importância para data. Ele levantou a mão com a pistola até a altura dos olhos e passou a observa-la em todos os detalhes. Minhas narinas dilataram. Eu sentia um frio lancinante no estômago. Ele me encarou, olhos encharcados. Eram de uma tristeza avassaladora. Tive certeza que ele se mataria. Então, ele estendeu a mão com a arma em minha direção. Cano virado para ele. Ele estava me entregando a pistola. Eu a peguei imediatamente, antes que ele pudesse mudar de idéia. E, neste exato momento, o elevador passou a funcionar. O elevador parou no décimo sétimo. Eu saí sem dar uma palavra. A arma na mão. Virei-me e tive tempo de ter uma última visão do Papai Noel que logo desapareceu atrás das portas do elevador. Fiquei um tempo contemplando aquela arma, pensando naquilo tudo o que acabara de se passar. A lembrança de tia Alberta fez com que caísse na realidade novamente. Tinha de ir logo, pois ela e todos deviam estar preocupados com a minha ausência. Pelos meus cálculos havíamos passado mais de uma hora trancados lá dentro. Apressei o passo e logo cheguei ao apartamento. Num reflexo olhei para o relógio e ele marcava dez horas e nove minutos. Ele voltara a funcionar. Apertei a campainha. Podia ouvir o som de vozes, risadas, música que vinham de dentro do apartamento. Não parecia haver ninguém preocupado. A porta abriu e o sorriso iluminou o rosto de tia Alberta assim que ela pôs os olhos em mim.
– Gerson, meu querido, seja bem-vindo!
Ela não parecia nem um pouco preocupada. Estavam todos lá: primos, tios, meu irmão, a esposa e os meus sobrinhos. Ninguém parecia estar curioso por saber a razão da minha demora. Uma coisa me chamou a atenção. O peru estava inteiro, dominando o centro da mesa. Havia algo muito estranho no comportamento de todos. Nada denunciava que eu havia passado mais de uma hora trancado num elevador. E foi então que eu olhei para o relógio de parede na sala da tia Alberta. Ele marcava dez horas e onze minutos. Tia Alberta me deu uma taça de champanhe. Eu a peguei automaticamente. Bebi de um só gole ainda olhando para o relógio.
– Tudo bem, Gerson? – Perguntou a tia Alberta.
– O relógio da parede está certo, tia?
– Perfeito como sempre.
Pedi mais uma taça de champanhe. Ao contrário do relógio, a minha lógica acabava de perder sua perfeição.