O glossário da minha mãe

Todas elas tem o seu. Frases que só elas falam, palavras que, mesmo quando mencionadas por outras bocas, remetem você anos de volta no tempo. Com a minha não é diferente. Seu glossário é rico em frases e termos que eu, quando conto pra alguém, não consigo falar como se fosse eu mesmo. Falo como se fosse ela. A entonação, o ritmo, o timbre de voz, o jeito Zulma de se expressar. O vocabulário da minha mãe é rico em palavras e expressões para definir alguém ou uma situação em particular. Provavelmente, algumas delas acabam sendo coincidentes com as que a sua mãe falava, principalmente se você é da minha geração e da mesma região. Mas algumas, tenho certeza, são coisas que só ela fala. Não me preocuparei em seguir uma ordem alfabética e sim uma ordem de lembrança.

Pau de virar tripa
Esta é a definição para um sujeito magérrimo. Também podia ser utilizada quando você não queria comer algo do tipo bife de fígado acebolado. “Tu estás um pau de vira tripa, menino. Come isso logo.

Nota: um dia resolvi prestar atenção na metáfora e me deu uma certa ânsia de vômito pensar no que realmente é um pau de virar tripas.

 

Caldo de laranja

Para alguns de vocês pode soar como uma sopa de laranja, mas neste caso, é o estilo Zulma de se referir ao prosaico suco de laranja. Há ainda um acréscimo fonético no caso dela, que não mencionava a última sílaba da palavra caldo e nem a preposição subsequente. Sendo assim, a frase que seria comum você ouvir é “Oi, filho! Queres um cal laranja?” Aliás, não é um acréscimo fonético, ms sim, um decréscimo.

 

Prafrentex

Sim, este é um termo largamente usado. Porém, não consigo pensar nele sem que seja com a voz dela. Agora mesmo, quando escrevi ali em cima, era a voz da Zulma falando tal adjetivo que viajou pela minha mente. Ela sempre usava essa expressão quando queria dizer para mim e para os meus amigos o quanto ela era ligada em nossas gírias e o que acabava a entregando o quanto ela não era. Mas todos adoravam quando ela usava, porque ali estava uma mãe tentando se enturmar com os amigos do filho.

 

Bicho carpinteiro 

Aparentemente, esse tal bicho era algo como que um virus, cujos sintoma era nos tornar inquietos e agitados além do que ja era normal.  Na minha imaginação era um bichinho em formado de quadrilátero, que se equilibrava em seis perninhas. A expressão sempre vinha no fim de uma reprimenda. “Fica quieto, guri. Até parece que tá com bicho carpinteiro.

 

Mutt e o Jeff

Os personagens do cartunista Bud Fisher que se caracterizavam fisicamente pela sua diferença de altura. Um alto e outro baixinho. Bastava a minha mãe ver duas pessoas juntas com essa diferença de altura ela lascava “Olha lá. La vã o Mutt e o Jeff”

 

Peidinho de Adão

 O termo, define alguém insignificante, que não merece o menor respeito e tampouco consideração. Geralmente mencionado com um esgar mostrando fisicamente pela emissora o quão insignificante era o alvo de sua referência. Uma vez, quando o restaurante do meu pai foi assaltado, minha mãe, ao observar o trabalho dos policiais da perícia que jogavam talco no braço de madeira envernizada do carrinho de salada para depois passar um pincel a fim de captar alguma digital, lascou : “Mas o que aquele peidinho de Adão está fazendo ali, meu Deus!”

 

Tarzan Minhoca

É o mesmo que “Pau de Virar Tripa”, só que usado em momentos diferentes. Se a primeira metáfora para magreza excessiva era usada em momentos tensos, como empurrar um bife de fígado acebolado goela abaixo de alguém, o Tarzan Minhoca era usado em momentos bem mais relaxados e humorados. “Olha as costelas dele aparecendo, até parece o Tarzan Minhoca.” Notem o uso do artigo definido “o”ao invés do indefinido “um”antes da expressão. Soa como se esse Tarzan Minhoca fosse alguém que realmente existe.

 

“Vou sair pra comprar fazenda”

O incauto que ouve essa frase sem aviso logo pensa que a minha mãe é uma latifundiária com milhares de hectares de terras, tal a naturalidade com que ela fala que vai fazer um negócio dessa monta. Ela fala como quem vai no armarinho comprar um tecido, algo simples. Pois, na verdade, é isso mesmo que ela vai fazer. Fazenda, neste caso, é tecido. Minha mãe costurava muito em cassa. Vivia com aquelas revistas alemãs Burda, que traziam aqueles moldes para fazer os cortes dos vestidos que ela confeccionava para ela mesmo. Você está se perguntando de onde vem o termo fazenda para definir tecido, não é mesmo? Pois é, somos dois.

 

“Se fosse uma cobra tinha te mordido”

Essa é um clássico, pelo menos para mim, que nunca achava o que procurava embora estivesse ali, debaixo do meu nariz. Uma crítica mordaz à desatenção. Fosse uma naja peçonhenta e você não a enxergasse, babau. e tanto usar comigo, ela até abreviou a frase, parando na palavra cobra e um menear de reprovação com a cabeça. Note também a licença poética, uma vez que o mais correto é “tinha te picado.” Porém, mordido é muito mais interessante dentro do contexto.

 

“hã, hã, hã…”

Geralmente mencionado em tom de crítica e desaprovação dirigida a alguém, que está, no conceito dela, tentando chamar a atenção, se exibindo. Muito comum ver esta expressão geralmente em frente a televisão, quando algum artista aparecia na tela cheio de gracinhas ou com roupas espalhafatosas. Era uma espécie de “ta e achando”. Também era mencionado com um esgar, porém, mais para o sarcasmo do que para a raiva, como era o caso do Peidinho de Adão.

 

Se meter de pato a ganso

Esse termo era usado quando ela queria deixar claro que você não tinha capacidade para alguma coisa que estava pensando em fazer. De certa maneira, há uma semelhança com o famoso gato por lebre, só que em outra situação. Era dito antes ( “tu não vais te meter de pato a ganso”) ou depois do acontecido ( “também, foi se meter de pato a ganso…”). Quando dito depois, era carregado de uma expressão fatalista na fala, como quem diz “eu bem que te avisei”.

 

É bem mesmo

Há uma dúvida se essa expressão é do meu pai ou da minha mãe. Mas como era largamente utilizada por ela, está entrando neste glossário. É bem mesmo refere-se a desaprovação de alguém por algo que este alguém está fazendo e por isso, é dito com desdém.  Há, entre o bem e o mesmo espaço para qualquer tipo de ofensa, dependendo da situação aplicada. É bem (idiota) mesmo, é bem (exibido) mesmo, é bem (metido) mesmo e assim por diante.

 

Envaretado

Uma das piores sensações pela qual um adolescente pode passar. É aquele momento em que você faz merda e não para de fazer mesmo sabendo que é merda e, então, é pego com a boca na botija, ou então a sua arte foi descoberta posteriormente e revelada ao público. Um misto de raiva de si mesmo e vergonha. Uma vontade de chorar mas o auto ódio é tanto que as lágrimas evaporam entes de sair dos olhos.


One response to “O glossário da minha mãe”

  1. Várias dessas expressões me soaram muito familiar. Embora eu seja de outra geração e de outro território…ahahaha, minha mãe também falava assim. Adorei!

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