O Sobrado da Marcílio Dias

           Esse era, ou melhor, ainda é, o nome da rua em que morei na primeira década da minha vida. Ela liga o bairro da Azenha, onde, na época, ficava a casa do glorioso Grêmio Futebol Porto Alegrense, e a Avenida Praia de Belas. Lembro que na Marcilio, há uns, sei la 300 metros ou mais da nossa casa, ficava a fábrica da Pepsi Cola, que muita gente, incluindo o escritor aqui, costumava chamar de “Pépis”. Era um sobrado de dois andares, geminado a outro igual do lado esquerdo. Como todo sobrado, a porta ja dava direto na calçada. Na frente da casa, a beira do meio fio, ficava um canteiro de coroas de cristo. Para mim eram enormes naquela época, mas devia ser algo de sois metros por um. Uma vez levei um tombo próximo ao tal canteiro e machuquei o dedão direito nos espinhos. Até hoje tenho uma cicatriz em forma de V com a perna do lado direito maior e mais inclinada do que a outra. Como aquele sinal de confere que colocamos com a caneta ao lado do item de uma lista qualquer.

           Tenho muitas lembranças daquele lugar que resolveram aparecer agora. Tinha um vizinho meu, de descendência alemã, o Guido. Ele morava do outro lado do sobrado que era igual ao nosso. Ele ia brincar na rua as vezes com a gente, as vezes sabe-se la com quem e, quando o final da tarde chegava, a mãe dele costumava chamá-lo de volta para tomar banho e jantar co uma assobio característico. Onde quer que a gente estivesse brincando, o assobio nos alcançava. O Guido baixava a cabeça, desanimado por ter que nos abandonar, dirigia-se obediente para casa. Ou, se não estivesse com a gente, logo concluíamos que em algum lugar um Guido cabisbaixo dirigia-se para a casa como um condenado indo para o patíbulo.

          Outra lembrança daquela casa foi a minha bicicleta Caloi. Era enorme, pelo menos pra mim,naquela época, um garoto com idade ainda de um solitário dígito. Era manhã de Natal. Lembro-me de acordar e, antes de abrir os olhos, sentir o aroma de algo diferente no quarto. Aroma de coisa nova. Novíssima. Intocada. Flamante. Assim que minhas pálpebras se separaram, virei para o lado direito e la estava ela. Ao lado da minha cama. Imponente. Uma frondosa Caloi de duas rodas reluzindo. Eu cheguei a ouvir trombetas assim que aquela visão estupenda fez-se realidade. Meu primeiro veículo. Claro, na época, não pensava em uma bicicleta como tal. Era apenas diversão. Aliás, lembrei agora. O tal v no no meu dedo foi adquirido graças a um tombo sofrido enquanto pilotava naquela bicicleta.

          Minha vó, mãe do meu pai, morava com a gente. Dona Ana, portuguesa que vestia cinquenta tons de cinza muito antes dessa expressão significar algo que lembre sedução. Dona Ana era uma católica fervorosa. Católica Apostólica Romana. Rezava o terço toda noite antes de se recolher. Cada conta uma Ave Maria ou um Pai Nosso, não lembro com precisão. Lembro que era em latim. O que era curioso. Minha vó era analfabeta. Mas na hora da crença, era bilingue. Aliás, falando em língua, a dela era afiada. Não havia empregada que se salvasse de suas críticas mordazes. Uma comia demais, outra era preguiçosa. Meus ouvidos de garoto eram repositório de suas críticas ferrenhas. Aliás, empregadas eram algo estranho. As vezes a gente tinha, as vezes não. Parece que nossa condição financeira dançava tal qua um pêndulo.

          Outra lembrança que tenho é da escada que levava ao andar de cima, onde ficavam os quartos. No dia 20 de julho de 1969, dois dias depois do meu aniversário, lembro que meus pais ja tinham me mandado para a cama. Aliás, aqui cabe um parêntese. O horário de dormir foi minha primeira relação com a publicidade. La pelas oito, nove da noite passava um comercial dos cobertores Parahyra. Uma animação mostrava pequenos garoto indo para cama aos bocejos enquanto ouvia-se uma musica cuja letra era: ’Ta no hora de dormir, não espere mamãe mandar. Um bom sono pra você e um alegre despertar”. Aquele era o momento em que eu devia subir e ir para o meu quarto. Eu ia aos prantos, tocado pela melancolia da música e contrariado também. Mas volte à noite de 20 de julho. Foi o dia em que o homem ia pousar e andar pela primeira vez na lua. Nem naquela noite me deram moleza. Tive que subir antes do grande acontecimento. Na cama, não conseguia pregar os olhos. Levantei e, sorrateiramente, dirigi-me até a escada que me levava para a sala no andar de baixo. Sentei em um degrau que me dava uma visão privilegiada da televisão. Meus pais não podiam me ver ali, mas eu podia ver a tv. Assisti aquele momento inesquecível em uma Philco metida a moderna.

          Podia relatar varias coisas. Meu vizinho do sobrado ao lado, o Paulinho. O dia em que eu e peguei sarampo e todos os outros meus dois irmãos pegaram de mim e o nosso quarto acabou se transformando em um hospital de campanha. Meu pai treinando minhas habilidades de goleiro chutando a bola contra mim todas as tardes. A “raspinha”, que era a massa crua que sobrava do bolo que a minha mãe assava todos sábados e que era toda minha até o dia em que o meu irmão que veio depois de mim começou a ter consciência de que ele também podia ter e aí passamos a ter ferrenhas disputas pelo precioso pote da batedeira. O abacateiro que ficava em nosso pátio, nos fundos da casa, e que rendeu vários doces de abacate.

          O interessante é que tudo isso acabou acordando dentro de minha mente graças a tal das novas tecnologias. Pois é. Assistir Alemanha X Itália na Copa de 70 no pelo Youtube me trouxe todas estas lembranças. A bola era preta e branca, as chuteiras eram pretas e as camisas não levavam logos dos patrocinadores, o que as deixava simplesmente lindas. Com direito a aromas, sons e tudo mais. Gavetas e mais gavetas que andavam fechadas na minha de repente abriram-se. Copa de 70. Pouco depois dela, mudamo-nos para a zona sul de Porto Alegre. E lá começamos uma outra vida. Mas aí já são outras lembranças.


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