No elevador
Voltando do almoço, Rui encontra Lucas, o office boy, no elevador. Amante do rock’n roll, principalmente das bandas dos anos 70, década em que ele nem pensava em nascer. Quando abria a boca para falar, o contraste entre sua linguagem e a sua figura de cabelos longos, camisas pretas com logo de bandas de rock e tatuagens, ficava evidente. Lucas fazia uso de termos antigos e alguns até arcaicos.O motivo era bem simples: um roqueiro criado pela avó, uma revisora de livros, com quem aprendeu a usar tais termos com muita propriedade. Naquele dia ele entrou no elevador e estava todo de preto com uma expressão triste.
– Meu Deus, Lucas. Morreu alguém?
– Hoje está fazendo 33 anos que John Bonham, o maior baterista de rock de todos os tempos, faleceu. Estou assim, enlutado, em homenagem a este músico supimpa.
– Entendo.
– Mas, mudando de assunto, seu Rui, não pude deixar de perceber que dona Karen estava conversando consigo na cozinha. Ela parecia assas interessada.
– Será que aquilo tudo é mulher pra mim?
– Aquele broto é uma quimera, seu Lucas. Já pensei em diversas ocasiões em ir ter com ela e abrir meu coração.
– Coração? Não seria o seu zíper?
– De fato, seu Rui. Mas cadê a coragem? Fico procurando estratagemas para conversar com aquela deusa. Outro dia consultava meus botões sobre o que Mick Jaegger diria a ela para leva-la para a alcova?
– Provavelmente nada, Lucas. Afinal ele é o Mick Jeagger.
Neste momento, a porta do elevador abriu-se e Rui seguiu em frente, deixando Lucas embasbacado com sua observação. O garoto, olhava para ele se afastando e apenas balbuciou um elogio para ele mesmo.
– Quanto tirocínio!
-x-
À noite, Rui está confortavelmente instalado na sua poltrona preferida enquanto saboreia o seu infalível Dry Martini. Jogada no sofá de três lugares, Luiza, em roupas esvoaçantes, conversa com seu ex-marido.
– Toda vez que eu penso nisso fico embasbacado.
– Nisso o que, Rui.
– Eu conversando com um fantasma. E logo o seu fantasma. E ainda por cima, já achando isso normal. Será que você está aqui?
– Você não comeu aquela menina do bar? A primeira depois de mim?
– É, foi o que aconteceu.
– Então, acredito que sim, então isso indica que eu estou aqui.
Rui bebe um gole da sua bebida predileta, engole, soltando uma baforada de ar embebida em álcool.
– Não sei como você gosta tanto disso.
– Você sabe como o Dry Martini foi criado?
– Guarde esta história cheia de charme e glamour para as próximas mulheres que você vai querer trazer ali para dentro – ela indica o quarto com um movimento de cabeça. – Queria saber o que você achou da aula prática na cozinha hoje.
– De longe, a mais esquisita que ja tive.
– O que eu quero saber é se você aprendeu todos os sinais aparentes de que uma mulher quer dar pra você.
– Seria meio difícil esquecer depois do jeito peculiar com que você explicou.
– E então?
– Fiquei tão animado que estou pensando em levar a Karen para um “ almocinho executivo” – faz aspas com os dedos indicador e anelar das duas mãos nessa parte – Que tal?
– Almoço sim, mas nada de levar ela pra cama.
– Como assim? Não é justamente pra isso que você está aqui?
– Rui, por enquanto vamos nos concentrar na conquista. Quero ver você totalmente seguro.
Ela pensa um pouco antes de seguir falando, como que medindo o que vai dizer.
– Não leve a mal, mas suas habilidades na cama são, como eu diria, satisfatórias. Como de resto, muita doçura, muito carinho, o que não é de todo mal.
– Então, qual o problema?
– Rui, a sua falta de safadeza é algo que precisamos corrigir . Do jeito que está não vai haver grandes problemas quando se tratar de mulheres que você não vai mais encontrar. Mas quando se trata de uma colega, aí a coisa muda de figura.
– Mas qual o problema com isso?
– Rui….Ruizinho…você faz ideia de uma foda mal dada com uma colega de trabalho? No outro dia, o escritório inteiro vai saber o que ocorreu. Principalmente a mulherada. Isso também vale para uma bem dada. Uma boa fama, com uma mulher como Karen, pode acabar rendendo mais uma, duas ou sabe-se la quantas nov as fodas.
– Você está me dizendo que…
– Que a buceta da Karen é a fechadura de uma porta de prazeres. E o seu pau, língua, ou seja lá o que passar pela sua cabeça, são as chaves.
– É verdade! – Impressiona-se.
– Você tem que pensar com cabeça de safado na hora de comer alguém. Assim como um gordo pensa com cabeça de gordo quando faz um sanduíche. Mas o almoço com a Karen amanhã vale a pena. Para testarmos o nível de safadeza dela.
– Qual a ideia?
– Provocar ainda mais. Essa aí, merece.
Após aquela conversa e mais alguns Dry Martinis, Rui teve uma noite agitada. Um sonho muito estranho, daqueles que deixam uma impressão encravada na alma. Começava com ele fora do seu corpo, assistindo a a si mesmo em desempenho sexual com Luíza. Como um Imperador Romano, o Rui fora do corpo esticava o braço e fechava os dedos da mão exceto o polegar, que ele virava para baixo, em sinal de desaprovação ao seu desempenho sexual pífio. Luiza então se transformava em um leão e começava a devorá-lo. Acordou encharcado. E não conseguiu mais pegar mais pegar no sono. Permaneceu deitado, olhando as sobras no teto do quarto, provocadas pela luz indireta dos postes da rua que entrava pela janela. Pensou em Luiza. De alguma forma, desejou ter ela ali naquele momento.
(continua)