Maria Clara
O táxi me deixou no tal endereço um pouco antes das 15 horas. Eu e minha mala com o material de trabalho. Fiquei parado em frente ao prédio por alguns instantes. Era uma beleza. O condomínio devia ser mais alto do que o meu cachê. Apertei o botão do interfone. Segundos depois, uma voz metálica com forte sotaque nordestino saiu pelo aparelho. Dei todas as informações necessárias. Após alguns instantes, ouvi um estalo e o portão a minha frente se abriu. Passei pela casamata onde o porteiro devia estar. Era impossível vê-lo, pois os vidros eram escuros, quase pretos. Andei por um corredor e o meu coração começou a bater mais forte. Minha barriga era constantemente atacada por ondas de frio.
O elevador social estava no térreo, como que me esperando. Entrei e subi até o décimo andar. Saí e me dirigi até o apartamento 102. A porta estava entreaberta. Não sei o que me esperava atrás dela. Permaneci parado por alguns segundos, olhando a porta, tentando visualizar a decoração por aquela fresta. Empurrei a porta e dei dois passos, passando pelo umbral. Maria Clara apareceu não sei de onde, me abraçou e beijou com a vontade de uma mulher que encontra o único homem do planeta. Soltei a mala e a abracei também. Se fosse fazer uma descrição da cena não fugiria muito do que qualquer um está acostumado. O volume dos seios dela contra o meu peito, o cheiro do seu perfume, seus cabelos roçando no meu pescoço e o meu pau num estado de enrijecimento tal que seria perfeitamente possível usá-lo como martelo para fixar um prego na parede. Ela arrancou sua boca da minha e passou a beijar meu pescoço, em áreas que eu nem tinha ciência que existiam. Usava um vestido preto maravilhoso. Quer dizer, talvez fosse maravilhoso só porque estivesse nela. Ela cravou as duas mãos na minha bunda e, resfolegante, falou em meus ouvidos que tinha vontade de fazer aquilo desde a primeira vez que me viu. Depois se afastou e, com uma voz e uma expressão marota, falou:
– Vá se vestir de o palhaço.
– Como?
Eu estava um tanto zonzo pelos momentos de sucção constante pelos quais havia passado.
– A roupa toda?
– Incluindo a maquiagem.
Eu nunca me maquiei tão rápido em toda a minha vida. Vesti a roupa em tempo recorde. Fui para o quarto e Maria Clara estava só de colar de pérolas, cujo preço devia valer mais que o meu guarda-roupa inteiro. Ela olhou para o meu sapato de palhaço e depois me encarou.
– Tomara que seja verdade o que dizem sobre as pessoas que têm pés grandes.
– Esses sapatos são falsos.
– Vem, meu palhaço – diz, lânguida – vem me fazer rir.
Eu fui. Mergulhei naquela cama com Maria Clara. O palhaço Lelé fez sua primeira performance para maiores, totalmente privê. Ela terminou com a cara toda lambuzada com a minha maquiagem.
Após o usual momento de torpor pós-sexo, ela pegou o meu nariz vermelho de plástico e começou a encaixar e desencaixar na cabeça do meu pau – encaixava perfeiramente – enquanto falava.
– Você é um homem e tanto.
– Desde que conheci você a minha auto-estima deu um salto.
– Seu amigo personal trainner ja ensaiou algumas investidas para me levar pra cama– confessa. – Ele tem um corpo incrível. Mas você tem algo mais: charme natural. Seu jeito irônico de falar me deixa louca. Além do seu tato com as crianças.
– Eu gosto delas.
– E eu de você. Cada parte.
– E esse apartamento – estava encabulado e resolvi mudar de assunto – de quem é?
– Meu, da Maria Amélia e da Maria Alice.
– O que é isso? Uma confraria?
– Pode-se dizer quem sim – ela suspira com certa melancolia. – Confraria das mulheres mal amadas.
– Quer saber? Seu marido é que é o verdadeiro palhaço nessa história toda.
Ela dá uma gargalhada, depois parte para cima de mim e me esgota. Ao cair da tarde ela se levanta, toma um banho e coloca a roupa. Diz para eu ter calma, me arrumar sem pressa. Ela tem que estar em casa quando o Felipe chegar, como sempre. É realmente uma mãe zelosa. Ela beija longamente a minha boca e, antes de passar pela porta, vira-se e me pega olhando para aquela bunda maravilhosa. Com a cara mais convidativa possível ela deixa uma mensagem no ar.
– Você vai se divertir muito aqui nesse apartamento.