A única coisa que se ouvia naquele momento era o som rítmico produzido pela gordura da costela de ripa pingando no carvão incandescente. Tsss, tsss. O pai, que estava prestes a virar a carne, paralisou com a mão no cabo do espeto enquanto olhava para o filho, sentado na ponta do comprido banco que ladeava a mesa igualmente comprida. A decepção que sentia era a de um Maracanã lotado em silêncio logo após o gol do Giggia. Um maracanazo dentro do peito.
O tsss, tsss da gordura na brasa parecia um relógio implacável, marcando o tempo que se dividia entre antes e depois daquele momento. Tempo que também voltava para quando ele tinha 11 anos de idade, quando, em domingos como aquele, era obrigado a acordar cedo para acompanhar a vó à igreja. Foi pela soma desses malditos domingos pela manhã que nasceu o seu ódio a padres, catedrais e qualquer tipo de ritual. Ainda criança, tinha verdadeiro pavor de ter desenvolvido tal sentimento, pois, segundo a vó, desmerecer a casa de Deus poderia levá-lo a queimar no inferno. Como uma costela de ripa pingando gordura eternamente nas brasas da churrasqueira do Canhoto.
O cheiro da igreja que frequentava invadiu-lhe a memória olfativa. Imagens misturavam-se como alguém que assiste uma projeção enfadonha de slides de alguém que fez uma viagem por Foz do Iguaçu,. Desfilavam pela sua mente a batina branca do padre Aleixo, com aquela faixa roxa pendurava no pescoço, o cheiro de perfume de sua mão no momento em que este lhe alcançava a óstia, as senhoras de cabelo arroxeado no mesmo tom da faixa sobre a batina, o senta, levanta e ajoelha interminável, os seus olhos ainda remelentos, os hinos que nunca mudavam, os sermões que ecoavam tornando cada palavra uma maçaroca ininteligível e a cestinha da coleta, passando de mão em mão. Lembra que olhava para os coroinhas condoído em solidariedade. Que merda esses garotos fizeram para merecer tal tormento e ainda vestidos daquela forma. Só esboçava um sorriso com a única frase dita pelo padre que prestava: vão em paz e que o senhor voz acompanhe.
Este misto de ódio e a culpa o perseguiu na sua infância e invadiu parte de sua adolescência como fazia questão de lembrá-lo o tssss, tsssss da gordura caindo naquele carvão infernal. Só obteve o esclarecimento a muito custo, após a morte da avó, quando tinha 17 anos. Ficou triste, chorou, ficou realmente sentido quando ela se foi. Mas depois desta perda foi que começou a se dar conta de que toda aquela conversa de céu e inferno era um tanto exagerada, para se dizer o mínimo. Com a crescimento, a culpa se foi, mas o ódio a igrejas e a tudo o que se relaciona a elas permaneceu. Quando voltou a si, continuava segurando o cabo do espeto e olhando para o filho sentado na sua frente
– Como assim, padre?
– É o que eu quero ser. Servir a Deus.
– Mas tu tens tino para astronomia, para matemática. Tu entendes daquelas coisas de X é igual a Y. Como assim vai ser padre?
– É a minha vocação.
– Olha, meu filho, tu podes ser qualquer coisa. Até gremista, se quiseres. Tudo bem, eu suporto essa dor menor. Mas, padre?
– Padre. E vou estudar com afinco, com esmero e com foco para, quem sabe, um dia ser o primeiro Papa brasileiro.
Com mais este maracanazo no peito depois desta história de ser o primeiro Papa brasileiro, ficou realmente sem argumentos. O menino aproveitou o silêncio, levantou-se, deu meia volta e saiu, deixando ele e a costela de ripa para trás. Ele finalmente virou o espeto, sentou no banco comprido que ladeava a mesa da churrasqueira, enquanto olhava para o céu contrariado com a decisão do filho. Subitamente, um talho de pavor abriu-se em seu ventre. Lembrou do Papa Francisco, torcedor confesso do San Lorenzo e do que disse a poucos minutos para o filho em desespero de causa: “tu podes até ser gremista.” Não podia imaginar desgosto maior na vida. Um filho Papa e ainda por cima torcedor confesso do Grêmio. Sentiu-se queimando no inferno de seus pensamentos. Tssss,tssss… exatamente como aquela costela de ripa.