É sempre do mesmo jeito. Eu desperto de repente e abro os olhos, mas parece que não abri, já que o mundo continua com as pálpebras fechadas. Tudo a minha volta é breu, esse ladrão de formas, de volumes, de cores. Meio lá e cá está a minha alma errante, que acabou de emergir das imagens do inconsciente. Aos poucos, a alma encaixa no corpo e me percebo deitado numa hora que não não é hora, porque o breu também rouba o tempo, ou a impressão do tempo. A mente, desocupada dos sentidos, vira palco pra um desfile de caraminholas a tagarelar feito maritacas num final de tarde.
São as vozes dos amigos do breu, que se elevam mais e mais, sem freios, desimpedidas e perturbadoras. A mente é terra por onde essas caraminholas se imiscuem como minhocas a produzir seu húmus que fertiliza as inseguranças, os medos, as culpas e os arrependimentos. O corpo treme de frio. O corpo sua de calor. A coberta vai. A coberta vem. O breu é uma panela de pressão, desconfortável, que me apequena diante de tudo de ruim que atravessa a fronteira entre os cientes. Meu corpo roda no mesmo lugar como um frango de televisão.
Não sei se passou uma hora, ou duas, ou mais. Como disse, o tempo fugiu da minha sensação, levado pelo breu, esse larápio que age todas as noites. Dou-me conta de que todas estes pensamentos são acompanhados por uma trilha sonora, que sempre se repete no mesmo trecho, qual arranhão no disco que devolve a agulha sempre para o mesmo ponto na ranhura no vinil. Vou levantar, mas o breu me empurra de volta. Ele se diverte com as caraminholas que me incomodam junto com os mosquitos a zunir.
Mais que terra, minha mente também é tela, que necessita do breu para nela sejam projetados todos os meus terrores arquetípicos que dançam feito tribos pagãs num ritual de não sei o que. Pra onde vamos? E quando eu me for? O que vai acontecer com elas? Por que fiz aquilo? Por que não fiz aquilo? Que pontada de dor é essa? Será que ela supera? Será que ela cresce? A culpa foi minha? Foi nossa? Eu devia? Eu não devia? Ao longe, um galo canta. Um canto que traz de volta o alento. É prenúncio da luz. Que, com o som de uma cavalaria ligeira, invade por cada fresta, cada buraco de fechadura. Que vence o breu. Que expulsa as caraminholas de uma vez por todas. O sono vêm. O corpo volta a ficar imóvel. A respiração se enche de ritmo. Até o despertador tocar.