Estou parado em frente a ela agora mesmo. A grama verde, sempre aparada, que ficava no jardim da frente deu lugar a um mato tão alto que já ultrapassou a minha altura. A cerca de madeira, parece uma boca desdentada e os dentes que sobram não aparentam boa saúde. Abro o portão que, por algum milagre, não se desmancha no processo, mas range como quem me avisa, um tanto sem humor, que está sentindo a dor de quem não faz aquele movimento já tem anos. Passo por ele e sigo em frente.
Ando pelo caminho que me leva a uma escada de madeira com cinco degraus. Piso com o máximo cuidado, temendo afundar o pé no madeirame já corroídos pelos sucessivos ataques do sol e da chuva que se revesaram neste castigo interminável dos anos todos. Paro em frente œà porta de entrada. Estou culpando o sol e a chuva? Minto pra mim mesmo. O sol e a chuva são inocentes. A abandono na lida com a casa é que transformou a escada em uma velha caquética. Chego até o alpendre e, três passos depois, paro em frente a porta de entrada da casa. Apalpo os bolsos até achar o molho de chaves. Uma olhadela rapida pelo entorno mostra um alpendre cinzento, com esqueletos do que um dia foram cadeiras onde pessoas trocavam conversas e histótias de via. Acho a chave de entrada enterro-a na fechadura e giro com surpreendente facilidade. Ao abrir a porta, ela me faz a mesma reclamação feita pelo portão.
Dou um passo, mais outro e mais um. Meus olhos precisam se acostumar com a mudança do claro para o escuro. Enquanto isso acontece, um odor úmido, quase sufocante, um cheiro de falta de luz misturado com ar velho e papel molhado ivadem as minhas narinas. O cheiro do abandono. É possível ouvir as patas de insetos dos mais variados tamanhos se revolvendo pelos cantos e festas. Eles sentem algo estranho. Eu sou o algo estranho que eles sentem. Há urgência nestes passos, como que prevendo o fim do seu mundo maravilhoso de escuridão e decrepitude. Deparo com uma imagem forte, violenta na sala de estar. Sofás e poltronas se estrebuchando em agonia, com o enchimento jorrando para fora pelos forros feridos de morte, roídos pelo tempo, ou pelos ratos, ou pelos dois. Um nódulo endurece o centro da minha garganta. Tento segurar o choro, porque, afinal, aquela degradação, aquele abandono, aquela casa pedindo socorro pra mim só está assim juistamente por culpa daquele a quem ela pede socorro. Ela era tão linda… Hoje encarquilhada, decaída, deixada sem cuidados.
Não sei em que ponto da minha vida a abandonei e resolvi que não ia mais voltar. Em que ponto eu decidi que ela não valia mais a pena. Nem porque seria uma pena mantê-la viva, pulsando, colorida, e magnífica como sempre foi. Faço uma excursão que passa por todos os quartos e salas e banheiros e a cozinha. Mesmo assim, quase sem vida, ela me conta uma história, como sempre contou suas histórias. Abro a porta de um guarda roupa e vejo o meu reflexo no espelho cheio de pó e feridas cor de ferrugem. Eu me vejo na casa. Eu vejo a casa em mim. E é dessa ultima visão que tiro a vontade. De voltar pra ela. E de reconstruir. Portanto, mãos à obra.