Gostava de beber. Não chegava a ser um alcoólatra. Um caso para o AA. Longe disso. Mas dizer que bebia apenas socialmente seria uma mentira deslavada e desavergonhada. Gostava de vinho, bebida que, de longe, era a que mais consumia na comparação o vasto espectro acoólico do seu bar particular. Mas, embora o vinho fosse o vinho ser a sua bebida, digamos, do dia a dia, era outra que ele co siderava especial. E por isso mesmo, não lançava mão dela frequentemente. O pináculo entre os espíritos era o Dry Martini.
Não era afeito ao purismo. Tal qual James Bond, preferia a bebida “shaken, not sitrred”. Mas exigia um gin de qualidade e um Nolly Prat, o vermute oficial dos melhores Dry Martinis . Os dois eram integrantes da sua coleção. Destacavam-se toda a vez que olhava para aquelas garrafas agrupadas no seu bar. Como se spotlights imaginários iluminassem as duas garrafas. Notou, ao sair para uma viagem no final de ano, com a mulher, que havia quantidade de gin suficiente para preparar apenas um Dry Martini. Pensou em comprar uma nova, mas acabou deixando para a volta. Recomendou à filha que cuidasse da casa e deixasse tudo em ordem depois da festa de ano novo que a menina daria para os amigos da faculdade.
Voltou da viagem com a decisão de não beber por um mês a partir da primeira segunda feita após a sua chegada, o que seria dali a cinco dias. Não era afeito a este tipo de resolução de ano novo, nem havia sofrido alguma ameaça devido ao consumo de bebidas. Ou seja, não sofrera cagaço algum. Ele apenas decidiu que ia dar um tempo para aquele costume. Um tempo mesmo. Nada daquela enganação de “só beber nos finais de semana”. Simplesmente ia deixar o costume de lado por trinta dias porque assim o queria. Ou talvez, para provar que ele simplesmente podia.
Um dia antes da data marcada para a sua interrupção, resolveu despedir-se a caráter. Ora, uma ocasião especial merecia uma bebida especial. O rei dos drinks. Lembrou-se daquele bom gin, cuja garrafa tinha apenas a quantidade exata para um Dry Martini. Seria perfeito. Iria esvaziar a garrafa e nem precisaria comprar outra durante o mês de recesso. Sorveria com prazer, talvez, com um prazer jamais experimentado antes. Cada gole iria descer como uma celebração. Ja sentia o aroma no momento da mistura. O sabor deslizando em sua língua. Pôs a taça para gelar. Esperou o momento. Não existe nada como a expectativa do por vir prazeiroso. Não dizem que o melhor da viagem é a antecipação? Pois é a mais pura verdade.
Meia hora depois a espera havia acabado. Ele tira a taça do compartimento gelado e a vê embaçar. “Que maravilha de visão!”, pensa já com a boca estalando. Dirige-se, então, para o seu carrinho de bebidas. De longe já vislumbra o vermute. Porém, há algo que não está no lugar. Há alguma coisa de estranha na ordenação daquelas garrafas. Um fio gélido percorre a sua espinha. Mais gélido do que a temperatura da taça. Ele não vê o gin. Ele olha. Percorre garrafa por garrafa, mas o gin insiste em não estar lá. Que alma cruel teria roubado o seu último Dry Martini? Teria sido uma ilusão? Um desejo tão ardente que sua mente pregou-lhe uma peça imaginando que ainda havia uma garrafa de gin com um resto remanescente? Não, não. A garrafa estava lá, solene, antes dele viajar para os festejos de final de ano com a esposa.
Subitamente, sente no seu campo de visão um movimento estranho. Alguma coisa chama a sua atenção. Algo está agitado. O ar. As moléculas. Uma agitação quântica. Ele vira a cabeça e nota a filha a lhe olhar de soslaio. Não um soslaio qualquer. O soslaio dos culpados. Um soslaio, soslaio. Puro. Cristalino. Inapelável.
– Cadê o gin que estava aqui ?– Pergunta com a voz quase sumindo.
– Era só um restinho pai.
– O que você quer dizer com isso? Você bebeu?
– Não, o Dorneles. Na festa de final de ano.
Não se decepcionou exatamente porque a filha, ja maior de idade é bom que se frise, tirou-lhe o prazer daquele derradeiro Dry. Lamentou o fato que algum colega de faculdade qualquer, sem o mínimo refino, ter virado a bebida sem ao menos entender toda a solenidade que ela merecia. Aliás, era capaz de ele ter misturado com Coca-Cola. Um sacrilégio dos mais hediondos.