Vim ao mundo com um defeito que se tornou crônico. Sou imune a todo e qualquer estilo de poesia. Por mais que eu tentasse, e eu tentei, não consigo gostar de poesia, assim como me agradam tantos outros tipos de leitura. Minha consciência – as vezes com a voz dos meus pais, outras com a voz dos meus professores – me repreendia severamente: “Você precisa ler poesia”. “Você tem que ler poesia”. E a cada tentativa frustrada, lá vinham as vozes da minha Consciência para me admoestar. “Seu insensível”, elas repetiam. “Você ainda vai se arrepender”, completavam. E essa chata, desta vez, estava com a razão. A falta de poesia na minha vida causou la seus estragos.
Por exemplo, graças a essa anomalia, eu virei um purista musical, se é que isso existe. O que eu quero dizer é que eu escuto a música pela música em si. Isso significa que, quando cantada, a voz de quem canta é apenas mais um instrumento no conjunto inteiro. Dali não saem nem palavras, nem sentenças e, portanto, nem significados. Apenas o som produzido pelas cordas vocais – seria a voz um instrumento de cordas? Eu consigo destacar qualquer instrumento em minha mente. Uma linha do baixo, o timbre da percussão, tudo. Mas, ao fim da música eu fico sem a menor ideia do sobre o que se tratava a letra. Daí que, quando vejo amigos comentando a maravilha que é a letra dessa ou daquela canção, eu me sinto um excluído, quase um abobado. Mas vejam, não é de propósito, eu simplesmente sou, como já disse, imune à poesia.
Outro efeito catastrófico dessa falta de poesia se manifesta em minha personalidade. Eu me tornei um invejoso. Cada vez que leio a prosa rica em belas figuras de linguagem nos textos de amigos como os da Martha Medeiros ou os do Cássio Zanatta, sinto uma pontada aqui no peito, o que me enche de culpa – essa outra maldita que junto com a Consciência são duas mulheres a me importunar. São prosas fluídas, ternas, que nos abraçam e nos acariciam por mais cotidiano que seja o assunto em seus parágrafos. É óbvio que eram ávidos leitores de poesia. Martha, aliás, escreveu, as suas. Já os meus parágrafos, a prosa me parece mais, sei lá, metalizada, factual, econômica ao extremo, um tanto bruta e apressada.
Incrível como escritores de quem tem intimidade com a poesia conseguem descrever o trivial e torná-lo interessante, dar-lhes um significado que nos fala a alma e não só ao cérebro, transformando qualquer sentença em um sopro de arte. Se eu descrever um poste de iluminação que se acende, vou escrever algo como vejo o poste de iluminação que agora joga o seu facho de luz na rua. Mas seria muito mais epopeico dizer que vislumbro pela janela os postes de iluminação que despejam sua ducha de fótons até formar uma poça de luz no asfalto. Ou, então, os postes de iluminação se acendem, diligentes, pontuais em sua missão de arrancar pedaços de penumbra da noite que se anuncia. Sim, um pouco exagerado na abordagem poética, acho que floreado demais, mas por favor, perdoem a minha falta de jeito, afinal, esse é o tema desta pequena porém, verdadeira e dura reflexão. Sou imune a poesia, eu repito. E essa imunidade, ao contrário das outras, nunca me fez bem.