Deu entrada na emergência do Eintein as duas e meia da tarde de um domingo ensolarado. Trazido pela esposa, que dirigiu o carro dividindo-se entre olhar para a frente e para o banco do passageiro onde assistia o marido em condições preocupantes. Em posição fetal, ele tremia, suava frio, vez por outra balbuciava palavras desconexas. Trajava uma camiseta da seleção brasileira ainda do tempo do tetra. É louco pelo Dunga, fã de discutir na rua contra os detratores do antigo cabeça de rea e técnico. Ao chegar, foi levado as pressas para uma sala a fim de fazer os primeiros exames. A esposa ficou em uma sala de espera. Roendo as unhas, falava pelo celular com o irmão e a cunhada que ficaram em casa para tomar conta dos filhos, um de quatro e outro de dois e meio.
- O Lucas não para de perguntar o que aconteceu com o pai – diz a cunhada do outro lado da linha.
- Não sabemos ainda, Glorinha. Ele entrou para fazer exames, ja tem uns cinco minutos. Mas parecem horas.
- Calma, Dulce. Tudo vai ficar bem.
Depois de mais dez minutos o médico apareceu e foi falar com Dulce sobre o estado do marido.
- Boa tarde dona Dulce.
- Tudo bom com o Neto, doutor?
- Ele está sedado. Seu estado ja foi normalizado – tranquilizou o médico. – Eu gostaria de fazer algumas perguntas.
- Claro, doutor. Tudo o que o senhor quiser.
- Desculpe a minha indiscrição, mas a pergunta é necessária: o paciente está se recuperando do uso de alguma substância química?
- Como assim?- Espetanta-se – O senhor quer saber se ele era viciado em drogas?
- Por favor, dona Dulce, esta pergunta é necessária devido aos sintomas apresentados.
- Sintomas? Que sitomas?
- Ele apresenta um quadro agudo de abstinência.
Dulce sentiu como se não houvesse mais gravidade. Os sons, subitamente se tornaram abafados e sem sentido. Neto era viciado em drogas e ela não sabia. Como pode ele esconder algo tão grave. Como pode ela nunca ter percebido algo tão sério? Perguntas flutuavam embaralhadas por entre os sulcos de sua massa encefálica. Sentiu um súbito tremor. E a gravidade voltou. Era o médico que, delicadamente, trouxe-a de volta chacoalhando calmamente Dulce pelos ombros.
- Doutor, fora puxar um fuminho no tempo da faculdade, nunca soube dele fazer uso de drogas.
- Bom, de qualquer maneira ja pedi um exame de sangue para vermos qual a substância que ele fazia uso e assim tentarmos o tratamento mais adequado. Mas eu posso dizer uma coisa, dona Dulce. Se é uma crise de abstinência isso indica que ele esta tentando largar o vício. E isso é louvável.
O médico se retirou e a deixou para processar aquilo tudo. Aquela sensação de falta de gravidade ia e vinha. Tentava procurar em suas lembranças em que momentos o marido estaria doidão. Nunca notou nada de diferente em seu comportamento. Então, onde ele faria uso de drogas? Que tipo de efeito elas fariam em seu corpo? Ja era um viciado antes das crianças chegarem? E se a resposta for sim, de alguma maneira essa condição, essa tendência ao vício era algo que podia ser transmitido geneticamente? As crianças teriam tendência ao vício? Cada pergunta feita, cada possibilidade aberta era um soco no estômago de Dulce. Pegou o celular para falar com a cunhada ou com o irmão. Sentia-se solitária com aquela revelação, porém, a vergonha que aquilo causava era ainda maior. Não estava ainda preparada para dividir esse horror com a familia. Desistiu e sentiu-se ainda mais solitária. Eram só ela e aquela revelação humilhante.
Passado algum tempo, o doutor voltou. Em sua expressão, havia algo de insondável. Ela tentava interpretar cada vinco na sua testa, o ângulo da boca. Queria a resposta mesmo antes de ele chegar a sua frente e descarregar a sentença mórbida.
- E então doutor?
