Mais Uma Missa

Mais um domingo que começa do mesmo jeito. O menino, ainda uma criança de 10 anos de idade, saído cedo de sua cama já está de pé, todo vestido e com cara de poucos amigos. Sua mãe o examina de cima a baixo e faz expressão de reprovação quando olha nos olhos dele. Em seguida, ela lambe os polegares e esfrega cada um deles nos olhos do menino, removendo as remelas insistentes que permaneciam por ali. Não sem ouvir os grunhidos de protesto do filho. Estava finalmente pronto para cumprir a sua missão: acompanhar a avó de 80 anos na missa das 10 horas. Por ser o mais velho, era o escolhido dos pais para ser o guarda costas da senhora, uma católica apostólica romana inveterada, que rezava o terço todas as noites a partir de 20 horas em cochichos intermináveis, talvez contando segredos de estado para os santos ou até para o próprio Senhor, vai saber.

Seu pai os levava de carro até a frente da igreja. Ele descia e dava as mãos para a senhora que, apesar de idade avançada,  subia a escadaria da igreja com certa diligência, praticamente o puxando o garoto pela mão já que  ele ja não subia com a mesma diligência. Seu ânimo para enfrentar o senta , levanta e ajoelha interminável fustigavam a sua paciência infantil. Subia mais como um condenado do que como uma alma fulgurante pronta para fazer a comunhão com o Senhor Deus Todo Poderoso.

O padre entra e se dirige até o altar. “Em nome do pai, do filho e do espírito Santo” e neste momento o menino já não está mais de corpo presente na missa.  Sua atenção é sequestrada pelas imagens dos vitrais onde a Via Crucis é descrita em pinturas cheias de expressões faciais em que o sofrimento e a angústia mostravam-se tão saturados quanto as suas cores.

“Deus todo poderoso tenha compaixão de nós,  perdoe os nossos pecados e nos conduza à vida eterna”/ Eram frases recheadas de culpa, talvez de auto acusação numa clara intenção de barganhar uma bom terreno no pós vida, de preferência la em cima, num lugar que tivesse as nuvens como tapetes. Frases que eram repetidas em tom monotônico e em uníssono por pessoas com o cenhos fechados, alguns tão sofridos quanto o das pinturas nos vitrais. “Eu não sou digno que entreis em minha morada, mas dizei uma só palavra e serei salvo”.

“Senhor escutai a  nossa prece”. A súplica a sua volta era interminável. Um propelente que fazia aumentar o seu desconforto emocional, afinal, pelo que ouvia, era um condenado desde que tinha vindo ao mundo. Já havia nascido com dívidas impagáveis contraídas por outros.  Quanto peso e quanta responsabilidade. Um um sentimento enozado a lhe arrebatar o peito e a lhe colocar na mesma frequência que aquela gente toda a sua volta. “Senhor eu não sou digno que entreis em minha morada, mas dizei uma só palavra e serei salvo.”

“Naquele tempo, Jesus disse…”  A Liturgia da Palavra entrava em seus ouvidos era como um refresco gelado descendo pela garganta em um dia calorento de verão. Pelo menos havia ali algumas histórias interessantes, embora os contadores fossem meio inexpressivos. Algumas dignas de filmes. Gente cega que passou a enxergar, água que se transformava em vinho. Pena que o Homilia que se seguia aquelas histórias jogava novamente tudo por terra com aquele discurso enfadonho e eterno proferido pelo padre.

“E Cristo disse aos seus apóstolos: tomai e comei todos, isso é o meu corpo que que é dado por vós”. A cestinha do dinheiro recém havia passado de mão em mão. A avó tirava uma nota da sua bolsinha preta e dava ao menino para que ele depositasse. “Mas Deus não é o Todo Poderoso? Porque diabos ele precisa de dinheiro?”, pensava o menino para logo sentir calafrios por ter falado diabos na casa do Senhor. “Pronto, agora que eu vou pro inferno de vez.”

“Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus do Universo. O céu proclama vossa glória. Hosana nas alturas.”  Ainda impactado pelo momento em que o padre bebia o sangue de Cristo numa taça na frente de todos, chegava um único momento com certa alegria no meio daquele culto macabro. Quando ouvia a palavra Hosana, sentia seu coração aquecer um tantinho. Pra ele, Hosanas (ele sempre ouvia no plural) eram anjos que voavam pelo céu em círculos, como que dançando em uma celebração. Nunca procurou saber o que os tais Hosanas significavam. Tinha medo de se decepcionar. Seguiu assim até para ter um momento um pouco mais leve, nem que fosse em cima de um engano.

“Vão em paz e que o senhor vos acompanhe!”. A frase mais aguardada pelo menino finalmente era mencionada em toda a sua glória. O grande momento da missa, até que enfim, havia chegado. Até a iluminação do mundo inteiro parecia ter mudado de humor. O sol invadia o ambiente pelos vitrais, banhando de cores a nave da igreja. Era capaz até de ver os seus Hosanas  voando em festa sobre a sua pequena cabeça. Levantava-se e já se dirigia célere para a saída, quando sentiu um tranco. Era a avó que segurava as suas mãos, estancando a seu trote feliz para o domingo que ainda tinha pela frente. Ela não saía antes de ouvir os avisos.  “No dia tal vamos celebrar a missa das mãos ensanguentadas de Jesus.”, diz uma senhora baixinha de cabelos cinza que combinavam muito bem com a roupa que vestia. Eles realmente faziam de tudo para puxar o humor do menino pra baixo.


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