Cada Geração Com a Sua Janela

Quando eu era criança tudo tinha que ser dividido com meus meus dois irmãos mais novos. Nunca foi uma divisão pacífica, pois sempre havia uma disputa pelo melhor ou pelo maior. Sentar em uma das janelas do banco de trás do carro era um dos grandes embates a cada vez que saíamos em família, principalmente em alguma viagem. Eram duas janelas para três pirralhos, logo,  um iria ficar um sentado no meio, longe das janelas, ou as vezes dois, já que, em alguns casos, havia a nossa vó que, quando ia nestes passeios, tinha uma janela cativa, tornando a disputa ainda mais acirrada.

Usávamos todo tipo de subterfúgio para conquistar um dos dois lugares mais cobiçados do no carro, de chegar muito antes de o que todo mundo e fincar pé – na verdade, fincar bunda- no acento perto da janela a simplesmente tentar arrancar o outro a força, ou no grito, do precioso lugar.  Seguiam-se as discussões homéricas, palavrões, choro e ranger de dentes dos perdedores que vinham sempre com o mesmo argumento “da última vez foi tu que sentou aí”. A discussão escalava e quando os primeiros tapas começavam a ser trocados entre os adversários, bastava um olhar azedo do nosso pai e tudo se aquietava.

A janela para mim era como se fosse uma televisão, onde a minha imaginação atuava como roteirista daquilo que ia passar por aquela tela. Uma das brincadeiras que mais gostava de fazer era o olhar em movimento versus o olhar estático. No primeiro, eu girava o pescoço, acompanhando, por exemplo, um arbusto que ficava ao lado da estrada até ele sair de cena, para depois permanecer com o olhar fixo e ver os inúmeros arbustos passando como riscos indefinidos, parecendo pinturas impressionistas – ok, na época eu nem sabia o que era impressionismo mas este é um relato que fala de lembranças.

Outra visão que levava a minha imaginação para passear eram as pessoas que passavam andando a pé ou de bicicleta pelas bordas das estradas. As vezes famílias inteiras em uma procissão cuja a origem e o destino eram incertos, já que eu não havia visto uma casa sequer por quilômetros rodados. De onde saiu aquela gente? Para onde iam? Achei então uma resposta lógica: eram fantasmas de pessoas que tinham morrido atropeladas e que penavam pra lá e pra cá sem destino assombrando os quilômetros onde tinham perdido a vida. Desde a primeira vez que isso me veio a mente passou a ser uma verdade incontestável. De la pra cá, passei a achar estas figuras que andam à beira das estradas um tanto lúgubres. Ainda hoje sinto arrepios ao vê-las perambulando sem destino.

Lembro-me também das viagem que cruzavam a fronteira entre o dia e da noite. Eu ficava intrigado com a Lua, que nunca saia do lugar. A  minha imaginação mais uma vez me forneceu a explicação plausível, ou seja, a Lua, na verdade, era uma espaçonave disfarçada que nos seguia, não importando as curvas que fizéssemos e os quilômetros que andássemos nunca conseguiríamos nos livrar dela. Era óbvio que ali haviam seres muito inteligentes que se disfarçavam de Lua com alguma intenção ainda desconhecida por nós, humanos. Extraterrestres curiosos, talvez, em saber o porquê de um lugar ao lado da janela de um carro ser tão importante para os pequenos habitantes daquele pedaço de rocha orbitando o Sol. Ao contrário das pessoas andando pela estrada, essa ideia foi derrubada no dia em que eu entendi que esse efeito era o resultado da grande distância entre a Lua e a Terra. Ah! As desvantagens de nos tornarmos adultos.

Hoje, sou eu que estou na direção do carro enquanto no banco de trás tem apenas uma pessoa. A minha filha que, fosse naqueles anos, seria considerada uma felizarda por ter duas janelas à disposição. Mas ela não olha para nenhuma delas. Ela tem uma janela em sua mão que a leva pra onde quiser. A janela dela é uma tela de smartphone. Janela e tela. Pode até ser uma rima. Semelhantes na sonoridade mas completamente diferentes no resto. Se é melhor agora do que antes? É uma discussão estéril, sem sentido. O tempo não fica estático como a Lua da nossa janela. Ele passa  como passavam aqueles arbustos ou aquelas pessoas na borda das estradas. É assim que é. E é assim que sempre vai ser.


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