Vera
Subitamente, num daqueles dias em qeu chamamos, um dia qualquer, a minha vida deu uma segunda guinada. Eu estava almoçando quando o celular tocou. Não conhecia aquele número no visor, mas isso não tinha nada de anormal. Provavelmente era mais um garotinho fazendo aniversário querendo os serviços do grande Lelé. Atendi.
– Alô?
– Por favor – voz feminina do outro lado – é por esse número que entro em contato com o palhaço Lelé?
– É o meu alter ego – gostei daquela voz.
– Ahahahah! Muito espirituoso – adorei aquela voz. – Isso é bom. Meu nome é Vera. Eu gostaria de ter você coo atração principal do aniversário de sete anos do meu filho. Você foi muito bem recomendado. Na verdade você é famoso.
– É muita bondade sua.
– Poderíamos tratar disso frente a frente? Gostaria de conhecer você pessoalmente. Nnao abro mão disse antes de contratar quem quer que seja.
– Quando?
– Hoje à tarde, lá pelas quatro horas?
– Tudo bem.
Desliguei pensando quantas pessoas a Vera costuma contratar e se isso era um indicador de que ela era dona de um séquito de empregados que cuidavam de seu castelo, o que me levava diretamente para uma questão crucial: o cachê.
Cheguei ao endereço que ela me deu um pouco antes da hora combinada. Era um prédio cuja fachada nos encarava com o nariz empinado dos milhnários. De uma suntuosidade assustadora. Todos os apartamentos duplex. Sendo que o ultimo andar, para onde eu ia, era triplex.
Passei por inúmeros procedimentos de segurança. Só faltaram perguntar qual a cor da cueca que eu estava usando. Depois de mais ou menos vinte minutos consegui chegar ao elevador que levava direta à painthouse. No meu caminho eu contei três câmeras. George Orwell devia ser o nome daquele prédio. Mas acho que ele tinha um nome afrancesado. Chahteau alguma coisa. A porta do elevador se abriu e eu encarei uma nova porta feita de jacarandá, sem dúvida nenhuma. Aquela porta deve ter custado um ano de trabalho com agenda lotada. Apertei o botão da campainha. Segundos depois uma loira com bochechas muito vermelhas e olhos muito azuis vestindo uniforme azul escuro e aventalzinho branco abriu a porta e um sorriso simpático para mim.
– Por favor, siga-me.
“Siga-me”. Fiquei imaginando o salário de uma empregada saudável como aquela, capaz de usar a ênclise com a propriedade de um professor de português de escola particular. O apartamento era enorme. Se a loira saudável me largasse ali eu só sairia usando um GPS. Eu não vou perder meu tempo descrevendo cada detalhe porque o que não faltava naquele lugar eram justamente detalhes. O que posso dizer em poucas palavras é que os tais detalhes eram todos de origem oriental. Chineses, para ser mais exato. E nenhum deles sequer passava perto de ser uma imitação. Neste caso, o made in china emprestava uma nobreza indizível a cada peça. Isso me deu um calafrio na boca do estômago. Acredite, razões eu tenho, como vocês vão saber logo adiante.
Finalmente, depois de andar numa escala de medida que se aproximava ao quilômetro, cheguei a uma sala aconchegante, com sofás imponentes, cobertos por lenços lindamente estampados. A simpática loira me deixou ali e, no meio daquela decoração rica meu olhar alcançou Vera. Estava sentada em uma poltrona com um livro na mão. Meu coração disparou e aquele calafrio se transformou em um vendo gélido que tomou conta de todo o meu sistema digestivo. Minhas pernas fraquejaram. Ela tinha cabelos curtos e negros e olhos puxados tão negros quanto os cabelos. Era chinesa. Não era coreana, nem japonesa. Por que coreanas e japonesas não costumam provocar em mim tais reações. Eu simplesmente tenho um fraco por chinesas. Elas me perturbam. Turvam meus pensamentos. Eu perco todo o meu senso de equilíbrio. Eu tive três namoradas chinesas e fui completamente louco por todas. Mas a contrapartida também é verdadeira. De alguma forma eu atraio as chinesas. Sei lá eu o porquê de tal empatia étnica. Talvez eu lance um triplo de feromônio no ar quando as encontro como naquela caso. Esses três namoros foram intensos. Achei que ia casar nas três ocasiões. Mas ali, naquele momento, estava a chinesa mais linda que eu já havia tido a honra de dividir o ar que estava respirando.
