Eram sete e dezesseis da tarde quando abriu a porta de casa chegando do trabalho. Digo da tarde, porque ainda havia bastante claridade de um dia quente e modorrento de verão, que só com o ar condicionado do escritório e do carro poderia ser vivido nas mínimas condições que um ser humano requer para produzir alguma coisa, nem que fosse um pensamento mínimo. Sim, pensar pode fazer alguém suar num calor daqueles. Assim que entrou, procedeu ao seu ritual diário de final de dia: descalçou os sapatos, jogou a pasta em alguma poltrona da sala, foi até a cozinha e encheu um copo com água, bebendo tudo de um gole. Posteriormente, pegou um pouco de gelo, colocou em um copo baixo, voltou para a sala derramou um pouco de uísque. Adorava ver o liquido dourado escuro se imiscuindo ao gelo enquanto caía. Atirou-se em uma poltrona e la ficou sem pensar em nada específico, apenas ouvindo os estados dos cubos de gelo.
De repente, deu-se conta de que a casa estava numa paz e num silêncio que chegavam a incomodar. “Onde está Marta e as crianças?”, pensou. Levantou-se e, numa pequena excursão pelos cômodos notou que estavam todos em casa . Marta, a esposa que chegara um pouco antes dele, acabara de sair do banho e escolhia algo confortável para vestir. Os filhos de 10 e 12 anos e a filha de 14 estavam em seus quartos. E foi isso que o incomodou. Uma casa com tantas crianças (para um pai o termo criança não escolhe idade) estar assim, silenciosa, era muito estranho, quase um disparate. E que aquele silêncio fosse algo comum – pois, ao puxar pela memória, percebeu que a casa é sempre assim – acionou um alerta.
Na casa de seus pais, quando tinha a idade aproximada da que os filhos têm hoje, paz era algo impossível. Havia um alarido constante, um mover das moléculas do ar acionadas por ondas de choque provocadas pela inquietude dele e dos irmãos. Uma briga aqui, uma discussão acolá, espocando sem aviso. Um irmão tomava partido de outro mas, dependendo da razão da discórdia, poderia se bandear para o outro lado facilmente. Não foram raras as vezes em que os três ouviram a mãe repetir que gostaria muito de tirar férias e ir para uma olha deserta cheia de cocos e outras iguarias que lhe seriam servidas a vontade e quando bem quisesse. O único som que gostaria de ouvir, seria o das ondas. Crianças seriam proibidas. Ou então ter que lidar com a perda de paciência com voz de trovão do pai, que os fazia escafeder cada um para um canto como ratos que de repente são surpreendidos por um gato enorme, gordo e esfomeado.
Com três pré adolescentes em casa, que brigavam e discutiam por qualquer motivo, desde pegar o maior bife da travessa, até um lugar na janela na hora de sair com o carro a casa estava sempre em pé de guerra. Um oriente médio particular onde pequenos conflitos eram deflagrados por disputa de territórios como, por exemplo, quem ficava na cama de cima do beliche ou o canal em que a televisão deveria estar neste ou naquele momento. Os pais nunca sabiam quando e onde uma bomba ia explodir dentro de casa.
Pois ele e Marta, hoje, viviam naquela ilha de paz que a mãe sempre sonhou. E que saber? Estava incomodado. Porque aquelas batalhas, aqueles desejos de fuga da mãe, a voz de trovão do pai foi o que o ensinou a perder, a negociar, a respeitar espaços. Aquela algazarra constante é que tornava uma casa de alvenaria, paredes e cômodos em um verdadeiro lar. Era o que aquecia as relações. Eram guerras sem ódio, que fatalmente acabavam em festas e sorrisos. Era o amor sincero sendo regado. Na casa dele, hoje, não existiam mais aquelas guerras folclóricas. O lugar era um exemplo de silêncio e de paz um tanto falsificados, porque sem alma, sem lustro. Uma paz ascética de quem tem aquela mania de limpeza. Que filhos comportados, mansos, respeitosos eles tinham.
Como era sexta feira, ele decidiu que a família ia sair junta para jantar. De preferência, num lugar bem barulhento. Queria sentir aquele aconchego que só a balbúrdia familiar é capaz de nos dar. Iam tagarelar, ia haver briga pra pegar o maior pedaço da pizza. Ia ser como nos velhos e bons tempos, como uma velha e boa família. Entraram no carro. Marta ao seu lado e as crianças atrás. Antes de dar a partida, algo o incomodava. Era o silêncio. De novo. Ninguém brigando para pegar o lugar na janela. Ouvia-se apenas o silêncio frio, tão frio que nem era preciso acionar o ar condicionado do carro. Olhou para trás e percebeu o porquê. Cada filho tinha a sua própria janela na mão. Digitando freneticamente, podiam olhar para onde quisessem. Menos para quem estava mais próximo.