Sentia-se leve. De uma leveza difícil de explicar. Ouvia os sons da sala de cirurgia como que se afastando. O silvo perene, em linha reta, do aparelho que marca as batidas do coração indicavam apenas uma coisa. “Alguém morreu.” Passados alguns instantes, deu-se conta. “Putz, esse alguém sou eu”. Isso era tão óbvio quanto o teto, que se aproximava cada ves mais dele, o que, na verdade, era o inverso. Olhou para baixo e viu-se deitado na mesa de operações, cercado por médicos e enfermeiras, todos apressados tentando o que ele mesmo ja sabia que não seria mais possível.
Ao atravessar o teto, e isso dizia a ele apenas uma coisa: ia passar por vários andares e testemunhar momentos da vida de algumas pessoas, mesmo que de maneira fugaz, em cada quarto pelo qual passasse. No quarto andar, um filho pedia perdão a um pai que estava deitado na cama. Não deu tempo de saber o que estava acontecendo pois passou rápido para o andar de cima. Era o andar da maternidade. Notou que este tem uma luz diferente. Era claro e brilhante. E ele percebeu que conseguia notar mudanças na iluminação de acordo com o humor das pessoas vivas ocupavam os ambientes. No quarto por onde passou, uma mamãe amamentava o seu recém nascido. E assim foi, até que chegou ao topo do prédio e viu uma cena que jamais imaginaria ver naquele estado: uma enfermeira e um residente em cena de sexo ardente e urgente sob a caixa d’água. Em volta deles, uma luz piscava como naquelas “festas modernas que hoje em dia, que chamam de balada.”
Na verdade, ele jamais imaginaria ver cena alguma depois que morresse. Tinha a convicção dos materialistas de que quando o seu corpo parasse de funcionar viria o nada. E o nada é, bem o nada. Não é escuro, nem claro. O nada, em verdade, não era. E enquanto passava por algumas nuvens cumulonimbus lembrou-se do Carvalho. O Carvalho era o seu amigo inseparável. Acreditava piamente da vida após a morte. “A morte é a gente tirando a roupa para tomar um banho e para depois vestir uma novinha para vivermos um outro momento”, dizia. Ele ria muito daquelas metáforas do Carvalho. Um espírita tão convicto quanto ele, só que a cento e oitenta graus de distância.
Já acima da estratosfera e ainda indo para algum lugar, reparou em como o espaço era de uma imensidão espantosa. Cravejados de pontos de luz e nuances de cores. Sempre achou que naqueles filmes de ficção científica havia uma certa romantização das imagens espaciais. Mas, ao deparar com a imagem real, achou aquelas imagens criadas pelo cinema de uma timidez constrangedora. De repente, deu-se conta que ali já não deveria haver mais oxigênio e que, portanto, não estava respirando. Mas que sensação estranha. Respirou a sua vida toda, fora os momentos em que trancou a respiração quando estava embaixo d’água. E agora, não sabe explicar com palavras a sensação de não respirar e estar vivo. Quer dizer, morto vivo. Quer dizer, ele não tinha como definir seu estado.
Algo estranho chamou a sua atenção. Algo que não estava ali antes, mas que agora estava. Era uma cidade. Ou não. Havia prédios. Estranhos, não conseguia definir de que material eram feitos. Muitas árvores. E um bando de pessoas, paradas, com um sorriso fixo no rosto. Como que esperando alguém chegar. Percebeu que ele tinha um corpo. Era igual ao dele, só que quando tinha 27 anos. E se deu conta de que esse foi o melhor ano da sua vida, segundo o seu próprio julgamento. Também olhou para o lado e viu que tinha a companhia de outras pessoas, de varios sexos e idades e nacionalidades. Porque podia ouvir tudo o que pensavam em diversos idiomas e, o que o fez rir, era capaz de entender tudo. “Ora, então aquele bando de pessoas paradas não parecem esperar alguém. Estão la esperando mesmo. Todos nós que estamos chegando”
E foi nesse momento que lembrou da aposta que fez numa de suas discussões mais acaloradas com o Carvalho. O amigo encerrou o assunto com um desafio. “Vamos apostar”, disse ele. Se eu estiver certo sobre a vida depois da morte, você vai deixar de ser turrão e vai fazer uma declaração pública dizendo o quão teimoso você foi”. Notou que o Carvalho estava no meio daqueles que esperavam. Ele acenava para ele com aquele sorriso engessado e pacífico no rosto. Mas não tinha dúvida. “O Carvalho vai me cobrar aquela declaração pública.” . Então ele abriu um sorriso. Pelo menos ele acha que abriu. Afinal, ia cumprir com prazer o trato. Mesmo perdendo a aposta, ele ganhou algo que era muito inesperado. E, convenhamos que, estar errado em um assunto desta magnitude, é muito , mas muito melhor do que estar certo.