– Oi, Alexandre! – Levantou-se e veio em minha direção. – Gostei da pontualidade.
– É.
Foi a única coisa que consegui balbuciar. Um raquítico monossílabo que só teve a função de informar a ela que eu tinha voz. Estava ainda mais perturbado, porque, quando levantou, percebi que ela tinha uma borboleta linda tatuada na lateral da panturrilha esquerda. Outra coisa pela qual eu tenho fraco: mulheres com tatuagem na lateral da panturrilha.
– É? – Ela pergunta com um sorriso curioso.
– Que…quer dizer, pontualidade…eu costumo chegar na hora – minha boca está seca. – Velha mania.
– Boa mania.
– Engraçado, o seu nome.
– Vera? O que tem de engraçado?
– Bom, noto que você tem traços…
– Orientais.
– É.
– Vera Sing Ly.
– Ah!
– Por favor, vamos sentar. – Em seguida, ela auemtna o tom de voz. – Solange!
– Sim, madame. – A loira uniformizada reaparece.
– Bebe alguma coisa?
– Um suco de laranja.
– Pra mim, um chá, Solange – pede com uma gentileza firme na voz.
Vera Sing Ly, separada, trinta e dois anos, um filho chamado Wang Sing Ly neto com o mesmo nome do avô, dono da rede de restaurantes China Town, espalhados através de franquias pelo país inteiro. O filho iria comemorar sete anos na casa do avô. Bom, casa é um conceito um tanto humilde para descrever as fotos do local que me foram mostradas por Vera. Não fui indicado por nenhuma das três Marias. O filho me viu atuando numa festa e não parou de falar em mim desde então. Vera não foi a tal festa, o garoto foi com o chofer e a babá. Só sei que ela conseguiu o meu número com a mãe do aniversariante e lá estava eu.
– Bom, então eu posso contar com os seus serviços na festa do meu filho?
– Quem sou eu para negar o pedido de um pequeno fã?
– E é só dos pequenos fãs que você não nega um pedido? – Os olhos em mim.
– Só tenho pequenos fãs – saio pela tangente. – Desconheço que exista algum de outro tamanho.
– Você é uma pessoa especial, sabia?
Aqueles olhos puxados parecendo navalhas atravessando a minha débil força de vontade para permanecer imóvel e não saltar sobre ela naquele momento.
– E você uma pessoa muito direta, sabia?
– Sabia.
Saí de lá apaixonado. Completamente apaixonado. Perdidamente
apaixonado. Eu queria casar com a Vera Sing Ly. Com separação de bens. Ela e só ela me bastava. Ela e uma cabana. O resto da minha vida.
Paixão mútua e algumas histórias
A festa na casa dos Ly foi um evento digno de umas cinco páginas na revista Caras. Algo inimaginável. Aquele vasto pedaço de terra ornado por lindos jardins oreintais, alguns recantos e fileiras de amendoeiras e pinheiros. O esforço do senhor Ly de fazer da sua morada um pedaço da China dera certo. Bom, pelo menos acredito que tenha dado, uma vez que jamais estive na China. E naquele dia então, com o lugar repleto de convidados de olhos puxados andando para todos os lados, a maioria falando cantonês, mandarim, ou, seja lá que dialeto fosse, a impressão de se estar na China era ainda maior. Até o cônsul do país estava presente. Quando cheguei e vi aquela multidão, fiquei com os nervos abalados. Era o maior público para o qual eu ia me apresentar. E me parecia um público bem exigente. Como me sentia um pouco acuado, enfraquecido, pensei no meu grande amigo Peraltinha.
Outra coisa perturbadora é que, logicamente, havia muitas chinesas lindas andando por lá, filhas mais velhas, mães, aquilo fervilhava e eu estava arrebatado, perdido em total convulsão hormonal. Mas quando Vera apareceu, exibindo o seu sorriso estonteante, tudo ficou em paz. Aquele sorrido me dava confiança. E foi graças a ele que eu fiz a maior apresentação da minha vida.
