Devaneios ao Meio Dia

Levanta de sua mesa quando o relógio de computador marca oito minutos depois do meio dia. Coloca o seu crachá no bolso da camisa, como quase todas as mais de mil pessoas que trabalham no prédio comercial. Espera um bom tempo pelo elevador, que já chega com densidade populacional de pequeno país asiático. Ele tem que escolher rapidamente entre esperar uma imensidão de minutos pelo próximo ou encarar o aperto. Um ronco no seu estômago indica a segunda opção. Ele entra e a porta se fecha, tornando o ar pesado. Tenta encontra distração olhando para as notícias que aparecem na tela de uma televisão muda que fica no canto superior do veículo. A cada andar que o elevador para ele perde preciosos centímetros quadrados de área. Duas amigas entram lá pelo nono andar, fazendo todos se apertarem e roçarem ainda mais. As duas eram bem cheinhas e falavam sem parar. Ele espremido e ouvindo conversas sobre a sobrinha de uma delas que não para de comer doces. Uma certa claustrofobia, agravada pela conversa incessante das duas, tomava conta do seu corpo e da sua mente. Ele desvia a sua atenção do aparelho de televisão e passa a olhar, com desprezo, para as duas que não param de matraquear. Uma tem cabelos loiros falsos, nota-se pelas raízes já bem pretas. A outra tem língua presa. Começa a ser dominado por um ódio descomunal pelas duas. Entrega-se à imaginação. Nela, ele se vê em um galpão enorme, antigo e abandonado. As duas gordotas amarradas em cadeiras e devidamente amordaçadas. Os olhos arregalados. Ele, dança em volta das duas, como um índio completamente desvairado. Em uma mão, um galão contendo gasolina “comum e adulterada que eu não ia gastar dinheiro nessas duas”, pensou. Na outra, um isqueiro Zippo. Quando mais as duas matraqueiam dentro do elevador apertado, mais ele dança em volta delas, amarradas e indefesas dentro da sua imaginação. Sem parar de dançar, ele joga o conteúdo do galão sobre as duas. Elas choram, tentam se livrar, antecipando o seu destino horroroso. Ele joga longe o galão e acende o isqueiro. Passa o isqueiro na frente dos olhos das duas, pra lá e pra cá. A chama inclinando-se para um lado e para o outro. Elas tentam gritar. A mordaça aperta ainda mais. No momento em que vai jogar o isqueiro aceso e se deliciar vendo aquelas gorduras borbulhando devido ao calor das chamas, elas são salvas pela porta do elevador, que se abre, livrando do confinamento todos os seus ocupantes. O contingente sai pela porta aberta como uma espinha que se rompe e libera o seu conteúdo pastoso e amarelado na atmosfera. As duas já vão longe à tagarelar sem saber do risco que correram dentro da imaginação dele, que, em contato com mais espaço, acalma-se e as deixa no galpão imaginário, encharcadas de gasolina. Porém, vivas.

-x-

Ele chega ao restaurante. O self service de sempre, que cobra vinte e dois reais por pessoa e serve uma comida honesta acompanhada de sucos que, como a comida, estão liberadas dentro desta tarifa. Nota que todas as mesas estão ocpuadas. Ele precisa esperar. Passa a observar as pessoas com atenção, esforçando-se para achar uma mesa em que seu ocupantes estivessem no estágio mais avançado do almoço. Tinham apenas saladas nos pratos? Então estava no início e ia levar tempo até desocupar. Se ja estivessem com arroz, feijão, o croquete do dia (terça era dia de croquete natural), aí dependia da quantidade. Prato cheio, ainda ia demorar pra sair. Meio cheio, menos tempo. E assim por diante. Ele procurava por alguém que estivesse comendo a sobremesa. Ou ja estivesse no café. E acabou encontrando. Uma mesa perfeita, de dois lugares. Dois colegas, ele com crachá enfiado no bolso da camisa e ela com cabelo loiro falso, que dava pra notar pela raiz preta a mostra. Lembrou da loira falsa do elevador. Ele passa a observar os dois. Seu estômago é um vazio dolorido. Na mesa, o homem come uma torta de maçã acompanhada de uma bola de sorvete – sim, também incluso no preço. Sua colega, uma salada de frutas. O problema é que eles não estão apenas comendo. Estão apreciando as iguarias e conversando ao mesmo tempo. Tagarelam sobre algo que não consegue discernir. Ela pega pedaço de fruta por pedaço de fruta e leva horas mastigando cada um deles. As vezes mantém um pedaço espetado no garfo, gesticulando com ele tal qual um maestro aloprado com sua batuta, enquanto explica algo para ele, que, por sua vez, junta um pedaço ínfimo da torta com outro pedaço ínfimo de sorvete em uma colher e leva com vagar à boca. Entre uma mastigada e outra, muito papo. A fome a apertar-lhe o estômago feito um garrote. De repente, ele se vê no mesmo galpão abandonado. As gordotas tagarelas do elevador são substituídas pelo tal casal, só que, neste devaneio, eles estão pendurados de ponta cabeça por uma corrente pesa ao teto. Ele, dança a volta deles com uma adaga afiada na mão. Vez por outra, ele passa a lâmina de leve pelas barrigas dele e dela. Eles sentem o fio gelado da lâmina e tentam gritar, mas, estão amordaçados. A intensão é clara. Ele vai cortar a barriga dos dois até a salada de frutas, a torta de maçã e o sorvete saírem pelas fendas como pastas disformes em sem cor definida. Quem manda deixa-lo à míngua, esperando em pé, como a fome a açoitar-lhe o estômago? Ele levanta a lâmina para o primeiro corte. Uma fio de sol que entra por uma nesga do madeirame carcomido do velho galpão faz o fio da adaga cintilar, prenunciando a dor lancinante que está por provocar. Ele encara os dois, que têm os olhos desesperados, e começa a cantar “uni, duni, tê” com a ponta da faca dançando em direção de um e de outro. Mas, no momento em que vai baixar a lâmina, uma mesa é liberada. A garçonete o chama. Ele deixa os dois lá no galpão, pendurados de ponta cabeça, mas com as barrigas intactas. No momento tinha a uma barriga muito mais importante para tratar.

 


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