Almoçava com seus colegas. Como sempre fazia. Ouvia as mesmas reclamações sobre o país. Como sempre ouvia. De tanto ficar quieto, chamou a atenção.
– Você não concorda, Eduardo?
O Eduardo não concordava. Mas não queria falar. Sabia onde a sua resposta ia dar. Ele depara com os olhares curiosos de todos em sua direção. As mãos segurando os copos e os talheres tudo em suspensão, como se alguém tivesse apertado um botão de pause naquela cena. Não havia por onde fugir.
– Não. Acho que o sistema de compensações com programas sociais é uma maneira correta de mitigar as diferenças sociais.
– Porra Edu, desde quando você virou bolivariano? – irrita-se um deles.
– Mas pensa, os Estados Unidos, creio eu que não seja um país que as pessoas classifiquem como bolivariano, usou sistema de cotas raciais, por exemplo.
– Não pode ser. Eu não to ouvindo isso – exalta-se um segundo colega. – Tu votou nela?
– Votei.
– Quer dizer que tu é contra o impietchment dessa mulher?
– Pra mim é golpe.
De novo todos suspendem o seus movimentos. Outro aperto no botão do pause. Só que agora, as expressões de curiosidade são substituídas por cenhos cerrados. Como dobermans que se deparam com algo que não gostam.
– Mas o que é que você está fazendo aqui então?
– Como assim? – Espanta-se Eduardo. – Eu estou almoçando com vocês.
– Mas tu não é esquerdinha? – Interpela um colega que até então estava quieto. – Por que não vai pra um quilo com o teu povão?
– Mas o que tem uma coisa a ver com a outra?
Nesse momento, Eduardo percebe que nas mesas vizinhas, as pessoas já o encaram com aquela mesma expressão de doberman. O clima exaltado da mesa havia transcendido os seus limites. A conversa entre amigos havia se transformado em pública. Dava pra ver uma mulher que o encarava, expressão transtornada. Ela movia os lábios cerrados. Pela leitura deles, dava pra entender claramente o que ela dizia: “esquerdinha caviar de merda.
– Ué, tu não quer igualdade? – Ele se volta sua atenção para os colegas na mesa outra vez. – Vai se tratar num hospital do SUS. Vai comprar uma Pitu em vez de Black Lable. Vai andar de ônibus lotado.
– Mas a lógica da igualdade não é eu piorar, é a maioria melhorar.
– Vai pra Cuba, comunista!
O grito do colega incendeia o restaurante. Ele é vaiado e achincalhado. E é obrigado a deixar o recinto ouvindo o coro inaugurado na sua própria mesa: “Vai pra Cuba! Vai pra Cuba!”
Ele paga o valet e, ainda zonzo com os acontecimentos, nem vê quando o seu carro estaciona em frente ao restaurante. Um dos manobristas vai até ele e avisa que o carro está a disposição. Ele se sente anestesiado. Dirige-se para o seu carro em passos automáticos, a boca semi aberta, a respiração difícil, o olhar fixo em nada especial. O eco das ofensas que ouviu ainda recentes na mente. Entra no carro e, enquanto coloca o cinto, ainda tem tempo de ouvir a conversa entre os manobristas perto do carro.
– Baita arrogante. Não me olhou no rosto, nem boa tarde foi capaz de me dar.
– Mas você quer o que? SUV branco, terno todo bonitinho. É, campeão. Mais um coxinha golpista, igual a todos que vivem nesse restaurante.
Ele fecha as janelas. E vai embora. Escorraçado pelos dois lados do maniqueísmo alheio.