Pedrinho cresceu. Homem feito, ja ganha o seu sustento e o da família e lembra com saudades dos tempos em que passava no sítio da avó, pés descalço, vivendo todas as aventuras possíveis de caber nos seus devaneios infantis. Pedrinho, hoje Pedro Leonel de Lima, administrador de empresas, casado com Liana de Lima com quem tem duas filhas, Luana de 4 anos e Janine de 8, está em uma reunião de orçamento trimestral na empresa em que trabalha no interior de São Paulo, explicando as metas estabelecidas para o último trimestre do ano quando tem sua explanação bruscamente interrompida por duas figuras soturnas e um tanto brutas o falar, que irrompem a sala sem aviso.
– Estamos procurando o senhor Pedro de Lima
Todos na mesa apontam para Pedro, em pé, com a projeção do Power Point a lhe colorir o rosto com gráficos de pizza. A mulher que acompanha o homem autoritário toma a frente e mostra uma identificação que Pedro mal consegue ler.
– Meu nome é Karen Regina e este é Luiz Gustavo. Somos da ONG Dona Palmira, uma santa que defendia os animais na nossa cidade natal e berço de nossa ONG. Estamos aqui para garantir que o senhor não vai sair do país até que a justiça seja feita.
– Desculpe – responde Pedro completamente aturdido – mas eu não estou entendendo patavina. Eu não estou pretendendo sair do país.
– Mas vai pretender depois de saber do que o senhor está sendo acusado. O IBAMA e a polícia ja foram notificados pela nossa ONG.
– Mas notificados do que?
– Pensa que os seus crimes quando era conhecido pela alcunha de Pedrinho foram esquecidos?
– Como?
A tal Karen, da ONG, coloca-lhe um livro na frente do rosto de maneira agressiva. Coloca tão perto que Pedro precisa recuar para acertar o foco e poder ler o titulo.
– As Caçadas de Pedrinho? Meu Deus! Mas isso faz muito tempo, eu era uma criança.
– Isso, de forma alguma, atenua os seus crimes. Todas as suas atrocidades contra as pobres criaturas que viviam no sítio de sua avó, dona Benta, estão aqui fartamente documentadas.
– Suas armadilhas engenhosas e vis – o homem continuou de onde ela parou, como se fosse um jogral – que não davam chance aos pobres pássaros, alguns até ameaçados de extinção, tudo neste livro, é mal exemplo para as nossas crianças.
– Assassino! – Karen completa. – Assassino vil e desalmado!
– Mas isso foi há muito tempo. Aliás, eu diria que foi em outros tempos.
– Este crime de lesa natureza não prescreve, senhor Pedro.
– Mas eu era apenas uma criança. Não tinha esta consciência. Aliás, nem existia uma consciência ecológica na época. Isso é completamente fora de propósito.
– Não. Fora de propósito é aprisionar pássaros, deixar impiedosamente abandonados a míngua os filhotes de biquinho aberto esperando a minhoca que jamais chegará.
– Eu tenho a solução.
A voz veio do fundo da mesa de reuniões. Todos viraram-se para Rogério Moreira, o advogado da empresa. Ele, calmamente e com voz calculada continuou.
– Sendo vocês uma ONG, acredito que precisam de fundos.
Os dois ativistas se olharam e depois retornaram a olhar para o advogado, como quem diz: “continue”. Ele continuou.
– Bom, se a nossa empresa fizer uma contribuição acredito que a gente possa resolver essa questão, não é mesmo?
Ele fala ao mesmo tempo que tira o talão de cheques do bolso e vai preenchendo uma das folhas com traços firmes e rápidos. Karen estica o pescoço e leva um susto ao ver a quanta. Luiz Gustavo segura o riso. E dá um último aviso enquanto recebe o polpudo cheque das mãos do advogado.
– Eu deixaria o talão de cheques sobre a mesa. Soube que um pessoal da integração racial vem atrás dele também. Estão um tanto incomodados com o jeito que a tia Anastácia era tratada.