Segundo Jung, Gabriel pode ser classificado como um cara com tipo psicológico introvertido/pensamento. Muito mais voltado para o seu interior e geralmente de muito pouca fala, um cara que percebe o mundo muito mais pelo seu filtro interior. Segundo a sua mãe, ele vive com caraminholas na cabeça desde pequeno, época em que tentava esclarecer suas dúvidas com perguntas que a pobre senhora classificava no mínimo como estapafúrdias.
Coisas como “Aquele arroto que a gente não consegue dar pode se transformar em peido?” Embora enxergue o mundo sob um forte ponto de vista interno, Gabriel foi um adolescente que conseguia cultivar amizades, raras, mas amizades. Quando fumava um baseado, a sua personalidade dois tomava conta e ele se tornava competitivo, como prova este diálogo que tivemos certa feita no alpendre em frente à minha casa.
- Você acha que o som existe de fato ou ele é algo relativo? – Gabriel me pergunta com apenas uma sobrancelha levantada.
- Claro que existe. Se aquela árvore ali cair agora não tem como nós não ouvirmos.
- Sim óbvio. Mas, se nem nós e nem ninguém estiver a um raio de um quilômetro daqui, ninguém vai ouvir certo?
- Certo.
- E ela assim mesmo vai cair, correto?
- Correto.
- Mas se ninguém estiver aqui para ouvir, então ela não fez som algum nesse momento, entende? O som, pra existir, precisa de ouvidos. É relativo.
- Isso não tem nada a ver, porque o árvore caindo faz barulho, independente de estarmos aqui ou não estarmos perto pra ouvir.
Então ele me olha e levanta ainda mais a sobrancelha, o que me leva a concluir que ele vai vir com aquela pergunta de sempre, para encerrar a questão.
- Pode provar?
A minha inesperada resposta vem de bate-pronto.
- Digamos que ao chegar em casa vemos a árvore tombada. Por sorte, temos uma câmera de vigilância aqui na frente. Pra saber o que aconteceu iriamos ver na gravação como ela caiu. Ver e ouvir. Logo, ela fez barulho mesmo que não estivéssemos aqui.
Queria retribuir com a minha sobrancelha única levantada para devolver-lhe aquela expressão de superioridade, porém, não nasci com esse dom. Mas me contentei com a sua expressão desenchavida por ter sido derrotado num embate em seu, digamos, campo psicológico. Mas o Gabriel nunca foi de admitir uma derrota. Ficou por um tempo em silêncio. Era capaz até de ouvir as tais caraminholas em sua cabeça maquinando a procura de um novo desafio. Ele ia vender carro aquele contratempo. Depois de alguns minutos, um leve sorriso se forma em sua face. Ele se vira pra mim e a sobrancelha levanta-se como uma lagarta preta assanhada.
- Ok, mas me diga uma coisa. Como você sabe que, por exemplo, o verde que eu enxergo, não é pra você o meu vermelho?
- Como é?
- Veja, as palavras são apenas uma descrição de fatos e objetos, correto?
- Lá vem…
- É, tipo, se eu pudesse ver com os seus olhos eu notaria que a cor que você chama de verde é a mesma que eu chamo de vermelho, entende?
- Entendi, mas…?
- Imagine – interrompe ele ainda mais empolgado- o azul do céu que você enxerga corresponde ao meu laranja? Então o céu que você olha e chama de azul, é como um dia inteiro de entardecer pra mim. Que coisa mais linda!
- Claro que não. Azul é azul e laranja é laranja.
- Do ponto de vista das palavras, como ja disse, sim. Mas não do ponto de vista de como cada cérebro processa a luz que entra pelos nossos olhos.
- Claro que não.
A sobrancelha levanta ainda mais.
- Pode provar?
- …
Gabriel se recosta na cadeira em que está, reacende o baseado que tinha se apagado a esta altura e me passa com um ar de superioridade.