Maldita Genética

Carlos foi péssimo aluno em biologia. Detestava a matéria com todas as suas forças. Mitose e meiose eram termos que lhe davam ânsias de vômito. Adorava ervilhas até o dia em que teve de aprender sobre Mendel e suas famigeradas ervilhas. Passou a ter calafrios quando cruzava com as pequenas esferas verdes em seu prato. Recusava sem dó nem piedade. O suflê de ervilhas, o seu preferido, após o encontro com Mendel na sala de aula, tornou-se prato non grato, para estupefação de sua mãe.

Por falar em Mendel e as maravilhas da genética, este seu fraco desempenho escolar na área viria a causar uma situação insólita na vida adulta. O fato aconteceu em um restaurante, onde Carlos almoçava com amigos. Dotado de uma bexiga com capacidade reduzida, que ele definia como a menor bexiga do mundo, Carlos precisou se levantar antes mesmo de ser servido o prato principal, visto que dividia uma garrafa de vinho com os presentes. Nem bem terminou a primeira taça e já teve que atender o chamado da natureza.

Levantou-se e se dirigiu ao toalete. O seu drama pessoal começou quando se deparou com as portas dos dois toaletes. Em vez de estarem identificadas com o tradicional M e F ou o M e H, definindo o banheiro correto a que devia se dirigir, ele encontrou dois ícones da, vejam só, genética. Numa porta havia as letras XY, na outra as letras XX . Assim, jogados em sua cara. Sem dó nem piedade.

Deteve-se praguejando dentro da mente. Por que demônios o dono daquele restaurante tinha que recorrer logo a genética para indicar o sexo de cada toalete?  Não podia pelo menos escrever aquelas letras em rosa e azul?  Olhou para o lado e pensou em perguntar para algum garçom, porém, desconsiderou tal hipótese porque não queria, de maneira alguma, parecer um ignorante em biologia, o que realmente era. Esse prazer ele não ia dar a ninguém.

Largou a biologia e se agarrou a lógica estatística. Tinha 50% de chances de entrar no banheiro correto. Ao olhar para os ícones, tentou formular alguma teoria que o ajudasse a aumentar assuas chances de acerto na escolha. Mulheres são muito mais argumentativas do que os homens, foi o que lhe passou pela cabeça. Com elas o sim poder ser não, tudo tem um duplo sentido. Já com a gente é pão pão, queijo queijo. Diante de tão acachapante argumento, não havia como errar. O homem só poderia ser o XX. Taxativo. É X e pronto. Nenhum duplo sentido. Entrou porta adentro resoluto. E saiu aos berros de um punhado de moças que estavam lá dentro exercendo o seu direito de trocar ideias enquanto aliviavam as suas bexigas. Não sem antes ser alvo de disparos das câmeras fotográficas dos celulares que cada uma delas carregava.

Não eram um punhado de mulheres apenas. Mas de ativistas feministas que mantinham um grupo de conscientização contra o assédio sexual, todas famosas nas redes sociais, com milhares de seguidores, que se depararam com várias fotos de um assediador que ainda tentou enganá-las com a desculpa esfarrapada de que havia se confundido com os ícones da porta do banheiro, pois nunca fora bom em biologia.

Carlos saiu do restaurante direto para casa, não escapando de virulentos ataques virtuais, de uma demissão online, via inbox, de uma separação traumática e de um consequente um distúrbio nervoso. Demorou, mas acabou se recuperando. Não totalmente, é verdade. Só de ouvir falar em ervilhas ainda é tomado por uma imediata sudorese gelada, além de ser aturdido por uma tremedeira incontrolável, que dura cerca de um minuto. Maldito Mendel.


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