Discurso para um falecido.

* Traduzido para o português

Senhoras. Senhores. Amigos deste grande ator e homem ainda muito maior que nos deixa em circunstâncias tão trágicas,  muito bom dia, dentro das possibilidades. Ron Woodward e  eu somos amigos desde a mis tenra infância. Já naqueles tempos idos, sua queda pela arte cênica ja era bem acentuada. Lembro-me, como se fosse hoje, que entre nossas brincadeiras,  a que ele mais gostava, a que estampava a felicidade no seu bochechudo rosto era quando fazíamos de conta que estávamos no teatro. Fazia de tudo. O script, comandava a montagem do palco contando com a nossa ajuda para que cada um trouxesse de casa um objeto de cena para fazer parte do cenário, o que era motivo de alarde entre nossas mães, já que muito vasos de louça que iam inteiros voltavam aos cacos. Ron, como se sabe, passou a infância em uma pequena cidade do Colorado. Havia, na época, apenas um cinema que ficava na sua avenida principal e que ele frequentava avidamente, mesmo sem dinheiro para pagar a entrada e com idade insuficiente para alcançar os padrões rígidos da censura. Engenhoso que era, conseguiu construir a muito custo uma passagem secreta pelos fundos do prédio e podia ver o filme por trás da tela. O que o fez ter uma visão inversa do cinema, já que para ele o esquerdo era o direito e o direito, o esquerdo. Participou de todas as peças infantis da escola. Era tão bom no que fazia que, certa feita, um professor de teatro falou, após a exibição de uma peça em que o nosso querido Ron vestiu a fantasia de macieira, que o fez com tanta diligência e talento que ao final da peça era possível ver pequenos brotos do fruto pendurados em seus galhos falsos. Um chiste, obviamente. Mas um elogio que impulsionou o nosso jovem astro.

Ron Wodward era um obsessivo pela arte cênica. Trabalhou duro para poder pagar do próprio bolso as aulas de técnica teatral, dança, canto. Queria ser um ator completo. E até mesmo o emprego que conseguiu o mantinha focado no seu objetivo, já que trabalhava de projetista em um cinema de Denver, ja adolescente. Assistiu a  inúmeros filmes, inúmeras vezes.  Acompanhou atores excepcionais tantas vezes em sequência que podia indicar, de cabeça, em qual minuto da película aconteceu esta ou aquela fala. Estudou cada movimento, cada olhar de De Niro à Paccino, de Brando a Gable,  de Hepburn a Streep.  Sim, observava as mulheres também, porque não queria ficar limitado a personagens só do seu próprio sexo. “Um ator que não se desafia é apenas um imitador barato”. Quem não lembra de sua máxima?

Ron jamais parou de aperfeiçoar sua arte. Uma busca pela perfeição que seis Oscars e mais uma montanha de prêmios em vários festivais em diversos países podem comprovar. Um ator consagrado, embora nunca se apoiasse em tal consagração. Queria  tirar mais da sua arte. Via e revia seus filmes apontando sempre falhas que, pare ele, eram grotescas. Imperdoáveis. Uma vez disse-me, “Billy, poderei ganhar estatuetas, fama, fortuna mas, o verdadeiro prêmio, a verdadeira láurea, o pináculo da minha carreira será o dia que eu for confundido com o meu próprio personagem na por alguém na rua.”

Pois quis o destino que o dia que ele aguardava com tanta ansiedade tenha sido o seu último. Após a sua atuação mais gloriosa no cinema, como o implacável, frio e amoral agente Flint Bittencourt, do MI6, o reconhecimento tão esperado chegou juntamente com as seis balas que crivaram seu corpo em um café na rua 46. A assassina, senhora Julietta Preston,  não pode ser taxada de louca. Ela apenas foi, como todos nós, arrebatada por uma atuação magistral, que a fez confundir criador com criatura, desejo supremo do nosso querido Ron que agora deve estar sorrindo de alegria em algum lugar do grande firmamento. Um verdadeiro astro que agora está no lugar que é seu por direito.


Leave a comment