Histórias de um sobrado – A árvore de natal.

Vivi no sobrado da Márcilio Dias até pouco depois de julho de 1970. Os primeiros Natais da minha vida foram passados lá. E quando se fala em Natal, uma das imagens mais icônicas sobre a data que nos vem a cabeça é o pinheiro verde, com farta decoração composta de luzes, bolas coloridas e toda sorte de quinquilharia. Nesta época cada casa tinha o seu pinheiro, artificial ou de verdade, ocupando um lugar destacado na sala.  Em todas as casas de amigos, parentes, do mundo inteiro adotavam um pinheiro como a decoração principal, menos uma: o sobrado da Marcilio Dias.

Não que fôssemos uma espécie de família gaulesa, resistindo bravamente a invasão estrangeira. Tínhamos a nossa árvore de Natal, é claro. Porém, era uma árvore completamente diversa de qualquer outra conhecida. Era a árvore de Natal dos Silva, única no mundo com características tão próprias quanto um ornitorrinco. Pelo menos era assim que uma criança como eu pensava, contrariado, naqueles dias.

A criação era do meu pai. Nossa arvore natalina consistia em um pedaço de arvore seco, e morto, que ele recolhia do chão em algum parque da cidade. Este pedaço era a miniatura da árvore a qual pertencia, só que sem folhas, formado por galho principal mais grosso que se abria em vários galhos mais delgados. Além disso, nossa árvore era formada por um galão de tintas Renner vazio, o qual era enchido com areia ou terra, servindo de base para a nossa árvore natalina, onde o galho seria fincado. O galão seria revestido com papel celofane azul. A galhada ganharia um tom prateado, graças ao spray de tinta prata, com cheiro pronunciado que à época interpretava como querosene. A lata de spray tinha uma bola metálica dentro, que fazia um som bem característico cada vez que o meu pai agitava o recipiente para misturar o composto brilhante contido lá dentro. Aquele odor químico e o som ritmado da bola metálica dentro da lata de spray de tinta foi, por muitos anos, o aviso que o Natal já estava no ar. Literalmente.

Assim que a tinta secava, a decoração era completa com bolas penduradas nas pontas dos galhos mais finos, um pouco de algodão circundando a árvore, imitando neve, e as luzes coloridas. Eu olhava para a obra e, como criança que sempre quer fazer parte do grupo, sentia-me à parte do resto do mundo, onde frondosos pinheiros eram regra a decorar o Natal, enquanto eu tinha uma peça que mais parecia saída de um cenário mambembe de algum episódio de Jornada nas Estrelas original.

Porém, olhando para trás, percebo como fui injusto com meu velho. A árvore, pela foto que aparece na minha mente, era simplesmente genial. Uma obra de criação muito adiante de seu tempo. Em primeiro lugar porque carregava noções de reciclagem, já que usava galhos mortos em vez da agressão que eram os pinheiros vivos sendo divididos em pedaços com o único intuito de gerar lucro para o vendedor, que se aproveitava do período onde pessoas queriam  satisfazer o capricho de uma tradição. Em segundo, porque me mostrou que criar algo realmente novo é uma tarefa que nos torna solitários e criticados, condições às quais devemos abraçar se quisermos chegar a lugares onde ninguém esteve. Aquelas árvores foram, sem dúvida, o presente de Natal mais precioso que eu ganhei.

 

 


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