Morgado, o mau humorado.

Morgado é mau humorado. Segundo costuma dizer aos mais próximos, a mãe, consciente do futuro do filho, não deu-lhe um nome e sim uma rima. O pai? Não sabe quem é. Filho de mãe solteira, o Morgado. Não se incomoda. “Não reclamo do meu destino, mas do destino dos idiotas quando cruzam com o meu” – é uma de suas máximas. Morgado é cheio de máximas. Uma das suas clássicas é em relação ao sorriso. Morgado não costuma sorrir com facilidade, segundo seu detratores. Ele refuta. “Sorriso é como ouro, diamante. Tem valor porque raro, porém sincero. Riso fácil é que nem bijuteria. Brilho barato e sem valor.” Morgado sorri, os amigos próximos juram que já viram. Aliás, para Morgado, o termo amigos próximos é um pleonasmo inconcebível. Amigo é próximo por natureza, segundo ele. Se não é próximo, não é amigo. É conhecido, colega ou um chato inconteste com quem você é obrigado a conviver segundo as convenções sociais para as quais ele tanto torce o seu nariz adunco.

Morgado continua uma criança em relação ao tal traquejo social. Do que não gosta, fala. “A verdade é confundida com mau humor” – repete. Detesta reuniões.”Os japoneses são geniais. Inventaram a sala de reuniões sem cadeiras, para as pessoas irem direto ao ponto e rapidamente implementem o que foi decidido. Nós, aqui, colocamos biscoitos, doces, café meia boca, sucos de caixinha e perdemos horas preciosas em conversa pra lá de fiada. Reunião propriamente dita dura um terço do tempo utilizado na sala.” Morgado é econômico copm as palavras tanto quanto o é com o soriso. “Gente articulada me dá calafrios. Aquele muro de palavras geralmetne esconde a inoperância profissional. Ou seja, na hofra do vamos ver, não vemos nada. Se colocam como autoras do trabalho daqueles que falam menos porque estão fazendo alguma coisa de útil.”

Morgado não acredita na isenção da imprensa. “Meu amigo, o homem é um ser imparcial por natureza.” – repete sempre que pode.” Aquele que confessa em público ter um lado é mais imparcial do que os auto-imaculados.” Morgado não lê jornais, apenas passa os olhos. “Você ja viu como os jornais estão cheios de articulistas? São os latifundiários do centímetro/coluna. Eu quero saber o que está acontecendo, não o que eles pensam sobre o que está acontecendo” – repete após alguns dry matinis, sua bebida preferida.

Se a ignorância é uma benção, Morgado é um amaldiçoado, que, aliás, também rima com o seu nome. Se bem que ele já não se importa. Aceita. “Melhor assim do que ser um cagão” – aforma. “Sabe, os cagões? São aqueles que repetem sem parar ‘As coisas são assim mesmo.’ Detesto o tipo com ainda mais força do do que detesto os articulados” – não perdoa. Quando encontra um, não hesita “Você é um cagão” – diz-lhe na cara. “O cagão é a engrenagem que faz a máquina funcionar do jeito que aí está. Lubrifica-se o sujeito com um bom salário e ele abana o rabinho. Nascem com um botão play embutido. Repete sempre a mesma meia dúzia de expressões para qualaquer situação com os olhos inexpressivos. Mando tomar no cu. Faz bem mandar quem você acha que merece tomar no cu. Experimente” – aconselha. “É mais eficiente que chá de boldo.”

Morgado é mau humorado. Vai aparecer por aqui de volta e meia com suas aventuras. Ele me acha uma besta por estar dando importância toda as suas opiniões. Não esperaria outra coisa, vindo dele.


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