Felicio abriu os olhos de repente. Era como se não tivesse aberto, pois a escuridão do quarto era imensa. Vagarosamente, formas foram aparecendo na escuridão, denunciando o aumento de sua pupila. Ouvia respiração relaxada da esposa ao seu lado. Dormia tranquilamente. Que horas seriam? Tateou a mesa de cabeceira procurando o relógio de pulso. Encontrou. Só então acendeu a luz. Meia noite e quarenta e dois. Conclui o óbvio. Tinha dordmido no máximo durante meia hora. Sentou-se na cama e a medida em que os segundos avançavam a consciência ia se inteirando das coisas. Perguntou-se por que diabos tateou o relógio no escuro e só então acendeu a luz? Não seria mais lógico ter feito o inverso? Estava inquieto e aquela meia hora de sono seria o máximo que ele conseguria naquele momento. Apagou a luz novamente, levantou-se e, antes de abandonar o quarto, ouviu o ressonar da esposa acompanhado de um movimento. Deiva ter se revirado. Mas continuava dormindo. “Como ela consegue?”, ele se pergunta.
Felicio abre a geladeira. Está cheia. A carne crua prenunciando o churrasco no dia seguinte. Um belo pedaço de alcatra, outro de picanha. Salsichões, coração para a criançada. Eles adoram coração de galinha no espeto. Misturam tudo com farinha e se lambuzam. Um cachorro late la fora. Ele aguça o ouvido. Nada. Ele avistra a ambrosia. É irresistível. Serve-se de uma generosa porção e vai até a sala. Senta-se na poltrona, pega o controle remoto e liga a tv. Abaixa o volume até ele sumir. Ele não está interessado no que está passando, apenas quer a companhia de algo que está acordado. Ele saboreia a ambrosia em colheradas lentas. Gruda aquela pasta doce meio granulada no céu da boca, prensando com a língua. É uma sensação maravilhosa. Ele olha pra o telefone enquanto pensa. “Será que eu ligo? Eu prometi não ligar.” Felicio não pára de pensar. Ele pega o telefone. “Azar.” Nove, nove, cinco, oito…”Não. Onde estou com a cabeça!” Olha para o relógio e são uma da manhã. Não há nada errado. Ainda. Falta meia hora. Os próximos trinta minutos serão cruciais. Ele tenta não pensar e se concentrar na ambrosia. Na televisão, um homem degola outro num parque. A noite. Aquela imagem não ajuda em nada. Muda de canal. Lobos correm na estepe perseguindo coelhos. Muda novamente. Victor Mature aparece com aquela cara de bebê chorão. “Que canastrão!”, ele pensa. Abre um soriso. Mas é um sorriso carregado, contido. Victor Mature está meio descolorido. “É o Manto Sagrado”, Felicio conclui em pensamento. “Meu Deus, ainda exibem o Manto Sagrado perto da semana santa.” Felicio aumenta um pouco o som da televisão. O filme está dublado. Dublagem dos anos 60. São uma e dez da manhã. Ele termina a ambrosia e olha para o telefone de novo. Está chegando perto. Ele já sente a derrota iminente. Faltam quinze minutos. “Eu sabia”, pensa. “Eu sabia.” De repente, ele pensa em outra possibilidade. A violência la fora. “Onde eu estava com a cabeça quando deixei?”, clupa-se falando para o Victor Mature. Uma e vinte e três. O cachorro late. Um som de carro. Ele corre para a janela. Vê a Isabela saindo do carro. Vem em direção a porta da frente escoltada pelo namorado. Ela cumpriu o prometido. Chegou antes da uma e meia da manhã. Ele saiu correndo, desligando o Victor Mature no caminho e se enfiando na cama o mais rápido possível. A filha não podia sequer desconfiar que ele havia, por um breve instante, perdido a confiança. Virou para o lado, mas não ia pegar nos sono tão rápido. Agora, era a culpa que não o deixava dormir. Ah, que inveja da esposa.
2 responses to “Pais em tpm apresenta: Uma e meia”
finalmente um texto realmente bom nesse blog. hahahah. gostei mto. um texto que a gente pode ser você e escutar mais de perto.
Prenúncio do que está por vir…