– Desculpe, mas pode parar por ai .
Falou com o braço estendido e a palma da mão aberta em direção ao rosto do seu interlocutor, que havia cometido o erro colossal de falar aquelas duas palavras em sequência para ele. Logo ele, um defensor inabalável da fidelidade ao significado de palavras e frases.
– Mas eu nem comecei a falar…
– E nem precisa.
– Mas que falta de educação.
– Note que me desculpei antes. Fui até muito cortês, ao contrário de sua total descortesia com a nossa língua mãe.
– Oi?
– Meu amigo, se alguém fala para mim “na minha humilde opinião”, ja tem uma opinião natimorta. Uma opinião tão debilitada que não sobrevive ao sopro de uma brisa
– Mas o senhor é maluco.
– Discordo. Sou um realista e um abnegado na defesa de nosso idioma. E atesto incondicionalmente que as palavras opinião e humilde não podem ocupar a mesma frase, pelo simples fato de que toda e qualquer opinião carrega uma arrogância implícita. E um ato de arrogância jamais pode ser humilde. Humilde opinião, meu caro, é como falar subir pra baixo, entrar pra fora e outros desatinos.
– Quer dizer que o senhor insinua que eu sou arrogante.
– E aqui incorremos em outro erro de avaliação. O senhor eu não sei se é ou não é, porém, emitir uma opinião, principalmente sem ser pedida é, sim, um ato de arrogância em si. A opinião consiste em um conceito de alguém sobre alguma coisa, que, quando externada, carrega consigo a suposição de que o emissor entende daquilo que fala a ponto de tentar ensinar o seu ouvinte.
– Eu não sou arrogante, ouviu bem?
– Meu caro, todo mundo tem o direito de se atrever a dar uma opinião, o que também me inclui, pois ja dei muitas. O problema está em batizá-la como humilde. Esse desatino jamais cometi em minha vida.
– Chega! O senhor não tem o mínimo trato social.
– É a sua opinião?
– Sim é a minha opinião
– Bem, como neste caso a sua opinião não veio acompanhada pela palavra aquela, eu aceito de bom grado.