Na década de 1970, Rogério vivia os primeiros passos da sua adolescência, já que tinha de 14 para 15 anos. Sobre ele recaía a pecha de que vivia no mundo da lua por possuir uma imaginação fértil, não raro parecia realmente se desligar desse nosso mundo para peregrinar em outros muito mais interessantes. De certo modo, aquele era uma espécie de superpoder, que deixava a sua vida mais interessante e muitas vezes era pouco entendido pelos mais velhos.
Entre suas paixões, jogar peladas com seus amigos era a que ocupava o primeiro lugar. Nessas peladas ele exercitava não só a sua relativa boa habilidade com a bola nos pés como, também, a sua imaginação acima da média. Em todas as peladas ele sempre estava jogando em um lotado Maracanã, o maior ícone dentre os estádios de futebol da época, também conhecido pelo epíteto de “o maior do mundo”. Enxergava perfeitamente o estádio a sua volta, com as arquibancadas, cadeiras e gerais cheias de gente e de gritos, em vez da quadra de futebol sete ou de salão em que realmente estava. No seus jogos paralelos, atuava pelo seu time do coração, ou seja, jogava sempre fora de casa. Havia um certo prazer em jogar num Maracanã com 200 mil vozes hostis. Para Rogério, provocar o silêncio da torcida adversária tinha mais sabor do que fazer explodir a sua própria.
Numa manhã de sábado, Rogério se reuniu com os amigos para mais uma dessas peladas em um clube que ficava bem perto da sua casa. Como de praxe, bastou entrar na cancha e imediatamente foi transportado para mais um grande enfrentamento em seu mundo paralelo. Como tinha uma antipatia atávica pelo Flamengo, era contra o rubro negro que imaginava estar atuando na maioria das vezes, pois, como ja foi relatado aqui, calar a maior torcida do Brasil ampliaria o seu prazer em ser um estraga prazer das torcidas adversárias.
A partida começa e, no primeiro lance em que participa, recebe uma bola que vem xucra, corcoveando pra lá e pra cá, em sua direção. Rogério a doma com seu pé esquerdo – que não era o bom – e a faz obedecer a todos os seus caprichos. Aquela primeira participação determinava uma injeção de auto confiança que se estenderia durante todo o jogo. Aquele lance, no alvorecer da partida, era o prenúncio de uma atuação memorável. Ao final daquele embate, iria ser premiado com todos os Motorádios* disponíveis, disso não havia dúvida alguma.
Em dado momento do jogo, em que desfilava um futebol de alta qualidade numa uma atuação quase perfeita – o quase fica por conta de um lance em que escolheu chutar a gol, quando dar um passe para um companheiro melhor colocado seria a solução – percebeu seu pai observando, solitário, o jogo atrás de uma cerca de arame, ou melhor, numa das arquibancadas do Maracanã. A visão do seu velho ali, prestando atenção na peleja, injetou-lhe ainda mais ânimo. Foi goleador, líder em assistências – na época isso era chamado passe para gol – abriu caminhos a dribles, fez lançamentos perfeitos de 30 metros onde a bola descrevia parábolas harmônicas a até se aninhar nos pés do companheiros. Um verdadeiro espetáculo que fez calar o seu Maracanã imaginário, para o seu deleite.
Ao término do jogo, encontrou seu velho que ainda estava do lado de fora esperando para acompanhar o filho na jornada a pé de retorno para casa. O almoço já devia estar quase pronto. Rogério andava ao lado do seu pai, aberto aos elogios que estariam por vir a qualquer momento, ansioso por ouvi-los e, quem sabe, fingir modéstia com um “Não foi tudo isso, pai” . Mas, a medida em que os passos iam se sucedendo, passou a se incomodar com o silêncio do seu velho. Os metros iam ficando pra trás e nada do pai começar a falar sobre aquela atuação esplêndida. Finalmente, o silêncio é quebrado com um “Você podia ter passado aquela bola em vez de chutar”. O menino sentia como se tivesse levado uma entrada por trás de um zagueiro desleal. Ficou na esperança de vir um “mas” seguido dos merecidos elogios à sua atuação épica. O mas não veio. Não veio mais nada. Seu pai falou apenas daquele “quase” do parágrafo anterior a este. E foi só. A Rogério restou voltar cabisbaixo e calado para casa. Tão calado quanto a torcida do Flamengo após o término de seu jogo imaginário.
*Motorádio era uma marca de rádios que era dada ao melhor jogador em campo nas década de 70 no século passado por algumas estações de radio que transmitiam os jogos. Nas peladas da época, quando diziam que você merecia o Motorádio, é porque você tinha jogado uma barbaridade.