Eu, Cabral.

Um dia, não sei quando, meu espírito descobridor se manifestou.

Descobri que o quarto de empregada, o elevador de serviço e as histórias sobre comer as empregadinhas são uma versão moderna da casa grande e da senzala e, portanto, ainda não saímos do século XIX.

Descobri que nossa história nos foi muito muito mal contada e, em consequência,  acabei por descobrir o grande número de escravistas, cruéis, bajuladores e criminosos que viraram estátuas,  nomes de ruas e de estradas.

Descobri que a desigualdade não é consequência das conjunturas, mas dos desejos muito arraigados dentro da alma dos meus vizinhos de classe social, que chamam de vagabundo quem trabalha duro e ganha uma migalha mas idolatram os herdeiros que não produzem coisa alguma.

Descobri que os bandidos no topo dos morros são expostos enquanto os bandidos dos topos dos prédios são protegidos por um punhado de famílias que têm em suas mãos o grosso daquilo que é chamado de informação.

Descobri a falta de empatia enrustida sob o manto do cadinho de raças e também descobri que quem define os parâmetros sobre o que te leva para o inferno não acredita no inferno.

Descobri que um roubo de 40 bilhões pode virar uma inconsistência contábil, dependendo de quem é o autor da obra.

Um dia, não sei quando, eu descobri o Brasil.


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