Histórias de um sobrado – O dia em que orbitei a lua.

Era um entusiasta da corrida espacial, que se intensificou nos anos 60 e que teve o seu auge em 20 de Julho de 1969. Tinha oito anos de idade. Tentava me colocar no lugar daqueles astronautas dentro de cápsulas espaciais apertadas. Imaginava como seria estar envolto pelo céu estrelado, que agora não é mais céu, porque há estrelas para onde quer que o olhar se dirija, até no chão. Sentia um frio na barriga ao perceber que a fantasia das histórias em quadrinho e das séries de televisão estava se encontrando com a realidade. O homem ia para o espaço. O homem ia pousar e andar na lua.

Que época para se estar vivo, para ser uma criança. Uma testemunha em preto e branco da história, ja que não existia ainda a tv a cores. Passei aquele dia em um estado de excitação tremendo. Cada hora parecendo três vezes mais. Quantos como eu, ao redor do mundo, não brincaram de andar pela superfície da lua nos fundos da casa? O nosso abacateiro como testemunha daquele intrépido garoto andando em sua lua imaginária, tentando adiantar as ocorrências que iriam transformar a noção de cada ser humano sobre si mesmo.

Minha excitação ó fazia aumentar na medida em que o dia avançava até alcançar a noite, o que acabou acontecendo. A lua despontou no céu e por um tempo posicionei-me ao lado do abacateiro. Sentado na escada de três degraus que dava para a entrada do galpão de ferramentas do meu pai, a mesma escada que a tarde fizera as vezes de escada do módulo lunar imaginário. Eu olhava para aquela esfera leitosa no céu, quer dizer, não bem uma esfera, porque a sombra da Terra intrometia-se na geometria de seu satélite natural, como que metendo a cabeça na frente do sol para também ver de perto o homem pousar ali. O céu de inverno estava limpo e estrelado. Será que podia ver a capsula chegando na lua dali onde estava? Forcei os olhos com o desejo redobrado de testemunhar aquilo a olho nu. Em vão.

Minha mãe o chamou para jantar. Ainda faltava algum tempo para o grande acontecimento do dia. Mas, o estômago cheio somado a adrenalina do dia a esperar, causaram um efeito indesejado. Peguei no sono ainda no sofá. Muito antes do acontecimento. Um sono tão profundo que os pais não tiveram outra alternativa a não ser colocá-lo na cama, que ficava no quarto no andar de cima do sobrado. Aquele sono profundo me colocou no espaço. Dentro da cápsula, com os três astronautas que se aproximavam da lua. Que sensação inexplicável era aquela. Os três astronautas, indiferentes a minha presença ali dentro, trabalhavam de um jeito mecânico a cumprir cada tarefa. O momento se aproximava. Um dos astronautas, finalmente, deu-se conta de havia mais alguém ali com eles. Ele olhou para o menino, lançou-lhe um sorriso e, numa voz calma falou-lhe “É agora. Não dá para você ficar aqui. Acorda.”

Abri os olhos em sobressalto. Estava na cama. Como assim, na cama? A luz tremeluzente vindo do aparelho de tv Philco na sala lá embaixo refletia na parede do corredor. Meu coração disparou. Teria perdido o grande momento que ia ser transmitido direto via Embratel? Saí em disparada. Havia os 17 degraus da escada para vencer até chegar à sala onde estava a tv. Mas eu não desci. Sentei em um dos degraus porque dali era possível ver a televisão. O resto é o que todo mundo ja sabe. Nunca contei para ninguém que estive lá em cima com eles até ser acordado. Apenas fiquei ali sentado no degrau da escada testemunhando tudo. Um pouco mais perto da lua do que os seus pais la embaixo.


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