Outro dia passava pelas redes sociais quando um post chamou a minha atenção. Um curso para escritores convidava aqueles que “adoram escrever” a experimentar algumas aulas. O primeiro sentimento ao ler aquele “adoram escrever” foi de incredulidade. Eu escrevo. Pautei minha vida profissional numa atividade em que escrever é essencial. Tenho minhas crônicas e posso garantir que eu não adoro escrever. Eu fujo de escrever. Invento desculpas para não sentar na frente de um computador com word vazio esperando algum preenchimento. Escrever dói. Porém, é um mal necessário. Por isso, garanto que jamais faria um curso ministrado por alguém que adore escrever. Essa pessoa é mentirosa.
Escrever, seja lá o que for, acho que até uma bula de remédio, é um exercício sofrido, trabalhoso e enfadonho. Todo o escritor com quem tive a oportunidade de trocar ideias já me deu seu testemunho nesse sentido. Escrever é como tirar um corpo estranho de dentro da gente. Algo que incha, que nos incomoda na medida em que permanece dentro de nós, crescendo e se acumulando. Livrar-se de um corpo estranho pressupõe sofrimento e dor lancinante. Escrever é espremer um furúnculo. E quanto mais demora, mais doloroso é.
Os dois processos, levam tempo, dão trabalho e doem muito. No caso do furúnculo. quando finalmente aquela membrana estoura e vemos aquele muco amarelado jorrando tal qual um Vesúvio particular nos vêm aquele sorriso no rosto. Este sorriso que muitas vezes é confundido com prazer. Mas não é. Nem de perto. Esse sorriso é alívio. O ato de escrever é o ato de espremer. Não admira que as palavras até se assemelhem. Você espreme e o pus vai saindo em forma de sílabas, palavras, frases, parágrafos, sentido. Quando coloco o ponto final, aquilo que tem antes dele é pus. Grosso, gosmento, mas que não mais faz parte de mim. Não está mais aqui dentro acumulando, forçando a pele, incomodando. Ele agora é do mundo. Em mim se torna apenas uma cicatriz que aos pouco seca até não sobrar nada da ferida.
Mas o problema é que quem escreve sofre de furunculose. Escrever é uma condição crônica. Não existe inspiração. Quando menos se espera, surge mais um furúnculo e quanto mais você espera achando que ele vai ser absorvido pelo corpo ele só faz crescer, ficando mais dolorido, sensível e incômodo. Portanto, repito: não há prazer algum em escrever. Se alguém disser que adora escrever então não escreve, faz outra coisa. Escrever é uma necessidade profilática, assim como o é lancetar uma infecção. Só não é tão nojento.