- Bem, dona Dulce, é um tanto estranho.
- Estranho? Como assim, estranho? O que o senhor quer dizer mais estranho do que já está?
- Os exames não mostraram nada de anormal.
- Oi?
- Isso mesmo, o paciente não mostra resquicio algum de substiancia estranha, a não ser o normal de quem bebe a sua cervejinha.
- Mas então, como ele pode apresentar algum sintoma de abstinência?
- Pois eu não disse que era estranho?
- Mas era mesmo o sangue dele? Quero dizer, não podem ter se enganado?
- Checamos e re-checamos. Ele nunca teve algo parecido antes?
- A senhora pode me descrever como tudo começou?
Dulce se põe a pensar. Os olhos tentam virar-se para dentro, como que querendo ver cada momento daquela manhã de domingo fotografado na mente. O irmão chegou com a cunhada e as crianças. O dia estava lindo. Neto ja começava a fazer o fogo na churrasqueira enquanto ela e as crianças estavam na piscina, dividindo petiscos e caipirinha. Não as crianças. Essas bebiam Coca-Cola. Neto e o Rubens, o irmão, conversando animadamente. Subitamente, o Neto coloca uma camisa da seleção brasileira. E foi nesse exato momento. A cena é bem clara. Ele começou a se encolher, como se tivesse levado uma facada no estômago. Começa a ter espasmos, repetindo palavras de ordem. “Dilma, vai pra Cuba e leva o PT”, “Somos todos Sergio Moro”, “Xô corrupção”, “Fora, Renan Canalha”. E assim foi até chegar no hospital.
- Diga-me uma coisa, dona Dulce. Ele costuma ir aos protestos na Paulista?
- Ele não, doutor. Todos nós. O povo tem que acordar, sabe?
- Mas minha preocupação agora é com o paciente – pondera o médico. – Como é o seu estado quando está para ir a um protesto de rua?
- Ah, da uma coisa na gente, sabe? Infla o peito. O Neto se sente invencível. Fala assertivamente, tem todas as respostas. Vou confessar uma coisa, doutor. Foi em noites em que durante o dia fomos aos protestos que tivemos os melhor sexo – diz baixando o tom de um jeito maroto.
- Hum!
Aquele “hum”saiu da boca do médico acompanhado de um meio sorriso. Vindo depois da confissão de alcova feita por Dulce, aquilo soou desrespeitoso. Notando o rubor no rosto de Dulce, o médico então explica a sua reação.
- Dona Dulce, como sabemos, ja estamos há mais de dois meses sem protestos. Depois que a Dilma saiu, guardara-se panelas, palavras de ordem, camisas vede e amarelas. Um ou outro protestinho tímido, mas nada com a grandeza. Nem os jornais falam mais no assunto, voltou tudo ao normal.
- É verdade.
- Bem, pela sua descrição o quadro de seu marido durante estes eventos – bem como da senhora também, diga-se – é o mesmo de quem faz uso de substiancias químicas: excitação, sensação de invencibilidade, uma distorção da realidade momentânea.
- O que o senhor quer dizer com isso?
- Que o seu marido, bem como a senhora, apresentam um quadro de dependência a protestos. A banalização desta atividade, o uso exagerado age como uma substância nociva ao funcionamento do corpo. Pessoas passam a esquecer o trabalho, a mente voltada apenas para o final de semana, para o próximo protesto. Dois meses sem palavras de ordem e carros de som tem se totrnado uma luta árdua para o seu marido.
- Mas porque eu ainda não tive uma crise.
- Tenho meu palpite, diante do que a senhora me contou: vestir a camisa da seleção brasileira foi o gatilho.
Já anoitecia quando Dulce dirigiu para casa levando um neto mais calmo e refeito da crise de abstinência. Não tocavam no assunto. Um silêncio total. A camisa da seleção amarfanhada no banco e trás. Neto olhou para ela com ar de despedida. Aquilo era um perigo. Iriam enterrar as duas camisas que tinham no quintal. E nunca mais tocar no assunto. A despeito do sexo maravilhoso daquelas noites que jamais iria se repetir.