Histórias de um sobrado – O abacateiro.

Outro dia escrevendo sobre uma passagem nos idos de 1969 acabei mencionando um abacateiro que ficava nos fundos do sobrado que eu morava quando criança. Aquele abacateiro, aliás, foi a melhor explicação para eu entender o significado da palavra independência. E por que digo isso? Simples, enquanto meus vizinhos tinham que tirar cruzeiros novos para adquirir seus abacates em alguma fruteira ou supermercado, nós tínhamos a felicidade de apenas que colher o fruto verde que dava na frondosa árvore, isso quando ela nos poupava o esforço, jogando no chão os abacates para que apenas apanhássemos. Minha mãe até dava uma esnobada e, vez por outra, cedia o excesso de produção a parentes e vizinhos.

Aquele abacateiro fazia parte da família e, pelo menos uma vez por semana, minha mãe fazia o seu inconfundível creme de abacate. Consistia num creme verde e doce, provavelmente misturando nacos da fruta – tirados com a colher margeando a casca por dentro – com leite e açúcar no liquidificador. Era uma delicia, embora, pela sua coloração e consistência, poderia muito bem ser usado como vômito em filmes de terror. Mas isso nunca me afetou. Gostava de colocar o creme em um pratinho pirex fundo e me deleitar pressionando o creme contra o céu da boca, fazendo com que o fluído pastoso e doce escapasse pelos espaços possíveis, inundando outras regiões da boca. Algo como aquela sensação de pisar com o pé no lodo no fundo de um rio, só que boa e doce.

Mas o abacateiro me deu muito mais do que deliciosas sobremesas e vitaminas, que a minha mãe chamava de batida de abacate, o que poderia ser confundido por algum incauto com a tentativa de uma mãe cruel de tentar embebedar seu filho de nove anos, mas que era apenas um vício de linguagem. Não havia sequer uma gota de álcool na bebida, asseguro a vocês.

Assistir televisão era um programa sagrado para mim e, desde aquela época, adorava me perder em várias séries, principalmente de ficção científica, cujos episódios eu ia prontamente emular nos fundos da casa. E o abacateiro com isso? Ora, ele fazia parte das minhas aventuras, geralmente sendo um horrendo monstro que atacava o nosso desprotegido planeta. Entre os seus papéis, destacaram-se um monstro planta que habitava o fundo do mar, o lagarto esverdeado e viscoso vindo de Júpiter e uma aranha de noventa patas vindos de Andrômeda. Perdi a conta de quantas vezes destruí o abacateiro monstro.

Saía das lutas extenuado, pois o abacateiro sempre fora um duro adversário. Extenuado e faminto. Não era incomum eu abrir a geladeira para ver o que podia saciar minha fome e lá estava o creme de abacate. Eu enchia o meu pirex e apreciava o sangue do monstro derrotado várias vezes na semana. Era o meu direito como um grande caçador galáctico e salvador do planeta. Até um novo ser entrar na cozinha e me dar uma bronca porque aquele creme era pra ser comido a noite. Por mais intrépido que o caçador galáctico fosse, não era páreo para a sua própria mãe.


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