Dois dias depois do evento e eu já dividia uma mesa em um restaurante com Vera. Aqueles olhinhos puxados postos em mim, desafiadores e carentes ao mesmo tempo. Desde a primeira vez que a vi, no meio daquele monte de almofadas em sua casa, a imagem dela ficou estampada na minha retina, os seu aroma na minha memória olfativa e o seu espírito no meu coração. Todos os meus atos, a partir daquele dia, tinham o rosto dela no meu campo de visão. Como o logotipo de um canal de televisão que fica na tela durante a programação. Toda noite eu acordava e o rosto dela era a primeira coisa que a minha mente ia buscar. Falei daquelas outras chinesas que namorei? Pois Vera era a que mais rápido tinha me conquistado. Estava entregue. Mas eu podia perceber que havia a mesma intensidade de sentimentos que vinham do caminho inverso. Sentia claramente que Vera havia se apaixonado por mim.
– Você não tocou na comida – ela fala olhando o meu prato cheio.
– Nem você. Seu prato está muito parecido com o meu.
Ficamos nos olhando por um tempo.
– Você me deixa sem fome
A última frase foi falada por nós dois ao mesmo tempo. Rimos muito daquilo. Era um clichê de comédia romântica. Só faltava a gente tentar pegar o mesmo garfo e, por isso, tocar as mãos involuntariamente. Mas a cena não era de filme e nós na verdade não tínhamos nada mais a fazer naquele restaurante. Já havia contado a minha vida – excetuando o pequeno detalhe das três Marias – e ela havia me contado a dela. O casamento que não dera certo, mas que dera a ela o pequeno Wang. Não havia dado certo por inúmeras razões, mas basicamente porque o “Jorge era um pulha irresponsável que na verdade havia casado com o dinheiro do meu pai”. Vera contou que Jorge estava sempre em contato e que o contato não era apenas por causa do filho. Sentia uma necessidade que ela classificava como patológica de continuar a vê-la e de saber da vida dela. Meteu-se muito quando ela teve o seu primeiro caso depois do casamento, um antigo amigo da família e namorado de infância chamado Ho Yuin. Era comum, os dois saírem para jantar ou ir a um cinema e dar de cara com o Jorge, que fingia surpresa ao vê-los, como se não tivesse perseguido os dois. Mas fora isso, o Jorge era totalmente inofensivo. Ho Yuin fora compreensivo, aquele famoso ombro amigo depois da separação. De ombro passou a ser o corpo todo. Mas o namoro entre os dois acabou sem maiores problemas. Aos poucos foi se acostumando com a vida de ex-casada e estava realmente sentindo-se muito feliz e sem a necessidade de ter alguém ao seu lado além, é claro, do filho. Mas isso havia mudado desde o dia em que ela me viu pela primeira vez em sua casa. “Meu coração disparou, eu fiquei zonza, mas como boa mulher e chinesa soube segurar minha perturbação e manter a pose”, coisa que eu claramente não consegui e que ela percebeu “como boa mulher e chinesa.”.
Saímos do restaurante fomos para o apartamento dela. O pequeno Wang estava dando o prazer de sua presença na casa dos avós. Só havia Solange, a empregada loira e educada que usa a ênclise, cujo quarto devia ficar à léguas de distância e que, como empregada educada que era, tinha entre as suas aptidões o dom da discrição. Entramos e não falamos nada um para o outro. Apenas fizemos amor apaixonadamente. A cada segundo que eu passava com Vera via as três Marias sendo soterradas pela minha paixão avassaladora. Juntamos nossos corpos, nossos líquidos, nossos sensos. Pela primeira vez em minha vida senti o que é a verdadeira unidade formada por duas pessoas. Aquela comunhão que eu nunca pensei ser possível. Enquanto rolávamos e nos beijávamos e nos penetrávamos, imagens de Maria Alice, Maria Amélia, Maria Clara, Peraltinha, Palhaço Xexé, Xuxu vinham a minha mente de um jeito muito peculiar: todos caíam em um abismo fundo e escuro até sumirem.
Quando adormeci, sonhei como nunca. Sonhei com nuvens brancas, plácidas e confortáveis de puro algodão. Não tinha idéia se isso era a felicidade. Mas que se danasse o mundo. No meu sonho eu flutuava com Vera deitado sobre aquelas nuvens. Experimentava uma sensação de júbilo que preenchia os meus pulmões. O mundo lá embaixo não fazia mais parte de nossas vidas. E eu não queria acordar mais.