Era uma vítima da tragédia de Mariana. Não resistiu àquela avalanche de lama e detritos como muitos outros. Estava ainda tentando entender a sua situação momentânea. Perguntava-se do porque estava em uma fila e quem eram aquelas pessoas estranhas ali com ela. Seu nome era, por coincidência, Mariana. Tinha uma certeza apenas: havia morrido. Então, aquela gente toda ali na fila também tinha. Subitamente, ouviu seu nome sendo chamado por alguém mais atrás na fila. Olhou e viu uma pessoa coberta de lama.
– Mariana, cê tá aqui também, minha amiga.
– Lucrécia é você?
– Eu mesma, amiga.
Foi quando resolveu se olhar e notou que estava também coberta de lama. Acabou entendendo o porque das outras pessoas da fila a olharem para ela com uma careta de espanto e se manterem a uma distância segura dela. Mariana viu que havia mais pessoas cobertas de lama naquela fila. Talvez estivessem todos lá por ordem de chegada. Passado algum tempo – ela não sabe dizer quanto, parecia que naquele lugar o tempo era algo meio inútil – apareceu alguém que trabalhava no local. Um homem vestindo uma túnica alva, de doer nos olhos, e com “um desses negócios modernos na mão”, pensou Mariana ao ver o tablet na mão do rapaz.
– Atenção! – O rapaz fala com voz suave porém resoluta. – Todos os que estavam no lamentável atentado em Paris, por favor, passar para o meu lado direito.
Houve um rearranjo total entre os presentes na fila e assim que tudo se estabeleceu, ficaram os enlameados de um lado e os limpos de outro lado.
– Vocês ja podem entrar por aqui e começar a aproveitar a sua nova dimensão. Qualquer dúvida, por favor falem com nossos orientadores. Eles estarão vestindo túnicas como a minha.
Uma abertura se formou no ar e as pessoas da fila da direita começaram a andar, passando por. Aquela diferenciação explícita passou a incomodar Mariana e os seus companheiros enlameados. “Ele nem olhou pra gente”, pensou. Com uma pontinha de indignação, ela se dirigiu ao jovem com o tablet na mão para colher informações.
– Dá licença moço?
O rapaz, num ato reflexo, afastou-se dela, temendo sujar a sua túnica alva com a aquela lama toda.
– Pois não? Dona Mariana, não é mesmo? – Abriu um sorriso. – Quanta coincidência.
– Como é?
– Seu nome é o eu mesmo de …bem do local onde aconteceu a tragédia da qual todos vocês foram vítimas. Uma lástima.
Mariana ficou ainda mais incomodada com aquele sorriso educado e a voz suave que soavam automáticos como um atendente de loja.
– Então, é que eu queria saber de umas coisas.
– Sobre a pergunta que a senhora vai fazer a resposta é: vocês vão ter que esperar mais algum tempo para ingressar na nova dimensão.
– Mas eu nem perguntei ainda?
– Ah, aqui a gente ja domina algumas propriedades da física quântica que…enfim, temos alguns poderes…a senhora entende né?
-Hum…
– Mas, continuando, se a senhora olhar aqui no meu tablet, vai ver que pelo menos trezentos e cinquenta milhões de pessoas colocaram o hashtag pray for Paris…é trending topic no mundo.
– Oi?
– Aquelas ali são vitimas do atentado de Paris. Eles são trending topic nas orações do mundo, então, têm preferência.
– Quando reza sai nessa maquininha aí?
– Podemos resumir assim.
– Mas e pela gente, ninguém rezou?
– Não, não foi isso o que eu disse. Mas vocês só tem três milhões, duzentos e cinquenta e oito mil e trezentos e quarenta e três hashtags…um por cento do que eles conseguiram. Não podemos negar o desejo das redes sociais. Então, eles têm preferência.
– Mas a maioria dos nossos amigos e conhecidos não tem essas maquininhas aí.
-É, embora tenham celulares, não são smartphones, o que ajudaria muito. Mas eu posso assegurar que todos rezam por vocês, o problema é que as orações são analógicas. Então…
– Então não conta?
– Conta, claro. Mas uma hashtag vale 100 orações analógicas. Então, vocês vão ter que esperar mais algum tempo. A senhora entende. Regras são regras.