Histórias de um sobrado – A raspinha.

Tudo começava com o som da batedeira. Era o aviso do que eu considerava o grande momento da semana. Sábado era dia de bolo. Mas o bolo não era o mais importante e sim aquilo que a minha mãe batizou de a raspinha. Quando o som da batedeira começava a ecoar pela casa, eu largava o que estivesse fazendo para ficar plantado na porta da cozinha, esperando a mistura da massa ganhar a consistência ideal. Era o momento em que a minha mãe despejava a massa na forma e, com um sorriso de quem agrada um filho, estendia as mãos que seguravam o pote da batedeira em minha direção e dizia “Ó, a raspinha.”

 

Lembro até hoje do aroma doce e da massa crua, amarelada pelo presença dos ovos, contra o fundo branco do pote. As hélices da batedeira vinham junto, besuntados que estavam de massa crua e doce. Eu as lambia primeiro, deixava-as brilhando. Depois, pegava uma colher e raspava toda a sobra que havia ficado no pote da batedeira. O inigualável sabor doce de consistência pastosa que eu adorava apertar contra o céu da boca até a massa escorrer pelas laterais da língua caindo como cascata sobre os molares. inferiores.

 

A raspinha era uma toda minha. Fui soberano daquele território, sábado sim e outro também. Mas, se até o Império Romano, apesar de toda sua opulência e poder, acabou caindo para os bárbaros, não seria o meu domínio sobre a raspinha que ia durar pela eternidade. Subitamente, passei a ter que dividi-la com o meu irmão, que ja alcançava a consciência necessária para perceber que aquele som da batedeira trazia a promessa de um momento de êxtase, embora naquela idade não conhecíamos tal palavra.

 

Não esqueço o primeiro “Ó, a raspinha” que minha mãe pronunciou sem ser exclusividade minha. Aquele pote no final doe seus braços estendidos não era mais só pra mim. Ao meu lado, estava o meu irmão menor, cujo sorriso era a imagem de um cachorro balançando o rabo para um suculento bife. O termo dividir irmãmente é um trauma. Quando vi meu irmão pegar uma das hélices e lamber com aquela sofreguidão, tirando metade do meu prazer semanal foi uma dor quase insuportável. Segurava a minha hélice com uma das mãos mas, em vez de lambê-la, apenas conseguia fitar com horror o meu irmão fazendo tomando aquilo que era meu por direito hereditário. Nunca mais eu teria duas hélices besuntadas de raspinha só pra mim. Muito menos a quantidade inteira do do pote. Novos e tenebrosos tempos haviam se abatido sobre o meu império.

 

Mas eu não iria deixar aquilo barato. Passei a usar subterfúgios para para perder o mínimo possível. No princípio, eram sutis, como pegar uma colher maior do que a do meu irmão para raspar o pote, o que não durou duas semana sem que ele notasse e passasse a pegar uma colher igual a minha. Perseguia a minha mãe sorrateiramente até a cozinha e quando ela armava todo o circo para fazer o bolo, fechava a porta da para que o barulho da batedeira fosse abafado e o meu irmão não pudesse ouvir, o que se mostrou um rotundo fracasso. Maldita batedeira barulhenta.

 

Como meios sutis não estavam dando certo, só havia uma saída. Tinha que declarar guerra e partir para meios mais violentos como pegar o pote da mão dele e sair correndo, cuspir nas duas hélices antes que ele começasse a lamber a dele e assim me apoderar das duas. A retaliação foi uma questão de tempo. A disputa tomou proporções inimagináveis, saindo da cozinha e se estendendo pela casa inteira, principalmente quando um de nós pegava o pote antes do outro e saía correndo para o quarto, trancando a porta por dentro e se deliciando sozinho coma guloseima.

 

Quando um armistício já não era mais possível, eis que o imponderável acontece. Mais um irmão entraria na disputa. Um terceiro irmão para disputar aquele território dourado. A nossa Caxemira, agora, tinha um novo interessado. E as alianças começaram a ser feitas. Eram os aliados contra mim. Não suportei a força de adversários unidos. E também ja estava ficando com interesses diversos, coisa característica de minha idade mais avançada. Entreguei os pontos, deixando os antes aliados como adversários. Me divertia assistindo os dois ocupados com a guerra enquanto comia mais bolo do que eles. Amadurecer primeiro tinha lá suas vantagens.


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