Seu Rogério é um telemaníaco. A poltrona, que fica em fente a sua tv de 40 polegadas de tela plana ostenta a marca muito bem definida dos seus dois glúteos. E com tanta intimiade, gerada pela convivência, fica claro que a atitude de seu Rogério ja deixou de ser passiva tem muito tempo. Ele fala com a televisão. Responde os comentaristas nas mesas redondas, xinga repórteres dos jornais, bota o dedo na tela e diz barbaridades sobre os comerciais que julga repetitivos e idiotizados. Por falar em comerciais, numa quarta feira a noite antes da rodada do campeonato, seu Rogério acabou deparando com mais um dos inúmeros comerciais estrelados por Luciano Hulk.
- Puta que me pariu, mas é tu de novo? Cacete, tu vende tudo? Qualquer dia aparece vendendo a mãe.
Só que ele não contava que a televisão iria deixar a passividade de lado também.
- A mãe, não – responde o Luciano Hulk olhando fixo nos olhos do seu Rogério. – Respeito é bom e eu gosto. E a minha mãe muio mais,
- Jesus, Maria, José !
Seu Rogério faz um sinal da cruz para cada nome citado.
- Que história é essa?
- É isso que o senhor ouviu – responde Luciano. – Eu sou uma televisão de respeito, cansei de passar o dia ligada ouvindo seus impropérios. To usando a voz e a cara do Luciano Huck pra poder me expressar.
- Não, eu devo estar maluco. Ai, meu Deus!
- Nisso você tem toda razão. Aliás, não tem, não. Você não está maluco, você é maluco.
- Pera lá, não é porque tu é a minha televisão falando com a cara e a voz do Luciano Huck que tem que me ofender.
- Ué, você quem começou com isso de maluco. E nem vou falar quem é que costuma ofender Deus e todo mundo aqui nessa sala. Ah, e de vai usar o tu, então é “tu és”.
- Mas era s´ø o que me faltava. Uma tlevisão professora de português. Olha aqui, eu sou eu e tu é ru. E quer saber? É isso mesmo, não aguento mais te ver em tudo o que é comercial. Eu tenho o direito de me exressar em minha própria casa.
- Direito a que me também arrogo. O seu problema não é com a liberdade de expressão, é com o recalque.
- Olha…
- Recalque sim. Vai ouvir uma verdades. Recalque porque o Luciano Huk fatura uma nota preta vendendo como garoto propaganda.
- E ainda fala na terceira pessoa.
- Já falei que não sou o Luciano Huk, sou a sua televisão falando através da imagem e da voz dele. – Luciano olha para o lado como que falando com alguém fora da ciamera e completa – Esse aí ja está caducando.
- É o seguinte, como minha televisão tu não tem que falar nada, tem é que ficar aí passando os programas para o meu bel prazer. E ponto.
- Eu to é passando mal de tanto que você reclama de mim. Olha pa minha tela. Ja viu o tanto de perdigoto tem aqui? E quando você sai pra ir ao banheiro, eu sou obrigada a ficar contemplando a marca dessa sua bundona no assento da poltrona. Porque não troca essa porcaria de poltrona? Toda ensabada.
- Mas era só o que me faltava. Tu me respeita, ouviu bem? Você é minha.
- Só quando você resolver me respeitar, parar de me ofender. O que foi aquela mesa redonda ontem? Eu contei quarente e três “mas é um filho da puta mesmo” que você disse. E olha que to me fixando só em uma expressão chula. Aliás, por que você fala “vai tomar na bunda em vez de vai tomar no cu”?
- Eu falo o que eu quiser pra minha televisão. E quer saber? Vai tomar na bunda você.
- Eu não tenho bunda. Só uma tela plana. Caguei.
- Se não tem bunda não pode cagar.
- Meu Deus.
- O que ?
- Já to ficando igual a você. É essa maldita convivência.
- Convivência é uma boa definição, né, seu Luciano. É tanto comercial que tu me aparece que já é de casa.
- Mas caralho, ja falei que eu não sou o Luciano Huk sou…
- …a minha televisão falando com a imagem e a voz do Luciano Huk. Sei.
- Se sabe, porque repete?
- Pra te incomodar.
- Olha, tomara que o seu time perca hoje. Aliás, tomara que eu tenha um problema em alguma placa e você nem consiga assistir o jogo.
Ao falar isso, a televisão tem uma idéia. Da pra ver claramente pela expessão iluminada no rosto do Luciano Huk.
- Olha só a ideia aí…e se eu der defeito?
- Ah não, isso não.
- Eu posso apagar, queimar alguma coisa. Da uma dorzinha, mas nada é pior do que aguentar ver você reclamando 90 minutos do comentarista e do narrador. É o seguinte: você vai ter que se segurar.
- O que? Tu ta me impondo condições?
- Se começar com aquela ladainha falando dos caras da tv eu pifo.
- Mas aí…
- Não tem “mas aí…”. Pifo. Escureço. Desmaio.
Os vizinhos do seu Rogério ficaram abismados naquela noite de jogo. Foram os noventa minutos e ainda todos os programas de mesa redonda depois do jogo sem ouvir um impropério que fosse vindo do apartamento dele. Teve gente que pensou que ele tinha até batido as botas. Mas niguém foi até lá pra conferir.